04/07/2017 / Em: Clipping

 

Cota racial é ‘fundamental’, dizem estudantes negros da medicina da USP (G1 – Educação – 04/07/2017)

O G1 conversou com quatro estudantes da Faculdade de Medicina da USP, que na sexta-feira decidiu destinar 8,6% das vagas da medicina a estudantes da rede pública pretos, pardos e indígenas.

Destinar vagas especificamente para estudantes pretos, pardos e indígenas é positivo porque ajuda a aproximar a população da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) à população brasileira. É o que dizem estudantes que se consideram pretos, pardos e indígenas que conseguiram, sem cotas, uma vaga no curso de medicina com maior prestígio do Brasil. O G1 entrou em contato com seis estudantes pretos ou pardos matriculados atualmente na graduação em medicina da FMUSP, e conseguiu ouvir cinco deles sobre a decisão da Congregação da faculdade que, na última sexta-feira (30), decidiu aprovar a instituição de cotas raciais no vestibular pela primeira vez na história. No próximo processo seletivo, 15 vagas serão destinadas a estudantes de escola pública que se autodeclarem pretos, pardos e indígenas ou (PPI). Elas serão reservadas junto com um total de 50 vagas de medicina da FMUSP no Sistema de Seleção Unificada (Sisu). As demais 125 vagas continuam sendo oferecidas pela Fuvest, com o programa Inclusp, que dá bônus a estudantes da rede pública e PPI. Os estudantes ouvidos pela reportagem são favoráveis à instituição de cotas, consideradas por eles como uma ferramenta de combater o “viés aristocrático” da universidades, e aumentar a representatividade não só do tom de pele, mas de ideias. “A presença de um negro é rara na faculdade. Eu não sinto preconceito, eu sou invisível, é como se eu não existisse. Na UnB, por exemplo, existe cotas raciais há muitos anos, é um retrato social diferente. Na minha sala somos eu e mais dois ou três, no máximo, de uma turma de 180. Você não se vê representado naquele lugar, não tem modelo, por isso a cota é fundamental para aumentar a representação”, diz Pedro Henrique Rodrigues Santana, de 24 anos, aluno do 4º ano de medicina da USP. Pedro Henrique se considera de uma família de classe média e estudou a vida toda na rede particular de ensino. Ele estudou engenharia na Unicamp, mas desistiu do curso, começou a estudar sozinho para se preparar para o vestibular, e conseguiu a vaga no curso de medicina da USP.

Discriminação já na matrícula

Uma estudante de 23 anos, que preferiu não se identificar, atualmente cursa o 3º ano da graduação, depois de ter sido aprovada pela Fuvest usando os bônus de escola pública e PPI do Inclusp. Ela ressalta que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ainda tem muitas falhas e não é uma prova ideal, mas é capaz de selecionar uma diversidade maior de pessoas, e “por também não ser restrito ao público de cursinho ou muitas vezes de escolas particular”.

De acordo com a estudante do terceiro ano, “demorou para a USP perceber que o bônus PPI que ela oferecia não tinha um impacto real e uma inclusão real da população na universidade no geral”, e principalmente nos cursos mais concorridos. “O preço, a fama e o perfil de prova da Fuvest afasta muitos candidatos com muito potencial, mas que acabam não prestando a prova por medo. Muitos amigos da escola pública e até do cursinho, por medo de fracassarem, nem se permitiam fazer tal prova.”

A jovem afirma que sua vida na faculdade “não tem sido fácil”, e que sofreu seu primeiro episódio de preconceito ainda no ato da matrícula, quando diz ter sido intimidada pela funcionária da secretaria, que duvidou da validade de seus documentos. “Ela soltou que ‘não sabia dessas coisas novas, que antigamente não tinha essas coisas de cotas, de ajuda’, dando a entender que eu não tinha passado de verdade. E voltou a repetir isso quando me pediu para assinar minha declaração de PPI. Me fez sentir constrangida por me declarar PPI, identidade que nunca neguei. Foi bem horrível. Não tenho uma lembrança boa da minha matricula.”

