12/07/2017 / Em: Clipping

 

Cotas não desligam motor de desigualdade da USP (Folha de S. Paulo – Colunas – 12/07/2017)

A Universidade de São Paulo (USP) é um motor de concentração de renda. Todos os meses, transfere cerca de R$ 390 milhões, pagos por quase todos os 44 milhões de paulistas, a 90 mil alunos, professores e funcionários da universidade. Ou seja: 0,2% da população, uma pequena elite de servidores públicos e estudantes privilegiados, ficam com 4,5% de toda a arrecadação do Estado (ou 5% do ICMS). Do ponto de vista da movimentação financeira, a universidade pública e gratuita é um Bolsa Família ao contrário. Por causa de transferências como essa (e principalmente a aposentadoria, ainda integral na maior parte dos casos, de professores, juízes e militares), a desigualdade no setor privado é menor no Brasil do que quando o Estado entra na conta com impostos e pagamentos. A USP aprovou na semana passada cotas sociais e raciais. Em 2018, 37% das vagas deverão ser destinadas a alunos de escola pública —proporção que subirá para 50% em 2021. Dessas vagas, 37% ficarão com candidatos negros e pardos. A decisão é bem-intencionada, mas vai simplesmente mexer um pouco na aparência dos privilegiados. Do mesmo modo, 0,2% da população continuará vivendo às custas de 99,8% dos paulistas —boa parte deles, pobres e pardos. A imensa maioria dos jovens pobres continuará fora da universidade —e financiando, ao pagar impostos sobre o consumo, os estudos de uma minoria abençoada. Teremos milhões de empregadas domésticas e pedreiros bancando as benesses de um pequeno grupo de filhos de empregadas domésticas e pedreiros. Vale lembrar que só um quarto dos brasileiros com mais de 25 anos completou o ensino médio. Quem está preocupado com a concentração de renda precisa torcer para que essa montoeira de dinheiro se disperse. Um modo de fazer isso é aumentando a eficiência da universidade, para que menos dinheiro dos paulistas atenda mais estudantes. Outra forma de desligar esse motor de desigualdade é gastando menos com o ensino superior e mais com o ensino básico. O Brasil gasta quatro vezes mais com um universitário do que com um estudante do Ensino Médio, enquanto na média dos países da OCDE o custo dos universitários é uma vez e meia mais alto. Cobrar mensalidades também diminuiria a injustiça. Até os cotistas, que não podem pagar mensalidades enquanto estudam, poderiam se comprometer a bancar parte do custo alguns anos depois de formados, como no modelo de crédito educativo. Mas muitos professores, funcionários e alunos, quase todos defensores das cotas, levantam cartazes e organizam protestos quando se fala em cobrança de mensalidade, otimização ou corte de gastos. Comportam-se, assim, como um grupo de privilegiados contrários à redução da desigualdade no Brasil.

 


“As cotas raciais são uma política liberal” (Carta Capital – Política – 12/07/2017)

Professora do Departamento de Sociologia da USP afirma que as ações afirmativas também possuem um viés meritocrático

Professora do Departamento de Sociologia da Faculdade Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH/USP), Márcia Lima é uma das 120 negras que lecionam entre os 6 mil docentes da Universidade de São Paulo. Defensora incondicional da cotas raciais, Lima não considera esta política pública uma revolução. “Temos sempre que pontuar que essa é uma política liberal, pois isso é o princípio de uma sociedade de classes, de uma sociedade individualista e capitalista.” Signatária do abaixo-assinado que reuniu cerca de 300 professores da USP a favor da votação de cotas raciais no Conselho Universitário da instituição, Lima afirma que, além da necessidade de inclusão das minorias, é preciso reconhecer a inexistência de uma elite negra no País, algo necessário para as próximas gerações terem mais acesso a oportunidades. Em entrevista a CartaCapital, a socióloga explica a necessidade da adoção da política e por qual motivo ela produz impactos para além dos muros das universidades.

CartaCapital: Qual percurso histórico é importante recuperar quando falamos sobre políticas de cotas raciais?

