04/12/2017 / Em: Clipping

 

Quando os filhos dos mais pobres chegaram à Universidade, a Espanha mudou (El País – Brasil – 04/12/2017)

Nos anos oitenta, jovens de todas as classes sociais encheram colégios e universidades

 

O colégio era público e novo e coube a nós estreá-lo. Também era frágil, construído a toque de caixa, sem muito planejamento, acredito que também sem muito orçamento. Por isso muitas coisas (quase todas as persianas, as barras do ginásio, o próprio ginásio, a máquina de slides que sempre enguiçava) não sobreviveram um ano letivo. A porta de um banheiro que se quebrou serviu de trenó aos mais velhos em uma semana de fevereiro que nevou. Terminou abandonada em um lixão próximo. Esse colégio recebeu um batalhão de adolescentes de La Elipa, Simancas e San Blas, três bairros da periferia de Madri que no começo dos anos oitenta, logo após a transição da ditadura franquista para a democracia, estavam povoados por famílias operárias com o pai muitas vezes desempregado ou prestes a perder o emprego e a mãe aflita perseguindo como um detetive ofertas de supermercado. Em algumas casas o filho mais velho tinha acabado de se viciar em heroína e então tudo era horrivelmente pior. Na hora do recreio, no pátio, parecíamos delinquentes juvenis. No fundo, também éramos frágeis e corríamos o risco de reprovação na metade do ano letivo: tão quebrados como as persianas da sala de aula, tão abandonados como a porta-trenó. Mas, sem nos darmos muita conta, graças a um punhado de professores convencidos de sua tarefa fomos passando de ano até chegarmos ao vestibular. O pobre colégio parecia ter sido sacudido por um terremoto. Mas, apesar dos materiais aparentemente de segunda mão, aguentou. E serviu para o que serve um colégio: de trampolim, de porta de saída. Muitos de nós que fomos buscar as notas do vestibular naquela quente manhã de junho tantos anos atrás éramos os primeiros de nossas famílias a entrar em uma universidade. A universidade. A primeira coisa que fiz ao chegar foi verificar a consistência das persianas. A segunda, perceber que lá existia muita gente. Ao longo dos anos sessenta, de acordo com dados da OCDE, somente 6% dos espanhóis terminava o segundo grau e só outro 6% conseguia um título universitário. Nos setenta, essa porcentagem subiu a 9% e 10%, respectivamente. Mas nos oitenta, já 24% da população terminava o COU (Curso de Orientação Universitária) e 16% ia além e se formava na universidade. Algo estava acontecendo. A universidade ficou lotada de jovens da geração do baby boom, provenientes – pela primeira vez em grande quantidade – dos dois lados da trincheira econômica. Abarrotamos as faculdades por razões demográficas: nunca fomos tantos e já havíamos lotado os colégios, deformaríamos depois o mercado de trabalho e arrasaremos o sistema previdenciário quando chegar a hora. Mas também as abarrotamos por razões políticas: os Governos da época fomentaram um sistema de bolsas que fizeram com que os cursos fossem muito mais acessíveis. Os especialistas denunciavam que essa enxurrada de alunos baixaria o nível da universidade. E eu pensava que sim, que era verdade, mas que o nível do meu bairro também subiria. Além disso, passou a funcionar com regularidade – e já sem retorno – o elevador social. Meu primeiro amigo universitário foi um rapaz de uma família burguesa do rico bairro de Moncloa, em Madri, que havia estudado no exclusivo colégio Base. Ainda é um dos meus melhores amigos. Paralelamente, chegou a modernidade, abandonamos as jaquetas puídas e as calças justas e de noite íamos às festas da Movida (movimento de contracultura madrilenho dos anos setenta e oitenta) e de manhã às manifestações anti-OTAN (e anti-PSOE, que governava a Espanha e promovia a entrada do país na aliança militar). Mas a cada setembro preenchíamos, sem culpa na consciência e sem que nenhuma contradição nos atormentasse, o formulário da bolsa universitária anual do Governo de Felipe González. Naqueles anos erros foram cometidos, coisas deram errado, outras não foram alcançadas, muito ficou por ser feito e abordado superficialmente. Após a embriaguez da liberdade retomada, espalhou-se um certo desânimo e uma ressaca de decepção e suponho que inevitável, como aquele que comprova no dia seguinte que a festa não foi tudo isso. As festas nunca são tudo isso. Convém lembrar que, apesar de tudo, nessas décadas ocorreram pequenos milagres – produto de inúmeras causalidades, mas também de decisões políticas e de medidas orçamentárias – como o fato de meu amigo do colégio Base e eu nos sentarmos lado a lado em uma sala de aula da universidade, possuindo os dois (quase) as mesmas oportunidades para depois sair por aí, pela vida, que essa sim era tudo isso. Em tempo: o velho colégio continua lá, no mesmo lugar, com a mesma forma de trampolim, de porta de saída.