8,6% de cotas para pretos, pardos e indígenas

Com a decisão da Congregação, 50 das 175 vagas de medicina em 2018 serão selecionadas via Sisu, com a nota do Enem. Dessas 50 vagas, 10 serão reservadas para candidatos de ampla concorrência, 25 para candidatos que tenham feito o ensino médio em escola pública, e 15 vagas para candidatos da rede pública que se autodeclarem pretos, pardos e indígenas.

 As vagas da medicina da FMUSP em 2018

Veja a distribuição das 175 vagas de graduação em medicina da faculdade para o próximo vestibular

FUVEST: 71,43 %

SISU – AMPLA CONCORRÊNCIA: 5,71 %

SISU – ESCOLA PÚBLICA: 14,29 %

SISU – ESCOLA PÚBLICA PPI (PRETOS, PARDOS E INDÍGENAS): 8,57 %

FUVEST71,43 %

Pablo Rodrigo Andrade, de 22 anos, também se considera favorável à adesão da FMUSP ao Sisu com as cotas raciais. “Eu acho que a decisão pode aproximar o perfil de alunos da FMUSP ao perfil da nossa sociedade. Acho que é um avanço, embora eu questione bastante a ausência do critério renda nas modalidades de cotas aceitas pela USP via Sisu.” O estudante, que saiu de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e foi aprovado na Fuvest 2014 e em mais sete vestibulares, só conseguiu se manter no cursinho e pagar a taxa do vestibular da Fuvest porque contou com a ajuda de professores do cursinho e de parentes. Ele usou os bônus do Inclusp para alunos da rede pública, mas optou por não usar o bônus adicional para estudantes pretos, pardos e indígenas. “Na minha época, apesar de existir a opção de bônus adicional para PPI na Fuvest, eu não fiz essa autodeclaração. Ainda assim, eu me considero pardo, minha família é um mix entre negros, indígenas e portugueses”, explicou ele. Atualmente, o estudante cursa um período de intercâmbio na Universidade Harvard. Ele foi selecionado para o programa de pesquisa internacional no ano passado, e juntou mais de R$ 30 mil em um financiamento coletivo para conseguir pagar os custos da viagem.

‘Viés aristocrático e branco’

Augusto Ribeiro Silva, de 26 anos, aluno do 6º ano, também comemorou a implantação das cotas. No entanto, ele teme que as notas de notas de corte exigidas pelo Sisu sejam muito altas e não democratizem o acesso. Augusto também lembra que as ações de permanência estudantis precisam existir e ser eficazes para garantir que o aluno conclua o curso. “Outros cursos já aderiram ao Sisu, mas cobram nota de corte muito alta. Mas mesmo que seja algo simbólico, já vejo com uma vitória. Acho que o fato de a faculdade de medicina da USP ter sido a última a aderir às cotas é muito grave”, afirma.

O estudante, que se considera pardo, é do litoral de São Paulo e estudou na rede privada como bolsista. Ele lembra que a USP é mantida com dinheiro público e com impostos como ICMS, repassados pelo governo. “Esse é o imposto cobrado sobre o consumo. É o pobre que consome mais, que gasta tudo que ele ganha. A USP é mantida com dinheiro público, não tem sentido manter esse viés aristocrático e branco.”

Educação pública de qualidade

Para Pablo, as cotas são uma medida paliativa para garantir que estudantes em condições desiguais possam ter acesso ao ensino superior público. Ele diz concordar que é preciso, ao mesmo tempo, melhorar as condições da escola pública, para que ela consiga preparar os estudantes de forma “equiparável aos dos grandes colégios”. “Eu fico pensando que, se um dia, realmente atingirmos a tão sonhada educação pública de qualidade, cotas serão obsoletas. Mas e até lá? O que a gente faz com as pessoas da minha geração que não tiveram acesso a essa ‘educação de qualidade’? A gente vai ignorá-las o direito de entrar numa instituição pública de ensino pelo simples fato de que eles não sabem resolver uma reação química de cadeia longa, ou descrever a circulação dos peixes ou sobre o passado histórico-econômico de São Paulo. Essas são algumas das questões que caíram na minha Fuvest!”