Márcia Lima: A decisão que iniciou o debate foi quando a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) se tornou a primeiras universidade pública a adotar política de cotas. Nesse momento o movimento social dentro e fora da universidade começou a se organizar para que outras universidades seguissem o processo. Mas o fato que antecede foi a Conferência de Durban, em 2001, quando o Brasil foi signatário do tratado que o compromete com o combate à discriminação e à xenofobia.  Desta conferência, é importante destacar duas coisas: houve um preparo do Brasil para participar da conferência e que essas discussões começaram no governo do Fernando Henrique Cardoso. Em 1996, ele lançou um documento intitulado “Construindo a verdadeira democracia racial no Brasil”, onde ele criou o programa nacional de ações afirmativas. Com certeza a forma como o ex-presidente Lula instituiu as ações afirmativas em seu governo pela criação da Secretaria de Igualdade Racial, pela ideia de igualdade racial, foi um fator que realmente talvez outro presidente teria feito de outra forma. Mas nenhum presidente que assumisse naquele momento poderia se isentar de enfrentar essa questão.

CC: O discurso daqueles que são contra as cotas raciais é frequentemente baseado na meritocracia. Isso prejudica o debate?

ML: O que as pessoas chamam de mérito? Ninguém em sã consciência vai dizer que é contra a meritocracia. Quando você nega o valor da meritocracia você diz que não importa o empenho, a dedicação. Mas as políticas de cotas não se opõem a isso na medida em que sociedades muito desiguais não possuem parâmetros para medir a meritocracia. Se você tem muita desigualdade de oportunidades, o resultado que cada um desses indivíduos alcança não é unicamente em função de seus próprios méritos. E outro aspecto é que a política de cotas tem seu lado meritocrático. Primeiro porque as pessoas vão competir para entrar na universidade, a reserva de vagas não elimina a competição. O terceiro aspecto em relação ao mérito é colocar o vestibular, no caso a Fuvest, como um balizador de mérito inquestionável. O vestibular é uma forma de seleção. Os comentários negativos dizem coisas como não querer ser atendido por um médico que foi cotista, por um advogado cotista. A Fuvest não diploma ninguém, quem diploma é a Universidade de São Paulo. Esse aluno vai ingressar por um sistema de cotas mas vai passar pelas mesmas avaliações que qualquer aluno. Não existe um sistema diferenciado, um conteúdo diferenciado. Se dá ao processo seletivo um peso muito excessivo, e isso é um problema.

CC: Esses argumentos se sofisticaram ao longo do tempo?

ML: Os argumentos de fundo serão sempre os mesmos porque as pessoas são contra o princípio da ação afirmativa. As políticas de ação afirmativas são políticas públicas ou privadas voltadas para corrigir desigualdades relacionadas a determinados grupos. Esse é o princípio. A oposição é com a ideia de criar essa diferença, portanto o argumento de fundo não muda. A questão foi discutida e aprovada pelo Supremo Tribunal Federal, então já é constitucional. Você apelar pro princípio de igualdade numa sociedade que gera tanta desigualdade gera contrassenso. Não tem como corrigir desigualdades tão profundas se você não atenuar especificamente nos grupos mais atingidos. Tem que melhorar a educação básica, tem que existir igualdade de direitos, mas enquanto a sociedade não produz direitos iguais ela tem que corrigir as formas de acesso à oportunidade.

CC: Outro ponto frequentemente levantado é a possibilidade de fraude na autodeclaração feita pelo candidato para se adequar ao perfil de preto, pardo ou indígena. Isso prejudica a política?

ML: A gente tem fraude em todos os programas, existe essa possibilidade. A exemplo do seguro desemprego. Ou seja, isso é residual na política, em todas as políticas que você tem. Existem grandes fraudadores nacionais da previdência, por aí a fora. Não é uma coisa que não dá pra controlar e não se deve controlar. Eu defendo radicalmente a autoclassificação. O indivíduo tem que se autodeclarar, e a partir do momento que tem essa postura, ele lida também com as consequências da sua classificação.

CC: A USP foi uma das últimas a adotar a política de cotas no seu processo seletivo. Como você enxerga a demora da maior universidade do País a tomar essa decisão?

