21/10/2008 / Em: Clipping

 


‘Fazer mais e melhor’ as políticas

Segundo o Ipea, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, somos aproximadamente 93 milhões de negros. No Brasil, diz o Instituto, não por conta do crescimento demográfico, mas pelo trabalho político dos Movimentos Negros, milhões, hoje, se reconhecem como oriundos da matriz negro-africano-brasileira. Os dados mostram o enegrecimento físico do País e, somado aos números relativos às desvantagens ocupacionais, locacionais e educacionais, nos revelam a extensão das desigualdades raciais e a conseqüente necessidade de políticas públicas anti-racismo.

O registro crescente da corporeidade negra e, na contramão, as desigualdades raciais são pólos no entendimento do Brasil. De outro modo, a compreensão nacional, no que tange ao enegrecimento físico e ao racismo à brasileira, não pode ser abstraída e, no caso de Campinas, cidade-metrópole com mais de um milhão de habitantes, tais dados devem, a serviço da cidadania, determinar também as políticas municipais.

Que relações existem entre esses fatores e o atual e futuro governo de Campinas? Para abordar a problemática na cidade de Campinas, considerando o fato de a administração municipal ser feita por um prefeito negro, temos de romper com o silêncio que, no mínimo, protela o debate e as mudanças. O primeiro passo, a figura negra do prefeito não basta, é fugir do esqueleto abstrato da universalidade, espaço para o apagamento físico da negrura e mais ainda das políticas para superação do racismo. Afinal, políticas específicas são imprescindíveis para o fortalecimento de identidades e de direitos. Por outro lado, Campinas é exemplar a propósito da difícil junção da corporeidade marcada pela negrura e a organização de políticas para erradicação das desigualdades raciais. O governo municipal, sobretudo a partir da presença do prefeito Hélio de Oliveira Santos, negro, é o fenômeno mais representativo dessa disjunção a cuja normatização assistimos no primeiro mandato da atual gestão e durante o pleito encerrado no dia 5 de outubro de 2008.

Em vista do pleito eleitoral, as respostas francas, entre outras, às demandas da população negra na área da educação, cultura, geração de emprego e habitação, foram inexistentes. Sobraram os discursos genéricos e nada eficazes na instituição das políticas e da auto-estima da população negra. No curso do governo atual, á guisa de destacar os retrocessos, o projeto de aplicação da lei 10.639, que trata da História da África e dos valores civilizatórios de matriz africana e a necessária ação dos educadores étnicos, o projeto de Capoeira na Escola e a Coordenadoria Especial de Promoção da Igualdade Racial (Cepir), instância que deveria organizar as intervenções no interior do governo e suas secretarias, foram desmontados. Podemos dizer, sem meias palavras, que a administração e o slogan, “fazer mais e melhor”, não incluíram as ações afirmativas e de valorização da história, cultura e identidade negras.

Além desses pontos sintetizados acima, não podemos desconsiderar que as condições de vida da população negra em Campinas, fundada em dimensões históricas de exclusão racial, pedem ações de governo para que o pertencimento racial, além da veste negra do prefeito da cidade, possa ser uma realidade nos escalões do poder e nas prioridades.

Cabe perguntar, ainda, se o que estamos presenciando constitui realmente o limite máximo para Campinas no que toca às políticas públicas para superação do racismo. Os recursos do governo federal, o empenho para a implementação da Lei 10.639, além do número expressivo de negros e negras no primeiro escalão, em Brasília, dizem que não. Os dados concretos do racismo à brasileira e as especificidades de Campinas também bradam que não. Corroboram os dados alusivos à renda. Em termos de renda, conforme dados do IPEA, em média homens negros recebem metade do que os brancos, as mulheres brancas recebem 63% e as negras 32% do que ganham os homens brancos.

Por conta do exposto, há marcos históricos que devem reorientar, no próximo ano, a administração Hélio (PDT) e Demétrio Vilagra (PT). Em primeiro lugar, as reivindicações sistematizadas pelos Movimentos Negros Brasileiros e, acopladas a elas, os investimentos do governo federal centralizados pela SEPPIR, Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, necessitam da consideração do governo municipal. Seguem no mesmo diapasão, em segundo lugar, as desvantagens ocupacionais, locacionais e educacionais marcadas pela cor da pele e pela herança escravista de Campinas e Região. Em terceiro lugar é vital, por serem propostas de interesse da população negra, a retomada de políticas afirmativas elaboradas e parcialmente implementadas na gestão Toninho e Izalene. Em resumo, a gestão Hélio e Vilagra, além da negrura e da mestiçagem presente no prefeito e vice respectivamente e do número de negros nos terceiros escalões, precisa de reconsiderar a relevância da problemática racial no primeiro escalão do governo e, sobremaneira, nas políticas dirigidas ao maior contingente populacional da cidade.

