Expectativa da
Banca de Redação
Tema A
O Tema A do Vestibular
Unicamp 2000 propõe aos candidatos o desafio de dissertar sobre
um assunto que parece à primeira vista muito simples, e que eles
podem ter encontrado, sob uma forma ou outra, em sua experiência
escolar prévia, já que se presta a um sem-número de
tratamentos distintos.
Considerada essa aparente
simplicidade, a maior dificuldade a superar é provavelmente a de
escapar de um tratamento banal. O principal recurso de que o candidato
dispõe consiste, como seria de esperar, em ler atentamente a coletânea,
para buscar um caminho próprio. Seguindo o hábito dos
anos anteriores, a coletânea não só levanta problemas
que poderiam ser debatidos enquanto tais; também mostra algumas
das dimensões em que novos assuntos poderiam ser buscados. Mais
do que nunca, vale nessa ocasião a possibilidade de tomar cada um
dos textos como representando uma série de questões que poderiam
ser evocadas e tratadas. Nesse sentido, ao mesmo tempo que verbalizam vários
possíveis sub-temas, os textos apontam para alguns recortes possíveis,
que deveriam contribuir para que o candidato tenha pleno controle sobre
um tema de outro modo vago.
1. O recorte mais evidente é o que poderíamos chamar
de espacial. Numa dimensão mais ampla, alguns textos lembram que
os grandes cursos de água estiveram associados ao nascimento de
todas as civilizações, e condicionaram seu desenvolvimento,
aumentando a fertilidade de sua agricultura, fornecendo energia barata
às suas indústrias e oferecendo caminhos naturais à
sua expansão. Numa dimensão espacial menos ampla, que tende
ao local e ao familiar (em diferentes sentidos dos termos), o poema de
Fernando Pessoa apresenta a convivência com o rio da aldeia como
um fator de identidade pessoal, e o texto de Alain Corbin associa a água,
como um fator de conforto, à vida diária, urbana. Nas duas
dimensões, os benefícios da água têm um avesso:
amplas regiões, marcadas por sua escassez, continuam à margem
do processo civilizatório; em muitas cidades pelo mundo afora, populações
têm acesso apenas nominal às condições de conforto
e higiene prometidos pela urbanização. Negativamente, pela
resistência que essas situações exigem, a água
continua funcionando como fator de identidade. Mas que identidade?
2. Vários textos lembram, por outro lado, que a relação
do homem com a água pode ser pensada numa perspectiva histórica.
Sob esse aspecto, é previsível que os candidatos se deixem
impressionar principalmente pelas permanências (por exemplo, a quem
vem descrita no breve texto sobre os rios Piracicaba e Tietê, em
que se mostra como a navegação de hoje percorre os mesmos
caminhos já trilhados pelos bandeirantes); mas é também
previsível que os candidatos venham a explorar os casos em que a
relação do homem com a água é apresentada como
mudança, mais particularmente, como um processo de aprendizado:
essa idéia está particularmente clara no texto de Corbin,
que, ao tratar da água como fator de higiene e saúde, mostra
que esse uso, que hoje parece normal e racional, resultou de um aprendizado
relativamente lento, e precisou impor-se como um valor contra uma série
de preconceitos vigentes no século XVIII. Que novos aprendizados
são necessários hoje para que possamos usufruir “racionalmente”
da água?
3. O tema “água, cultura e civilização”
define uma convivência potencialmente conflituosa de duas personagens,
uma das quais é a água, representante da natureza, e a outra
é o homem, representante da cultura e da civilização.
Sabemos que essa convivência tem se dado de maneiras mais e menos
sadias, e que à possibilidade de usar sem destruir (exemplificada
pelas ações que garantiram a navegabilidade dos rios Tietê
e Piracicaba) se opõem outros usos, caracterizados, como se diz
no texto de João Marcos Rainho, pelo desprezo, o desperdício
e a poluição. Na realidade, os candidatos poderiam lembrar
que todo uso da água por grupos humanos tem repercussões
sobre o ambiente. Uma questão a considerar seria, portanto, como
encontrar um ponto de equilíbrio entre o atendimento das necessidades
e os propósitos de preservação.
