24/05/2010 / Em: Clipping

 


Sem preconceito nem ódio  (O Estado de S.Paulo – Espaço Aberto – 24/05/10)

Demétrio Magnoli, analisando um artigo inédito meu, pergunta o que penso do que ele chama “ensino do ódio”, que consistiria em criar artificiosamente divisões raciais no Brasil, opondo, num país miscigenado, supostos descendentes puros de brancos a outros puros descendentes de escravos (13/5, A2). Considero justo beneficiar grupos historicamente discriminados com uma ação afirmativa que reverta a tendência a continuar a discriminação. Isso vale para as mulheres, os negros, os indígenas, os pobres, para citar só algumas categorias. A ação afirmativa, nos EUA, é procedimento mais complexo do que a mera quantificação de beneficiários ? que chamamos de “cotas” ? e mudou profundamente aquele país. Vejam-se as séries de TV, sempre com negros em posição de destaque, mais que no Brasil. Veja-se o presidente dos EUA. Apoio, por isso, a política compensatória. Se deixarmos as coisas meramente seguirem seu curso, o preconceito continuará. Mas há cuidados a tomar. Primeiro, uma política de cotas deve ter prazo de validade. Isso porque seu cerne é compensatório. É mais do que um paliativo, mas não muito.



PMDB quer cobrar mensalidade em universidade pública  (IG – Educação – 23/05/10)

Principal aliado do PT na campanha de Dilma Rousseff à Presidência, o PMDB apresentará proposta para o programa de governo com pontos que colidem com o que os petistas pregam. No capítulo da educação, o PMDB aconselha Dilma a instituir “progressivamente” a cobrança de mensalidade nas universidades públicas federais, caso seja eleita presidente. O partido escalado para ocupar a vaga de vice na chapa acha que o governo deve cobrar prestação dos alunos “cuja renda familiar anual seja superior a 150 salários mínimos” – a referência corresponde hoje a R$ 76.500,00. “Essa proposta é inconstitucional”, avaliou o jurista Dalmo de Abreu Dallari, ao destacar que o artigo 206, inciso IV da Constituição, garante a gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais. Para Dallari, a sugestão é “puramente demagógica” e não tem futuro. 

Eles ainda são minoria  (IG – Último Segundo/Educação – 23/05/10)

João Batista de Sousa, 57 anos, é quase uma exceção. Ao longo da vida, atingiu lugares inimagináveis pela sua família e pela sociedade onde vivia. Negro, pobre, filho de uma dona de casa e um agricultor, decidiu estudar e mudar a trajetória a que muitos à sua volta o condenavam: seguir os passos do pai. O mineiro da cidade de Uberaba se tornou um cirurgião especialista em coloproctologia (câncer intestinal), e, hoje, acumula ainda as funções de professor e vice-reitor da Universidade de Brasília (UnB). Sempre bem-humorado, João Batista diz que costuma “não dar ouvidos ao preconceito”, que, segundo ele, o “acompanhou sempre”. Os pais de João não estudaram. O pai frequentou uma escola durante 60 dias apenas. A mãe só foi alfabetizada depois dos 40 anos. Apesar isso, eles incentivaram os filhos a seguir caminhos diferentes. Eles entraram no colégio aos 7 anos. Quem fazia corpo mole ganhava um castigo inusitado: um choque de realidade. Para assustar os que não queriam saber de livros, o pai de João os colocava para trabalhar pesado na fazenda, ao lado dos peões. Assim, achava que faria os filhos entenderem que era preciso buscar um futuro melhor. A tática não funcionou com todos. Mas com o vice-reitor da UnB deu certo.