Fausto Antonio é escritor, professor e doutor em Teoria Literária pela Unicamp

Vestibular – Licenciatura e tecnologia têm bom mercado de trabalho
Além da facilidade de arrumar emprego, há menos disputa na hora do vestibular

Carolina Cunha
Juliana Facchi
DA AGÊNCIA ANHANGÜERA

Enquanto vários recém-formados saem da faculdade e se deparam com um mercado de trabalho saturado, outros encontram vagas de sobra. É o caso da maioria dos cursos de licenciatura, tecnologia e até mesmo o de bacharelado em engenharia civil. Quem opta por ingressar em um desses cursos, provavelmente, não terá atualmente problemas com emprego.

Na licenciatura, por exemplo, faltam hoje cerca de 250 mil educadores qualificados para atuar na rede pública do País. Os graduados em tecnologia também são absorvidos rapidamente pelo mercado, já que os cursos são cada vez mais específicos. Além disso, os vestibulandos contam com a vantagem de passarem por um vestibular menos concorrido.

No ano passado, por exemplo, na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os cursos de lingüistica, estatística, matemática, música e pedagogia tiveram menos de sete candidatos por uma vaga, enquanto em medicina foram 79/vaga. Na Universidade de São Paulo (USP), a situação não foi diferente. A maioria das licenciaturas teve menos de cinco candidatos/vaga, o curso de ciências da natureza contou com apenas dois estudantes concorrendo a uma vaga e o de música menos do que isso, ou seja, é só prestar o vestibular para entrar.

Não foi somente para concorrer a uma vaga em um curso menos disputado que a estudante Bianca Paredes, de 19 anos, decidiu prestar vestibular para lingüística na Unicamp. Segundo ela, que faz cursinho na Oficina do Estudante, a área está em expansão e possui um mercado amplo de trabalho. “Já gostava da área e, quando pesquisei o mercado, vi que valia a pena”, disse Bianca, que tem história como segunda opção, também pouco concorrido.

Veterana de vestibulares — será o terceiro —, Bianca pretende trabalhar com lingüística no audiovisual. “Já que não passei no vestibular de audiovisual, vou prestar lingüística e tentar ingressar na área de outra maneira e acho que agora terei mais chances.”

Porém, os vestibulandos que pretendem ingressar em um desses cursos só porque são menos concorridos devem ficar em alerta. É preciso ter afinidade. “Como em toda profissão, o estudante tem de escolher o que está apto, o que tem vocação”, explicou o Diretor da Faculdade de Letras da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Carlos de Aquino Pereira.

Mudança

Só após cursar quatro anos de engenharia de alimentos na USP (Pirassununga) é que Juliana Lombardi Vieira Netto, de 22 anos, criou coragem e decidiu prestar vestibular para estatística. “Eu queria largar desde o segundo ano de faculdade, mas meus amigos e parentes sempre me disseram que iria melhorar e me incentivavam a continuar. Mas não me adaptei”, disse Juliana. Contudo, o curso ajudou a despertar a vontade de estudar estatística. “Gostei muito dessa matéria na faculdade e decidi que era isso que queria fazer. Vou prestar Unicamp e USP, mas tenho preferência pela USP, porque o mercado de trabalho é melhor em São Paulo”, explicou a estudante, que pretende atuar em algum órgão de pesquisa.

Juliana disse que já pesquisou com professores, alunos, recém-formados e constatou que não falta emprego nessa área. “Revi recentemente meus amigos do curso de engenharia de alimentos e notei que a maioria está com dificuldades em arrumar estágio. Sei que não terei esse tipo de problema quando me formar em estatística.”

