17/07/2017 / Em: Clipping

 

Mais que índices (O Globo – Opinião – 17/07/2017)

Políticas afirmativas não podem desconsiderar a baixa qualidade do ensino brasileiro

A adoção do sistema de cotas pela Universidade de São Paulo (USP), o maior e mais bem ranqueado estabelecimento de ensino superior no país e situado entre os cem mais importantes do mundo — e, a depender do segmento, entre as dez —, é um troféu de peso para ilustrar a vitória política do movimento racialista, por conseguir importar este sistema dos Estados Unidos. Depois de muito debate na sociedade, o Supremo Tribunal o sancionou como constitucional. Mas a discussão continua. Acompanhar, com rigor, a aplicação das cotas em centros de ensino ajudará nessa discussão. A Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), pioneira nessas cotas, cumpre o previsto e, completados os dez anos de estabelecimento desta política afirmativa, é feita uma avaliação dos cotas. Há resultados positivos: discrepâncias não muito grandes em relação a não cotistas, evasão alta (25%), mas inferior ao dos não beneficiários da política (37%). A USP sempre resistiu às cotas, embora adotasse políticas afirmativas, para ampliar a diversidade social, algo desejável. Já havia mecanismos para a absorção de alunos de escolas públicas, oriundos de famílias de renda baixa. Agora, por maioria de votos do Conselho Universitário, a partir de 2018, de maneira escalonada, a USP executará um programa que levará a universidade, em 2021, a reservar metade das vagas a egressos do ensino médio da rede pública, dos quais 37,2% terão de ser negros, pardos e indígenas, em obediência à proporção deste segmento que há na população paulista. Resta continuar o debate e acompanhar de perto a experiência da USP. As políticas afirmativas de cotas raciais têm suas raízes nos Estados Unidos, cuja sociedade se lastreou na noção de “raças”, ao contrário do Brasil. Aqui preto podia ter escravo, se alcançasse status social. Até negociá-los, como “senhor”. Já que se deu o fato das cotas raciais, não se deve perder referenciais. Uma delas, que o Brasil avança na educação em geral, mas ainda está em séria crise neste campo, principalmente no ensino médio. O nível melhora, mas o aluno, na média, ainda chega sem base sólida à Universidade. Basta acompanhar as avaliações, que continuam negativas, de brasileiros no teste internacional Pisa. A USP se destaca, assim como outras, principalmente estabelecimentos públicos, mas o ensino universitário também deixa a desejar em comparações globais. A avaliação das cotas precisa ser feita também por este ângulo. Ou seja, do ponto de vista da revolução educacional de que o Brasil precisa, o fato de o cotista ter um rendimento apenas pouco abaixo dos não cotistas pode gerar índices risonhos, mas não ajuda a resolver a questão de uma população mal preparada para enfrentar a concorrência globalizada. Porque o universo com o qual o cotista é comparado não serve de parâmetro de eficácia educacional. Nivela-se por baixo. Por isso, o melhor caminho da integração é mesmo um massivo programa de investimentos na educação básica, em favor de todos, brancos, pretos, pardos, indígenas, cafuzos, mulatos etc. Sem discriminações.

  

Ação concreta (O Globo – Opinião – 17/07/2017)

No ensino público médio, 88,7% nunca tiveram chance de sonhar com universidades públicas de excelência

Na última semana, a USP decidiu que a partir de 2018 as cotas sociais e raciais serão adotadas por toda a universidade. Decisão que colocou de vez a mais famosa universidade pública brasileira dentro das políticas de ação afirmativa iniciadas há mais ou menos 15 anos nas universidades públicas brasileiras. Obviamente, não há somente um prisma para se olhar quando pensamos no ensino universitário brasileiro e a profunda desigualdade socioeconômica na qual a sociedade brasileira está alicerçada há décadas (para não dizer, mais de século). Gostaria aqui de apontar ao menos dois. Em primeiro lugar: a reparação histórica a uma fatia da população brasileira (pretos, pardos e indígenas) que, desde o momento inicial da nação brasileira, sempre esteve à margem das políticas públicas voltadas para o desenvolvimento socioeconômico de nossa população. Há farta bibliografia acadêmica que nos demonstra a trajetória de nosso Estado-Nação, bem como seus arquitetos presentes nos mais variados governos nos levaram a trilhar caminhos que sempre negaram a existência de graves problemas na matriz do relacionamento étnico-racial brasileiro, ao mesmo tempo em que construíamos uma enorme desigualdade na qual a cor da pele da população sempre foi um elemento central. Outro ângulo leva-nos a discussão mais acurada sobre a construção social de um dos espaços de elite de nossa sociedade — a universidade pública brasileira. O que justifica a construção de um modelo de universidade com uma seleção estanque ao sistema de ensino brasileiro? A universidade mantida com dinheiro público não deve levar em conta que sua forma de seleção de calouros estava tão só voltada para 13,25% dos alunos matriculados no ensino médio em instituições particulares? A grande maioria, matriculada no ensino público médio (88,75% segundo o Censo Escolar 2014) nunca teve oportunidade de sonhar com as universidades públicas de excelência do Brasil. Ainda temos dificuldades de ver a diversidade étnico-racial de nossa população naqueles espaços nos quais convivem os estratos mais abastados da sociedade. Fenômeno que sempre impressiona os olhares que não veem com “naturalidade” que em alguns espaços sociais a tez mais morena de nossas peles somente sejam encontradas entre os serviçais. As cotas raciais devem ser entendidas como uma ação concreta para a intervenção nesta realidade: não num futuro próximo, mas ao longo das próximas décadas. O debate só está começando.