 


Acabar com a gratuidade na educação é o caminho? (Gazeta Online – Opinião – 03/12/2017)

Estudo do Banco Mundial recomendou que os mais ricos paguem pelo ensino superior público como uma das medidas para se atingir mais justiça social e equilibrar as contas públicas

 

Ao primeiro sinal de agravamento da crise sistêmica do capital, a alternativa é a redução de direitos sociais e o desmonte das políticas públicas. Assim, não é de estranhar que se levante, mais uma vez, a defesa de um projeto de educação privatista, sobre a alegação de “justiça social”, que tem como proposta a cobrança dos cursos nas universidades públicas. Porém, verdadeiramente, o desequilíbrio das contas públicas é gerado pelo pagamento dos juros da dívida pública, pela descarada sonegação de impostos e isenções dadas às grandes empresas, assim como pela estrutura tributária que penaliza os mais pobres. Portanto, as soluções para a crise fiscal passam pelo combate à sonegação, pela realização da auditoria da dívida pública e pela reforma da estrutura tributária. A garantia de que os gastos públicos sejam repartidos equitativamente entre as diferentes classes e frações de classe da sociedade pressupõe transformação radical da estrutura tributária brasileira, hoje baseada em contribuições e impostos indiretos e não-distributivos – que oneram os mais pobres –, substituindo-a por uma política mais justa, baseada em impostos progressivos e distributivos, que incidam significativamente sobre a renda da parcela abastada da população e sobre o lucro de empresas e rentistas. A cobrança de mensalidade nas instituições de ensino superior públicas afetaria apenas uma ínfima parte dos seus custos. Isso é assim aqui e em todas as partes do mundo. No caso das instituições particulares, boa parte de seu sustento provém de subsídio direto ou indireto por parte do Estado (ProUni e Fies, além das vantagens tributárias). Os grandes empresários da educação sabem muito bem disso. Há um benefício direto na educação pública para todos, independentemente da capacidade contributiva, no que diz respeito à democratização do acesso e permanência. A universidade pública pode contribuir para superar as desigualdades, uma vez que possibilita que se encontrem num mesmo espaço estudantes de famílias de diferentes estratos sociais e, com isso, ajuda na superação das barreiras para a mobilidade social ascendente. Enquanto professores e professoras, nossa tarefa é lutar, cotidianamente, para que a educação pública, uma conquista social, se democratize, seja ampliada com qualidade e continue a cumprir o seu papel, quais sejam, contribuir para a formação política, social, educacional da sociedade brasileira, para a diminuição das desigualdades, assim como, sua principal função, produzir conhecimento básico e aplicado para o desenvolvimento social.