ML: Existe uma confusão muito grande na ideia de uma universidade de elite com uma universidade de elite econômica, de hegemonia branca e massivamente branca. A ideia de formar uma universidade de elite é de uma universidade de qualidade, que forma os principais pesquisadores, as principais mentes do país. Forma pessoas que formarão outras pessoas. A ideia de uma universidade de elite é de um ensino de ponta, com recursos, com condições de fazer diferenças na produção de conhecimento. Uma universidade de elite não é uma universidade racialmente hegemônica. Então, é assustador que a USP não tenha se preocupado de fato em entender o quão importante é formar uma elite que conviva com a diferença, com trajetórias diferentes, pessoas diferentes, origens sociais e econômicas diferentes. É uma resistência que passa por uma concepção equivocada do que é ser uma universidade de elite.

CC: Um novo perfil de estudantes vai começar a entrar na USP. A universidade terá que se adequar a esse novo perfil?

ML: Isso é uma agenda para não repetirmos erros históricos. Espero que universidade esteja aberta para criar um espaço de acolhimento. Mas tem-se a ideia que os alunos que vão competir para entrar na USP pelas cotas não sabem falar, não sabem ler, não sabem escrever. Eles já chegaram em algum lugar para poder estar ali. Sobreviveram dentro do sistema educacional brasileiro, o que não é pouca coisa. Eles vão acompanhar e se não acompanhar vão receber a nota de quem não acompanhou. Mas é fato que a USP precisa pensar em políticas de permanência. A proposta de uma uma universidade mais inclusiva não termina no vestibular, começa nele. Ou seja, ela não está preparada mas terá que aprender como as outras aprenderam.

 


Saiba tudo sobre as mudanças no Enem (Extra – Notícias – 12/07/2017)

Em busca da sonhada vaga no curso de Medicina, a estudante Izabella Bernardo Torres, de 20 anos, fará o Enem pela quarta vez. A mudança no modelo de exame, ao qual ela estava acostumada, causou apreensão. Mas uma novidade foi uma boa surpresa: a distância de uma semana entre uma prova e outra. — Vai dar para me acalmar mais. Não vai mais ser aquele fim de semana que vai decidir a minha vida — avalia Izabella.  Na opinião do professor Fellipe Rossi, esses sete dias serão um bom momento para revisar os assuntos que caem no segundo domingo de provas. — São questões que exigem dos alunos nomenclaturas, fórmulas, processos biológicos. Essa semana entre provas não é um momento para aprender, mas sim para rever matérias que exigem memorização — diz ele, que aprova a mudança: — Antes, os alunos ficavam muito desgastados. Uma boa dica é criar formulários com os principais elementos que precisam ser lembrados para facilitar a memorização das informações.

Fique atento às mudanças

Dois domingos: O exame será realizado em dois domingos consecutivos: nos dias 5 e 12 de novembro. Até 2016, a prova era aplicada em dois dias seguidos, num único fim de semana, o que tornava o processo mais exaustivo. Com a mudança, os candidatos terão uma semana para descansar a mente, revisar conteúdos e memorizar fórmulas.

Redação no 1º dia: Redação, Linguagens e Ciências Humanas ficam juntas no primeiro domingo, que terá cinco horas e meia de prova. A orientação é que o candidato comece pela redação, já que ela tem mais peso nos processos seletivos. Mas não se deve gastar mais de uma hora nessa etapa.

Exatas no 2º dia: No segundo domingo, serão reunidas as questões de Matemática e Ciências da Natureza. Como são temas mais trabalhosos, que exigem cálculos e análises de gráficos e tabelas, uma importante dica é que o candidato faça primeiro as questões que domina e deixe para o fim as que não sabe. Se o tempo estiver acabando, ele poderá chutar onde tinha menos chance de acertar.

Fim do diploma: Uma das funções do Enem entre 2009 e 2016 era ser usado por adultos para conseguir o certificado de conclusão do ensino médio. A partir de 2017, o exame perde essa função: os adultos que não terminaram o ensino médio na idade regular terão que fazer o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja).

Alívio para sabatistas: Até o ano passado, o primeiro dia do Enem acontecia num sábado. Com isso, milhares de sabatistas (religiosos que guardam o sábado) ficavam confinados em salas nos locais de provas entre as 13h e o horário de início de suas provas, após o pôr do sol. Este ano, a prova será realizada em dois domingos, de forma que não será mais preciso organizar uma logística específica para os sabatistas.

Cadernos de prova: Neste ano, os cadernos de prova levarão, impresso, o nome de cada candidato, além de seu número de inscrição. Dessa forma, não será mais necessário que o candidato indique a cor do caderno de provas escrevendo a frase indicada no cartão de respostas. Até 2016, quem não fazia isso recebia nota zero, já que não havia como saber a ordem das perguntas.

