23/06/2009 / Em: Clipping

 

Quem chutar terá pontuação menor (Folha de S.Paulo – Fovest – 23/06/09)

O Ministério da Educação adverte: não adianta chutar no Enem. Será possível identificar, com base no padrão das respostas de cada candidato, quem acertou aleatoriamente uma determinada questão. Mais: no cálculo da nota, o peso atribuído ao acerto do “chutador” será inferior ao dos que responderam de modo correto por dominar o tema. O sistema antichute é uma das características da TRI (Teoria de Resposta ao Item), adotada no novo Enem. Criado para substituir o vestibular nas universidades federais, o exame ocorre em 3 e 4 de outubro.
Com a TRI, as perguntas são “inteligentes” -sabe-se o perfil de quem acerta com maior probabilidade as mais fáceis, as intermediárias e as difíceis. Isso ocorre graças a um banco com milhares de respostas de alunos que atualmente testam as questões do Enem. Além de estabelecer padrões de resposta, o teste também seleciona quais serão as 180 questões que comporão o Enem. Participam dessa etapa estudantes do segundo ano do ensino médio e universitários primeiranistas. Os alunos do terceiro ano do ensino médio, público-alvo do Enem, ficaram de fora -para não terem acesso a uma pergunta que possam encontrar no exame. É o padrão das milhares de respostas que revela o chute. Estatisticamente, quem erra questões mais fáceis não acerta as difíceis. Do mesmo modo, os que acertam as mais complexas não erram nas simples. “É assim que a TRI permite identificar prováveis chutes na hora de calcular a nota do estudante”, diz Heliton Tavares, diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep (órgão do MEC responsável pelo Enem).

O segredo: coerência

Com um mecanismo que detecta respostas fora do padrão, qual o segredo para ir bem em uma prova como a do Enem? Ter um índice de acertos equilibrado e “coerente”, diz Tadeu da Ponte, coordenador do vestibular do Insper (ex-Ibmec-SP). A instituição adotou pela primeira vez a TRI no vestibular de 31 de maio. A vantagem, segundo ele: maior precisão para escolher candidatos -e um vestibular com um número menor de perguntas.

Acertos

Também em razão da TRI, a prova do Enem não será avaliada pelo percentual de acertos, como em um vestibular convencional. Embora também leve em conta quem acerta mais, o exame atribui um peso a cada pergunta ou grupo delas -assim, responder de modo correto oito em dez questões não representa 80% na nota final. Tavares usa o esporte para comparar os dois mecanismos: o vestibular clássico é o futebol, em que fazer gol vale um; o Enem, o basquete -em que é possível, a depender da distância, fazer dois ou três pontos. O resultado será específico para cada tema (português, matemática, ciências da natureza e ciências humanas). Não haverá nota, mas sim uma pontuação que, em uma escala, definirá o grau de habilidades e conhecimentos do aluno. O mais provável é que a escala vá de 100 a 500 pontos, diz o Inep. Sobre a divisão de questões, diz o diretor do Inep, é provável que o exame tenha 25% de fáceis, 50% de intermediárias e 25% de difíceis. Há necessidade de perguntas mais simples porque o Enem não será usado apenas como vestibular das federais. Servirá também para avaliar o conhecimento dos alunos que deixam o ensino médio, para aqueles que fizeram o antigo supletivo e para quem quer entrar no ProUni -programa que dá bolsas para alunos de baixa renda em universidades particulares.


Processo seletivo adotado nos EUA inspirou Enem (Folha de S.Paulo – Fovest – 23/06/09)

A inspiração para o novo Enem veio do SAT, modelo de seleção de universitários adotado nos EUA. Feito sete vezes ao ano, o SAT tem redação, além de perguntas objetivas e discursivas de interpretação de textos e matemática. A intenção é avaliar a capacidade de pensamento crítico do candidato. Tal qual o Enem, o estudante pode fazer o SAT uma vez e se candidatar a vagas em mais de uma universidade. O teste também pode ser feito no exterior. O exame é parte do processo de entrada na universidade. Na admissão também são levados em conta o desempenho escolar, as atividades extracurriculares -em esportes, por exemplo- e até a recomendação de professores. Versão brasileira do SAT, o Enem não substituirá o vestibular, afirmam especialistas. Em primeiro lugar, há a dificuldade de associar num único processo seletivo as particularidades das universidades, diz Jocimar Arcângelo, que implantou na década de 80 a comissão de vestibular da Unicamp -na ocasião, a instituição fazia vestibular com a USP. Além disso, a unificação depende de negociação -a União não tem autonomia para impor um sistema único aos Estados. Para Isabel Cappelletti, da PUC-SP, esse processo, se ocorrer, será gradativo.


USP, Unesp e Unicamp vão aceitar só exame novo (Folha de S.Paulo – Fovest – 23/06/09)

Até o ano passado, o candidato que fizesse o vestibular para a USP, a Unesp ou a Unicamp poderia escolher entre usar a nota das questões objetivas de uma das duas últimas edições do Enem para compor 20% do desempenho da primeira fase -no caso da Unesp, com as atuais mudanças do exame, 10% da nota final. Agora, se quiser a ajuda do Enem na primeira etapa do vestibular, o aluno vai ter que fazer a nova edição da prova. A primeira decisão partiu da USP. Depois as outras duas estaduais também afirmaram que não aceitarão a pontuação das provas anteriores do Enem no vestibular de fim de ano. A prova do novo Enem acontece nos dias 3 e 4 de outubro. As inscrições vão até 17 de julho, pelo site www.enem.inep. gov.br/inscricao.