Aceitação e integração

Calouro na Universidade de São Paulo, Luis Fernando Brito, de Mairiporã, na Grande São Paulo, está terminando o seu primeiro semestre de graduação em medicina na USP. O estudante, que fez um ano preparatório de cursinho, e foi aprovado na Fuvest com bônus do Inclusp em sua segunda tentativa, também se diz favorável à implantação de cotas no curso. “Sou a favor, porque a desigualdade para com as pessoas PPI ainda prevalece. Com essa desigualdade, há diversas diferenças nas oportunidades, inclusive para entrar na faculdade via vestibular, o que é ajustado com as cotas”, explicou ele ao G1. O estudante diz que consegue pensar em cerca de 12 colegas que também são negros na sua turma de calouros – no total, foram oferecidas 175 vagas. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população preta, parda e indígena no Estado de São Paulo representava, em 2010, 34,7% do total demográfico. Tanto Luis Fernando quanto Pablo concordam em um ponto: apesar da pouca representatividade de negros na faculdade, os colegas estão cada vez mais interessados em entender as raízes do racismo no Brasil, na universidade pública e na melhor universidade do país.

“Todos os colegas me trataram bem até agora”, afirmou Luis. “Eles prestam bastante atenção nisso na faculdade.” Pablo afirma que a decisão histórica da faculdade vem inserida em um contexto específico. “Acho que essa iniciativa surgiu de um contexto em que a comunidade FMUSP, incluindo seus alunos, realmente pararam para discutir a respeito. Eu não digo que haja unanimidade sobre adesão ao Enem, bem como a instituição de cota PPI. Mas tudo isso pelo menos fez surgir um debate conscientizador entre partes com opiniões diferentes, por vezes tão opostos.”

 

‘Passo para a democratização’, diz representante de alunos sobre cotas na medicina da USP (G1 – Educação – 03/07/2017)

Decisão inédita vai garantir 15 das 175 vagas anuais para estudantes negros, pardos e indígenas egressos de escolas públicas. Seleção será feita por meio do Sisu.

Na última sexta-feira (30), a Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) aprovou a adesão parcial do curso ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que usa a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para selecionar estudantes. Das 175 vagas que a instituição oferece anualmente, 50 serão destinadas ao processo e 125 serão selecionadas via Fuvest. Das vagas do Sisu, 15 serão reservadas a estudantes negros, pardos e indígenas advindos do ensino público. A decisão, tomada devido a fortes pressões para que o curso tivesse maior inclusão social, foi celebrada no centro acadêmico da faculdade. “É um passo muito importante no sentido de democratizar o acesso à universidade. Todos os anos a proposta era comentada, mas era barrada. Esse ano ela passou, e estamos de fato muito felizes”, comemora a presidente da instituição, Maria Luiza Corullon, em entrevista ao Jornal Hoje. Para o diretor da FMUSP, José Otávio Costa Auler Jr, a medida é necessária, embora paliativa: a real solução seria melhorar o nível do ensino médio nas escolas públicas. “No momento existem questões fundamentais para serem resolvidas no ensino médio. Não dá para esperar resolver um para resolver o outro. Com essas medidas, estamos trazendo novas possibilidades de incluir pessoas que de outra maneira não conseguiriam nunca entrar aqui”, garante. A mudança, no entanto, não foi vista com bons olhos por toda comunidade acadêmica. “Provavelmente teremos um resultado desastroso. Acho que eles têm obrigação de abrir curso pré-vestibular para alunos que tenham o talento necessário e o interesse para arcar com o peso de uma formação nesse nível”, sugere a professora titular de antropologia Eunice Durham. “Se não fizermos nada, continuamos nessa situação de oferecer aspinira para quem está com pneumonia, sendo a pneumonia a situação do ensino médio no país”, lamenta.