Acesso não precisa ser gratuito para todos

Realizado a pedido do governo federal, o estudo do Banco Mundial destrincha os gastos públicos. O trabalho teve por objetivo mostrar que é possível realizar o ajuste fiscal que o Brasil necessita, com medidas capazes de promover maior igualdade social, protegendo os mais desfavorecidos. Nele, sugerimos a adoção da cobrança pelo ensino nas universidades federais. Ao longo das últimas duas décadas, o Brasil tem feito um grande progresso com relação ao aumento do acesso à Educação, o que constitui um grande investimento no futuro do país. É fato que os que cursam o ensino superior têm mais probabilidade de conseguir empregos bem remunerados. Um sistema de ensino superior igualitário deveria assegurar o acesso gratuito aos estudantes financeiramente vulneráveis e dar acesso a empréstimos para os que têm condições de pagar. Hoje, o sistema brasileiro faz exatamente o oposto, pois para ingressar no sistema, os estudantes são submetidos a um concorrido exame de ingresso, que privilegia estudantes de escolas particulares. Desta forma, os principais beneficiários do acesso gratuito às universidades federais são membros das famílias de classe média alta ou alta. Apenas 20% dos estudantes universitários fazem parte dos 40% mais pobres da população brasileira, como indica a amostra da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), e 65% integram o grupo do 40% mais ricos. Na realidade, a grande maioria dos estudantes já paga pelo ensino superior provido por universidades privadas, muitos deles por meio de empréstimos de programas como o Fies. Além disso, o dinheiro usado para custear as universidades federais é financiado pelo sistema fiscal, reconhecidamente bastante regressivo no Brasil. Na verdade, cerca de 35% das receitas orçamentárias no Brasil em 2016 são originárias de impostos indiretos, isto é, taxas embutidas no consumo de bens. As famílias pobres gastam a maior parte de seu orçamento com este tipo de consumo, enquanto as mais ricas conseguem economizar uma grande parcela de seus rendimentos. Como tal, a tributação indireta é conhecida por ser relativamente regressiva, ou seja, compreende uma parcela maior da renda das famílias pobres. Em suma, em termos relativos, o sistema de acesso gratuito às universidades federais promove, na realidade, uma transferência de recursos de famílias pobres para as mais ricas. Introduzir um sistema onde os estudantes da parcela mais alta da distribuição de renda paguem taxas para ter aceso ao ensino em universidades federais permitiria uma expansão dos programas de bolsa de estudo, como o ProUni, para aumentar as oportunidades de acesso para os estudantes menos favorecidos, que fazem parte dos 40% mais pobres da população, e uma extensão dos programas de empréstimos, como o Fies, também para as universidades federais. Um esforço paralelo para melhorar a qualidade do ensino médio na escola pública também contribuiria para aumentar as oportunidades para os estudantes mais pobres.

 


Como se preparar para segunda fase da Unicamp 2018 (Via Carreira – Vestibulares – 02/12/2017)

Os vestibulandos, interessados em ingressar na Universidade Estadual de Campinas, já passaram pela primeira etapa do processo seletivo. Agora, eles buscam orientações sobre como se preparar para segunda fase da Unicamp 2018. Tudo indica que a prova será difícil e bem concorrida. A primeira fase do vestibular da Unicamp aconteceu no dia 19 de novembro de 2017. Milhares de estudantes compareceram aos locais de prova para fazer a avaliação, composta por 90 questões de múltipla escolha. Foram avaliados os conhecimentos sobre Língua Portuguesa, Matemática, História, Geografia, Química, Biologia, Inglês e Física. A segunda fase da Unicamp 2018 vem sendo muito aguardada pelos vestibulandos.

Como funciona a 2ª fase do vestibular Unicamp?

A segunda fase da Unicamp acontecerá nos dias 14, 15 e 16 de janeiro de 2018. Nesses três dias consecutivos, os vestibulandos precisam se preparar para enfrentar uma jornada intensa de provas com questões dissertativas. Serão cobrados os conteúdos mais importantes do ensino médio na 2ª fase do vestibular Unicamp. Cada disciplina será representada por seis perguntas dissertativas. O candidato terá que responder em forma de texto e demonstrar algumas habilidades, como interpretação e capacidade analítica. No dia 14, os vestibulandos terão que realizar as provas de português, literatura e redação. No dia seguinte, 15, serão cobrados conhecimentos de matemática, história e geografia. Por fim, no dia 16, os candidatos terão que enfrentar questões sobre biologia, química e física.

Dicas para passar na segunda fase da Unicamp 2018

Selecionamos algumas dicas de como se preparar para passar na segunda fase da Unicamp 2018. Confira:

1 – Conheça o formato da prova

Procure conhecer ao máximo o formato do vestibular da Unicamp. Para isso, vale a pena resolver as provas dos anos anteriores. Responda as questões com muita atenção e aproveite para identificar as suas principais dificuldades.

2 – Não exagere nas festas de final de ano

Nas festas de natal e ano novo, procure manter o controle. Você não deve exagerar nas comemorações, mas também não vale a pena virar noites estudando no quarto. Continue estudando durante o mês de dezembro, mas estabeleça horários. Experimente estudar pela manhã, das 8h às 12h. No período da tarde, reserve duas horas para exercícios e revisões. Depois desse período de preparação, reserve um tempo para se divertir com os amigos e ficar com a família.

