Ao longo da história, por muitas razões, a água -
este elemento aparentemente comum – tem levado filósofos, poetas,
cientistas, técnicos, políticos, etc, a reflexões
que freqüentemente se cruzam.
Tendo em mente este cruzamento de
reflexões e considerando a coletânea abaixo, escreva uma dissertação
sobre o tema
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Água, cultura e
civilização
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1. Misteriosa, santificada,
purificadora, essencial. Através dos tempos, a água foi perdendo
o caráter divino ressaltado na mitologia e na religiosidade dos
povos primitivos e assumindo uma face utilitarista na civilização
moderna. Cada vez mais desprezada, desperdiçada e poluída,
atingiu um nível perigoso para a saúde pública. Divina
ou profana, ninguém nega sua importância para a sobrevivência
do homem, seu maior predador. Como se ensaiasse um suicídio, a humanidade
está matando e extinguindo o elemento responsável pelo fim
do mundo da tradição bíblica. E não haverá
arca de Noé capaz de salvar aqueles que lutam ou se omitem na defesa
do meio ambiente. Escolha a catástrofe: novo dilúvio universal
com o derretimento da calota polar; envenenamento da humanidade com as
substâncias tóxicas nos mananciais; chuva ácida; ou
simplesmente a sede internacional pelo desaparecimento de água potável.
(João Marcos Rainho, “Planeta água”, in: Educação,
ano 26, n. 221, setembro de 1999, p. 48)
2. A água tem sido
vital para o desenvolvimento e a sobrevivência da civilização.
As primeiras grandes civilizações surgiram nos vales dos
grandes rios – vale do Nilo no Egito, vale do Tigre-Eufrates na Mesopotâmia,
vale do Indo no Paquistão, vale do rio Amarelo na China. Todas essas
civilizações construíram grandes sistemas de irrigação,
tornaram o solo produtivo e prosperaram. (Enciclopédia Delta
Universal, vol. 1, p. 186)
3. Após 229 anos,
o mesmo rio que inspirou o povoamento e deu nome à cidade torna-se
o principal vetor de desenvolvimento, passando a integrar a Hidrovia Tietê-Paraná,
interligando-se ao porto de Santos, por via férrea, e ao pólo
Petroquímico de Paulínia. Como marco zero da hidrovia, o
porto de Artemis será o portal do Mercosul. (...) Logo após
a Segunda Guerra Mundial, o Estado de São Paulo iniciou a construção
de barragens no rio Tietê, para gerar energia elétrica, porém
dotadas de eclusas, um investimento a longo prazo. (www.piracicaba.gov.br/portugues/hidrovia)
4. No que concerne à
concepção mesma de salubridade, é possível
notar que se, na primeira metade do século XIX, os médicos
continuam a ter um papel importante no desenvolvimento de uma nova sensibilidade
em relação ao urbano e às habitações
em particular, são os engenheiros, contudo, aqueles que são
responsáveis por trazer uma resposta prática aos problemas
desencadeados pela falta de higiene. Por isso, é do saber deles
que depende essencialmente o novo modo de gestão urbana que se esboça
nesta época: “As grandes medidas de prevenção – a
drenagem, a viabilização das ruas e das casas graças
à água e à melhoria do sistema de esgotos, a adoção
de um sistema mais eficaz de coleta do lixo – são operações
que recorrem à ciência do engenheiro e não do médico,
que tinha cumprido sua tarefa quando assinalou quais as doenças
que resultaram de carências neste domínio e quando aliviou
o sofrimento das vítimas”. (François Beguin, “As maquinarias
inglesas do conforto”, in: Políticas do habitat, 1800-1850)
5. Os progressos da higiene
íntima efetivamente revolucionam a vida privada. Múltiplos
fatores contribuem, desde os primórdios do século [XVIII],
para acentuar as antigas exigências de limpeza, que germinaram no
interior do espaço dos conventos. Tanto as descobertas dos mecanismos
da transpiração como o grande sucesso da teoria infeccionista
levam a se acentuar os perigos da obstrução dos poros pela
sujeira, portadora de miasmas. (...) A reconhecida influência do
físico sobre o moral valoriza e recomenda o limpo. Novas exigências
sensíveis rejuvenescem a civilidade; a acentuada delicadeza das
elites, o desejo de manter à distância o dejeto orgânico,
que lembra a animalidade, o pecado, a morte, em resumo, os cuidados de
purificação aceleram o progresso. Este é estimulado
igualmente pela vontade de distinguir-se do imundo zé-povinho. (...)
Em contrapartida, muitas crenças incitam à prudência.
A água, cujos efeitos sobre o físico e o moral são
superestimados, reclama precauções. Normas extremamente estritas
regulam a prática do banho conforme o sexo, a idade, o temperamento
e a profissão. A preocupação de evitar a languidez,
a complacência, o olhar para si (...) limita a extensão de
tais práticas. A relação na época firmemente
estabelecida entre água e esterilidade dificulta o avanço
da higiene íntima da mulher.
Entretanto, o progresso
esgueira-se aos poucos, das classes superiores para a pequena burguesia.
Os empregados domésticos contribuem inclusive para a iniciação de
uma pequena parcela do povo; mas ainda não se trata de nada mais
que uma higiene fragmentada. Lavam-se com freqüência as mãos;
todos os dias o rosto e os dentes, ou pelo menos os dentes da frente; os
pés, uma ou duas vezes por mês; a cabeça, jamais. O
ritmo menstrual continua a regular o calendário do banho. (Alain
Corbin, “O segredo do indivíduo”, in: História da vida
privada (Vol. 4: Da Revolução Francesa à Primeira
Guerra) [1987]. São Paulo, Companhia das Letras, pp. 443-4)
6. A filosofia grega parece
começar com uma idéia absurda, com a proposição:
a água é a origem e a matriz de todas as coisas. Será
mesmo necessário deter-nos nela e levá-la a sério?
Sim e por três razões: em primeiro lugar, porque essa proposição
enuncia algo sobre a origem das coisas; em segundo lugar, porque o faz
sem imagem e fabulação; e enfim, em terceiro lugar, porque
nela, embora apenas em estado de crisálida, está contido
o pensamento: “Tudo é um”. (Friedrich Nietzsche, “Os filósofos
trágicos”, in: Os pré-socráticos, Col.
Os pensadores. São Paulo, Abril Cultural, p. 16)
7. O Tejo é mais
belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo
não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo
não é o rio que corre pela minha aldeia.
(...)
O Tejo desce
da Espanha
E o Tejo entra
no mar em Portugal.
Toda a gente
sabe isso.
Mas poucos
sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde
ele vai
E donde ele
vem.
E por isso,
porque pertence a menos gente,
É mais
livre e maior o rio da minha aldeia.
Pelo Tejo vai-se
para o Mundo.
Para além
do Tejo há a América
E a fortuna
daqueles que a encontram.
Ninguém
nunca pensou no que há para além
Do rio da
minha aldeia.
O rio da minha
aldeia não faz pensar em nada.
Quem está
ao pé dele está só ao pé dele.
(Alberto
Caeiro, “O Guardador de Rebanhos”,
in:
Fernando Pessoa, Ficções de Interlúdio) |