 

‘A escola deve ser o lugar de encontrar soluções para o mundo real’, diz educador (O Globo – Sociedade – 16/07/2017)

Marc Prensky, criador de termos como ‘nativos digitais’, vem ao Rio para participar do evento Educação 360 Tecnologia

 “As crianças precisam chegar ao futuro munidas de habilidades que as farão bem-sucedidas no terceiro milênio, e não equipadas para o mundo de ontem em que nós crescemos”. Essa é uma das reflexões que propõe Marc Prensky, que estará no Rio em agosto para participar do evento Educação 360 Tecnologia. A tecnologia, ele diz, deu às crianças uma infinidade de novas capacidades, o que fez com que elas se tornassem muito mais empoderadas do que no passado. Os fins educacionais devem mudar: não se trata mais de buscar boas notas, mas sim de fazer do mundo um lugar melhor. “As crianças já estão fazendo isso: inventam aplicativos para diminuir a violência doméstica, usam impressoras 3D para fazer próteses, entre muitas outras coisas extraordinárias”, diz. Uma educação para as futuras gerações, ele frisa, deveria ser focada em realizações assim, ou seja, na busca por soluções de problemas do mundo real. Para tanto, são necessários novo currículo, nova perspectiva no uso da tecnologia, professores que precisam desempenhar um novo papel. O Educação 360 Tecnologia é uma realização O GLOBO e Extra, com patrocínio do Colégio PH e Fundação Telefônica, apoio da Unesco e Unicef, parceria de mídia da TV Globo, Canal Futura, revista Crescer, revista Galileu e TechTudo e colaboração do Instituto Inspirare e Porvir.

Uma das mudanças propostas no Brasil é a flexibilização do currículo do Ensino Médio, um modelo que permitiria aos estudantes escolherem uma área de conhecimento, com liberdade de optar pelas disciplinas que vão estudar. É um bom caminho?

Escolhas são sempre boas. Mas uma das minhas principais reflexões é que a escola não deveria estar relacionada a estudar, mas sim à capacidade de realizar. É sobre se tornar alguém que efetivamente pode fazer do mundo um lugar melhor. Se tivermos matérias, e elas estiverem encaixadas em cursos lineares, estaremos fazendo errado. E não importa que disciplinas sejam, apenas tê-las é ruim. O que podemos fazer é mirar em habilidades. Elas não seriam ensinadas em um curso, não haveria uma grade curricular formada a partir disso. São habilidades que as pessoas precisam ter a vida toda e que devemos fazer com que sejam boas nisso. Uma das melhores maneiras de se trabalhar essa ideia é fazer projetos. E, ao final de cada um deles, verificar com cada criança ou jovem: essa habilidade melhorou? Aquela outra apareceu? Como vamos trabalhar para desenvolver as habilidades que faltam no próximo projeto? A ideia de um curso que começa aqui e acaba ali não dá às crianças uma educação melhor. Elas não estão tendo uma escolha, de fato, mesmo que possam optar pelas disciplinas.

Como você prepara qualquer pessoa para o fato de que o que ela está fazendo se tornou obsoleto?

É um grande problema, que não é exclusivo dos professores. Acontece também com os trabalhadores das fábricas, com os agricultores… Seu trabalho mudou. No caso dos professores, a quem damos a tarefa de educar nossos filhos enquanto trabalhamos, precisamos vê-los — e eles precisam se ver — não como “provedores de conteúdo”, já que essa é a parte que está desaparecendo, mas sim como pessoas que escolheram o papel de ajudar as crianças a realizar seus sonhos. Os professores muitas vezes se queixam quando falamos sobre o lado “pessoal” do seu trabalho, e não da questão do “conteúdo”, mas é isso que conta. Como pais, confiamos neles para auxiliar nossos filhos a ir tão longe quanto possível no mundo. Não no mundo acadêmico, mas no real. Isso significa conhecer cada criança intimamente e ajudá-la a descobrir suas forças e paixões e aplicá-las de forma que torne seu mundo um lugar melhor. Para essa criança, isso significa ter instrutores que veem seu trabalho como empoderador, para que ela leve seus sonhos a sério e trabalhe duro — não a partir de um conjunto prescrito de conteúdos, mas em projetos que aumentam suas habilidades e capacidades e melhoram o mundo.

