A reprodução de todas as redações é fiel à escrita dos candidatos. 
   
ANA LUIZA GIBERTONI CRUZ
BEATRIZ FERNANDA VALES FRANCHITO
CAROLINA RAQUEL DUARTE MELLO JUSTO
EDUARDO BEARZOTI
FABIANA BIGATON TONIN
FERNANDA NOGUEIRA TORRES
GUILHERME DEI SANTI MANTOVANI
HENRIQUE MAGALHÃES SUGURI
JÚLIA SANTANA SCAVASSA
JULIANA HELENA COSTA SMETANA
LARISSA NADINE RYBKA
MÁRCIO JOSÉ CÉSAR SOUZA
PABLO ARANTES
RODOLFO EDUARDO SCACHETTI
RODOLFO ZUCCHERATO BOCATO
  
  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   ANA LUIZA GIBERTONI CRUZ   
Cidade: CAMPINAS-SP   
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA UNICAMP   
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR    

  

Água – elemento fundamental   

     Tamandaré, o equivalente indígena do Noé bíblico, poupou sua civilização da extinção salvando-a da tempestade que alagou o território em que vivia. A mitificação da água, elemento recorrente na mitologia indígena, decorre justamente da suma importância que essa substância pura tem para as tribos brasileiras. Quando, há quase quinhentos anos, os portugueses em terra tupiniquim aportaram, um dos aspectos que mais os impressionaram foi a limpeza característica de todos os índios: homens e mulheres tão limpos que não se intimidavam em mostrar suas “vergonhas”. Provavelmente, essa cena remeteu os lusitanos à sua própria “civilização moderna”, em que banhos diários eram simplesmente inimagináveis.   

     Na idade contemporânea, os hábitos concernentes à higiene pessoal pouco haviam evoluído. Apesar de já serem conhecidos os mecanismos de transpiração e a teoria infeccionista, que mostraram a necessidade de práticas de higiene constantes, muitos mitos que ligavam a água a aspectos fisiológicos, como a esterilidade feminina, ainda eram levados a sério, o que não permitiu que a água fosse utilizada em “larga escala”, como bem atesta o escritor Alain Corbin, estudioso da vida privada a partir da Revolução Francesa.   

     Muito antes que a civilização contemporânea fizesse asserções sobre a questão da água, ela já se configurava em elemento indispensável à formação da própria civilização urbana. A água foi condição “sine qua non” para o surgimento e estabelecimento de grupos humanos cujo legado é, até hoje, alvo de estudos: as civilizações mesopotâmica, egípcia e chinesa prosperaram devido ao uso inteligente de seus recursos hídricos. Sabendo irrigar e tornar produtivo o solo, foram capazes de se firmar como as primeiras grandes civilizações humanas.   

     Atualmente, no limiar do terceiro milênio, a água vem sendo o principal objeto de reflexão. Tudo porque o homem de hoje, que já incorporou as noções de limpeza como algo imprescindível para as relações interpessoais, foi capaz de conquistar o espaço, mas não soube – ou não foi conveniente que soubesse – como manter íntegro o elemento “matriz de todas as coisas”, segundo o filósofo Nietzsche. O desenvolvimento industrial, que transformou radicalmente a sociedade, não considerou a questão da água como prioritária para que, a longo prazo, pudesse usufruir de todas as benesses tecnológicas. As indústrias passaram a despejar seus dejetos tóxicos em rios. A urbanização não foi acompanhada pela instalação de eficientes redes de esgoto. Nem os produtos da evolução tecnológica deixam por menos: constantemente se vêem nos noticiários catastróficos acidentes ambientais causados pelo derramamento de óleo dos petroleiros.   

     As conseqüências de anos de descaso com a questão da água estão mais próximas do que se imagina, levando a humanidade a uma visão pessimista e obscura do futuro: derretimento da calota polar, causado pela emissão excessiva de gases que destroem a camada de ozônio, deixando o caminho livre para os raios infravermelhos; envenenamento de seres vivos com substâncias tóxicas nos mananciais, contaminados por dejetos tóxicos; chuva ácida, formada a partir de gases originários da queima de combustíveis fósseis; ou ainda, a mais cruel e, ao mesmo tempo, simples das conseqüências: a sede causada pelo fim da água potável.   

     A civilização humana evoluiu de forma descompassada e paradoxal: relegou, por muito tempo, a um segundo plano a substância responsável pela sua existência. O homem atual, obeso de tecnologia e informação, mas desnutrido de medidas que permitissem a manutenção de suas obras tenta, agora, com muita dificuldade e gastos altíssimos, reparar os erros que cometeu na relação ingrata que manteve com a água: obteve muito dela sem que a recíproca ocorresse.    

     O relacionamento ser humano–água deve voltar a ser permeado pelo sensacionismo típico de Alberto Caeiro, faceta bucólica do escritor português modernista Fernando Pessoa, o qual, já neste século, percebeu e registrou a água não como mero fator natural necessário para a sobrevivência, mas também como indispensável nas relações emotivas entre os homens e destes para com a natureza.   

     Os índios brasileiros sabem – ou, infelizmente, sabiam – o valor incalculável da água. Cabe-nos agora voltar à mentalidade da civilização que foi uma das constituintes do povo brasileiro, tratando-a como parceira para o desenvolvimento. E isso só será feito com a união da consciência social-ecológica e do crescimento tecnológico para despoluir e valorizar a água do planeta quase cinza, mas que ainda tem resquícios azuis.    

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
   
Nome:   BEATRIZ FERNANDA VALES FRANCHITO  
Cidade: RIO CLARO-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA UNICAMP  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

Cultura e sociedade  

     A importância da água tem sido notória ao longo da história da humanidade, possibilitando desde a fixação do homem à terra, às margens de rios e lagos, até o desenvolvimento de grandes civilizações, através do aproveitamento do grande potencial deste bem da natureza. A sociedade moderna, no entanto, tem se destacado pelo uso irracional dos recursos hídricos, celebrando o desperdício desbaratado de água potável, a poluição dos reservatórios naturais e a radical intervenção nos Ecossistemas aquáticos, de forma a arriscar não só o equilíbrio biológico do planeta, mas a própria natureza humana.  