3 – Não queira estudar tudo na última hora

Você tem muita coisa para revisar? Então não se prenda aos detalhes. Aproveite as semanas que antecedem a prova para aprofundar os conhecimentos sobre os conceitos mais amplos, sem decoreba.

4 – Estude atualidades

Procure ficar por dentro dos grandes temas atuais, ou seja, aqueles que são discutidos nos noticiários de TV, revistas, jornais e portais de notícias. As questões da Unicamp, especialmente de geografia e história, cobram atualidades.

5 – Cuidado com as respostas longas

Na segunda fase da Unicamp 2018, você terá que responder questões dissertativas, mas isso não significa que pode escrever textos enormes e detalhados. O recomendado é responder apenas aquilo que o enunciado pede, nada mais. Incluir muitos elementos na resposta não é algo positivo aos olhos dos examinadores.

6 – Leia o enunciado com muita atenção

Para não cometer deslizes na hora de responder à questão, é importante ler o enunciado atentamente. Identifique o comando da pergunta (cite, explique ou analise, por exemplo) e, depois, elabore uma resposta curta e objetiva.

 


A escola e a faculdade estão com os dias contados. Saiba o que as substituirá (Gazeta do Povo – Educação – 02/12/2017)

Os dias dos doze anos de educação básica e dos quatro anos de universidade já demonstraram não ser o método mais eficaz de aprender

O ovo está chocando aos poucos. Cada vez mais pessoas estão se tornando conscientes da perda colossal de dinheiro, o desperdício trágico do tempo dos jovens e a imposição cruel de estresse e ansiedade produzidos pelo nosso sistema educacional coercivo. As crianças chegam ao mundo biologicamente programadas para se autoeducarem. Essa curiosidade, diversão e obstinação foram moldadas pela seleção natural para servir a função da educação. Então o que fazemos? A um custo alto (cerca de US$ 15 mil por criança ao ano na educação básica pública), mandamos as crianças para escolas que impedem deliberadamente os seus instintos educativos – isto é, reprimem a sua curiosidade, diversão, sociabilização e obstinação – e então, com grandes prejuízos e dificuldades, tentam educá-las de modo muito ineficiente e ineficaz por meio de sistemas de recompensas e punições que se apoiam em arrogância, vergonha e medo. Pesquisas mostram que com gastos muito menores, e com prazer em lugar de sofrimento, podemos facilitar, em vez reprimir, os modos naturais das crianças e adolescentes se autoeducarem com resultados excelentes. Cada vez mais famílias estão se tornando conscientes disso e estão buscando meios de retirar as suas crianças da escola obrigatória em favor da Educação Autônoma. A maior parte dos meus trabalhos anteriores sobre educação se referem aos anos a que infelizmente nos referimos como educação básica (como se a educação fosse uma coisa escalonável em que a aprendizagem é organizada como uma linha de produção). Eu escrevi sobre como banir o sistema de séries e deixar as crianças fazerem e aprenderem o que lhes interessar a qualquer momento, em ambientes de faixas etárias mistas, funciona tão bem em escolas como a Sudbury Valley e muitos outros ambientes que foram desenvolvidos para facilitar a Educação Autônoma. Mas e aqueles anos de educação que chamamos de “ensino superior”, principalmente os quatro anos de graduação? Muitos jovens, devido à pressão familiar e social, também veem isso como algo essencialmente obrigatório. Para eles, a universidade é apenas uma continuação do ensino médio – os anos 4, 5, 6 e 7. E esses anos de ensino são muito mais caros do que os anteriores, um custo que geralmente deve ser pago pelos pais ou por meio de financiamentos que podem sobrecarregar uma pessoa por décadas. Além disso, há cada vez mais evidências de que se aprende muito pouco durante esses anos.  