4. Outro bom caminho é reconsiderar “verdades” a que o
hábito nos tornou insensíveis, ou recuperar aspectos de uma
situação complexa que nos afetam pessoalmente. O cidadão
comum de classe média associa a água sobretudo à alimentação
e à higiene, como um bem de uso pessoal; além disso, tende
a pensar na água que consome, preocupando-se, por exemplo, com sua
pureza e com as interrupções de fornecimento. Dada a força
dessa perspectiva, para alguns candidatos poderá parecer surpreendente
que o texto de Beguin lembre a importância das águas servidas
e dos esgotos, e para outros poderá ser uma descoberta ler nesse
texto que o plano diretor das cidades de nosso tempo redesenha basicamente
o sistema de drenagem da área em que foram construídas. Nesse
texto, mostra-se também que o urbanista foi chamado a intervir num
momento histórico determinado, para resolver problemas que outro
especialista - o médico sanitarista - tinha detectado nas grandes
aglomerações urbanas. Basta que o candidato modifique um
ou outro elemento dessa história para “inventar” um plano de dissertação.
Ele pode, por exemplo, perguntar: de que maneira a água afeta hoje
o desenvolvimento das cidades? Que competências e interesses se mobilizam
hoje na planificação do uso dos recursos hídricos?
Essas competências trabalham de maneira complementar, ou de maneira
antagônica? Não esqueçamos que Beguin fala do modelo
urbano da Europa do século XIX. Tal como foi aplicado na construção
das grandes cidades brasileiras, esse modelo apresenta inúmeras
falhas (pense-se nas catástrofes que acontecem sempre nos mesmos
lugares nas épocas de chuvas): o modelo é inadequado ou foi
prejudicado por uma aplicação distorcida?
5. Antecipando, de certo modo, a coletânea, o enunciado
do tema diz quem são alguns de seus autores: filósofos, poetas,
técnicos, cientistas, políticos. Poderiam ser guerreiros,
líderes religiosos, artistas plásticos ou pessoas comuns.
Parece inevitável que essas atividades contribuam para definir diferentes
enfoques. De fato, pode-se ver nos vários textos que alguns tomam
a água como objeto de reflexão (como o texto de Nietzsche
sobre filosofia grega ou o poema de Fernando Pessoa), ao passo que outros
- a maioria - representam a água como objeto de uma ação
mais ou menos específica. O enunciado diz também que esses
enfoques se cruzam; dessa forma, sugere de maneira quase transparente que
uma reflexão não banal sobre o tema “água, cultura
e civilização” pode consistir em comparar as maneiras como
diferentes seres humanos interagiram com a água, mostrando que essas
diferentes experiências, ao mesmo tempo que constituem reações
à natureza, estão profundamente impregnadas de cultura (representada,
por exemplo, por deformações profissionais, hábitos,
técnicas e valores) e criam cultura.
Tradicionalmente, o Tema A do Vestibular
Unicamp tem proposto um enunciado e uma coletânea que definem um
tema, e tem cobrado dos candidatos que, dentro desse tema, reflitam e redijam
com liberdade, evitando recorrer a “esquemas” prontos. Esta proposta é
inteiramente coerente com essa orientação, entre outros motivos,
porque não se presta à aplicação de um “esquema
pronto” muito recomendado, que consiste em arrolar alguns argumentos contra
e alguns a favor de uma tese, e em buscar em seguida uma saída de
meio-termo. Aqui, o procedimento esperado é outro: entender que
os textos respondem a perguntas bastante diferentes, e imaginar como essas
respostas aparentemente “incomensuráveis” podem ser simultaneamente
válidas.
TEMA B
No Tema B do Vestibular Unicamp
2000, espera-se que, a partir de uma breve notícia de jornal, o
candidato produza uma narrativa, em terceira pessoa, construindo
necessariamente uma personagem - um detetive ou um repórter investigativo
- que, ao tentar resolver um crime ambiental, descobre uma conspiração
maior. O candidato pode introduzir outras personagens; isto depende da
natureza das ações que farão parte de sua narrativa.
Pede-se ainda que o candidato caracterize adequadamente tais personagens
e o ambiente em que a história se desenrola.
O final do texto de
jornal (ao qual se pede particular atenção) induz o candidato
a encaminhar-se para uma narrativa cujo eixo seja um crime ambiental/ecológico.
Espera-se, então, que o candidato desenvolva uma narrativa que privilegie
alguns aspectos: quem é o criminoso (ou quem são os
criminosos), por que comete(m) esse crime e qual é o plano
maior de que esse crime é parte.
As possibilidades para a
construção de personagem(ns) são muitas. O(s) criminoso(s)
poderia(m) ser, por exemplo, desafeto(s) político(s), alguém
ou algum grupo ligado a uma organização terrorista ou criminosa,
gente interessada em desvalorizar as terras banhadas pelo rio Atibaia,
um psicopata, etc. Obviamente, trata-se apenas de alguns exemplos
entre outros possíveis. Na caracterização do detetive/repórter
o candidato poderia atribuir-lhe uma característica peculiar. Por
exemplo, hábitos alimentares bastante característicos (comer
só enlatados – que podem ser populares ou sofisticados – ou ser
vegetariano, ou consumir álcool), fumar cachimbo – como Sherlock
Holmes –, ser aficcionado por filmes e/ou novelas policiais (pode ser fã
de um autor ou de algum seriado específico), defender o meio ambiente,
pertencer ao Greenpeace, residir na região afetada, etc. De novo,
trata-se de exemplos possíveis.
