10/09/2012 / Em: Clipping

 


O verdadeiro gargalo de engenheiros  (Folha de S.Paulo – Opinião – 09/09/12)

Entre as questões em debate em educação, destaca-se hoje a quantidade de profissionais em áreas de ciência e tecnologia. Muitos propõem formar mais engenheiros e mais professores de química e física criando vagas no ensino superior para essas carreiras. Essas propostas são importantes, mas não levam em consideração limitações dos alunos. O que de fato limita a qualidade e o número de formandos nas áreas de ciências exatas e tecnológicas? Dados do Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes) apontam que a maior restrição está no número de jovens com habilidades mínimas em matemática. Os resultados de avaliações internacionais tendem a repercutir entre nós apenas pela constatação de que estamos nas últimas colocações. Mas o Pisa vai muito além: fornece dados valiosos sobre o desempenho dos jovens de 15 anos. O exame de 2009 foi feito por aproximadamente 470 mil alunos de 15 anos pelo mundo. A amostra representa 26 milhões de alunos de 65 países. Cada exame avalia três áreas -leitura, matemática e ciências- e estabelece seis níveis de competência. Para uma ideia do que significa um aluno estar em cada um desses níveis (ou abaixo de todos), veja ao lado exemplos de questões similares às aplicadas em matemática. Os dados mostram que 88,1% dos alunos não chegam ao nível 3 -não sabem, portanto, ler gráficos. Além disso, 96,1% não conseguem explicar o que ocorre numa troca de moeda se a taxa mudar. Mais do que impossibilitados de estudar economia, poderiam ser enganados com facilidade em qualquer outro país. A distribuição limita o percentual dos nossos jovens em áreas que exijam competências mínimas em matemática, classificados do nível quatro para melhor. Só 3,8% dos participantes brasileiros do Pisa alcançaram esse desempenho. Considerando que a população de jovens com 15 anos no Brasil é de aproximadamente 3,2 milhões, teríamos, no máximo, cerca de 122 mil jovens aptos para às carreiras de exatas. Esse número ainda cai no final do ensino médio, porque evidentemente há estudantes com habilidades mínimas que optam por outras carreiras profissionais. Em 2011, o Ministério da Educação anunciou que dobraria as vagas de engenharia. Mas, em 2009, os 1.500 cursos existentes ofereciam 150 mil vagas ao ano, tinham 300 mil matriculados (embora as vagas permitissem até 750 mil, já que o curso dura cinco anos) e formaram 30 mil. Uma alta evasão, para a qual contribui o déficit de habilidade matemática que o Pisa evidencia. Com conhecimentos tão pequenos de matemática, não surpreende que os alunos tenham dificuldades já no ensino médio. Um exemplo: para acompanhar gráficos nas aulas de física. A Austrália tem 38,1% dos seus alunos no nível quatro ou superior na avaliação de matemática do Pisa; o Canadá, 43,3%; a Coreia do Sul, 51,8%. O Brasil tem 3,8%. Esses países têm proporcionalmente pelo menos dez vezes mais alunos aptos para as áreas de exatas e tecnológicas. Mesmo com uma população bem menor, a Coreia pode formar muito mais engenheiros do que nós. A política educacional dos últimos 20 anos tem sido colocar os alunos na escola, uma etapa importante. Hoje, o desafio é melhorar, e muito, a qualidade do ensino fundamental. No momento em que se discute um novo Plano Nacional de Educação, deveríamos propor ações concretas para atacar a raiz do problema.

FERNANDO PAIXÃO, 63 físico, é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp

MARCELO KNOBEL, 44, físico, é professor do Instituto de Física Gleb Wataghin e pró-reitor de graduação da Unicamp



Alunos de escolas públicas ocupam só 1,4% das vagas das federais no Norte  (IG – Educação  08/09/12)

A região Norte terá o maior desafio do País para garantir o cumprimento do Projeto de Lei nº 12.711. Sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em agosto, a lei determina que todas as instituições federais reservem 50% de suas vagas para egressos de escolas públicas. E é na região Norte que está o menor percentual de vagas destinadas somente aos estudantes da rede pública: apenas 1,4% do total oferecido a cada ano. O iG calculou os dados a partir de um levantamento feito pelo Ministério da Educação sobre a quantidade de vagas do ensino superior distribuídas em diferentes tipos de cotas no País. As informações são do Censo da Educação Superior 2010, o mais recente até o momento. O estudo, obtido com exclusividade pelo iG, mostra que o caminho para que as universidades e institutos brasileiros cumpram a determinação ainda é longo. Apesar de os programas de ações afirmativas terem crescido nos últimos anos – e a maioria deles beneficiar os alunos que cursam o ensino médio, pelo menos, na rede pública, a mesma característica exigida na Lei nº 12.711 – a quantidade de vagas oferecida para esses candidatos está longe da meta de 50%. Das 282.661 vagas disponíveis nas federais em 2010, 47.470 são reservadas a quem estudou em colégios públicos. De acordo com o projeto, conhecido como Lei das Cotas, as instituições federais têm até 2016 para se adequarem. Porém, já a partir dos processos seletivos realizados para selecionar os estudantes que ingressarão nas universidades em 2013 (e que ocorrem este ano ainda), é preciso garantir um mínimo de 12,5% do total de vagas para esses alunos em todos os cursos e turnos. Isso significa, pelo menos, 35.333 vagas para os egressos de escolas públicas. O total disponível atualmente é maior do que o mínimo, mas não em todos os Estados e regiões. Das 26.722 vagas existentes em instituições da região Norte em 2010, apenas 379 estavam reservadas para a seleção de estudantes de escolas públicas. Na região Centro-Oeste, o índice também é menor do que o mínimo exigido para este ano: 9% das 29.647 vagas disponíveis são destinadas a programas de cotas para a rede pública. As instituições da região Sul são as que mais tem vagas em cotas dessa natureza. São 13.504 do total de 50.977, o que representa 26,5%. A maior parte é oferecida por universidades e institutos do Rio Grande do Sul (5.417). Em seguida, o maior percentual está na região Nordeste (20,6%). Ao todo, há 18.945 vagas ocupadas por egressos da rede pública dentre as 91.911 disponíveis.



“O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, é um marco do naturalismo  (Jornal Agora – Dicas – 09/09/12)

Nesta semana, a série do Agora sobre os livros obrigatórios para os vestibulares da Fuvest e da Unicamp, desenvolvida em parceria com o Cursinho da Poli, traz “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo. Publicada em 1890, a obra é considerada a mais importante do naturalismo brasileiro e tem como tema a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. Inspirado por livros científicos e de ficção de autores europeus, o mulato e militante da igualdade étnica Aluísio expressa em sua obra o inconformismo com a sociedade de seu tempo. O próprio cortiço, onde a história é ambientada, é um personagem. Ele traz de um lado João Romão, proprietário do cortiço e personagem principal, que representa o capitalista selvagem e explorador e, do outro lado, a “gentalha”, caracterizada como um conjunto de animais movidos pelo instinto e pela fome. “Deve-se ficar atento aos estereótipos, como Bertoleza, a escrava fugida, Rita Baiana, a mulata, Jerônimo, o português que se apaixona por Rita, e Pombinha, que pretende se libertar do cortiço pelo casamento”, diz o professor Roberto Juliano.