A sua sugestão é que a escola deveria ser o lugar onde problemas do mundo real seriam resolvidos. E as próprias crianças seriam as responsáveis por trazer as soluções. A experiência de vida não é fundamental para apontar soluções para problemas?

Errado. Este é um grande mito. O Exército dos Estados Unidos fez todos os seus oficiais lerem “Ender’s Game”, um livro sobre um garoto que, sem bagagem de experiência, aparece com uma solução que nenhuma das pessoas mais velhas teria. A experiência pode ser útil, mas não há garantia de que as lições que as pessoas tirem dela sejam as mais adequadas. É preciso mostrar às crianças como elas podem confiar em sua criatividade e intuição, além de como fazer para aproveitar a experiência de outros.

Como e por que você começou a desenvolver essas ideias?

Eu gosto muito de crianças. E talvez eu hoje queira fazer por elas algo que não fizeram por mim no passado. Nós não somos bons para os mais novos e há tantas possibilidades de fazer melhor nas escolas… Só que não aproveitamos isso. Um exemplo: estava lendo um texto outro dia de uma pessoa que estuda currículo. Ela dizia: “Nós fazemos coisas na escola que estão relacionadas com o mundo real. Por exemplo, levamos as crianças outro dia para que andassem na vizinhança e entrevistassem os comerciantes”. O resultado dessa atividade é que, quando voltaram, todos os alunos escreveram seus relatórios. Eles diziam algo como: os comerciantes gostariam que as crianças fossem mais educadas. Pronto, acabou assim, escreveram seus relatórios. Isso é a tradição acadêmica. Mas, para mim, é apenas o início. Tudo o que elas fizeram foi identificar o problema. Desse ponto em diante, a escola, a educação e o trabalho deveriam seguir. A reflexão seria sobre como fazer com que as crianças fossem mais educadas nesta vizinhança. É assim que ajudamos as pessoas a se tornarem sujeitos que melhoram o mundo. Não damos a questão como encerrada em um trabalho acadêmico. Nós vemos o problema e fazemos algo para solucioná-lo.

O que os pais podem fazer em casa para compensar o fato de que a escola hoje não está educando crianças para o século XXI?

Há três perguntas que penso que todos os pais devem encorajar seu filho a pensar — não apenas uma vez, mas regularmente. Quais são os problemas que eu vejo no mundo e sobre os quais eu particularmente me interesso? Quais são os meus pontos fortes que poderiam ser aplicados para resolver esses problemas? O que eu amo fazer? Quando essas três coisas se juntam, você obtém uma pessoa altamente motivada que provavelmente irá conseguir muito.

Os termos “nativos digitais” e “imigrantes digitais”, criados pelo senhor, tratam de diferenças entre os que já nasceram com as tecnologias digitais presentes em suas vidas e aqueles que só tiveram contato com elas em sua vida adulta. Podemos usar essa reflexão para entender as diferenças entre professores e alunos em sala de aula. Essa lacuna geracional continuará a existir no futuro, mesmo quando todos forem “nativos digitais”?

As coisas sempre evoluirão, mas o que importa é o quanto o ambiente mudou recentemente, o quanto nossa relação individual com máquinas e tecnologia cresceu e o que isso significa para o resto de nossas vidas. Aqueles, jovens ou velhos, que não aceitaram essas mudanças são pessoas de uma era diferente. Nada desaparece totalmente, e sempre haverá pessoas com perspectivas antigas. Mas as novas coisas, os novos relacionamentos e as novas atitudes estão se tornando dominantes.

Como foi a sua vida escolar? Que experiências você viveu na escola e são fundamentais na sua vida?

Minha experiência na escola não foi o que poderia ou o que deveria ter sido. Eu consegui o que era considerada uma “boa” educação pública no ensino médio e, depois disso, uma educação privada de ponta, em Oberlin, Harvard e Yale. Tudo isso ajudou a moldar meu pensamento de muitas maneiras, mas não particularmente as minhas ações, os meus relacionamentos ou as minhas realizações. Na verdade, isso foi impedido: nunca pensei que poderia ser um escritor, que era o meu ponto forte, enquanto eu estava na escola. A escrita acadêmica era muito restritiva. Eu estava desajustado no colégio, ninguém sabia o que fazer de mim. Não consigo lembrar de um único professor que disse “Marc, com seus pontos fortes e perspectivas, eu recomendo que tente isso ou aquilo”. Muitas vezes, perguntamos às pessoas: “Quem foi seu melhor professor e como ele o ajudou?”. Isso é bom e faz os professores se sentirem bem. Mas a maioria só pode apontar para um ou dois, dos dez ou 50 que teve. Nós aprenderíamos muito mais se perguntássemos: “Quem foram seus piores professores e por quê?”