Mais isentos: Até o ano passado, só eram isentos de pagar a taxa do Enem os candidatos que estavam no terceiro ano do ensino médio de escolas públicas. A partir deste ano, pessoas inscritas no CadÚnico, cadastro do governo federal que reúne famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, também têm isenção.

Fim dos rankings: Outra novidade é que as notas do exame não serão mais divulgadas por escola, o que vai inviabilizar a criação de rankings. A medida foi elogiada por especialistas que dizem que, ultimamente, a classificação passou a ser diretamente associada à qualidade do projeto pedagógico das escolas. Além disso, cursos passaram a usar a posição nos rankings como estratégia de marketing.

 


Mudanças no Enem 2017 impactam na prova de Redação (Correio – Detalhe – 12/07/2017)

Prova muda para o primeiro dia e passa por troca na empresa que fará a correção

Quem já está acostumado a treinar para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos últimos anos pode ter um estranhamento com o pacote de alterações da edição de 2017. O próprio site do exame lista oito novidades para este ano. Entre as principais mudanças, estão a realização das provas em dois domingos consecutivos, nos dias 5 e 12 de novembro, e a transferência da prova de Redação para o primeiro dia. As alterações dividiram as opiniões dos estudantes. É que, nas edições anteriores, o primeiro dia era reservado para as provas de Ciências Humanas e da Natureza, enquanto as provas de Linguagens, Redação e Matemática ficavam para o segundo dias. Agora, Linguagens, Ciências Humanas e Redação serão no primeiro domingo; Matemática e Ciências da Natureza acontecerão no segundo. A decisão foi tomada pelo Ministério da Educação (MEC) após consulta pública. O professor de Redação do cursinho Análise Vestibular, Neldo Neto, explica que, agora, a divisão é por áreas de conhecimento, separando-as entre Humanas e Exatas. Segundo ele, em geral, alunos que têm maior afinidade com a área de Humanas receberam bem a notícia. “Eles disseram que conseguem se organizar melhor juntando suas áreas de interesse”, conta. Já os de Exatas acreditam que a ideia de unir todas as provas de cálculos num único dia deixará a prova mais pesada. A preocupação com a prova de Redação – que representa 20% da nota final do candidato – também gera críticas dos dois lados. Para Briza Quaresma, 17, aluna do 3º ano do Colégio Vitória Régia, no Cabula, a mudança foi positiva. “Eu prefiro assim porque acho que diminui a minha ansiedade, justamente por causa do peso que a redação tem”. Já a colega de escola, Simone Galvão, 16, não aprova. “Acho que a prova ficará muito pesada, com muita carga de texto no primeiro dia e vai ser mais difícil administrar o tempo”, defende.

Sabatistas

Ainda de acordo com Neldo, a decisão de realizar a prova aos domingos também foi alvo de reclamações devido às dificuldades de locomoção nestes dias em Salvador. “Mas, quando dialogamos sobre a situação dos sabatistas, eles passam a ser mais compreensivos. A espera que esse grupo passava era um respeito que desrespeitava, então essa medida foi positiva”, avalia. Com a aplicação das provas aos domingos, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) tenta solucionar o antigo problema do confinamento dos candidatos sabatistas, que, por convicções religiosas, precisavam ficar isolados mais de cinco horas aguardando o pôr do sol para dar início à avaliação. Também neste ano, os cadernos de prova serão personalizados, constando na capa o nome e o número de inscrição de cada candidato.

Nada de certificado

O MEC anunciou, em janeiro deste ano, que a partir de agora o Enem não mais servirá para atestar a conclusão do ensino médio, servindo exclusivamente para o acesso ao ensino superior. A função ficará com o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), que já é aplicado pelo Inep anualmente para conclusão do ensino fundamental. O ministro da Educação, Mendonça Filho, garantiu que o Encceja seria ampliado a partir deste segundo semestre para fornecer a certificação.

