14/12/2017 / Em: Clipping

 

Novo ensino médio deixará legado para a educação (Folha de Pernambuco – Folha Educa – 14/12/2017)

Integração entre políticas que existiam isoladamente, como ensino integral e técnico, são pontos altos da reforma posta em prática pelo MEC

 

Temas como educação integral, ensino técnico e a busca por uma escola mais atraente não são novos, mas à luz da reforma do ensino médio, passaram a ser encarados de uma maneira diferenciada: estão cada vez mais integrados. Educação de qualidade deixará de ser algo celebrado de forma isolada a partir de iniciativas que vêm tendo bons resultados em estados como Pernambuco, Goiás, Amazonas e Rio de Janeiro. Com as propostas que o Ministério da Educação (MEC) vem tirando do papel após a sanção da Lei Federal 13.415, que instituiu o novo ensino médio, em fevereiro de 2017, levar um ensino digno e condizente com os anseios dos jovens será uma visão de País, um projeto de nação. O legado está sendo construído etapa por etapa. A professora de História Karla Falcão cita pensadores como Cipriano Luckesi e o próprio Paulo Freire como defensores de uma escola diferente do modelo existente hoje no Brasil. Ela vê como ponto positivo da reforma do ensino médio a construção feita junto à sociedade. “Mesmo com um prazo curto, essa proposta foi alvo de nove audiências públicas e de várias emendas. E é importante lembrar que a flexibilização curricular não vai começar no primeiro ano. O aluno vai ter contato com a base comum e apenas nos 18 últimos meses é que vai poder escolher as áreas em que vai poder se aprofundar. No modelo que há hoje, o aluno tem acesso a uma série de conteúdos e não pode escolher o que quer estudar. Esse excesso de falta de foco forma indivíduos medíocres, nas palavras de Paulo Freire, e sem estímulo para a criação. É preciso tratar o aluno como sujeito da sua própria vida”, explica. Gestor da Escola de Referência em Ensino Médio (Erem) Professor Cândido Duarte, Paulo Bruno afirma que é hora de “se despir de algumas ideologias” e começar a trabalhar para que as mudanças sejam compreendidas. A Erem, que fica no Recife, é integral, modelo que está sendo incentivado pelo MEC por um programa de fomento. “O professor que dá uma aula e não faz um link com a realidade do aluno não está sabendo ensinar. A escola precisa fazer sentido. Temos que caminhar cada vez mais para isso”, opina. A estudante Laís Fernanda, 16 anos, cursa o 2º ano do ensino médio integrado ao curso técnico em administração na Escola Técnica Estadual (ETE) Professor Lucilo Ávila Pessoa, no Recife. Os sonhos que ela constrói têm como pilares experiências obtidas nesse modelo de ensino, que também é uma das apostas da reforma do ensino médio, por meio de um programa indutor, o MedioTec. “Tudo o que eu aprendi aqui desejo aplicar no futuro. Realmente é correria, o dia inteiro aqui, mas, quando chega em casa, você realiza a matéria, faz os trabalhos, se envolve em projetos e realiza coisas enriquecedoras”, avalia. Diretora do Souza Leão de Candeias, colégio da rede particular em Jaboatão dos Guararapes, Maria Dulce de Souza Leão diz que a ideia de uma reforma como a que está sendo proposta é positiva por trazer à tona a busca por uma escola que estimule os alunos. “Sou muito favorável a uma mudança. Acho que precisamos caminhar para essa nova forma, com metodologias ativas, um ensino mais arrojado, uma escola mais criativa, onde as pessoas aprendem não só a ouvir, mas a ser o centro do fazer”, declara. Mexer num sistema que já funcionava da maneira que estava havia décadas não é fácil. É preciso revisar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) do ensino médio, o que será feito pelo Conselho Nacional de Educação (CNE). O processo envolve acadêmicos, especialistas e outros profissionais. A expectativa é de que, em 2018, essa etapa tenha um desfecho e siga para homologação do MEC, o que levaria o novo ensino médio a só ter suas primeiras mudanças implantadas em 2019 ou 2020. É um processo a longo prazo, planejado, sem imediatismos ligados a governos. É uma visão de País. “O ensino médio é um processo que vem se buscando alterar no Brasil há muito tempo. A gente precisa olhar lá para a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação], quando ela foi construída, na década de 90. Lá já se buscou que houvesse uma flexibilidade para que o jovem pudesse ter trajetórias diferentes. A reforma do ensino médio se conecta a isso”, conclui o secretário de Educação Básica do MEC, Rossieli Soares.