     O progresso traz consigo uma cultura baseada no “utilitarismo”, no pragmatismo e na lucratividade, expondo interesses comerciais e industriais acima dos interesses coletivos, da defesa do meio ambiente e da sobrevivência das populações. O envenenamento de mananciais por substâncias tóxicas, o fenômeno da chuva ácida e os constantes derramamentos de petróleo em meio aos oceanos, infelizmente, ilustram tal situação. Não obstante, a Engenharia Moderna, remonta melhorias na qualidade de vida urbana, através da instalação de redes de esgoto, drenagem de água e obtenção de energia, viável por meio da utilização de Usinas Hidrelétricas, predominantes, em especial, no Brasil.  

     Vivemos, assim, um paradoxo criado pela incoerente ação do homem, predador e vítima dos efeitos de sua própria predação, destruidor dos recursos hídricos, e maior beneficiado pela abundância em água no planeta: a atividade pesqueira e os transportes marítimo e fluvial, possíveis graças à disponibilidade natural, importantíssimos ao desenvolvimento socioeconômico das nações, sofre com a intervenção, tantas vezes maléfica, do homem, que ora deposita dejetos industriais, ora promove assoreamentos.   

     Tomando por base os parâmetros da conjuntura atual, investimentos na preservação dos Ecossistemas tornam-se imprescindíveis. Ademais, a formação de uma contra-cultura baseada na utilização consciente da natureza, e, em especial, da água em suas diversas formas de armazenamento caracteriza-se como crucial, a fim de salva-guardar as gerações futuras de um eventual colapso no sistema de distribuição e utilização da água. Evitaremos, dessa forma, a monopolização de um bem inerente à todos, contribuindo, acima de tudo, para a perpetuação da espécie humana.   

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   CAROLINA RAQUEL DUARTE MELLO JUSTO   
Cidade: CAMPINAS-SP   
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS ECONÔMICAS (N)   
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE ESTABELECIMENTO PÚBLICO   

  

A água como problema social   

     Historicamente, a água tem recebido diversas representações, significações e valorações pelos povos no mundo. Há um ponto, contudo, em que não há divergência entre eles: a importância essencial da água para a sobrevivência humana.   

     Com base neste ponto, as muitas culturas atribuíram as mais variadas gradações de funções da água para a sociedade, desde as que valorizam seu caráter divino-mitológico, passando pelas que privilegiam seu papel essencialmente econômico para o desenvolvimento (como no caso da fertilidade do solo, necessária à agricultura, base das grandes civilizações antigas como Egito e Mesopotâmia) até aquelas que a enfatizam como símbolo da higiene, da limpeza e da “civilidade” – na Alemanha Nazista, os judeus eram comparados com ratos, eram tidos como sujos não pertencentes à civilização humana. Para diferenciar-se deles, a limpeza e a higiene foram colocadas como lema para os alemães. Até recentemente, neste país, ainda era costume a lavagem das ruas com desinfetantes e shampoos perfumados...   

     Percebe-se aqui, portanto, uma questão fundamental quando se fala em água: o seu aspecto social. O problema primordialmente  colocado sobre a água, nos dias atuais, e que aparece normalmente como “ambiental” é, antes, um problema social. A poluição dos mananciais e/ou a escassez de água são problemas socialmente construídos  e, logo, requerem uma solução do mesmo tipo.   

     No século XVIII, de acordo com a construção da cultura burguesa, a água, assim como a limpeza e a higiene de que é símbolo, passaram a ser valorizadas como elementos de distinção entre as classes superiores e as inferiores da sociedade. Nos dias de hoje, quando se observa que os índices de mortalidade infantil, derivados das más condições de saneamento básico, são bem maiores entre as populações faveladas do que os observados para as camadas mais altas da população, verifica-se que o “divisor das águas” entre elas permanece também pelo tipo de acesso à água: a exposição das camadas mais pobres à água suja, contaminada, não-tratada é um sinal das desigualdades sociais e deve ser combatida, inclusive, porque ela é fator de perpetuação das discriminações sociais, já que os pobres continuam  a ser vistos, por conta disso, como “incivilizados”. E nisso há o gérmen de uma cultura de intolerância.   

     Assim, a preservação e tratamento de mananciais é uma questão de caráter público e que como tal deve ser tratada. Requer, portanto, a construção de uma cultura que rompa com a visão puramente utilitarista sobre a água e com a de que a solução para os problemas que ela envolve sejam atributos de técnicos, engenheiros  e autoridades específicas. Sendo problemas sociais, todas as discussões sobre a água requerem um debate público para o seu equacionamento.   

     A solução conjunta para o “problema da água” é uma questão de integração cidadã. A água, como necessidade essencial à vida, é um direito universal, o qual cabe ao Estado garantir. Mas, na medida em que este tem falhado no desempenho de seus papéis, cabe à população organizada fazer valer os seus direitos na prática (e não apenas formalmente). E isto requer uma “publicização” e uma conscientização geral do problema da água na sociedade, para que esta se envolva como um todo neste problema e para que se tomem, de forma conjunta, decisões que visem à sua solução da melhor maneira possível. Uma solução que não se limite à satisfação de segmentos da sociedade.  

    


  
  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   EDUARDO BEARZOTI  
Cidade: LAVRAS-MG  
Candidato ao curso (1ª opção) de: ARTES CÊNICAS  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

Água, cultura e civilização  

     Desde o século dezenove, as ciências sociais têm afirmado que as condições materiais de sobrevivência e produção determinam ou direcionam os elementos culturais das civilizações. Embora originadas e envoltas pelo reducionismo materialista, tais idéias têm propiciado a melhor metodologia científica para a compreensão histórica. Essa relação de causa e efeito pode ser conveniente à ciência, mas a mesma realidade que motiva essas premissas reveste-se de outras roupagens ou é enfocada através de diferentes ângulos, por outras dimensões humanas, como a arte, a religião, a filosofia ou o engenho.  

     Essas manifestações sobre um terreno comum adquirem maior multiplicidade com a água, o recurso material tão vital quanto o ar, mas que, ao contrário deste, é um bem econômico por sua escassez: A ciência descreve sua importância biológica, mas também histórica, pois as primeiras grandes civilizações foram forjadas com o aparecimento do maior consumidor da água (até os dias de hoje) – a agricultura –, embasando-se às margens de grandes rios. Outras formas de predação humana, como o consumo pessoal e, mais recentemente, o uso industrial e o transporte hidroviário, afetam a cultura, na relação da água com a higiene, modificando definitivamente a vida privada e a socioeconomia, tão intensamente quanto mais a água se torna recurso afetado pela poluição, mais demandado e mais escasso. A imposição de um manejo racional do recurso tem levado à criação e ao desenvolvimento de uma engenharia e técnica com um grau de especificidade jamais  sonhadas em séculos anteriores.  