SAIBA MAIS

Cursos com poucos candidatos/vaga no vestibular 2008

Unicamp
CursoCandidato/vaga

Música/Licenciatura5,3
Linguística5,9
Estatística/Matemática6,1
Pedagogia6,3
Filosofia8,1

USP
CursoCandidato/vaga
Música3,43
Música/Ribeirão Preto1,33
Ciências da natureza2,01
Estatística/Matemática4,94
Cursos de licenciatura6,0



MÚSICA

Ainda falta definição sobre a formação do professor

Membro do Conselho de Educação acha importante ter formação em música

FERNANDA CALGARO
DA REPORTAGEM LOCAL

Todas as escolas do país deverão ter aulas de música dentro da área de artes em três anos. A obrigatoriedade do conteúdo deve impulsionar o mercado de trabalho para os licenciados em música.
A lei nº 11.769, sancionada em agosto passado, porém, não exige que os professores tenham formação específica na área de música. O receio era que não houvesse número suficiente de profissionais com essa formação -no país, há 42 cursos para formar professores de música, com 1.641 vagas no total, segundo o último Censo da Educação Superior, de 2006.
Só que, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, para dar aula na educação básica, é preciso ter licenciatura, e essa exigência deverá ser levada em conta quando o tema for discutido pelo CNE (Conselho Nacional de Educação).
“A lei está aí para ser cumprida e, particularmente, acho-a muito positiva. A questão é quem vai dar a aula”, afirma Regina Vinhaes Gracindo, conselheira do CNE. “Ainda não discutimos a lei no conselho, mas, na minha percepção, é muito importante que o professor seja especializado ou, se for de outra área, que tenha uma formação continuada em música, no caso do professor de educação artística, ou em licenciatura, no caso do músico.”
Para Gabriela Silvestri, 27, formada em 2003 pela Unesp em educação artística com habilitação em música (hoje o nome do curso é licenciatura em educação musical), as perspectivas são muito boas.
“Desde a época da faculdade, nunca tive problema para conseguir emprego. Vejo que as escolas dão bastante valor para a experiência pedagógica. Tenho amigos que são bacharéis em música, e a realidade deles é muito diferente. A minha opinião é que, mesmo que a lei não exija a formação pedagógica, vale a pena investir numa licenciatura em música porque as escolas valorizam.”
“A música desenvolve várias habilidades e é importante ter didática e pedagogia para conseguir passar isso de forma criativa para os alunos”, concorda Adriana Alexandre Francato, 38, professora de música do colégio Santa Maria (zona oeste de São Paulo).
A lei não exige o ensino de música para todos os anos, e a implementação será de acordo com a proposta pedagógica da escola ou da rede. A Secretaria Estadual da Educação de São Paulo diz que não deve haver mudança na rede, pois, nas aulas de educação artística -dadas por 12.858 professores-, a música já é contemplada.
“O objetivo não é formar músicos dentro da escola, mas oferecer uma formação musical aos estudantes”, ressalta Helena de Freitas, coordenadora-geral de Programas de Apoio à Formação e Capacitação Docente de Educação Básica no Ministério da Educação.

O QUE DIZ A LEI

CONTEÚDO OBRIGATÓRIO
A música deve ser conteúdo obrigatório, mas não exclusivo do ensino de arte, que pode incluir artes plásticas e cênicas

PRAZO
As redes de ensino terão até agosto de 2011 para se adaptarem às exigências legais

FORMAÇÃO ESPECÍFICA
O artigo que exigia que o ensino de música fosse dado por professores com formação específica na área foi vetado pelo Lula

MOTIVO
Com o veto, profissionais sem formação acadêmica ou oficial em música podem dar aula



SP pode ter 20% de aulas à distância no ensino médio

Secretaria de Educação disse que não vai adotar a medida.
Escolas particulares podem modificar sua grade de aulas.

Do G1, em São Paulo

O estado de São Paulo poderá ter ensino médio com aulas à distância. A decisão foi tomada pelo Conselho Estadual de Educação (CEE) e publicada no Diário Oficial do Estado na última sexta-feira (17).

Segundo a deliberação do conselho, até 20% das aulas poderão ser ministradas em modalidade semipresencial. De acordo com o documento, “considera-se modalidade semipresencial quaisquer atividades didáticas, módulos ou unidades de ensino centrados na auto-aprendizagem e com a mediação de recursos didáticos organizados em diferentes suportes de informação que utilizem tecnologias de informação e comunicação remota”.

No ensino fundamental também poderão ser utilizadas aulas à distância. No entanto, elas deverão se restringir a atividades complementares, ao reforço dos estudos e à recuperação.