Também podem ser vários
os motivos do crime. Podem servir como exemplos: motivos psicológicos
– uma doença mental ou uma lembrança traumática; interesses
financeiros, políticos, vingança, disputa de poder ou de
terras. Na verdade, a motivação pode ser qualquer uma, desde
que seja coerente com a história contada.
O espaço em que se
desenrola a ação deve ser adequadamente caracterizado e,
como se trata de crime ambiental, espera-se que o candidato se refira ao
rio Atibaia e aos lugares citados na notícia, região pela
qual o rio passa.
TEMA C
As expectativas óbvias
são que o candidato siga as orientações contidas no
enunciado e que, ao fazer isso, considere os elementos fornecidos pela
coletânea. As orientações que ele deve seguir são:
a) que escreva a um parlamentar contrário à
criação da ANA;
b) que argumente a favor da criação da ANA;
c) que sugira pontos de um programa a ser cumprido pela
ANA.
A coletânea lhe fornece pelo
menos os seguintes elementos (ora são informações,
ora, posições relativas a algum tipo de controle da água),
a partir dos quais pode argumentar:
a) há discussões de âmbito mundial,
envolvendo governos nacionais e entidades supragovernamentais (como a ONU),
que favorecem formas de controle, efetuado através da cobrança,
alterando assim o estatuto da água (por exemplo, passa de produto
natural a commodity);
b) há um movimento, no Brasil, que envolve autoridades,
especialistas e “militantes”, que favorece a criação de uma
Agência Nacional que coordene a política do setor;
c) estão em curso (em fase de avaliação
e debate), estando para ser votados, projetos cujo objetivo é disciplinar
o consumo e controlar a qualidade da água e dos mananciais;
d) a votação de alguns projetos está
sendo retardada e eles são objeto de pressões;
e) os textos mencionam concretamente fatos e dados que
justificariam uma mudança na atual política em relação
ao consumo da água.
Além disso, nada impede
que o candidato leve em conta outros conhecimentos que eventualmente tenha
a respeito do tema, nem que se utilize de alguma forma de outras informações
úteis que aparecem na coletânea dos outros temas, e mesmo
nos enunciados das questões.
Em relação à posição
do parlamentar, espera-se que o candidato explicite que conhece (eventualmente,
que respeita) sua atual posição, mas que espera - com base
nos argumentos que exporá, ou, quem sabe, ameaçando mais
ou menos claramente dar seu voto a outro candidato em futuras votações
– convencê-lo a mudar. Esse apelo pode ser formulado de forma mais
ou menos sutil. Isso depende de que imagem o candidato constrói
do parlamentar (pode representá-lo como mais ou menos íntimo,
mais ou menos preocupado com a próxima eleição, mais
ou menos envolvido com questões ambientais, mais ou menos engajado
com as gerações futuras, mais ou menos preocupado com seu
sucesso popular, mais ou menos interessado em novos cargos, etc).
Em relação à
sugestão de um programa para a ANA – fundamental para quem
escolher este tema – o candidato poderá propor, entre outros, pontos
como os seguintes (que são apenas alguns exemplos):
a) cobranças de taxas maiores do que as atuais
– por exemplo, de empresas que consomem grande quantidade de água
ou de pessoas e empresas que desperdiçam água; pode sugerir
quotas mínimas para consumo, por categoria de consumidor, ou sugerir
preços progressivos, proporcionais ao consumo;
b) cobranças de novas taxas – por exemplo,
de quem não cria nenhum sistema de tratamento ou de quem polui;
c) redução de taxas – por exemplo,
para quem faz da água um uso mais inteligente (economiza, trata,
substitui por outro insumo, etc);
d) redução de impostos para quem –
empresa ou pessoa física – cria condições ambientais
para que a quantidade de água produzida não se reduza, ou
até aumente (reflorestamentos, por exemplo);
e) realização de campanhas de esclarecimento,
que conscientizem os usuários em relação à
gravidade do problema e sugiram formas de diminuir o consumo; as campanhas
poderão fornecer dados objetivos, seja sobre a quantidade de água
disponível, seja sobre os domínios nos quais o consumo tem
aumentado (irrigação, por exemplo), para que as campanhas
não sejam apenas punitivas.
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