     Dependência e escassez, o amálgama comum da água, refletem-se na religião e na arte desde pela metáfora da purificação (o dilúvio bíblico foi a prática de higiene mais drástica) até as manifestações artísticas da relação do indivíduo com seu mundo próximo.  

     Os gregos reconheciam na natureza quatro elementos fundamentais, o ar, o  fogo, a terra e a água, mas era esta última a genitora última, e isto não pode ser ignorado, pois a ausência de elementos míticos reflete a elaboração de genuína reflexão metafísica. Este exemplo basta para ilustrar a riqueza da água como fonte de investigações filosóficas.  

     A malha profundamente ramificada que a água possui em tantas vertentes da natureza humana, a partir de uma mesma realidade, autoriza a especular se os monumentais desperdício, poluição e dizimação da água no presente século não é o reflexo mais cristalino da maior crise em abrangência e transformação da história humana.  

   


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   FABIANA BIGATON TONIN  
Cidade: PIRACICABA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: LETRAS LICENCIATURA (N)  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

O espelho d´água  

     Ao tentar apreender a origem do mundo e dos homens, filósofos gregos propuseram um enunciado simples: a água seria o cerne, literalmente a fonte de todas as coisas. Longe de ser absurdo e tomadas as devidas referências históricas, tal idéia pode metaforizar o papel simples, vital e cultural do elemento químico capaz de fazer florescer civilizações, ditar limites geográficos e protagonizar conflitos. Se, mitologicamente, a  associação da vida e da sobrevivência se fez de forma divina e fantasiosa, hoje é possível analisar essa que pode ser tida como “vulgar premonição” como premissa das mais sábias tida pelos primeiros humanos e de fundamental importância para o mundo moderno.  

     O planeta ironicamente chamado Terra tem a maior parte de sua superfície tomada pelas águas, as quais fluíram no decorrer dos tempos estreitando os laços biológicos cotidiana e initerruptamente, assinalando mais que divindades, problemas sociais e políticos bem pouco poéticos. A irrigação, a importância dos recursos hídricos para a economia humana foi se reforçando com o advento da tecnologia e, mais que metáfora, a composição da vida (e dos meios para esta) confirmou a compleição e a complexidade da ligação homem-água. Ao galgar gradativo do aprimoramento técnico que trouxe indústrias, não só a religião de outrora remetera ao elemento cristalino a manutenção da vida. Junto ao desenvolvimento urbano (ainda sem tocar no processo de desequilíbrio e poluição do meio ambiente), à instalação de indústrias e estabelecimento do homem em aglomerados primordiais, virão os médicos a desconfiar do papel importante da água limpa. A estes, seguir-se-ão engenheiros e arquitetos, responsáveis pela elaboração de mecanismos facilitadores da manutenção da limpeza, do escoamento de impurezas e dejetos.  

     Mesmo antes destes, no século XVIII, a preocupação com a purificação, com a higiene corporal marcará a vida privada de sociedades pouco habituadas à exigência de limpeza, de cuidados pessoais, atuando como precursora dos modernos métodos preventivos e profiláxicos. Será nesse  tempo que se iniciará o conhecimento mais apurado e científico em relação à umidade e sua nem tão misteriosa influência na salubridade dos meios de vida. Ora, a higiene é, pois, um pequeno, mas fundamental ponto nessa saga.  

     Simultâneo, talvez, a isso, seja o processo que acelera o desenvolvimento econômico e faz marcar o utilitarismo. Se antes, para o Egito e a Mesopotâmia, a água já era componente cultural e econômico primordial, agora, as modernas vias dos meios de produção vão transmutá-la em pomo de discórdia. A poluição vem margear o alarde da tecnologia e da economia lastreada na produção industrial. O desequilíbrio natural vai crescendo, paulatino, constante. E as chuvas ácidas, os rios poluídos ameaçam as sociedades  higiênicas, estabelecidas nas margens de seus ternos ribeirões. O que remetia à recordação suave da queda cristalina d´água dá lugar à preocupação não mais latente de que não seja o dilúvio a última catástrofe.  

     O mesmo ser que se constitui da água, que navega descobrindo mundos, escoando ou explorando riquezas, começa a buscar, sedento, uma tábua de salvação. Seu mundo e sua sobrevivência estão sobre colunas vitais que podem soçobrar a qualquer momento. Mais que uma problemática geográfica, instaura-se um conflito sócio-econômico em que se disputa não só as vias fluviais e pluviais, mas a própria água, que, dada a destruição, torna-se rara, preciosa. É o homem, semelhante ao místico que agradecia as cheias do Nilo, que se conscientiza aos poucos de que, talvez, mais do que sangue, lhe seja vital o elemento primordial, a água que encantou gregos, que fez Heráclito pensar que tudo fluía, mas que também arrasou a terra e fez Noé construir a arca. Bem como benção, ela é castigo se o “predador” assim pedir, mesmo quando gentil lhe faz poemas ou odes.  

 Elemento vivo, ela pulsa, reflete a existência e atenta para o fato de que talvez a tragédia final não seja abarcável por uma arca , tampouco plausível de filosofia.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   FERNANDA NOGUEIRA TORRES  
Cidade: RIO DE JANEIRO-RJ  
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA UNICAMP  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

Os piores surdos  

     Homem e água se confundem. Essa analogia inusitada vem retratar mais do que o aspecto físico que esta questão aborda, uma vez que até mesmo o próprio corpo humano é composto de três quartos de água. Não só por isso, mas pela própria concepção de pureza e poder, que fizeram com que esses dois elementos desenvolvessem histórias paralelas, numa dependência unilateral por parte do homem. É contraditório, porém, o fato de um recurso natural tão importante foi sendo degradado e desrespeitado.  

     Grandes civilizações nasceram no leito de rios. Na Antiga Mesopotâmia, os antigos Tigre e Eufrates foram palcos de disputas por grandes impérios. No Egito, as cheias do Nilo promoviam a fertilização dos solos e o homem aprendeu a fazer irrigação com ele. Posteriormente, a chegada das Grandes Navegações Européias trouxe o desenvolvimento acoplado à soberania naval, pelo poderio dos mares. É curioso pensar que a Inglaterra, que se tornaria a maior potência político-econômica da época é, justamente, uma ilha. Nota-se, assim, que houve uma forte ligação entre o progresso das nações e suas disponibilidades de água.  

