11/12/2009 / Em: Clipping

 


A revolução do Enem   (Correio Popular – Opinião – 11/12/09)

Os fatos lastimáveis que provocaram, no início do mês de outubro, o adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem, acabaram por anuviar uma verdadeira revolução que está acontecendo na educação brasileira. Revolução silenciosa, mas efetiva. Quando foi descoberto que exemplares do exame haviam sido furtados de uma gráfica na Grande São Paulo, a atitude do ministro Fernando Haddad não poderia ter sido outra, senão de cancelar o exame e remarcá-lo. Afinal, estava em jogo a “pedra de toque” de um grande projeto educacional que está se desenhando no Brasil, que é a mudança na estrutura curricular das escolas brasileiras. O ensino no nosso País, seja ele público ou privado, está baseado na ideia de acúmulo de conteúdos. Muitos desses conteúdos que aprendemos na escola jamais foram ou serão utilizados em nossas vidas. As escolas geralmente buscam passar muita informação que não são processadas pelos alunos e essa é uma das chaves para entendermos por que nossa educação vai mal. Devemos lembrar que informação e conhecimento são duas coisas distintas. Você pode ter contato com muitas informações, decorar muita coisa, mas para se ter conhecimento é necessário saber processar essas informações. Em suma, ter um raciocínio crítico e um espírito criativo. A educação escolar brasileira ainda está assentada sobre a lógica do vestibular. Um processo restritivo, para poucos, como a própria terminologia indica. O vestibular foi criado em 1911 para acesso aos cursos de medicina e direito, pela simples razão que não havia vaga para todos. Foi devido a seu caráter de “peneira” exclusivista que, com o tempo, o exame ganhou esse nome — trata-se de uma referência à palavra vestíbulo, pequeno espaço entre a rua e a porta de entrada de um prédio, numa alusão ao fato de ser um local reservado e restrito a poucos. (…) Na escola pública, o vestibular teve um impacto menor, mas também foi significativo, visto que os sistemas públicos não poderiam ficar tão distantes do novo padrão de qualidade que o mercado do vestibular estava propondo. Para se ter uma ideia do que tento aqui descrever ao leitor, tome-se o exemplo do ensino de Física. Uma pesquisa da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) entre dezenas de países desenvolvidos e emergentes, revela que o Brasil é o país que tem o conteúdo mais completo do ensino de física para o Ensino Médio. Por outro lado, os nossos alunos têm o pior desempenho de aprendizagem. Ou seja, ensina-se muita coisa e aprende-se pouco. A lógica do Enem é diferente. O Exame Nacional do Ensino Médio foi criado em 1998 como uma avaliação da qualidade do Ensino Médio brasileiro que introduziu as ideias de avaliação por competência e habilidades, exigindo-se raciocínio lógico, criatividade e fazendo uma inteligente fusão de conceitos de várias disciplinas. Para ir bem no Enem não basta ao aluno decorar os conceitos e sim saber aplicá-los em situações práticas e que envolvem o cotidiano e o contexto social. Recentemente, o MEC buscou dar um salto de qualidade no Enem. Assim, ele deixou de ser apenas uma avaliação de larga escala e passou a ser o próprio vestibular para muitas universidades públicas e privadas. A tendência é de que, com o tempo, todas as universidades brasileiras utilizem a nota do Enem como critério exclusivo para seleção das vagas. Mesmo as universidades mais conservadoras, como a USP, tendem a modificar o seu vestibular para seguir a lógica implantada pelo Enem. No início de dezembro, a Unicamp anunciou que o uso da nota do Enem passará a ser obrigatório. O objetivo é deixar em pé de igualdade todos os candidatos. Loas à instituição. O resultado de tudo isso é fácil de entender: mudando-se o vestibular, as escolas são forçadas a mudar seus currículos, que terão de relacionar mais os conteúdos com a realidade social, desenvolver mais o espírito criativo e buscar mais a interdisciplinaridade. O próximo passo é acabar com as disciplinas escolares como as conhecemos hoje e introduzir o ensino em grandes áreas do conhecimento. Bem, mas isso é assunto ainda para o futuro. Por enquanto, a revolução do Enem é bem-vinda e tomara que nenhum ladrãozinho barato atrapalhe mais uma vez esse grande passo para a educação brasileira.

José Adinan Ortolan, mestre em Política e Gestão da Educação, é secretário da Educação de Cordeirópolis.