19/03/2013 / Em: Clipping

 


Desembarques na Normandia   (Folha de S.Paulo – Ilustrada – 19/03/13)

João Pereira Coutinho
COTAS RACIAIS nas universidades: os argumentos são conhecidos. Para o pensamento progressista, as cotas são uma forma de corrigir injustiças passadas, abrindo as portas das melhores universidades a candidatos negros, ou hispânicos, ou nativos-americanos etc. Para temperamentos mais conservadores, as cotas são uma nova forma de racismo, ainda que invertido, ao reduzir a singular individualidade de cada um à mera pigmentação da pele. E são, claro, um atentado às mais elementares noções de mérito. Os argumentos são conhecidos, repito. Mas o que dizer quando duas bíblias do progressismo americano -o “New York Times” e a revista “Atlantic”- publicam matérias altamente críticas sobre as políticas afirmativas no país? Aconteceu. Nenhuma delas repete argumentos gastos porque a discussão deixou de ser ideológica. Passou a ser empírica: estarão as políticas afirmativas a produzir efeitos contrários aos pretendidos? Ambas respondem que sim e dão nome ao descalabro: “mismatch”. Ou, traduzindo o conceito, alunos impreparados que entram em universidades de elite através de preferências raciais têm desempenhos acadêmicos sofríveis. E esse “mismatch” não se limita aos anos de formação. Ele acompanha os indivíduos para o resto das suas vidas profissionais. O problema é particularmente pronunciado nas ciências, nas engenharias e nas matemáticas, o que não admira: o conhecimento nas “ciências exatas”, relembra o “New York Times”, é um conhecimento contínuo, onde é necessária uma forte preparação de base para haver progressos contínuos também. Sem essa preparação, chegar a universidades de elite apenas pela cor da pele é uma espécie de desembarque pedagógico nas praias da Normandia. A “Atlantic” quantifica essa carnificina: os alunos negros continuam a preferir mais cursos de ciências ou de engenharia do que os brancos; mas o “mismatch” faz com que a desistência entre negros seja o dobro da verificada entre os brancos. O mesmo acontece depois da universidade: em direito, por exemplo, os alunos negros são reprovados no exame de acesso à profissão quatro vez mais do que os alunos brancos; o “mismatch” explica metade desses fracassos. O que fazer perante os números aterradores das políticas afirmativas? Escondê-los tem sido uma opção, o que significa arruinar silenciosamente a vida de milhares de pessoas para que as consciências progressistas possam dormir com as suas vaidades intactas. Outra opção, sugerida sem um pingo de vergonha pelo “New York Times”, é “convidar” as instituições de elite a serem um pouco menos de elite. No fundo, “convidar” Harvard a não ser Harvard -uma forma de corrupção intelectual e um caminho para o atraso científico do país. Mas existe uma terceira via: defender a velha ideia de que competências médias devem frequentar universidades médias. A “Atlantic”, aliás, revela uma curiosa experiência: em 1998, a prestigiada UCLA deixou de usar critérios raciais nas suas admissões. Resultado imediato: queda acentuada de alunos negros (menos 50%) e hispânicos (menos 25%). Escândalo e protestos. Porém, o mais espantoso é que, nos anos seguintes à abolição dos critérios raciais e, apesar da queda, o número total de negros e hispânicos graduados pela UCLA era semelhante ao número de negros e hispânicos que terminaram os seus cursos antes da abolição. Por quê? Razões várias. Cito duas. Primeiro, porque a UCLA acabou por atrair os melhores alunos negros e hispânicos que assim puderam frequentar uma universidade sem o “estigma” das políticas afirmativas. E, mais importante ainda, porque aumentou o número de alunos negros e hispânicos que iniciaram a sua formação em universidades mais modestas -e só depois se transferiram para a UCLA. Sim, ideologicamente, sou contra discriminações positivas (ou negativas) porque sou incapaz de reduzir qualquer ser humano a um “grupo” ou uma “raça”. E não creio que seja função da universidade prosseguir agendas igualitárias. Apenas científicas. Mas existem evidências empíricas que reforçam as ideológicas: a igualdade de oportunidades deve ser uma igualdade de base na formação de qualquer indivíduo. Pretender corrigir no fim o que vem torto desde o início é destruir vidas adultas com ilusões politicamente corretas.



Projeto quer permitir ingresso de aluno em universidade sem concluir ensino médio   (UOL – Vestibular – 18/03/13)

A Câmara dos Deputados analisa o Projeto de Lei 4870/12, que permite a estudantes maiores de 16 anos de idade, aprovados em processo seletivo para universidades públicas, ingressar na graduação, mesmo que não tenham terminado o ensino médio. A condição prevista pelo texto do deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE) é a conclusão do segundo ano. Atualmente, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – 9.394/96) exige que o aluno tenha concluído o ensino médio para ingressar na universidade. Patriota argumenta que a lei não acompanhou a evolução dos processos seletivos, e essa exigência não faz mais sentido. “Se o estudante logrou êxito em processo seletivo para universidade pública, não merece ter sua aprovação frustrada”, argumenta.