     Exatamente por ser um elemento fundamental à vida, a posse desse bem significa poder. Vários conflitos mundiais já foram desencadeados pela dominação de territórios com fartura hídrica, como foi o caso das colinas de Golã, região árabe tomada por Israel. No Brasil, essa questão está diretamente ligada à Indústria da Seca nordestina, onde os grandes latifundiários, detentores de mananciais ou poços de água, manipulam a população mais carente, fornecendo um abastecimento temporário e esporádico nas secas mais áridas, em troca de apoio político.  

     Mais do que essa abordagem histórica de poder, é preciso que se pense na água como um símbolo de pureza que ela representa. Com a evolução humana, a própria  limpeza virou um valor. Passou a existir uma grande influência do físico sobre o moral, caracterizando uma sociedade que valoriza o limpo quase convulsivamente. Não somente pelo aspecto agradável de odores na comunidade, mas também pela sensação individual de bem-estar alcançada pela purificação corpórea de um banho.  

     É contraditório pensar, porém, em como esse recurso fundamental vem sendo tratado, com um desprezo quase cínico, por um passar de responsabilidades. Poluição atinge céu e mar: lá em cima, a chuva ácida; aqui em baixo, os putrefatos esgotos lançados sobre os lagos, rios e mares. Só a partir da última década, quando então o desenvolvimento sustentável se transformou em uma preocupação mundial, é que começou a haver uma maior preocupação com a preservação da água. Mas pouca coisa foi feita até agora. Após a ECO-92, e mesmo desde 1975, algumas leis sobre o aproveitamento racional dos recursos hídricos brasileiros foram aprovados no Congresso, mas sem uma paralela conscientização popular sobre o significado disto.  

     Preservar a água, pois, significa preservar o próprio homem. Há um pedido mortalmente silencioso que a Natureza está fazendo a ele. Quando as águas do Arpoador invadem as avenidas, enchentes assolam São Paulo e tantos outros países, e quando a neve mata tanta gente de frio, existe aí um sinal de que um desequilíbrio está acontecendo. Se a água e o homem se confundem, então a poluição daquela representa a sujeira existencial deste; o desprezo por ela é o descaso com o próximo. É preciso que a humanidade não seja mais surda ao que clama o mundo que a criou, sem o qual ela não é nada. Limpar e preservar a água é fazer o mesmo com o próprio ser humano.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   GUILHERME DEI SANTI MANTOVANI  
Cidade: AMERICANA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: EDUCAÇÃO ARTÍSTICA  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PÚBLICO  

  

Hipocrisia sistêmica  

     É por demais comum ver-se o escândalo que desperta uma mulher grávida quando, por razões quaisquer, se envenena de qualquer maneira – sobretudo pela ingestão de narcóticos – e, por conseqüência, a seu filho. Sua sanidade é facilmente questionada então, pois seu comportamento é indicativo de grave perturbação (ou anomalia) sistêmica.  

     Desde a Revolução Industrial (1760), contudo, toda a humanidade tem canalizado sua energia para, de maneira cada vez mais totalitária e eficiente (“produtiva”), desempenhar o papel dessa mãe infanticida.  

     A livre subjugação do homem às determinações econômicas, sua submissão ao imperativo econômico de valorização tautológica do dinheiro  como fim em si mesmo acarretam o emprego da gama de recursos limitados da natureza de forma “eficiente” e “produtiva”; obviamente, eficiência e produtividade estão só reconhecíveis pelos critérios da economia totalitária. É somente assim, por exemplo, que são justificadas a exploração de recursos minerais em dada área até centenas de metros abaixo da superfície, independentemente de sua insalubridade ao homem, ou, muito menos, de seu impacto sobre o ecossistema e/ou mananciais d’água. Sob a mesma óptica da eficiência é que se justifica, também, o deslocamento médio sofrido por um frango até seu consumo, que, nos EUA, é de aproximadamente três mil quilômetros.  

     Está claro que a utilização racional (racionalismo este humano, não econômico) dos escassos recursos naturais não é, nunca foi e jamais será um imperativo capitalista, e isso por sua própria natureza: se incorporada (o fator humano em detrimento do econômico) ao sistema reprodutor da forma mercadoria, este findará, pois sua lógica é a de maior produção com menor gasto (econômico, o que não implica economia de recursos), e seu horizonte limita-se ao presente (não lhe interessam, pois, suas conseqüências futuras, uma vez que sua realização só ocorre se cingir o futuro ao presente – e aquele é, assim, consumido neste).  

     Adjetivar as pseudotentativas de conservação (agora?!) de recursos naturais, e sobretudo da água, de hipocrisia é ser benevolente com a plutocracia capitalista planetária.  

     De fato, o crescente relevo que tal tema tem ganho é apenas indicativo de que a contaminação da água potável ( e também dos oceanos, mas esse é outro problema) tornou-se insuportável. Não para o homem, porque para este tal limite já foi há muito extrapolado; insuportável para a própria produção de mercadorias como fim em si mesmo, cujos gastos para o tratamento e/ou obtenção de água tornaram-se gigantescos.  

     Ainda assim, os ideólogos autolegitimadores do capital não vêem a iminente catástrofe como conseqüência de sua forma de reprodução social (se não tivessem perdido por completo essa noção), que deve ser superada (a conseqüência) pela crítica, mas como algo inevitável, fato perante o qual a humanidade nada pode fazer a não ser se resignar e aceitar passivamente. Basta-lhes “estimar” o prazo que ainda haverá água, num futuro um tanto distante, sempre acenando, assim, com a permissão para que não se modifique em nada o caráter suicida de seu regime.  

     Certamente sem paralelo na História, é difícil imaginar sinal mais inequívoco da esquizofrenia de nossa sociedade, que vê o iminente colapso de sua modernização e ainda assim mantém os olhos vidrados nos rendimentos. Talvez o único consolo possível seja saber que independentemente de seu poder e riqueza, a plutocracia capitalista, no ocaso de seu império, estará tão comprometida quanto o restante, resto miserável e indesejável da humanidade, com a diferença de que sorvirá de garrafas folheadas a ouro os últimos litros de ar puro e água potável.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   HENRIQUE MAGALHÃES SUGURI  
Cidade: SÃO PAULO-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA UNICAMP  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

A dessacralização da água e os problemas modernos  

     No ideário judaico, água é símbolo e agente de purificação e ressurreição. Na filosofia grega antiga, várias são as vezes em que a água é tida como um dos princípios primordiais da matéria, tal como o fogo, o ar e a terra. Para os poetas, a água pode ser fonte de inspiração, reflexo de pureza ou elemento que nos lembra todos os dias da passagem inexorável do tempo. Para a sociedade moderna pragmática, no entanto, a água é mais do que nunca uma mera questão de sobrevivência da vida prática, tendo perdido qualquer simbologia mais expressiva que lhe reflita o valor que tem para vida humana.  