Quase um milhão

Até as 18h da última sexta, 932 mil estudantes já haviam se inscrito para o novo Enem. A prova, realizada pelo Ministério da Educação, é gratuita para alunos da rede pública e tem taxa de R$ 35 para quem estuda em escola particular. O uso do Enem no vestibular é opcional. A decisão das instituições estaduais paulistas se deve às mudanças que serão aplicadas no exame do MEC -ele vai passar a ter 180 questões de caráter mais aprofundado e será usado por várias universidades federais como etapa do processo seletivo. Candidatos que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas também terão de fazer o novo Enem se quiserem a bonificação dada pela Fuvest. O bônus é de até 6% a mais, de acordo com a nota, em ambas as fases do vestibular da USP. As três instituições estaduais de ensino afirmam que a decisão de não usar as notas das provas anteriores do Enem pode ser revista no próximo ano.


Sociedade partida envergonha o país  (JB Online – Sociedade Aberta – 21/06/09)

Cristovam Buarque

SENADOR (PDT-DF)

Cento e vinte e um anos depois da Abolição da Escravatura, duas fotos, uma ao lado da outra, mostram como mudou pouco a realidade brasileira. Se olharmos a foto de uma sala de aula em uma universidade federal, veremos somente rostos brancos; uma foto tirada dentro da Febem mostraria apenas rostos negros. Essas duas fotos bastam para envergonhar o Brasil pelo pouco que já foi feito ao longo de um século para corrigir o que ocorreu durante os quatro séculos anteriores. Nada indica que o Brasil esteja decidido a tomar as medidas para corrigir isso. A primeira ação seria fazer uma revolução educacional que permitisse assegurar oportunidades iguais a todas as crianças brasileiras, desde o dia do nascimento até o final do ensino médio, independentemente da cidade em que tenham nascido, da cor de sua pele, da renda de sua família. Está na desigualdade da oportunidade a causa das cores nas duas fotos. A discriminação racial no Brasil não vem de leis discriminadoras. O preconceito racial, embora existente no Brasil, não é suficiente para brecar o ingresso de estudantes negros na universidade, e de jovens brancos na Febem. Mas essa ação, mesmo que tomada agora, com uma nacionalização da educação básica, levaria 15 anos para surtir o efeito da igualdade de oportunidades racionais no ingresso nas universidades e Febens. Até lá, a discriminação social continua e induz à discriminação racial. Por isso, as cotas para negros são um paliativo para mudar a realidade crônica das duas fotos. Mesmo assim, muitos – talvez a maioria da população brasileira – são contra a cota, com dois argumentos falsos. Primeiro, de que levaria à queda na qualidade do ensino. Um argumento de quem deseja manipular a opinião ou de quem não conhece o assunto. As cotas só beneficiam aqueles que terminarem o ensino médio e passarem no vestibular; apenas promove quem tenha sido aprovado, mas em uma classificação posterior ao limite das vagas. Nada indica que, depois de quatro ou cinco anos de curso, um jovem que tenha passado em 25º lugar no vestibular vá ser um profissional melhor do que aquele aprovado em 26º lugar. Ninguém pergunta a um médico sua classificação no vestibular. A qualidade pode até se elevar graças às cotas, por duas razões: uma, porque aumenta a concorrência no vestibular, ao atrair mais jovens que não pensariam em entrar na universidade; outra, porque os cotistas terão de se esforçar para quebrar o preconceito contra eles. O segundo argumento é de que discrimina jovens brancos que teriam de ceder vaga para negros. Na verdade, a discriminação seria contra os jovens que estudaram em escolas de qualidade, com garantia de acesso à universidade, quase todos brancos, mas que passaram por virem de famílias com renda acima da linha de pobreza. Isso não piora a universidade, nem traz qualquer benefício social, porque o jovem negro que termina o ensino médio e passa no vestibular certamente não vem de família pobre. Isso só corrige a vergonha das duas fotos, que mostram a demora em completar a abolição dos escravos, com uma escola pública que assegure igualdade de oportunidades a todas as crianças: descendentes de brancos livres ou de escravos negros. Nossa seleção de futebol não precisa de cotas, porque a bola é redonda para todos; chegam lá os mais talentosos e persistentes. Só uma escola redonda para todos permitiria abolir a necessidade de cotas. Isso exige uma revolução na educação de base. Mas os defensores e opositores das cotas desprezam essa solução definitiva: a igualdade de oportunidades para abolir todos os privilégios. Só ela acabaria com a disputa atual de quem tenta restringir os privilégios ou garantir acesso a eles. O Brasil é um país dividido, com uma sociedade partida. Cotas são migalhas necessárias, mas não levam a uma revolução que abra a porta por onde os excluídos atravessem para a modernidade, vivam plenamente sem necessidade delas. Essa porta é a escola igual para todos, capaz de quebrar privilégios e levar o Brasil a um salto civilizatório.