11/09/2012 / Em: Clipping

 


Importar engenheiros  (Folha de S.Paulo – Editorial – 11/09/12)

Noções preconcebidas e precipitação são as fontes do erro, ensinou o filósofo e matemático francês Descartes já no século 17. Recusar açodada e impensadamente a ideia de facilitar a entrada no Brasil de estrangeiros qualificados -como engenheiros portugueses- conduzirá a equívocos danosos para o interesse estratégico do país. A reflexão se impõe diante das respostas irrefletidas à defesa, pelo ministro luso dos Negócios Estrangeiros, Paulo Portas, do reconhecimento de diplomas de engenheiros e arquitetos de seu país interessados em trabalhar no Brasil. Há que ser mais cartesiano ao sopesar prós e contras da questão. O Brasil vive uma carência aguda -em quantidade e qualidade- desses profissionais do método e do rigor, herdeiros da atitude de Descartes perante as coisas do mundo. Segundo estimativa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil precisa formar, até 2020, entre 70 mil e 95 mil engenheiros a cada ano. A Associação Brasileira de Ensino de Engenharia, porém, estima que em 2010 se tenham diplomado só 41 mil. Decerto não se poderá superar tamanha defasagem só com a importação de engenheiros prontos, de Portugal ou alhures. Agiu certo o Ministério da Educação (MEC), portanto, ao fixar a meta de dobrar para 300 mil as vagas de cursos de engenharia oferecidas a cada ano no Brasil. Mas isso tampouco seria suficiente para suprir o deficit, ressalvaram os físicos Fernando Paixão e Marcelo Knobel, da Unicamp, em artigo na Folha, anteontem. A evasão nas graduações em engenharia, assinalam os professores, é alta demais. Só um quinto a um quarto dos ingressantes termina por formar-se -segundo os autores, porque lhes faltam noções básicas de matemática, que deveriam adquirir no ensino médio. As notas de secundaristas brasileiros no Pisa, exame internacional padronizado, são devastadoras: 88% deles não conseguem ler gráficos, ferramenta revolucionária propiciada pela invenção do sistema de coordenadas cartesianas. Da qualidade do ensino médio à abertura de vagas de engenharia, assim, são muitas as frentes de batalha para sanar a deficiência nacional. E não há por que excluir, de antemão, o recurso a profissionais estrangeiros -desde que submetidos à avaliação expedita da solidez de seus conhecimentos. O problema, em realidade, é maior que o da engenharia ou o dos portugueses. O Brasil precisa desenvolver, paulatina e criteriosamente, uma política racional para atrair imigrantes qualificados de qualquer parte, como fazem os Estados Unidos -onde nacionalismo e cartesianismo se combinam com enorme eficiência, e não por acaso produzem muitos dos quadros que governam o mundo.

Negros e o direito  (Folha de S.Paulo – Opinião – 11/09/12)

