21/06/2010 / Em: Clipping

 

Morte aumenta chance de Saramago cair nos próximos vestibulares  (Globo.Com – G1 Vestibular – 18/06/10)

A morte do escritor José Saramago aos 87 anos nesta sexta-feira (18) aumenta a chance de que sua obra, uma das grandes referências da língua portuguesa, seja tema de questões dos próximos vestibulares, segundo especialistas em literatura. Livros do escritor, que foi o único autor da língua portuguesa a receber um prêmio Nobel de Literatura, já fizeram parte de listas de leitura obrigatória de várias instituições de ensino superior. Apesar de estar fora da lista unificada de grandes vestibulares deste ano, como Fuvest e Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), professores entrevistados pelo G1 afirmam que questões que usem a obra dele como tema podem aparecer em provas de interpretação de texto e redação. Segundo o professor de literatura da Universidade de Brasília (UnB), Alexandre Pilati, a morte de um autor tão valorizado por críticos e leitores como Saramago fará com que seja bastante valorizado nos vestibulares. Um dos textos que já foram leitura obrigatória na UnB, segundo Pilati, foi o discurso que Saramago leu no Fórum Social Mundial, “Esse Mundo de Injustiça Globalizada”. Segundo o especialista em Saramago da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Odil José de Oliveira Filho, que dá aulas no campus de Assis, no interior de São Paulo, os estudantes podem esperar que a obra do português esteja nos vestibulares, já que ele ocupará a mídia pelos próximos dias e semanas. “Os vestibulares têm o jornalismo impresso como fonte de elaboração, então deve aparecer, tanto nas provas de língua, interpretação, como nas questões literárias, da história da literatura. Acho justo que aconteça”, afirmou. Pilati cita algumas obras de Saramago que merecem a repercussão que tiveram, como “Ensaio sobre a cegueira”, “Todos os nomes” e “A caverna”. “Ele consegue dar uma forma muito bem acabada, em termos de estética, ficcionais, às inquietações dele”, afirmou.

Evangelho

A posição política e ideológica marcantes, com grande crítica à Igreja Católica, como as obras “Evangelho segundo Jesus Cristo” e “Caim”, aliadas à inovação dos textos, são a marca de Saramago, segundo Pilati. “Esses aspectos se fundem em um só comportamento, que são marca do autor”, disse Pilati. Para Oliveira Filho, a obra de Saramago foi dividida pelo próprio autor em duas grandes fases. Na primeira, ele pesquisou a “estátua”, o monumento histórico, como em “Memorial do convento”, “O ano da morte de Ricardo Reis” e “Jangada de pedra”. A partir de “Ensaio sobre a cegueira”, o autor passa a pesquisar a “pedra”, que é a própria matéria, a vida contemporânea, segundo Oliveira Filho, como faz também em “Homem duplicado”. “A grande lição que Saramago deixa é a da inquietação, da possibilidade de pensar. Era um homem irrequieto. Sua maior virtude foi a reivindicação pela liberdade dos homens e de poder pensar”, disse Oliveira Filho.


País perde US$ 15 bi com má formação de engenheiro (Folha de S.Paulo – Mercado – 21/06/10)

A baixa qualidade do ensino médio, sobretudo em disciplinas como física, química e matemática, tornou-se obstáculo para a formação de engenheiros no Brasil. Essa falha, agravada pela alta demanda gerada com o crescimento do país, tem custo -e não é pequeno. Cálculos de entidades de engenharia mostram que o país perde US$ 15 bilhões (R$ 26,5 bilhões) por ano com falhas nos projetos das obras públicas. A cifra, equivalente a 1% do PIB, foi apresentada em encontro nacional de engenheiros, em Curitiba, na semana passada. A reunião levou à capital do Paraná 850 engenheiros de todo o país com o único propósito: buscar meios de frear a crise sem precedentes da engenharia nacional.

GUERRA

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) calcula que 150 mil vagas de engenheiros não terão como ser preenchidas até 2012. Tamanha demanda diante da falta de profissionais criou uma guerra por engenheiros. Em 2003, a formação de um engenheiro custava US$ 25 mil. Hoje, US$ 40 mil, diz a IBM, uma das empresas que mais contrataram engenheiros e técnicos de computação desde quando o Brasil tornou-se base mundial para oferta de serviços. Essa escassez já atinge a competitividade brasileira. “Em 2009, exportamos US$ 1,5 bilhão em serviços. Só a IBM respondeu por US$ 500 milhões. A Índia exportou US$ 25 bilhões”, disse Paulo Portela, vice-presidente de Serviços da IBM, em seminário promovido pela Amcham, em São Paulo. “Essa disputa [por engenheiros] não ajuda. Vamos perder se entrarmos numa guerra e ampliar a inflação dos custos da mão de obra.” O salário inicial, de R$ 1.500 em 2006, já atinge R$ 4.500.