Fundamentalmente, a universidade é um sistema de discriminação aprovado socialmente. É assim que um professor universitário, Shamus Khan, que é crítico da iniciativa da qual ele faz parte, descreve: Eu faço parte de uma fábrica de credenciamento (…) As universidades aceitam americanos que já têm vantagens. Elas não pedem que eles façam muita coisa ou que aprendam muito. Ao final dos quatro anos, damos um certificado a eles. Esse certificado lhes garante salários mais altos. As universidades ajudam a obscurecer a qualidade aristocrática da vida americana. Elas fazem isso convertendo direitos inatos (que todos nós acreditamos ser injustos) em credenciais (que parecem ser mérito). Estudos recentes documentaram a escassez de aprendizagem real que acontece durante os anos de graduação. Devido ao modo como é estruturado, o ensino superior é uma commodity em que as pessoas tentam obter o mínimo possível com o seu dinheiro. Isso já acontecia quando eu estava na graduação, décadas atrás, e é ainda mais presente hoje. Pesquisas indicam que o tempo médio de estudo por semana para estudantes universitários diminuiu de cerca de 25 horas em 1960 para cerca de 12 horas hoje, e os estudantes continuam evitando cursos que exigem produção de trabalhos originais ou muitas horas de leitura. A administração das universidades argumenta há muito tempo que o maior benefício da universidade é um ganho em pensamento crítico, mas estudos sistemáticos mostram que tais ganhos são na verdade muito pequenos, e para aproximadamente 45% dos estudantes eles são inexistentes.  Até agora eu não consegui encontrar nenhuma evidência de que o pensamento crítico melhora ao longo dos quatro anos de graduação em um nível maior do que ocorreria, nas mesmas pessoas ou em pessoas com perfis similares, se passassem esses quatro anos fazendo outras coisas. Em uma pesquisa recente, realizada pela PayScale Inc., 50% dos empregadores reclamaram que os graduados que eles contratam não estão preparados para o ambiente de trabalho, e o motivo principal apontado por eles é falta de habilidades de pensamento crítico. Os meios falhos de aprendizagem, que são endêmicos no ensino médio e envolvem pouco ou nenhum pensamento crítico, são cada vez mais adotados também nas universidades. Minhas observações sugerem que o pensamento crítico cresce principalmente por meio da busca pelos interesses próprios do indivíduo e pelo envolvimento em diálogos sérios e automotivados com outras pessoas que compartilham esses interesses, e não pelas práticas padrão de sala de aula.  Não sei como ou quão rápido a mudança ocorrerá, mas acredito que os dias da educação básica de doze anos e dos quatro anos de universidade estão contados e a sanidade começará a prevalecer no meio educacional. Eu enxergo um futuro com algo como a abordagem de três fases de educação a seguir:

Fase I. Descoberta: Aprender sobre o seu mundo, sobre si mesmo e como alinhar ambos

Os primeiros quinze a dezoito anos de vida de uma pessoa são idealmente, nessa perspectiva, anos de exploração autodirecionada e diversão em que os jovens aprendem sobre o mundo ao seu redor, tentam modos diferentes de estar nesse mundo, desenvolvem e correm atrás de interesses passionais, e criam pelo menos um plano de como poderão se sustentar como adultos independentes. É isso que já acontece com jovens autodidatas em escolas ou centros de aprendizagem voltados para Educação Autônoma ou ambientes de Educação Autônoma de base doméstica e comunitária (geralmente chamados de “desescolarização”). Na minha visão para o futuro, centros de aprendizagem e recreação financiados publicamente permitirão que todo mundo, independentemente da sua renda familiar, possa se autoeducar desses modos.

Fase II. Explorando um plano de carreira

Um dos diversos problemas com o nosso sistema educacional atual é que, mesmo depois de dezessete anos de ensino, incluindo a graduação, os estudantes têm pouco conhecimento sobre carreiras em potencial. A única vocação adulta que eles presenciaram de perto é a de professores. Um estudante pode ter decidido, por algum motivo (talvez porque pareça prestigioso), se tornar médico, ou advogado, ou cientista, ou executivo, mas esse estudante sabe pouco sobre o que significa ser essas coisas. No sistema de educação racional que eu tenho em mente, os estudantes passariam tempo trabalhando em ambientes reais que ofereçam uma ideia do que uma carreira exige antes de buscarem formação especializada para essa carreira. Por exemplo, uma pessoa interessada em se tornar médico pode trabalhar em um hospital por um período, talvez como ordenado ou assistente. Talvez esse possa ser um programa de aprendiz oficial, com um pouco de estudo como parte do programa, ou talvez possa ser só um trabalho comum. Assim, essa pessoa pode observar e interagir com médicos na sua prática e ter experiências reais de como é ser médico, o que permitiria que pudesse tomar uma decisão informada sobre isso como um plano de carreira. Será que eu gosto de ficar em hospitais e perto de pessoas doentes? Será que eu tenho o tipo de compaixão e força moral, além de habilidades de raciocínio, exigidas para ser um bom médico? Se a resposta for não, é hora de experimentar um plano de carreira diferente. O mesmo acontece para qualquer outra carreira. Uma pessoa interessada em direito pode trabalhar em um escritório de advocacia; uma pessoa interessada em se tornar cientista pode trabalhar como assistente de laboratório ou de campo; uma pessoa interessada em se tornar engenheiro pode trabalhar como aprendiz de engenharia. Desse modo, eles poderiam aprofundar a sua educação e ganhar experiência prática enquanto obtém alguma renda, em vez de acumular dívidas. Durante o processo, a pessoa poderia conhecer e ser reconhecida por profissionais na área da sua carreira em potencial, que poderiam escrever cartas de recomendação que ajudariam na sua candidatura a formação ou progresso na área em questão. Muitas empresas, reconhecendo que o ensino universitário típico não prepara as pessoas para o seu tipo de trabalho, já oferecem programas de aprendiz. De acordo com o Departamento de Trabalho dos EUA, o número de programas de aprendiz disponíveis nos Estados Unidos cresceu de cerca de 350 mil em 2011 para cerca de 450 mil em 2015, e continua a crescer. Por exemplo, a BMW tem um programa de aprendiz em Spartanburg, Carolina do Sul, para treinamento de engenheiros, e pelo menos uma empresa de seguros comerciais oferece programas de aprendiz em ajuste e subscrição de créditos – empregos que anteriormente exigiam um diploma de ensino superior.

Fase III. Tornar-se credenciado para trabalho especializado

Para muitos tipos de trabalho, é essencial se certificar que as pessoas desempenhando a função saibam o que estão fazendo. Esses são os trabalhos em que talvez seja essencial uma formação especializada, guiada por especialistas e avaliada por testes rigorosos. Antes de contratar um cirurgião, dentista, advogado, eletricista ou encanador, preciso ter certeza de que aquela pessoa foi credenciada e licenciada por meios que incluem provas de competência. Essa é a única fase do sistema educacional em que provas deveriam ser essenciais. Tal credenciamento pode, em alguns casos, ser parte de um programa de aprendiz, ou em outros casos pode ocorrer em escolas de formação profissional, como escolas de medicina, engenharia ou outras vocações. Então, uma jovem que explorou uma carreira médica trabalhando como assistente pode, em algum momento, se inscrever para uma escola de medicina. No processo de admissão, ela pode ter que apresentar evidências de que tem consciência da sua escolha e se preparou adequadamente para iniciar essa formação; e então, no final, ela teria que provar competência na especialidade médica que escolheu. Acredito que com esse sistema teremos muito menos médicos, advogados, executivos e outros profissionais infelizes, e muito mais profissionais felizes. Eu descrevi tudo isso como uma visão para o futuro, mas é um futuro que já está se tornando realidade. Como eu disse, cada vez mais famílias estão encontrando alternativas para a educação básica tradicional, e cada vez mais empresas estão descobrindo que preferem treinar seus empregados, por meio de programas de aprendiz ou por outros meios, do que confiar em diplomas universitários como provas de competência. Os números ainda são pequenos, mas estão aumentando.

O que acontecerá, nesse cenário, com as instituições educacionais que temos atualmente?

As escolas com séries tradicionais desaparecerão aos poucos, sendo substituídas por centros de aprendizagem com faixas etárias mistas que apoiam a Educação Autônoma. As universidades permanecerão, com financiamento público como centros de pesquisa e bolsas de estudos. Elas não matricularão os “estudantes” do modo como pensamos hoje, mas, assim como outras instituições, terão assistentes e aprendizes, alguns dos quais seguirão, por experiências e interesses, para se tornarem cientistas e acadêmicos. Faculdades comunitárias, que já oferecem formação útil e prática para uma variedade de carreiras a custos relativamente baixos, podem crescer e se tornar parte de um sistema de aprendizes em expansão que envolve alguma formação teórica relacionada a um emprego em potencial.