 


UFMG adota procedimentos mais rígidos para o sistema de cotas (G1 – Minas Gerais – 13/12/2017)

Agora, quem se autodeclarar negro vai ter que informar se é: preto ou pardo e escrever a justificativa. Medida ocorreu após fraude no curso de medicina.

 

A Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) passou a adotar critérios mais rígidos para quem pretende ingressar pelo sistema de cotas. A autodeclaração de raça gerou polêmica na universidade. Um aluno aprovado em medicina acabou deixando o curso depois da denúncia de fraude no sistema de cotas. “Quando você finalmente cria uma coisa positiva em ser preto e as pessoas brancas vêm furtar essa positividade, essa ação afirmativa, eu acho que precisa de um pouco mais de ações de modo a coibir essa fraude”, afirmou o estudante de medicina Lúcio Gustavo Braz.

Agora, quem se autodeclarar negro na UFMG vai ter que informar se é: preto ou pardo, como preveem os critérios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), e escrever a justificativa. O documento diz que informações falsas podem levar à perda do direito à vaga. A medida vale para os novos candidatos da graduação e pós-graduação. Tudo acompanhado por uma comissão da universidade. “O aluno, ele vai pensar duas vezes antes do que ele simplesmente marcava com um “xis”, no ato da matrícula”, disse o reitor da UFMG Jaime Arturo Ramirez. A Lei de Cotas prevê que 50 por cento das vagas de universidades federais e institutos federais de educação, ciência e tecnologia devem ser reservadas a estudantes que tenham cursado todo o ensino médio em escolas públicas. E essas vagas devem ser divididas seguindo alguns critérios: faixa de renda, deficiência e cor. No caso da cor, basta a autodeclaração do estudante. Mas, um levantamento feito pelo coordenador do núcleo de estudos afrobrasileiros e indígenas da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Adilson Pereira dos Santos, mostra que das 104 instituições públicas de ensino superior do país, só nove tiveram comissões para analisar as autodeclarações, neste ano. O professor considera um avanço a criação de comissões de verificação e os documentos de justificativa. Mas defende que deveriam existir critérios nacionais. “Eu acho que é necessário que as instituições, que haja uma orientação centralizada, em relação ao comportamento das instituições porque, caso isso não ocorra, você vai gerar uma série de ações desencontradas e que não é bom para a política pública”, avaliou Santos. A cota racial ajudou a estudante de educação física Heloísa Aparecida Gomes a conquistar uma vaga na universidade pública, em Ouro Preto, na Região Central de Minas. “Como eu vim de escola pública, me ajudou muito. Faz toda diferença e eu imagino que tenha pessoas que precisam mais do que eu ainda, né”, concluiu.

 


UFMG adota regra mais rígida para ingresso por cotas raciais e abre espaço para deficientes (Estado de Minas – Gerais – 13/12/2017)

Instituição agora vai exigir carta para justificar autodeclaração de pertencimento étnico, redigida de próprio punho. Outra novidade é a abertura de cotas para candidatos com deficiência