EVASÃO

O diagnóstico da realidade nos 1.374 cursos no país mostra que a evasão nos cursos de engenharia é de 80%; dos 150 mil que ingressam no primeiro ano, 30 mil se formam. “Só um 1 em cada 4 possui formação adequada. O Brasil forma menos de 10 mil engenheiros com competência e esses são disputados pelas empresas”, diz José Roberto Cardoso, diretor da Escola Politécnica da USP, uma das mais importantes faculdades de engenharia do país. A Amcham (Câmara Americana de Comércio) quer o tema na campanha eleitoral. O documento com o diagnóstico e as propostas compiladas por Jacques Marcovitch, professor da USP e conselheiro do Fórum Econômico Mundial, será entregue ao governo e aos candidatos. É certo que ficará para o próximo governo a busca da resposta para a pergunta: “Por que o jovem quer ser médico e advogado e não quer ser engenheiro e professor de matemática?”.
Exemplo de baixa procura pela área ocorreu em concurso para professor de física em São Paulo. De 931 vagas, só 304 foram preenchidas.

Sem oferta, indústria “caça” engenheiro

Pesquisa do Ibope encomendada pela Amcham aponta que 76% das empresas no Brasil possuem programas de treinamento e formação de mão de obra. Boa parte desses gastos assegura o futuro engenheiro na companhia. A mineradora Vale, que só em 2010 prevê investimento total de US$ 12,9 bilhões, deu escala a esse modelo. A mineradora criou cursos de pós-graduação para atrair engenheiros com até três anos de formado. Cada um recebe bolsa de R$ 3.000 para especialização em engenharia de mina, ferrovia, porto e agora pelotização (transformação de finas partículas de minério em pelotas). Marcelo Brandão, engenheiro ambiental, e Fabio Witaker, engenheiro mecânico, são exemplos recentes. Foram contratados em fevereiro depois de curso intensivo de engenharia ferroviária. Aproximar-se da academia tem sido a solução. A montadora General Motors é uma das empresas mais agressivas nesse campo. Com a instalação no Brasil de 1 dos 5 centros mundiais de desenvolvimento de produto, a montadora teve de ampliar de 600 para 1.300 o número de engenheiros.

ACORDO

Um acordo com a Escola Politécnica da USP, um dos principais centros de formação de engenheiros no Brasil, deu à GM uma vantagem. Os estudantes de engenharia da Poli aprendem a desenhar carros no sistema GM de projetar veículos. “Quando esse estudantes saírem da universidade, estarão prontos, com parte do treinamento executado”, diz Pedro Manuchakian, vice-presidente de Engenharia de Produtos da General Motors na América do Sul. Com planos para criar centros de pesquisa no Brasil, General Electric e IBM correm para atrair profissionais. A IBM vai repatriar 50 cientistas brasileiros. O novo laboratório anunciado há duas semanas exigirá cem cientistas, alguns dos quais engenheiros. “É uma operação de guerra”, disse Paulo Portela, vice-presidente de Serviços da IBM. De 3.800 funcionários em 2003, a IBM expandiu para 21 mil. A empresa já treinou 60 mil pessoas, das quais contratou 10 mil.

CONTEÚDO NACIONAL

A GE também tem planos igualmente fortes no país, sobretudo para ampliar o conteúdo nacional de componentes usados em seus equipamentos. A empresa também anunciou um centro de pesquisa no país, onde contratará 150 engenheiros. Segundo Alexandre Alfredo, diretor de relações institucionais, a companhia foi buscar profissionais em quatro universidades: as paulistas USP e Unicamp e as federais do Rio e de Minas Gerais.

