

Você recebeu o texto da “Aula Magna” de Ariano Suassuna na Universidade
da Paraíba. A partir de sua leitura, procure responder as questões
abaixo formuladas, de acordo com seu ponto de vista. É importante
que seu posicionamento pessoal frente ao texto se manifeste com clareza
e objetividade.
A consulta ao texto é permitida.
1. “Agora, o turismo degrada tudo: colocaram um restaurante junto
à Pedra do Ingá. Quando me disseram que iam pavimentar a
estrada, eu, já fiquei com medo: não tenho nada contra estrada
pavimentada, mas eu sei o que vem por trás. Agora, com a estrada
pavimentada e o restaurante... eu cheguei lá pra ver a Pedra do
Ingá, onde eu sempre entrava com um sentimento solene de respeito,
como quem está entrando numa catedral, porque é um lugar
religioso! Cheguei lá, estava cheio de rapazes e moças de
calção tomando banho de sol em cima dessa pedra. Moça
de maiô é uma coisa linda, mas no seu lugar. Vá pra
praia, pelo amor de Deus, mas deixe a Pedra do Ingá! Ninguém
vai de maiô para a Igreja, não é?”
– O autor fala, aqui, da postura de um público determinado diante
daquilo que é considerado, por ele, uma obra de arte. Comente o
parágrafo.
2. “As pessoas que não têm um convívio muito
grande com a arte pensam que a introdução da perspectiva
é um progresso da arte. É uma mudança, não
um progresso. No campo da arte não existe progresso, mas flutuações,
variações, modificações, mudanças. Se
houvesse progresso, um pintor do século XVIII seria necessariamente
melhor do que um pintor do século XVI. O progresso existe no campo
da tecnologia: a tecnologia do século XVIII é necessariamente
mais adiantada que a do século XVI, e a do século XX mais
adiantada que a do século XIX. Mas em arte isso não existe.”
– Segundo o autor, o conceito de progresso não deve ser utilizado
em análises referentes ao campo da arte. Comente esse posicionamento
a partir de seu ponto de vista.
3. “A esse respeito tem uma estória muito boa de Matisse,
o grande pintor francês do nosso século. Ele fez uma exposição,
uma mulher chegou e começou a rir defronte de um quadro. Matisse
perguntou: - ‘Por que é que a senhora está rindo diante deste
quadro?’
O quadro era uma mulher nua com a barriga verde.
A mulher disse:
– ‘É porque a mulher está com a barriga verde’.
Aí respondeu: – ‘Mas, minha senhora, isso não é
uma mulher, isso é um quadro’.
É uma coisa tão lógica, não é? Não
era uma mulher, era um quadro”.
– Estabeleça uma associação dessa estória
com a afirmação “Um escritor é um mentiroso” (página
33) tendo como parâmetro a relação arte-realidade.
4. a) “A primeira discriminação é esta: a arte indígena, a arte rupestre. A segunda discriminação: a arte popular. No Brasil, só é verdadeiramente nacional o que é popular ou então aquilo que se liga ao popular. Isso aqui é gravura de um grande gravador brasileiro, Amaro Francisco, ‘Camões e o bode’. Alguém pode pensar que o bode está desenhado assim porque Amaro Francisco não sabe desenhar. Mas isto não é um bode, não, é uma gravura, digo eu com Matisse. Aqui é uma cópia xerográfica de uma gravura de Gilvan Samico: trouxe exatamente para mostrar o parentesco de Gilvan Samico com a gravura popular. Da mesma maneira que eu me fundamento no folheto para fazer minhas peças de teatro, Samico se fundamenta na capa do folheto para fazer a gravura dele. Para mim, três dos maiores gravadores do Brasil são: Amaro Francisco, J. Borges, que é irmão de Amaro Francisco e Gilvan Samico. Samico não é homem do povo, mas é tão brasileiro quanto eles porque se liga ao popular”.
b) Eu queria
deixar claro também que o Presidente da FUNAI, como todos nós,
integrantes do Brasil oficial, é um descendente de Cabral, Caminha
e seus companheiros; e que os índios - e os negros que vieram depois
- são os ascendentes do povo pertencente ao Brasil real.
Esta distinção, importantíssima, foi feita por
Machado de Assis: no Diário do Rio de Janeiro, de 29 de dezembro
de 1861, Machado, criticando atos do governo e coisas da política
brasileira comenta: ‘A sátira de Swift, nas suas engenhosas viagens,
cabe-nos perfeitamente. No que respeita à política, nada
temos a invejar ao reino de Liliput’. E acrescenta, adiantando, sua magistral
distinção: ‘Não é desprezo pelo que é
nosso, não é desdém pelo meu país. O país
real, esse é bom, revela os melhores instintos; mas o país
oficial, esse é caricato e burlesco’. Machado poderia ter acrescentado
que esse Brasil oficial é também artificial, morto, comodista,
subornável, superposto e possuidor de ridículos anseios de
cosmopolitismo - o que é a caricatura, a contrafação
da verdadeira universalidade.”.
– Relacione os dois trechos acima tendo como eixo principal o
conceito de eurocentrismo.
|