11/06/2012 / Em: Clipping

 


Nosso papel não é a alfabetização hipertardia   (Folha de S.Paulo – Opinião – 07/06/12)

Não há nenhum complô do governo Dilma contra as universidades federais. As universidades federais entraram em greve não por uma decisão do governo em diminuir a qualidade do ensino por meio de arrocho salarial. Ao contrário, elas entraram em greve pela razão de que há uma despreocupação do governo Dilma em tomar cuidado para que as universidades federais não se transformem em grandes colégios. Pela maneira como o nosso progresso se deu, acabamos por nos acomodar com a seguinte situação: se precisamos de pesquisa de ponta, parece que ficamos satisfeitos com o que faz a USP e a Unicamp. Se o nosso ensino médio público não funciona mais, parece que ficamos mais satisfeitos ainda em transformar toda a rede federal de ensino superior em um bom substituto para ele. Desse modo, que o Estado de São Paulo arque em manter universidades com o nome de universidades, pois aí as federais poderão ter professores melhor pagos que os de ensino médio para fazer melhor o que o ensino médio fazia. Não é que um governo sozinho tenha tomado essa decisão. Várias decisões de ordens diferentes foram tomadas nos governos FHC, Lula e agora Dilma. Todos colaboraram para que, no frigir dos ovos, esse fosse o resultado. Como resultado, o que está se configurando é exatamente isto: não é necessário que o professor de ensino superior federal tenha o salário que tinha, já que as federais não conseguiram despontar no ranking mundial. Ora, não há razão de termos mais ciência nacional, filosofia feita em casa e tecnologia para nós mesmos se, no cômputo maior, vamos trabalhar com importações e, no miúdo e contingente, com a USP e a Unicamp. Esse pensamento não corre pela cabeça de ninguém individualmente. No entanto, é exatamente isso que aparece como a intenção que poderíamos imputar à política brasileira dos últimos 18 anos. Ninguém intencionou isso. Mas o resultado de intenções diversas e, talvez, até contrárias a essa situação está levando a ela. O regime de trabalho de dedicação exclusiva do professor universitário deve ser preservado. Não se pode jogar fora a rede universitária federal como rede universitária. Ela não pode e não deve ser uma nova rede de alfabetização hipertardia, como ocorreu com as faculdades particulares criadas no boom do ensino superior gerado pela ditadura militar. Vivemos o desprestígio do professor universitário, porque já se sente que ele deixará de ser um produtor para ser um reprodutor de conhecimento. É um efeito colateral do tipo de desenvolvimento que estamos tendo. Um subproduto desse desenvolvimento é a busca de desenvolvimento pessoal de cada brasileiro sem que isso signifique ampliação de cultura. Pode significar conquista de diploma, mas não um salto para se transformar em um indivíduo melhor. Esse sonho do brasileiro de “se fazer pela educação” foi o sonho dos da classe média ou mesmo dos trabalhadores até 1970 ou 1980. Não é mais o que o brasileiro pensa. A presidente Dilma faria muito se pudesse retardar essa desgraça, até que a sociedade, talvez por sorte, venha a acreditar que vale a pena ter bons professores universitários e que para tal se deve pagá-los com um salário que, na entrada dos anos 1990, não era ruim. Pois, se a sociedade voltar a pensar assim, então o mecanismo normal do parlamento democrático, suscetível à população, funcionará em favor da universidade.

PAULO GHIRALDELLI JR., 54, é filósofo, professor da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro) e autor, entre outros, de “Lições de Paulo Freire” (editora Manole)

Comissão do Senado aprova projeto de cotas em federais  (Folha de S.Paulo – Cotidiano – 07/06/12)

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou ontem projeto que estabelece o sistema de cotas raciais e sociais nas instituições federais públicas de educação superior e escolas técnicas. O projeto determina que 50% das vagas nessas instituições sejam obrigatoriamente destinadas aos alunos que estudaram integralmente em escolas públicas no ensino médio. Essa cota, por sua vez, têm que ser dividida proporcionalmente entre negros, pardos e indígenas da população do Estado onde está instalada a instituição. A divisão deve seguir o tamanho da população de cada uma das raças na unidade federativa, segundo o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Isso significa que na Bahia, onde 73% são negros, haverá um número maior de vagas reservadas a alunos negros vindos de escolas públicas do que em Santa Catarina, onde apenas 9% da população se declara negra. Dentro dos 50% de vagas destinadas às cotas, o projeto determina, ainda, que metade delas seja reservada a alunos de famílias que recebem até 1,5 salário mínimo por integrante -para priorizar os estudantes de baixa renda do país. Segundo a ONG Educafro, 196 instituições públicas de ensino superior já adotam algum critério de cotas para ingresso dos candidatos. Relatora do projeto na comissão, a senadora Ana Rita (PT-ES) disse que o sistema misto de cotas é o mais “justo” para ser implantado em todo o país. Apenas quatro senadores votaram contra o projeto, que tem como autora a deputada Nice Lobão (DEM-MA). Os senadores Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP) e Lobão Filho (PMDB-MA) apresentaram votos em separado para estabelecer somente as cotas sociais, mas acabaram sendo derrotados. Com a aprovação na CCJ, o projeto segue para análise de outras duas comissões do Senado e ainda precisa passar pelo plenário da Casa. O projeto estava parado desde 2008, quando foi aprovado pela Câmara. A votação no Senado ocorre depois que o STF (Supremo Tribunal Federal), em abril deste ano, decidiu que o sistema de cotas raciais em universidades é constitucional.