     De fato, a água não escapou  da dessacralização generalizada porque passou a natureza conforme as ciências naturais foram-lhe desvendando os mistérios. De fato, a onda racionalista, que remonta ao renascimento, foi transformando a própria essência da natureza ao tornar-lhe perfeitamente compreensível, ao descobrir-lhes as causas e os mecanismos de funcionamento – dessa forma, a água caiu no domínio do prosaico, destituída de sua vestimenta admirada, temida e louvável, tornando-se, enfim, simplesmente água.  

     As implicações de tais dessacralização são, por sua vez, inúmeras e pungentes – não mais sagrada, a água é poluída, desperdiçada e menosprezada, fatos que, a longo prazo, podem traser problemas para a humanidade como um todo. Um contraponto importante para o que se observa hoje é a relação de respeito que várias tribos indígenas dedicam ou dedicaram aos rios e lagos, considerados divindades como a lua e o sol.  

     Com efeito, verifica-se hoje um descompasso entre a importância que a água encena e o valor que ela tem para a sociedade. Indiscutivelmente, a água é essencial para a higiene, para o funcionamento adequado do organismo, bem como para a existência de todos os seres vivos da Terra. Além disso, vale lembrar que a água é um recurso relativamente limitado que precisa ser constantemente reciclado e aproveitado, principalmente em meio a uma população em constante crescimento.  

     Vive-se, dessa forma, diante de um paradoxo delicado e crucial – a perda da simbologia que a água um dia teve (e que desde cedo lhe garantiu o respeito e o uso minucioso) aliado a uma necessidade cada vez mais crítica de usar nossos recursos hídricos de forma sensata e duradoura. E verdade que a água não pode mais voltar a vestir-se de uma roupagem sagrada, mas é também verdade que não preserva-la é colocar em xeque nossa própria sobrevivência enquanto sociedade.  

     Se a água, portanto, pertence ao domínio do prosaico, as soluções também estão presentes na vida cotidiana; na conscientização e, acima de tudo, no bom senso, Porque, de fato, a água sintetiza todo um conjunto de relações que acabamos por estabelecer entre nós mesmos e a natureza. Ela é uma evidência clara do egoísmo e desrespeito endêmicos que marcam a sociedade moderna pragmática – reflete também uma nociva falta de perspectiva em relação ao futuro, um imediatismo preocupante que pode custar muito às gerações futuras. A água, por ser prosares é apenas um dos problemas; a essência metafísica do problema da humanidade é bem mais profunda e resume-se na palavra “respeito”.  

     Talvez assim a expressão de Nietzsche tenha um novo sentido – “tudo é um” – o que se reflete na água permeia todas as questões humanas atuais. Resolver o problema da água é, portanto, mais do que uma questão de sobrevivência física, é parte necessária e imprescindível de nossa evolução enquanto humanidade.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   JÚLIA SANTANA SCAVASSA  
Cidade: AMERICANA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: LETRAS LICENCIATURA E BACH. (D)  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

     Ao pensarmos na origem da vida humana, é impossível desligarmos nossa análise da função essencial que a água exerce. A formação do embrião e seu abrigo no corpo da mãe  são completamente vinculados à água. Meio de transporte, elemento químico predominante na composição de quase toda a matéria viva ou de que depende a vida, fonte de nutrição das células, a água acumula inúmeras funções essenciais à existência do homem.  

     A própria evolução da vida no planeta teve início nos mares e nas chuvas. O planeta em si é, em sua maior parte, coberto por mares. Deste modo, é fácil entender a proposição dos filósofos gregos de que a água seria a origem de tudo. “Tudo” seria a vida (já que sem a vida não existe a noção de “tudo”) e, com certeza, sem a água, não existe a vida. É um pensamento óbvio, mas do qual a nossa sociedade está afastada.  

     A civilização do “animal homem” provocou seu distanciamento do natural, do primordialmente orgânico. À medida que o homem se desanimalizou, passou a (des) valorizar de modo diferente a água. Nas civilizações primitivas nascidas à beira dos rios (egípicios e mesopotâmicos, por exemplo), a água era entendida como um elemento divino, sagrado, místico, purificador. Estes povos submetiam-se à força e importância naturais das águas que lhes traziam a fertilidade, a possibilidade da vida.  

     Em contraposição com o passado, a sociedade atual tenta estabelecer uma relação quase oposta com a água. Queremos dominá-la, não mais ser dominados por ela (ou, ao que parece, por qualquer outro elemento natural). Prevemos para um futuro próximo a escassez da água potável. As águas doces e salgadas estão poluídas, transformadas – em maior ou menor intensidade – em esgoto doméstico e industrial. Através da poluição do ar, as chuvas tornam-se ácidas e o efeito estufa provoca o derretimento das calotas polares. Isto traz conseqüências catastróficas que não podemos ignorar. Porém, a sociedade capitalista está fundamentada na obtenção do lucro: a água é um poderoso meio de transporte, viabilizador do desenvolvimento industrial e comercial das nações. A construção de hidrovias e portos transforma-se em indicador econômico e estímulo às grandes empresas. O planejamento dos esgotos é caro. A despoluição e a não-poluição das águas são caras, diminuem o módulo de lucro. (E a saúde, a higiene social, o equilíbrio dos ecossistemas? E a vida? Não nos será cara?)  

     Não apenas o semideus Narciso, mas também o Homem, deve ter visto seu reflexo pela primeira vez ao observar sua imagem na água. E, no entanto, este espelho, embora “primitivo”, continua a ser eficiente.  

     Ao analisarmos como o homem cuida das águas de sua Terra, enxergamos claramente o modo como sua civilização está construída, quais são os seus valores  e as bases de sua cultura. Uma sociedade que destrói sua fonte de vida, destrói sua própria vida, acha-se poderosa o suficiente para não respeitar a Natureza de onde proveio. Porém, a humanidade evolui tecnológica e cientificamente o bastante para poder ser racional. Quem sabe não nos lembremos das propriedades purificadoras da água? Quem sabe não possamos novamente fertilizar as águas, trazer de volta narcisos e vitórias-régias à tona?  