Isenção

Dessa vez, o benefício de isenção da inscrição foi concedido aos estudantes de escola pública concluintes do terceiro ano do ensino médio e alunos de baixa renda registrados no programa Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico). No instante da inscrição, o Inep cruzou dados da base do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) e do Censo Escolar para checar as informações fornecidas pelos candidatos. Com isso, o órgão deixou de conceder as isenções baseadas apenas na autodeclaração de situação econômica. Agora, caso o estudante isento da taxa não compareça ao Enem, este só poderá ter a isenção no ano seguinte se comprovar a ausência por meio de atestado médico ou documento oficial. De acordo com dados do Inep, mais de 6,7 milhões de brasileiros se inscreveram no exame – com possibilidade de ultrapassar os 7 milhões devido aos pedidos de recurso para isenção da taxa. Desse total, 490.233 são baianos.

Troca de empresa

Outra notícia que pode ter deixado os estudantes apreensivos foi o anúncio da troca da empresa que fará a correção das redações. Antes a responsabilidade era do Centro Brasileiro de Pesquisa em Avaliação e Seleção e de Promoção de Eventos (Cebraspe/Cespe). Agora, fica com a Fundação para o Vestibular da Universidade Estadual Paulista (Vunesp). A instituição já é conhecida pelos estudantes baianos que fizeram o processo seletivo na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) no segundo semestre deste ano. Apesar da troca, tanto a Vunesp quanto o Inep garantem que não há motivo para pânico: o método de avaliação dos textos do Enem continuará o mesmo, obedecendo à matriz de referência para as redações. Em nota, o Inep assegurou ainda que, a princípio, a troca das empresas não irá interferir na aparência da prova, mantendo estilo similar ao que vem sendo adotado há sete anos. Quanto à aplicação e leitura dos cartões das provas de Linguagens, Ciências Humanas e de Matemática e Ciências da Natureza, estas ficarão nas mãos das fundações Getúlio Vargas (FGV) e Cesgranrio. O Inep garantiu também que esta divisão da correção “em nada influenciará no resultado final, mantendo a lógica do processo que vem sendo realizado nos últimos sete anos”. De acordo com a técnica de avaliação educacional da Vunesp e coordenadora de correção do Enem, Ana Laura Nakazoni, “essa divisão das instituições que irão corrigir as provas agiliza e traz qualidade ao processo porque são empresas especializadas e que estão há muito tempo realizando esses serviços no país”, ressaltou. Professor de Redação do cursinho Grandes Mestres, Israel Mendonça considera que a alteração da instituição é apenas um ato administrativo, já que os candidatos deverão ser avaliados por suas produções textuais: “O que o Enem fez foi organizar a vida dos alunos e professores numa dificuldade que era nacional. Antes, na mudança de uma série para outra, os alunos se deparavam com correções diferentes dos professores. Com o Enem, houve uma nacionalização dos critérios”.

 


Equidade no ensino do País (JC Online – Educação – 12/07/2017)

Para educadores, base comum vai proporcionar ao aluno conhecimentos necessários, além de estimular igualdade no ensino de todo o Brasil