Depois das recentes denúncias de fraude da Lei de Cotas por parte de estudantes, a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) anunciou novas medidas: estudantes aprovados na modalidade de reserva de vagas étnico-raciais em cursos de graduação deverão redigir, de próprio punho, carta com os motivos que justificam sua autodeclaração de pertencimento nesse segmento. Outra novidade para cursos presenciais de graduação é a reserva de vagas para candidatos com deficiência. Conforme foi informado no site da instituição na noite desta quarta-feira, as medidas valerão a partir do primeiro semestre letivo de 2018. De acordo com a UFMG, “a adoção da carta consubstanciada foi aprovada pelo Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) de modo a aprimorar a política de ações afirmativas”. As cotas para pessoas com deficiência foram adotadas com base em Lei Federal, publicada em dezembro de 2016 e regulamentada por portaria do MEC em maio.  “Por lei, 50% das vagas de cada curso de graduação são destinadas aos egressos da escola pública, que, primeiramente, são classificados em dois extratos socioeconômicos: com renda familiar bruta mensal per capita inferior ou superior a 1,5 salário mínimo. Em seguida, devem indicar se têm ou não deficiência e a opção pelo recorte étnico-racial, declarando-se ou não negros (pretos e pardos) e indígenas. Com isso, as 50% de vagas reservadas são distribuídas entre oito modalidades de cotas”, explica o texto publicado no site da instituição. A autodeclaração deve ser redigida em formulário próprio e entregue pelo candidato aprovado no Sisu no momento do registro acadêmico. “A carta consubstanciada é uma ferramenta importante no acompanhamento da efetividade da Política de Ações Afirmativas, para inclusão de pessoas negras (pretos ou pardos) e indígenas”, pondera o pró-reitor adjunto de Assuntos Estudantis, Rodrigo Ednilson.  “Não se descarta a autodeclaração, que continua a vigorar como princípio importante do reconhecimento da identidade dos sujeitos, mas a carta aumenta os custos de uma autodeclaração falsa”, explica no texto da UFMG. A condição de pessoa com deficiência deve ser comprovada em perícia médica obrigatória e com apresentação de laudo médico – conforme modelo disponível na página do Sisu UFMG –, informando tipo e grau da deficiência, nos termos do artigo 4º do Decreto 3.298/99, com expressa referência ao código correspondente da Classificação Internacional de Doenças (CID). Para 2018, a UFMG disponibilizará 6.339 vagas em seus cursos de graduação, das quais 3.172 são reservadas a candidatos que cursaram integralmente o ensino médio na rede pública de ensino e 3.167 vagas para ampla concorrência.

SELEÇÃO 2018

As inscrições para a primeira edição do Sisu 2018 começam em 29 de janeiro e encerram-se às 23h59 de 1º de fevereiro (horário de Brasília), exclusivamente pela internet. Por meio desse sistema, os candidatos usam as notas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2017 para pleitear uma vaga em uma das universidades públicas que aderiram ao Sisu.

NÚMEROS DA INCLUSÃO

Dos cerca de 32 mil alunos de graduação matriculados atualmente na UFMG, 11 mil se autodeclararam pardos e cerca de 2,7 mil, pretos. Entre os 6.633 alunos que ingressaram nos cursos de graduação, em 2016, 2.624 se autodeclararam pardos, e 578, pretos. Em 2016, 409 alunos de graduação declararam ter algum tipo de deficiência. Eles estão distribuídos em 66 cursos, com o maior número nos cursos de Letras, Direito, Geografia, Gestão de Serviços de Saúde e Artes Visuais.

 


Por que crianças negras ficam presas em escolas fracassadas (Gazeta do Povo – Educação – 13/12/2017)

É do interesse do sistema educacional deixar os jovens negros em instituições públicas fracassadas