 


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   JULIANA HELENA COSTA SMETANA  
Cidade: BRAGANÇA PAULISTA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS BIOLÓGICAS (D)  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

     Desde o início da civilização, o homem tem consciência de quanto ele depende da água para viver. Essa consciência, no entanto, nem sempre foi qualitativa – não se sabia exatamente por que a água era tão imprescindível. Havia apenas uma necessidade orgânica de bebê-la, de se banhar nela e de erguer as cidades perto dela, e essa importância inexplicável da água contribuiu para que ela adquirisse uma conotação divina para os povos da Antiguidade.  

     Entretanto, ao longo do tempo, o desenvolvimento da ciência trouxe a desmistificação da água. A medicina deu um grande passo ao relacionar doenças à falta de higiene e saneamento; e, no início do século XIX, a construção das cidades já levava em conta esse conhecimento para organizar sistemas de esgoto e coleta de lixo e, assim, melhorar as condições de saúde da população. Desse modo, a importância da água saía do campo religioso para ingressar no domínio da ciência.  

     Se, por um lado, os novos conhecimentos a respeito da água melhoraram as condições de vida das pessoas e provocaram uma revolução nos hábitos de higiene, por outro, fizeram cair por terra o respeito mítico que se tinha por ela na Antiguidade. Hoje, a água é vista como um mero recurso natural disponível para suprir as necessidades humanas. Essa visão materialista muitas vezes incentiva atitudes predatórias e despreocupação com o futuro: as reservas de água são destruídas diretamente – pela poluição, ou indiretamente, com a devastação do meio ambiente.  

     Este é um dos grandes paradoxos da humanidade: o conhecimento sobre o funcionamento da natureza dissipa o medo antes existente e abre caminho para a depredação e a negligência. Nas civilizações da Antiguidade, a água era respeitada por seu poder de criação e de destruição. Hoje, o conhecimento de que a vida surgiu na água e a ameaça do derretimento das calotas polares não são suficientes para provocar o respeito que as crendices provocavam no passado. Os mesmos rios Tigre e Eufrates a que se atribui a lenda do dilúvio são hoje motivo de disputas entre os países que os cercam, mostrando um sintoma da escassez de água que se aproxima. A visão que se tem da água pode mudar, mas sua importância será sempre a mesma. É dessa consciência que depende a sobrevivência da humanidade do século XXI.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   LARISSA NADINE RYBKA  
Cidade: VALINHOS-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: MEDICINA UNICAMP  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

A exploração refletida na água  

     Dos quatro elementos essenciais (água, terra, fogo e ar), formadores de toda a matéria no mundo, segundo um mito antigo, a água é certamente o que mais suscitou reflexões nas mentes de filósofos, poetas e cientistas e mesmo no homem comum, adepto de pensamentos metafísicos ou dotado de consciência social.  

     À água, em sua longa existência, já foram atribuídas as mais diversas imagens, concepções e funções socioeconômicas. As primeiras grandes civilizações tiveram seus berços às margens de rios considerados sagrados ainda hoje por algumas comunidades. A construção de sistemas de irrigação de complexidade admirável para a época refletem a percepção precoce desses povos em relação à possibilidade de progresso, de desenvolvimento de atividades econômicas e de melhora nas condições de vida que a água pode oferecer. Assim, surgiram íntimas ligações religiosas com a água e mitos, como seu caráter divino, sua capacidade de purificação da alma humana e sua existência como ponto de partida para a constituição de tudo que há no universo.  

     Hoje, consideram-se tais pensamentos absurdos, típicos de povos primitivos e atrasados intelectualmente. A expansão e consolidação do sistema capitalista transformou objetos, sentimentos, idéias e até seres humanos em mercadorias; tudo é vendável e tem exatamente o valor de sua possibilidade de conversão em dinheiro. Tudo que leva à multiplicação do capital é lícito – esta é a única lei realmente válida para o Neoliberalismo. A água não escapou a esse processo cruel, sendo encarada pela civilização moderna como mero instrumento com importante participação nas forças produtivas e como objeto de consumo capaz de proporcionar o bem-estar aos que a ela têm acesso. O fato de ser essencial à vida só é realmente percebido e valorizado pela parcela da população marginalizada, excluída de qualquer participação socioeconômica neste mundo globalizado. Estes, sim, sentem diariamente as catastróficas conseqüências da escassez e poluição da água: a privação do consumo (causando desidratação e, freqüentemente, a morte de crianças), as doenças adquiridas pelo consumo de água contaminada, a falta de higiene, entre tantas outras situações no mínimo incômodas, que a elite desconhece. Esta, única fração da população em condições de impedir maiores tragédias desencadeadas pela escassez e contaminação dos recursos hídricos, uma vez que ocupa as posições que permitem transformações estruturais  sobre a política, a sociedade e a economia de um país, parece pouco disposta a “desperdiçar” seu capital e seu tempo nesta questão. Obviamente, medidas de prevenção como a drenagem, a melhoria do sistema de esgotos e a adoção de um sistema mais eficaz de coleta de lixo exigem significativo investimento financeiro, muita vontade política e organização e planejamento razoáveis, ou seja, tudo de que, há tempos, a nata política e econômica mundial carece.   

     Há de se admitir que houve uma ligeira transformação na mentalidade dos responsáveis pela articulação de meios de superação deste fantasma que paira sobre a humanidade. Após insistentes e desesperados alertas de cientistas e ambientalistas sobre o futuro que nos aguarda caso não mudemos imediatamente a perspectiva exploratória sob a qual enxergamos a água, notou-se uma certa mobilização global, com a divulgação de campanhas de conscientização social, a criação de programas de tratamento intensivo da água, o crescente investimento em pesquisa voltada à descontaminação da água com aplicação tecnológica e a adição de leis ambientais mais rígidas, acompanhadas de fiscalização, às constituições em geral.  