Antes que o novo ensino médio possa entrar em vigor em todas as escolas públicas e privadas do Brasil, é preciso definir a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) dos três últimos anos escolares. É ela que vai nortear todo o aprendizado e estabelecer as competências pessoais, sociais, cognitivas e comunicativas que os alunos de todo o país deverão desenvolver, conforme estabelecido pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB). Atualmente, está em debate a BNCC relativa ao ensino fundamental – a primeira de uma série de audiências organizadas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) para discuti-la foi realizada na última sexta-feira (7), em Manaus, aberta ao público. A expectativa é de que o trecho que diz respeito ao ensino médio seja enviado CNE e discutido ainda em 2017. Desenvolver uma competência, de acordo com a LDB, é desenvolver um conhecimento mobilizado, operado e aplicado. É quando o saber se apresenta como solução para um problema prático ou uma decisão que precisa ser tomada. No caso, em vez de treze disciplinas curriculares, como funciona hoje em dia, é isso que os estudantes terão de desenvolver quando o novo ensino médio estiver em vigor. Ou seja, no lugar de prever conteúdos dentro das matérias, como Geografia, História, Física, Química e Biologia, por exemplo, a BNCC propõe que os alunos dominem conhecimentos nas áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas, e de forma interligada. Sem as matérias compartimentalizadas, a ideia é promover um desenvolvimento global do aluno e estimular a aplicação do aprendizado escolar para soluções na vida real. “A gente aprende para a vida. O problema na vida não vem isolado. Ele vem como aplicação”, explica o conselheiro do CNE, Chico Soares. “Não vem como nos livros, em que você estuda e depois vem o exercício de fixação. A vida mistura as áreas. Isso é muito forte na reflexão pedagógica atual. Essa estrutura de fazer conexões entre as diferentes áreas é uma tendência que veio pra valer. Ensinar compartimentado ficou para trás”, afirma. “O aluno não vai ter um monte de disciplinas das quais ele não gosta, não quer ou não acha importante para a vida dele”, diz Guiomar Namo de Mello, educadora, presidente da Escola Brasilera de Professores (Ebrap) e consultora do MEC. “Você vai ter áreas e uma noção clara que de que você está se formando nas áreas, você não está formando especialistas. Você está formando um cidadão que precisa se apropriar desses conteúdos para sua vida”, explica. A proposta é semelhante à já aplicada no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), embora nem a BNCC, nem a reforma do ensino médio digam respeito à prova. Por enquanto, o Enem não sofrerá alterações. O conteúdo cobrado na prova só poderá ser mudado dois anos após a aprovação da base. A BNCC vai orientar 100% dos currículos das escolas. No caso do ensino médio, uma parte (60%) será comum obrigatória (BNCC) a todas as escolas. Cada escola adequará seu currículo. A outra parte (40%) será flexível, contemplando itinerários formativos e de formação técnica, também de acordo com o currículo de cada escola. Os sistemas público e privado podem, ainda, incluir nos currículos características regionais e locais, conforme previsto na LDB. Isso mantém e estimula a autonomia das escolas. “Trabalhar um conceito na base não significa trabalhá-lo de maneira igual em todo o Brasil”, sugere o presidente do CNE, Eduardo Deschamps. “A prática pedagógica pode ser diferente. Posso desenvolver determinada competência usando exemplos muito próximos da localidade onde o estudante está inserido. Não vai ser padronização da educação”, afirma. Para Guiomar, o fato de a base não ser currículo é um dos pontos mais importantes para compreender a reforma do ensino médio. “A base diz o que a criança deve saber. Ela deve saber determinados conceitos de ciência. Se isso vai ser dado a partir de um material e de uma situação típica da floresta amazônica, da periferia de São Paulo ou dos pampas gaúchos, isso é uma questão do currículo”, continua Guiomar. “[A base] É uma referência dos conteúdos considerados essenciais para todos os brasileiros. Mas há muitas aprendizagens essenciais no Amazonas que não vão ser essenciais em Pernambuco. Como é a metodologia, em que contexto isso vai ser trabalhado, isso é questão de currículo. Não pode ser resolvido a nível nacional porque o Brasil é muito diverso”, continua. A busca por uma igualdade na educação do país, um dos objetivos da BNCC, foi mencionado algumas vezes pelos educadores. “Existem diferenças brutais. O texto que vemos os alunos das escolas privadas tendo que compreender às vezes é muito mais simples do que é colocado em algumas escolas públicas”, afirma Chico Soares. Ele explica ainda como a base vai funcionar na prática. “Se o objetivo de aprendizagem é que aos 15 anos o aluno seja capaz de entender o editorial de um jornal, então a base vai dizer claramente qual a trajetória que ele tem que fazer para isso. Eu não posso negar para uma pessoa que ela chegue ao nível de leitura que a permita entender um editorial. Hoje isso acontece. O aluno chega aos 15 anos e não lê como deveria”, diz. Outro motivo para que os currículos sejam diferentes, embora construídos sobre uma base comum, é poder contemplar o que é importante em cada local. “Se você vai ser mulher amazonense, então você tem idiossincrasias que não são de outras pessoas. Mas elas se constroem em cima de uma coisa comum. Se existe uma coisa que nos faz brasileiros, então essas coisas todos devem saber. Se você sai do Amazonas e vai para o Rio Grande do Sul, você vai dialogar e comunicar, porque você tem o conhecimento que seu colega tem”, exemplificou o conselheiro. “Quando você define o que é essencial, e você trabalha a aplicação disso, desde que respeitadas diferenças que o Brasil tem, você tem muito mais probabilidade de ter uma educação que consiga, mesmo partindo de patamares diferentes, gerar resultados semelhantes”, finaliza Deschamps.