As conquistas educacionais de jovens brancos não são nada que mereça destaque, mas as conquistas de negros não são nada mais que vergonhosas. Vamos observar um exemplo recente de um resultado educacional muito comum.  Em 2016, em 13 das 39 escolas de ensino médio em Baltimore, nenhum estudante conseguiu pontuação proficiente no exame estadual de matemática. Em seis outras escolas de ensino médio, apenas 1% dos estudantes conseguiram proficiência em matemática. Em números gerais, 3.804 estudantes de Baltimore fizeram o exame estadual de matemática, e 14 atingiram proficiência. Em toda a cidade de Baltimore, apenas 15% dos estudantes passaram no exame estadual de inglês. No começo do ano, exames finais para os formandos foram realizados em uma escola de ensino médio em Baltimore, e 90% dos estudantes receberam a pontuação mais baixa em matemática. Apenas um estudante chegou perto da proficiência. Os pais e familiares aplaudiram a entrega de diplomas. Alguns dos estudantes receberam prêmios de desempenho e bolsas de estudos. O caso de Baltimore não é único. É uma parte pequena de um desastre educacional em andamento para estudantes negros em todo o país. As escolas de Baltimore não estão com falta de verba. Dos 100 maiores sistemas educacionais do país, as escolas de Baltimore estão em terceiro lugar nos gastos por aluno. Os estudantes negros de Baltimore recebem diplomas que comprovam que eles podem operar em nível de 3º ano do ensino médio, quando na verdade eles talvez não sejam capazes de operar em nível de 7º ou 8º ano do ensino fundamental. Esses estudantes e suas famílias têm poucos motivos para suspeitar que os seus diplomas sejam fraudulentos. Portanto, se eles não conseguem um bom emprego, não conseguem passar no exame seletivo para serviço civil ou têm notas ruins na faculdade e são forçados a desistirem, eles atribuirão essa situação ao racismo. Afinal, eles têm um diploma de ensino médio, assim como uma pessoa branca tem um diploma de ensino médio. Nas suas cabeças, a única explicação para serem tratados de modo diferente é racismo. Vamos olhar para a matemática. Se um estudante se forma no ensino médio sem uma proficiência mínima em álgebra e geometria, ele provavelmente encontrará áreas e profissões inteiras fechadas hermeticamente para ele por toda a sua vida. Em muitas áreas e profissões, um nível mínimo de proficiência em matemática é algo implícito. Vamos analisar apenas um empreendimento – se tornar piloto de caça. Há relativamente poucos pilotos de caça negros. Há requisitos físicos, mentais e de caráter rigorosos que muitos negros podem cumprir.  Mas pilotos de caça também devem ter um conhecimento sólido de navegação aérea, procedimentos de operação de aeronaves, teoria de voo, mecânica de fluidos e meteorologia. Os cursos superiores que ajudam a preparar os graduandos para uma carreira como piloto de caça incluem matemática, física e engenharia. Qual a resposta da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor) para a fraude educacional?  Em uma reunião em 2016, o conselho de diretores da NAACP ratificou uma resolução que pedia uma moratória em charter schools. Entre os motivos da NAACP para isso, eles queriam que as charter schools parassem de “excluir estudantes que as escolas públicas têm o dever de educar” e deixassem de “perpetuar a segregação de crianças com desempenho mais alto daquelas cujas aspirações podem ser altas, mas os talentos ainda não são tão óbvios”. A Baltimore Collegiate School for Boys é uma charter school. Em 2016, 9% dos seus estudantes conseguiram pontuação proficiente no exame estadual de matemática. Neste ano, mais de 14% conseguiram isso. É do interesse de pessoas negras que mais dos nossos jovens frequentem escolas melhores. No entanto, é do interesse do sistema educacional – e dos seus servos na NAACP – deixar os jovens negros em escolas públicas fracassadas. Poucas pessoas se importam em questionar se existe uma conexão entre o que acontece em escolas de ensino médio de maioria negra e os resultados observados. A violência é algo tão rotineiro em muitas escolas de maioria negra que seguranças são contratados para patrulhar os corredores. A violência inclui agressões aos professores. Alguns foram nocauteados, tiveram seus maxilares quebrados e precisaram de tratamento psiquiátrico para transtorno de estresse pós-traumático. Além da violência, há uma desordem grosseira e desrespeito por autoridade. A questão intrigante para mim é: por quanto tempo as pessoas negras aceitarão essa destruição educacional de jovens negros – algo que apenas beneficia o sistema educacional?