     Seriam atitudes merecedoras de sinceros aplausos, não refletissem a abominável mentalidade da elite capitalista mundial. “Triste época a nossa”, em que é preciso que a ínfima parcela da população formadora do ápice da achatada pirâmide social mundial sinta-se ameaçada para que uma realidade que há tempos flagela grande parte da humanidade seja modificada.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   MÁRCIO JOSÉ CÉSAR SOUZA  
Cidade: CAMPINAS-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS ECONÔMICAS (N)  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PÚBLICO  

  

Água, cultura e civilização  

     Através dos séculos a água tem sido um elemento essencial  à humanidade, e isso não se deve apenas ao fato óbvio de que ela é necessária para a continuação da vida. A relação que nós, humanos, mantemos com a água é permeada por interesses políticas, costumes e usos que a fazem parecer-se com romances de amor e ódio, como tem sido, aliás, toda a nossa interação com o ambiente que nos cerca. E, dada a “intensidade” deste relacionamento, isto é, pela velocidade com que avançamos e progredimos e criamos mais demanda por água, cabe uma reflexão sobre a exploração da mesma pelo ser humano, numa tentativa de vislumbre do que nos espera adiante. Vejamos.  

     Pode-se dizer que a percepção humana do valor da água sofreu duas alterações significativas durante esses séculos de história. A primeira delas com o Renascimento Cultural e posterior Revolução Industrial, quando a água passou a ser vista como fonte de energia e fator sanitário. Isto porque a água era usada mais como fator civilizatório, ou seja, os rios davam à luz e viam florescer as grandes concentrações humanas, as culturas que prosperaram e se perpetuaram no tempo. Essa proximidade garantia a irrigação, o alimento, agricultura, rebanhos, etc. Por ser tão valiosa, um tesouro mesmo, foi sacralizada,  cantada em versos, poetizada, idolatrada. Mas era só.  

     Foi o europeu da Renascença quem deu os primeiros passos na compreensão de que a água era essencial também à boa saúde, de que podia ser ela um multiplicador de doenças e males e, portanto, era preciso mais que viver perto dela. Era preciso tratá-la, manter suas fontes, escoá-la de forma segura. Logo em seguida, ao se dar conta  da energia contida na água, os governos passaram a disputá-la, defendê-la, traçar  seus limites, buscar tecnologias capazes de transformar, de modo ótimo, sua força. De tema filosófico, religioso e traditivo, a água se fez objeto da ciência e da política.  

     Porém, foi o século XX que tornou dramática a visão das águas. Superpolução, poluição, concentração de riqueza são alguns aspectos recorrentes quando se fala da possibilidade, antes impensável, de nos faltar água. A ponto de já ser perfeitamente possível (e indesejável) um novo conflito no Oriente Médio, tendo, como palco das batalhas dos santos de Jeová e Alá, um pequeno mar de águas a ser maculado por sangue humano, em mais uma metáfora de nosso descaso para com o ambiente, a natureza.  

     É bastante significativo que estejamos assistindo à confluência das culturas e civilizações, capitaneados pelo ocidentalismo econômico, político e social, e nos sintamos tão distantes da “confluência das águas”, do acordo universal para a manutenção das reservas hídricas, pelo uso sensato de seu potencial energético e pela recuperação daquelas porções já tão estupidamente mortificadas por nosso descaso. Sob pena de, um dia, nos vermos frente ao dilema: beber esta água ou dela tirar o hidrogênio que vai nos mover. Um esforço global nesse sentido pode indicar soluções melhores quando estivermos usufruindo da boa água, e aí, quem sabe, ela volte a fazer parte de nossas despreocupadas divagações e devaneios poéticos, da liturgia da vida.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   PABLO ARANTES   
Cidade: BRASÍLIA-DF   
Candidato ao curso (1ª opção) de: LINGÜÍSTICA BACH. (D)   
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PÚBLICO   

   

     Nos umbrais do segundo milênio, numa época em que o homem cultiva soberbamente a convicção de que domina a natureza, eis que ele é obrigado a parar para pensar sobre o mais vultuoso dos recursos que o planeta lhe oferece: a água. Repetindo a pergunta de Nietzsche, “será mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério?”. A resposta é um urgente sim. Ainda lembrando o filósofo alemão, parece que o homem mais uma vez vê-se enredado no ciclo do eterno retorno – a despeito de toda ciência e tecnologia, as questões mais básicas sempre voltam à baila exigindo novas respostas para velhas questões.   

     Segundo a ciência, as primeiras formas de vida gestaram-se na água e dela espalharam-se por todo o planeta, e não há forma de vida que não dependa dela para sobreviver. É por este papel preponderante na cadeia da vida que muitos pensadores enxergam a água como uma metáfora para o começo de tudo, o elemento primordial e gerador da vida. A História confirma o papel vital da água, uma vez que mostra que as comunidades floresceram onde havia água. Prova disto é que as mais antigas civilizações do mundo originaram-se ao longo de regiões drenadas por grandes rios, como no caso dos egípcios e dos mesopotâmios. Eram os rios que garantiam as colheitas e a criação de rebanhos. Ao ritmo dos ciclos naturais estas civilizações regulavam a sua existência. A relação de dependência em relação aos rios infundiu nestes povos um profundo respeito e até mesmo a veneração da água.   

     A convivência baseada no equilíbrio entre o homem e as forças naturais foi profundamente modificada quando o modo de produção capitalista afirmou-se e colocou em marcha o implacável processo de modernização. Muito embora este processo apresente diversas fases de desenvolvimento, seu princípio reside na desnaturalização da natureza, transformando-a numa representação abstrata. Desse modo, a natureza passou a ser vista como algo a ser dominado para satisfazer a sede insaciável do homem por progresso. Daí que a água, componente crucial do mundo natural, passou a ser apropriada pelo mundo da produção como mais um insumo nas grandes cadeias de consumo industrial. Passou também a ser o receptáculo do lixo da sociedade de consumo, tendo como resultado o quadro de poluição e degradação de um número crescente de rios.   

     O homem moderno esqueceu-se do papel da água como substrato da vida. A natureza encarrega-se de relembrar este princípio ao homem. Se por um lado a poluição dos principais mananciais e a utilização dissipativa estão conduzindo à escassez da água, por outro, o aquecimento global pode causar o derretimento das calotas polares e o conseqüente aumento do nível do mar, fatal para um número razoável de cidades litorâneas. Seja pela falta ou pelo excesso, a água configura-se como um fator-chave no destino do homem. Resta a ele interpretar corretamente os sinais de esgotamento que a natureza emite e reavaliar sua conduta. É preciso um contato mais próximo com as forças vitais do planeta para o redirecionamento da atitude do homem frente ao planeta: de um presente de agressão e desrespeito rumo a um futuro de compreensão profunda e respeito. Para tanto, uma das possibilidades é aquela esboçada pelo físico Ilya Pregogine, que propõe uma “escuta poética” da natureza que restaure a harmonia perdida entre o homem e seu substrato natural.  