 


USP deve reservar metade de suas vagas a alunos de escola pública (Exame – Brasil – 04/07/2017)

Conselho Universitário da USP se reúne hoje e deve aprovar a reserva de metade das vagas para alunos de escolas públicas até 2021

A Universidade de São Paulo (USP) deve votar hoje a proposta que reserva metade de suas vagas a alunos vindos de escolas públicas até 2021. A ideia é que as cotas para alunos de escolas públicas aumentem ao longo dos anos até atingir a metade das vagas em 2021. No próximo processo seletivo, para ingressantes em 2018, serão reservadas 37% das vagas para alunos da rede pública. A reserva subirá ano a ano. Para 2019 será 40%; para 2020 serão reservadas 45% das vagas; em 2021, finalmente, serão guardadas metade das vagas para estudantes de ensino público. A mudança consta em minuta de resolução enviada aos integrantes do Conselho Universitário (CO), instância máxima da USP. A decisão deve ir a votação hoje. A proposta, no entanto, não reserva vagas por um sistema de cotas raciais. A universidade tinha meta de ter metade de seus ingressantes oriundos de escolas públicas até 2018–número que está longe de ser alcançado. No último processo seletivo, foram  apenas 36,9% de ingressantes de escolas públicas. A proposta daria, portanto, até 2021 para que a USP cumprisse a meta. Se adiantando à decisão, a Federação Nacional dos Estudantes de Direito (Fened) enviou uma carta ao CO pedindo reavaliação para a adoção de cotas raciais. A organização afirma que “as desigualdades étnico-raciais no acesso ao ensino superior persistem entre negros e brancos da mesma classe social”. Se aprovada, esta será a primeira vez que a universidade reservará vagas gerais nas graduações para estudantes de escolas públicas.

Faculdade de Medicina

Outra decisão sobre cotas deve vir da Faculdade de Medicina, que passará a adotar cotas raciais e aceitará o Enem como forma de acesso à faculdade.

 


Medicina da USP aprova cotas raciais; decisão será apreciada por conselho (Isto É – Geral – 03/07/2017)

A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) vai adotar parcialmente o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) para o ingresso de estudantes. Com isso, a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) será utilizada para selecionar estudantes oriundos de escolas públicas. O exame da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), no entanto, continuará sendo aplicado. A decisão ainda passará pelo Conselho Universitário (Consu). A expectativa da faculdade é que a mudança passe a valer no próximo vestibular, em 2018. A medida aprovada pela congregação da FMUSP prevê que, das 175 vagas do curso de medicina, 50 serão selecionadas via Sisu. Desse total, dez serão reservadas para ampla concorrência; 15 para estudantes da rede pública que se autodeclararem pretos, pardos e indígenas (PPI); e 25 vagas para candidatos que tenham feito o ensino médio em escola pública. As outras 125 vagas serão preenchidas por meio da prova da Fuvest, sendo que os estudantes oriundos de escolas públicas que fizerem o exame poderão acessar bônus do Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp). O bônus é de 15% nesses casos. Os que se autodeclararem pretos, pardos ou indígenas recebem bônus adicional de 5%. “A adoção do Sisu é uma forma de propiciar maior acesso de alunos de todo o Brasil aos cursos de graduação da Faculdade de Medicina da USP”, disse, em nota, o diretor da FMUSP, Jose Otavio Costa Auler Jr. A medida foi comemorada pelos integrantes do Centro Acadêmico Oswaldo Cruz (Caoc). “Representa um primeiro passo para a democratização do acesso à universidade. A Faculdade de Medicina é um dos últimos cursos a aderir ao Sisu, mantendo-se um dos mais brancos e elitizados de toda a USP. Esperamos que, com essa vitória, esse panorama se altere e a FMUSP se pinte de povo”, diz nota da entidade. No último dia 30 de maio, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) aprovou a implementação de cotas sociais e raciais para o ingresso na universidade.

Outros cursos

A mudança também valerá para outros cursos da Faculdade de Medicina. Das 25 vagas ofertadas no curso de fisioterapia, três serão preenchidas por candidatos do Sisu que se autodeclararem pretos, pardos ou indígenas. O mesmo número será adotado na terapia ocupacional, sendo que das três vagas, uma será reservada para aluno que se autodeclarar preto, pardo ou indígena. Na fonoaudiologia, a reserva será de cinco vagas, sendo três para candidatos de escolas públicas e duas para alunos de escolas públicas que se autodeclararem pretos, pardos ou indígenas.