Racismo permeia as escolas  (IG – Educação – 23/0510)

Quando ainda era uma criança, Alisson Jeferson das Neves, de 24 anos, teve de provar que tirava notas boas porque era estudioso, não porque “colava” de algum colega. Precisou provar que era grande e parecia mais velho por causa da genética não porque era repetente. Foi colocado frente a frente com uma coleguinha para que ela tocasse nele e não tivesse mais “nojo” do amiguinho. A necessidade era provar que os dois só tinham tons de pele diferentes. A cena que não sai da cabeça de Alisson há 20 anos (ele tinha apenas quatro quando isso aconteceu) e não é rara nas escolas brasileiras. Pesquisa realizada pela Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (Ritla) com quase 10 mil estudantes de escolas públicas do Distrito Federal mostra que o racismo contamina o ambiente escolar. Mais da metade (55,7%) dos alunos admite ter visto situações de discriminação racial no colégio. As formas são variadas. Apelidos pejorativos, piadas preconceituosas, olhares desconfiados, exclusão do convívio social com o grupo. A coordenadora do estudo, Míriam Abramovay, conta que os apelidos dados aos negros impressionam. “Quase sempre eles são relacionados ao que os jovens consideram como ruim. Zé Pequeno (o traficante do filme Cidade de Deus), preto de macumba, negro safado, chocolate podre, endiabrado, galinha preta de macumba, preta fedida.

Mitos e preconceitos  (IG – Educação – 23/05/10)

Mudar a trajetória dos negros no mercado de trabalho levará ainda muito tempo. Os 122 que separam o País do tempo em que eles eram escravos ainda não foram suficientes para colocá-los próximos da população branca no mercado de trabalho. Os dados mais recentes que traçam esse cenário são de 2008. Naquele ano, diferentes pesquisas mostraram que o negro ainda ocupa menos cargos de chefia e mais vagas para trabalhos menos qualificados. De acordo com o Instituto Ethos e o Ibope, apenas 3,5% dos trabalhadores afrodescendentes eram chefes nas maiores empresas brasileiras. O Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e suas Ações Afirmativas, feito há dois anos, revelou que os brancos ocupavam 94% dos postos executivos. A pesquisa trouxe uma série histórica, já que também havia sido aplicada em 2003 e 2005, cujo resultado demonstra pouca evolução na participação dos negros nas vagas de chefia: de 1,8% na primeira edição para 3,5% em 2007.  

“A escola está em função de uma elite social”  (IG – Educação – 23/05/10)

O ensino superior é a principal alavanca para quem deseja conquistar melhores empregos e salários. Chegar lá, porém, não é um caminho simples para todos os jovens brasileiros. Muitos têm desistido antes mesmo de terminar a educação básica, cuja conclusão define a conquista de melhores postos de trabalho ou o alcance de uma vaga na universidade. Se entre os jovens brancos o cenário é ruim, entre os negros piora. Enquanto 61% dos adolescentes brancos frequentam o ensino médio, a presença dos jovens negros nessa etapa é de 42,2%. Os dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (Pnad) 2008 mostram que houve melhora nessa participação. Em 1998, a quantidade de negros matriculados no ensino médio era três vezes menor.A mudança é percebida também nos dados de analfabetismo. Entre os 4 milhões de jovens analfabetos do País com idade entre 15 e 29 anos, os negros representam o dobro dos brancos. Em 1998, a diferença era três vezes maior. A taxa de analfabetismo entre a população jovem branca é de 6,2% e, entre a negra, 13,6%, de acordo com a Pnad. Observando a taxa de crianças matriculadas no ensino fundamental, que era de 97,6% em 2008, se ignora que os 2,4% que estão fora da escola representam 680 mil crianças. Desse total, a maioria é negra: 450 mil. “A educação é fundamental para eliminar ou manter os preconceitos. 

Ações afirmativas promovem igualdade de disputa  (IG – Educação – 23/05/10)