Cotas e ilusões  (Folha de S.Paulo – Opinião – 09/06/12)

Hélio Schwartsman
Tramita no Senado um projeto que reserva 50% das vagas em universidades federais para egressos de escolas públicas. A proposta pode até ser justa, mas, se efetivada, representaria um golpe na excelência dessas instituições. Se há um campo onde somos vítimas de nossas ilusões cognitivas, é a educação. É que, em nossas cabeças, escolas servem para ensinar; assim, atribuímos todos os progressos observados no aluno ao colégio em que ele está, deixando de ver que a qualidade de uma instituição se deve muito mais ao nível de seu corpo discente do que a qualquer outro fator. Quem primeiro mostrou isso foi James Coleman, em 1966. No que provavelmente é o maior achado do “Coleman Report”, o autor mostrou que a extração familiar e a condição socioeconômica do estudante eram fatores muito mais importantes para explicar seu sucesso (ou fracasso) do que variáveis mais específicas como a qualidade dos professores, o gasto médio por aluno etc. De lá para cá, inúmeras pesquisas em diferentes lugares do mundo confirmaram o peso das variáveis família e status socioeconômico, a ponto de alguns estudiosos chegarem perto de afirmar que matricular o filho nas melhores escolas é irrelevante. É preciso um pouco de cuidado na interpretação desses achados, pois há uma assimetria fundamental. Alunos brilhantes se saem bem não importando muito qual escola tenham frequentado. Mas, para os que estão na faixa mediana ou abaixo dela, há benefício significativo em estudar com alunos mais preparados, que os “puxam” para cima. Democratizar-se e manter a qualidade são objetivos até certo ponto contraditórios. Não que seja impossível conciliá-los, mas existe um número ótimo de alunos menos preparados que uma instituição pode incorporar antes de comprometer a qualidade. Um corte linear de 50% em todas as universidades federais dificilmente é a melhor resposta.

O futuro é engenhoso  (Folha de S.Paulo – Especial – 10/06/12)

Houve um tempo em que engenheiro, depois de se formar, virava suco -caso de um profissional que ficou famoso nos anos 1980 por, graças à falta de perspectiva em sua área, abrir uma lanchonete em São Paulo batizada de O Engenheiro que Virou Suco. Três décadas depois, o enredo é outro. “Hoje, não falta emprego”, diz José Tadeu da Silva, 58, presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia e Agronomia). Para o futuro, o cenário é ainda mais otimista. Segundo a entidade, os cerca de 40 mil engenheiros formados anualmente no Brasil não serão suficientes para atender à demanda de 300 mil profissionais da área necessários para obras e investimentos previstos para os próximos cinco anos, como os da Copa do Mundo, das Olimpíadas, do PAC e do petróleo do pré-sal. Mas não é apenas a retomada de investimentos em infraestrutura que aquece o setor. “A necessidade de inovação tecnológica como fator de competitividade das empresas pressiona a demanda por engenheiros”, afirma James Wright, 61, coordenador da FIA (Fundação Instituto de Administração). Como resultado, sobra trabalho e faltam profissionais em dia com as exigências tecnológicas do mercado. “Depois de duas décadas perdidas, sem investimentos, grande parte dos engenheiros migrou para outras áreas, como o mercado financeiro”, afirma Guilherme Melo, 55, diretor de engenharias, ciências exatas, humanas e sociais do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Para completar o quadro, a evasão de alunos nas faculdades de engenharia é tradicionalmente alta. “Algo entre 40 e 50% dos alunos abandona o curso, que é longo e difícil”, afirma Melo. Quem consegue o canudo, porém, encontra ofertas de remuneração que costumam compensar o esforço. A categoria tem piso salarial de R$ 5.600 mil.