Governo quer reduzir evasão nos cursos

A principal meta do governo nos próximos três anos é elevar de 30 mil para 40 mil o número de graduados em engenharia no Brasil. A tarefa foi entregue à Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior). A instituição criou uma comissão para cumprir esse objetivo. Segundo o coordenador da Capes, Jorge Almeida Guimarães, há dois problemas centrais na crise da engenharia brasileira. A primeira é a precária formação no ensino fundamental e médio, com grandes deficiências em disciplinas básicas das chamadas ciências duras, como física, química e matemática. A segunda é consequência da anterior. A falta de boa formação no ensino médio tem provocado evasão maciça nos cursos de engenharia. “A primeira missão será garantir que o aluno fique no curso”, disse Guimarães. A Capes vai pedir auxílio à Petrobras para alcançar essa meta. A estatal, responsável por grande parte da demanda brasileira por engenheiros, é uma das empresas mais interessadas em ampliar a formação desses profissionais. Só assim conseguirá pôr em marcha planos de investimentos de US$ 200 bilhões nos próximos cinco anos. A comissão da Capes estuda repetir iniciativa hoje já usada por grandes corporações e bancar a permanência dos alunos nos cursos. A ampliação em 10 mil engenheiros em três anos é uma meta modesta para as necessidades nacionais. Os países que fazem concorrência com o Brasil no mercado internacional formam contingentes muito maiores de engenheiros. Por ano, a China forma 400 mil engenheiros, a Índia, 250 mil, e a Coreia do Sul, 80 mil.

INICIATIVAS

Jacques Marcovitch, professor da USP, listou iniciativas com o objetivo de modernizar a engenharia nacional em documento a ser entregue pela Amcham (Câmara Americana de Comércio) aos presidenciáveis. O desafio de todas é inverter a avaliação atual do diretor da Poli, José Roberto Cardoso: “Engenheiros de menos. Escolas de mais”. (AB)


Cientista do futuro  (Revista Época – Ciência e Tecnologia – 20/06/10)

Quando vai a uma balada, Ricardo Barroso Ferreira, de 21 anos, se diverte como pode. Dança, bebe, flerta, faz novas amizades. Mas nunca deixa de pensar naquilo que realmente o motiva: a química. Não aquela que pode surgir de um novo encontro, mas a que ele estuda com a aplicação de um cientista convicto. Filho de pai metalúrgico e mãe dona de casa, Ricardo adquiriu o gosto pela ciência durante o ensino fundamental. Incentivado pela família, conseguiu uma bolsa para fazer o 3º ano do ensino médio em um colégio particular. Era a chance para superar o atraso de uma vida inteira como aluno de escola pública. Passou dias e noites debruçado sobre os livros e foi aprovado no vestibular de química da Universidade de Campinas (Unicamp), aos 17 anos. Está no último semestre do curso e já traz no currículo um feito raro para um aluno de graduação: é coautor de um artigo publicado na Science, a principal revista científica do mundo. “Eu não conheço nenhum aluno brasileiro de química que tenha conseguido publicar na Science. Nem professores conseguem”, diz André Formiga, professor de Ricardo no Instituto de Química da Unicamp. No ano passado, Ricardo participou de um grupo de pesquisa do Instituto de Nanossistemas da Universidade da Califórnia, em Los Angeles. Ele foi selecionado por um programa de intercâmbio para bolsistas de iniciação científica mantido por uma fundação de amparo à pesquisa de São Paulo. Sob a orientação do cientista jordaniano Omar Yaghi, estudou durante três meses nos Estados Unidos um tipo de cristal sintético tridimensional capaz de armazenar grande quantidade de dióxido de carbono. A descoberta, publicada na Science em 12 de fevereiro, poderá levar ao desenvolvimento de tecnologias capazes de absorver o CO2 emitido por carros e fábricas, um dos principais causadores do aquecimento global. O dia a dia de trabalho do jovem no exterior era semelhante à rotina de estudos no Brasil. De segunda-feira a sexta-feira, pesquisava das 9 da manhã às 7 da noite, com pausa só para o almoço. No começo, acompanhava os trabalhos do chinês Hexiang Deng, um aluno de doutorado com quem aprendeu as rotas de síntese dos cristais. Depois de trabalhar com Deng, fez pesquisa independente e desenvolveu parte dos experimentos que levaram ao artigo da Science. “No começo, os pesquisadores ficaram receosos”, afirma Ricardo. “Mas se impressionaram comigo. Até hoje sou convidado para voltar.”  Com um futuro promissor, Ricardo diz desejar seguir a carreira acadêmica e se tornar professor pesquisador de uma grande universidade. “Se você tem determinação e corre atrás do que deseja, o sucesso é só uma consequência.” Ele credita as conquistas que obteve até agora ao apoio que sempre recebeu dos pais: “Apesar de eu ser de uma família com poucos recursos, eles nunca deixaram de incentivar meus estudos”.