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   RODOLFO EDUARDO SCACHETTI  
Cidade: INDAIATUBA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: CIÊNCIAS ECONÔMICAS (N)  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

   

     Não resta a menor dúvida de que a relação do ser humano com a água é um dado predominantemente cultural. É possível que existam interferências de origem “biológica” nessa interação homem-água, porém a história da civilizações demonstra que a água é submetida às escolhas de cada sociedade humana com todas suas especificidades.   

     Mas se a água passou, seja no âmbito público ou privado (quando se distinguiam), por diferentes formas de utilização ao longo da história, o que se pode ver atualmente é um processo de convergência, o qual submete a maioria das relações que estabelecemos com esse elemento vital da natureza. Essa convergência se dá com o utilitarismo que será explicitado adiante, assim como o crescimento de uma “corrente” oposta que tem, felizmente, empregado forças na utilização racional dos recursos hídricos.  

     De início, é válido destacar que o utilitarismo como postura dominante tem origem com o “advento” da civilização ocidental moderna. A ciência e a técnica, assim como a carga religiosa cristã-católica e sua visão da posição do homem frente à natureza, contribuíram para a utilização indiscriminada dos recursos naturais, absolutamente necessários para “alimentar” os paradigmas de crescimento econômico da indústria que nascia, que foram, metaforicamente, suas “caldeiras”.  

     Portanto, nos séculos XVIII e XIX, o homem europeu utilizou-se da água enquanto via crescer seu “racionalismo” econômico. O problema começa quando esse “racionalismo” econômico e a própria civilização ocidental moderna, em suas múltiplas esferas, “universaliza-se”, tornando a utilização da água algo submetido ao utilitarismo gerado.  

     A convergência citada inicialmente é, portanto, resultado desse processo de “universalização” daquilo que é ocidental, tema esse recorrente na obra do sociólogo alemão Max Weber.  

     Portanto, se a água passou a ser um elemento simplesmente para a utilização indiscriminada em proporções globais, é óbvio que os problemas e as preocupações cresceram.  

     É nesse quadro que surgem movimentos em defesa das grandes questões ambientais, sobretudo na Europa. Talvez sejam eles também marcos desse novo processo que nos leva à pós-modernidade ou “sociedade pós-industrial”, mas o que deve ficar claro é que estamos ainda, sobretudo no Brasil, utilizando a água da mesma forma que as gerações anteriores, quando da criação das indústrias, ainda que tenhamos tido melhorias.  

     Por tudo isso, a luta para ingressar na pós-modernidade se impõe em todo o globo, ainda mais nesse momento histórico de transformação muito complexa, no qual o moderno prevalece, o pós-moderno aparece e a utilização irracional da água gera um paradoxo terrível frente ao racionalismo econômico.   

    


  
   
  Redação acima da média – Tema A / Vestibular Unicamp 2000
    
Nome:   RODOLFO ZUCCHERATO BOCATO  
Cidade: MONTE AZUL PAULISTA-SP  
Candidato ao curso (1ª opção) de: ENGENHARIA MECÂNICA  
Tipo Estabelecimento - Ensino Médio: SOMENTE EM ESTABELECIMENTO PARTICULAR  

  

   

Utilização racional garantirá nossa sobrevivência  

     Fator fundamental na constituição das primeiras civilizações orientais, à medida em que pode ser considerada como dádiva que possibilitou o desenvolvimento das práticas agrícolas e a sobrevivência do homem, a água é o fator biológico que mais preocupa a sociedade moderna, que assiste à ameaça de restrição de sua disponibilidade e volta sua atenção para a necessidade de se criarem medidas que possam prevenir a desidratação do planeta.  

     O incremento das atividades industriais e a aceleração dos processos de urbanização  ocorridos nos últimos três séculos apontam para a gradativa diminuição da quantidade de água potável existente sob a forma de mananciais, lençóis freáticos e rios de água doce, uma vez que estas intervenções antrópicas, manejadas por interesses expansionistas econômicos, raramente respeitam o limite de resistência desses ambientes, transformando-os em ecossistemas desequilibrados.  

     É óbvio que podem ser encontrados diversos aspectos positivos na relação entre a água e as atividades humanas, já que o homem aprendeu a utilizá-la como meio de transporte e integração e, por ser um animal essencialmente hídrico, tenha desenvolvido-se culturalmente tendo-a diversas vezes como parte inerente à vida. No entanto, é inegável que a sociedade caminha para transformar a água em um fator de exclusão social, usando-a como critério de distinção entre a elite e os setores sociais carentes.  

     Aliás, se generalizarmos o problema da escassez da água para o Espaço Mundial, podemos perceber que há países desenvolvidos que, dentro de algumas décadas, podem estar muito perto de sofrer as conseqüências da má utilização da água de que dispõem. E, se lembramos que muitas dessas nações são potências bélico-nucleares, não seria exagero imaginarmos  que a água pode ser um fator gerador de futuras disputas militares entre alguns países do globo.  

     Em certos momentos, para analisarmos o problema do planeta com respeito à água, podemos recorrer a uma idéia que nos remete a uma imensa contradição: é difícil acreditar que o homem do final do século vinte, por trás de seus revestimentos cibernéticos e progressos científicos, seja incapaz de se livrar da sujeira que produz sem colocar em risco as reservas de seu bem natural mais valioso. Pois esta é a nossa preocupante realidade.  

     Na prática , nossa civilização só reverterá essa situação se reconhecer sua forma errada de pensar e se auto-reconstruir culturalmente . Isso significa, governamentalmente  falando, que devemos parar de admitir que grandes grupos empresariais e as atividades econômicas em geral desenvolvam seus projetos sem planejamentos sérios a respeito dos possíveis riscos para os recursos hídricos. E, individualmente falando, cada habitante da Terra deve tentar exorcizar de si mesmo a cultura do desperdício cotidiano.  

     Assim, daremos passos definitivos no sentido de preservar nossa espécie e as demais que nos cercam e compõem conosco a biosfera. E o homem poderá, então, provar a si mesmo que, utilizando a razão, pode ser bem sucedido em suas relações com o meio ambiente.