Desbravar espaços restritos exige oportunidades. A chance de mudança na vida de Amintas da Silva, 32 anos, veio de um programa de ação afirmativa. Parecia distante o sonho de se tornar um diplomata quando começou a se preparar para o concurso, um dos mais difíceis do Executivo. Ficou próximo com capacitação adequada e recursos financeiros para bancá-la. Amintas é um dos 168 afrodescendentes que já participaram do Programa de Ação Afirmativa do Ministério das Relações Exteriores. Criado em 2002, concede bolsas de estudos a jovens que queiram se preparar para o concurso da carreira diplomática. Com o dinheiro recebido do Itamaraty, eles bancam cursinhos, materiais didáticos e podem utilizar parte para se manter. “Fiz o concurso quatro vezes para conseguir passar. Achei que passaria de primeira, mas trabalhava para pagar o cursinho, estudava dentro do ônibus. Não dava para competir com os meus colegas. O programa foi uma oportunidade de concorrer em pé de igualdade e foi crucial na minha vitória. Estudei durante um ano e meio com a bolsa e passei”, conta o psicólogo, que cursou a Universidade Federal da Bahia (UFBA).Não há cotas no concurso de diplomacia para negros. O que programa faz é ajudar os candidatos a se preparar.



Universidades estaduais paulistas permitem intercâmbio entre si  (Folha de S.Paulo – Fovest – 23/05/10)

Para quem não estuda em universidade federal, uma opção é o intercâmbio entre as estaduais paulistas. Desde 2000, alunos de Unesp, Unicamp e USP podem fazer intercâmbios entre si.
Para participar, o aluno deve conferir se as disciplinas que deseja cursar na outra universidade têm ementa e carga horária equivalentes às de seu currículo e receber a aprovação do coordenador de seu curso. Na estadual de destino, o intercambista tem o status de aluno especial, o que permite, ao fim do intercâmbio, a emissão de um registro das atividades realizadas. Mas, ao contrário da mobilidade federal, o intercambista paulista não precisa se desligar temporariamente da universidade de origem. Aluna regular de teatro no Instituto de Artes da Unesp, na Barra Funda (zona oeste de SP), Ilda Andrade, 25, cursa a disciplina maquiagem como aluna especial na USP. “Na Unesp, a disciplina se chama caracterização 2. Os nomes das disciplinas são diferentes, mas o conteúdo e a carga horária não”, afirma. Ela optou pelo intercâmbio porque os horários de duas disciplinas que deveria cursar na Unesp se sobrepunham, e assim ela atrasaria a sua formatura. Na USP, solucionou o problema. “Estou adorando e conhecendo outras pessoas da minha área, outros modos de pensar o teatro”, diz. Carlos Bragatto, 22, fez o mesmo. Aluno da Unesp em Marília (435 km de SP), cursa ciências sociais na USP, para onde quer se transferir. Para ele, a interação com os docentes na Unesp era mais fácil, mas na USP os professores são melhores. A Unicamp reconhece também atividades acadêmicas realizadas na Unifesp e na UFSCar, desde que aprovadas previamente.



Cotas para os estudantes da rede pública

  (Jornal do Brasil – Sociedade Aberta – 23/05/10)

Após alguns anos de discussão sobre cotas raciais e sociais, o Conselho Universitário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), uma das poucas instituições a debaterem o tema, se reúne, até o fim deste mês, para decidir um passo importante na vida dos universitários. Caso o conselho aprove, a UFRJ será a segunda instituição de ensino público no Rio de Janeiro a adotar o sistema de reserva de vagas em universidades públicas.  Quando a União Nacional dos Estudantes (UNE) e União Estadual dos Estudantes (UEE-RJ) formularam essa proposta, em 2000, tinham como elemento norteador a necessidade de democratizar o acesso à universidade brasileira, conhecida por seu caráter elitista. A UFRJ, nestes últimos anos, foi um importante cenário de reflexão sobre o papel da universidade brasileira e a necessidade de se romper com os muros que em muitos momentos nos impedem de colocar o conhecimento aqui produzido a serviço de um projeto de desenvolvimento nacional e regional. A educação e o acesso ao conhecimento são elementos decisivos para a perpetuação das mazelas sociais e profundas desigualdades em nosso país, e foi nesta casa, num profundo exercício democrático, que nos convencemos durante a elaboração do projeto do Reuni, que escancarar as portas é a melhor contribuição que podemos dar à sociedade brasileira neste momento. No entanto, somente a ampliação de vagas não é suficiente para democratizar verdadeiramente essa instituição.