NOVO INTERESSE
Com as boas perspectivas de crescimento, começa a ressurgir o interesse pela carreira. Neste ano, o curso de engenharia civil da USP São Carlos desbancou o de medicina no primeiro lugar do ranking de cursos mais concorridos da Fuvest, com 52,27 candidatos por vaga. Em 2010, com disputa de 26,78 candidatos por vaga, o curso era o nono mais disputado. O número de formandos também vem crescendo. No ano passado, 38.148 novos engenheiros chegaram ao mercado,172% a mais que 2002, segundo os registros de profissionais emitidos pelos Creas (Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia). Novos cursos também foram criados. O governo paulista abriu neste ano 11 cursos de engenharia na Unesp (Universidade Estadual Paulista), somando 440 novas vagas. Mas é preciso ir além. As empresas públicas e privadas não só encontram dificuldades para contratar jovens profissionais como também especialistas sênior. Levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) revela que dos cerca de 10 mil doutores formados por ano, apenas 10% são da área.

Engenharia de alimentos  (Folha de S.Paulo – Especial – 10/06/12)

O primeiro curso de engenharia de alimentos do Brasil e pioneiro na América Latina (o da Faculdade de Tecnologia de Alimentos da Unicamp, que mais tarde se tornaria Faculdade de Engenharia de Alimentos) foi implantado há mais de 40 anos. De lá para cá, a oferta de cursos nessa área subiu para 80 (13 em São Paulo). O setor deu um salto e tanto, devendo alcançar neste ano um faturamento de R$ 400 bilhões, segundo a Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia). A indústria é o setor que mais emprega esses profissionais. Mas, ao contrário de segmentos afetados pela crise econômica internacional, o cenário para quem opta por esse ramo da engenharia é bastante promissor. O consultor Juliano Ballarotti, 32, gerente da Hays, empresa de recrutamento, afirma que a ascensão e o poder de compra da classe C impulsionaram a abertura de um nicho de mercado no ramo de alimentos industrializados. “As empresas estão se segmentando por classes, criando assim novas oportunidades de trabalho.” Segundo o consultor, com perfil versátil e formação multidisciplinar o engenheiro de alimentos pode atuar nas áreas de controle de qualidade, projetos agroindustriais, pesquisa e desenvolvimento. Giovana Tommaso, 39, coordenadora do curso de engenharia de alimentos da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, lembra que, por sua formação abrangente, o profissional desenvolve habilidades para criar novos produtos, elaborar processos, atuar em vendas técnicas, em gerenciamento de pessoas e também nas áreas de qualidade e segurança alimentar. “A indústria de alimentos é o principal empregador, mas há também espaço nas usinas de álcool, centros de pesquisa, fábricas de aditivos, de ração e em biotecnologia, além de redes de supermercados e restaurantes.” O estágio obrigatório no quarto ano do curso facilita a entrada dos universitários no mercado de trabalho.

UNICAMP
VESTIBULAR 2013: INSCRIÇÕES DE 20/8 a 14/9 no site
www.comvest.unicamp.br
CONCORRÊNCIA: 8,7 candidatos/vaga



‘Brasil não está na periferia do saber’, diz responsável pela internacionalização da Universidade Princeton   (Veja – Educação – 09/06/12)

Entrevista: Jeremy Adelman

Universidades de todos os cantos do mundo estão engajadas no processo de internacionalização. Enviar estudantes ao exterior e atrair jovens estrangeiros é motivo de preocupação também no Brasil, que ainda amarga índices tímidos em relação a emergentes como China e Índia. Nos Estados Unidos, o destino mais procurado por universitários, existem 724.000 estrangeiros no ensino superior: quase 158.000 são chineses e cerca de 104.000 são indianos, enquanto os brasileiros representam menos de 9.000, de acordo com o Institute of International Education. O Brasil também é pouco atrativo. A Grã-Bretanha, por exemplo, abriga 32.683 estudantes americanos, ante os 3.099 conterrâneos de Barack Obama que estão por aqui. Ficamos atrás de nações como República Checa e até Costa Rica na preferência dos americanos. A despeito dos números tímidos, o Brasil é atrativo para instituições de ponta. A avaliação é de Jaremy Adelman, diretor do conselho para a internancionalização da Universidade Princeton, nos Estados Unidos, e historiador especialista em América Latina. “O Brasil precisa se libertar desse complexo de inferioridade, desse estereótipo de que está sempre na periferia do mundo”, diz. “O fato de não figurar entre os mais bem colocados [nos rankings internacionais] não significa que aqui não existam centros de excelência ou estudantes e profissionais excepcionais.” Adelman esteve no Brasil a convite da Fundação Estudar, que oferece bolsas de estudo a brasileiros no país e no exterior, e conversou com o site de VEJA. Confira a entrevista a seguir. O que, afinal, significa ‘globalização do ensino superior’? Cada sistema tem uma definição particular para esse termo. Em termos gerais, é a capacidade do saber intelectual de transcender as barreiras nacionais. O aspecto mais conhecido desse processo é o intercâmbio de estudantes e pesquisadores. É criar condições para que eles extrapolem as fronteiras de seus países em direção a uma educação mais global.