A Universidade Cheyney, mais antiga universidade negra norte-americana, foi fundada em 1837, na Pensilvânia, no regime da escravidão. A Universidade Howard, em Washington D.C., formou os primeiros negros em direito, em 1869. Além de Martin Luther King, prêmio Nobel da Paz, Toni Morrisson, prêmio Nobel de Literatura, Oprah Winfrey, empresária da comunicação, e Thurgood Marshall, ministro da Suprema Corte, milhares de personalidades negras americanas se graduaram em uma das atuais 107 universidades historicamente negras daquele país, tradicionalmente conhecidas pela sigla HBCUs. Centenárias, públicas e privadas e originadas na lógica do apartheid, constituíram o embrião das políticas públicas afirmativas norte-americanas que em pouco mais de 40 anos aumentou o percentual de negros no ensino superior de 13% para 30%. Professores, pesquisadores, cientistas e profissionais liberais negros se tornaram numerosos e respeitados, foram integrados nos cargos de prestígio, na estética social e além dos milhares de postos políticos de destaque -Obama é um deles. No Brasil, somente a partir de 2001 a luta incansável do movimento negro, apoiada por destacados setores da vida nacional, produziu uma consciência inovadora, proativa e compromissada do governo, do Congresso e do ambiente jurídico na construção de medidas afirmativas de promoção e valorização do negro. São muitas as expressões do esforço concentrado para queimar etapas e diminuir o nível das desigualdades que separam os negros dos demais brasileiros. Entre elas, a lei que contempla a história do negro e a história da africa na educação, as cotas nas universidades públicas e nas universidades privadas através do ProUni, a lei que institui o Estatuto da Igualdade Racial, a lei 180/2008 que reserva percentual para os negros nas cotas sociais e a ação das cortes estaduais, federais e do Supremo Tribunal Federal, que repeliram centenas de recursos que questionavam a constitucionalidade dessas medidas. Orgulhosamente, a Faculdade Zumbi dos Palmares tem sido uma contribuição destacada desse esforço. Primeira instituição de ensino superior comunitária do país, criada para inclusão do negro no ensino superior de qualidade e no mercado de trabalho qualificado, nos seus oito anos de vida tem auxiliado a quebrar paradigmas, valorizar a identidade, fortalecer a autoestima e criar protagonismo e oportunidade social para o jovem negro. Uma verdadeira ação afirmativa da sociedade civil. Com o apoio de importantes atores sociais e colaboração efetiva de parceiros do ambiente corporativo, honrosamente entregamos os primeiros 70 jovens advogados do nosso curso de direito, devidamente reconhecido pelo Ministério da Educação e recomendado pela OAB, estando grande parte dos formandos efetivados nas empresas parceiras. É pouco, sabemos. Mas acreditamos que iniciativas dessa natureza poderão ajudar a consolidar a educação como estratégia de valorização da diversidade racial e contribuir para o país andar mais rápido na igualização de oportunidades e na participação social de todos. Advogados e juristas irão auxiliar a tornar nosso ambiente jurídico mais diverso e plural. De fato e de direito.

JOSÉ VICENTE, 53, doutor em educação pela Universidade Metodista de Piracicaba, é reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares



USP é a primeira universidade latina entre as 700 melhores do mundo  (O Estado de S.Paulo – Educação – 10/09/12)

A USP ocupa a 139ª posição entre as 700 melhores universidades do mundo, de acordo com pesquisa divulgada nesta segunda-feira, 10, pela QS World Universities, organização que avalia o desempenho de instituições de ensino internacionalmente. Desde 2011, a universidade subiu 30 posições e lidera hoje o ranking entre as instituições latino-americanas. É seguida pela Universidad Nacional Autónoma de México (149ª). “A reiteração de classificações sempre melhores da USP nos mais variados rankings mundiais nos últimos três anos demonstra que a universidade é estrela crescente tanto nacional quanto internacionalmente”, diz João Grandino Rodas, reitor da USP. “Isso assegura que a USP se encontra em um caminho certo e ascendente.” Duas outras duas universidades brasileiras estão entre as Top 400: Unicamp (228ª) e UFRJ (333ª). As 10 universidades melhores colocadas da América Latina melhoraram seus desempenhos em comparação ao ano anterior. Pela primeira vez, o MIT está no topo da lista, a frente, inclusive, de Crambridge e Harvard, que ocupam a segunda e terceria posição, respectivamente. Foram consultados mais de 46 mil professores e 25 mil instituições. Os resultados são computados a partir da soma de uma série de fatores: reputação acadêmica (40%), reputação do empregador (10%), corpo docente por proporção de alunos (20%), citações por faculdade (20%), corpo docente internacional (5%) e estudantes internacionais (5%). “Com universidades do Brasil, México e Chile atualmente entre as 200 melhores colocadas, o ranking sinaliza para América Latina como uma das regiões mais dinâmicas e de mais rápido crescimento”, afirma Ben Sowter, coordenador de pesquisa da QS. “A USP está atualmente entre as 100 primeiras no mundo tanto entre acadêmicos e empregadores, o que é uma excelente conquista.” 72 países estão entre as 700 melhores universidades do mundo – um recorde segundo a organização. Entre as 100 primeiras colocadas, aproximadamente 10% possuem mais estudantes internacionais do que em 2011. “A aceleração inédita de recrutamento internacional é reflexo da busca global por talentos”, diz Sowter. De acordo com o coordenador, neste ano, mais de 120 mil estudantes internacionais foram admitidos por 500 universidades, o que sugere que o número total de estudantes fora de seus países seja superior a 4 milhões.