27/01/2014 / Em: Clipping

 


A ponte entre educação e economia   (O Estado de S.Paulo – Opinião – 27/01/14)

A última rodada do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (Pisa), divulgada no final do ano passado, mostra que o Brasil continua firme no ranking entre os países com pior desempenho em educação. E os melhores países continuam os mesmos, com algumas mudanças de posição. As sete primeiras são ocupadas pelos asiáticos. A diferença entre os alunos do país mais bem colocado – China, Xangai – e os do Brasil é de mais de 200 pontos, ou seja, o equivalente a cinco anos escolares. É com países desse naipe educacional que competimos na arena internacional. É fato que não se podem esperar grandes mudanças a cada aplicação do Pisa. Para isso acontecer teria sido necessário um esforço gigantesco dos brasileiros, o que não ocorreu. O que chama mesmo a atenção, contudo, é o silêncio e o alheamento dos responsáveis pela política econômica e das lideranças empresariais diante da situação educacional do Brasil em relação ao restante do mundo. Afinal, o Pisa é a ponte que liga a educação à economia do conhecimento. Concebido na virada do século por especialistas reunidos pela Organização de Cooperação para Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Pisa logo se tornou um benchmark, o termômetro da qualidade internacional da educação. A cada ano é maior o número de países que adere a esse teste, aplicado a cada três anos e que é original em várias dimensões. A característica mais importante do Pisa é a de que a avaliação afere habilidades consideradas essenciais para o sucesso do jovem na escola, no mercado de trabalho e na vida da economia do século 21. O teste está para a sociedade do conhecimento da mesma forma que saber ler e escrever estava para os primórdios da Revolução Industrial.



Examinar os médicos   (Folha de S.Paulo – Editorial – 27/01/14)

São desoladores os resultados do exame de proficiência aplicado aos estudantes que se formaram em 2013 nas faculdades de medicina do Estado de São Paulo. Quase 60% dos 2.843 futuros profissionais submetidos ao teste revelaram-se incapazes de acertar pelo menos 3 a cada 5 questões de múltipla escolha propostas pelo Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) e foram, por isso, reprovados. A situação das instituições privadas é especialmente preocupante. Enquanto o índice de reprovação nas faculdades públicas foi de 34%, nas particulares –onde está a maioria dos alunos– nada menos que 71% não conseguiram ter desempenho satisfatório. Infelizmente, não há nenhuma novidade nesses números. Desde 2005, quando o conselho profissional paulista começou a aplicar o exame, repete-se o padrão pífio, sem sinais de evolução. Resta evidente, e de forma categórica, a precariedade dos cursos de medicina, mas este nem é o pior aspecto desse quadro. Mais grave é o fato de que os recém-formados, mesmo reprovados, não são impedidos de exercer a medicina. Embora a prova do Cremesp seja obrigatória desde 2012, o candidato não precisa ser aprovado. Basta comprovar sua participação no teste para obter o registro profissional, sendo considerado, no mais das vezes de um ponto de vista puramente burocrático, apto a prestar atendimento à população. O próprio Cremesp reconhece o absurdo desse modelo em que médicos com comprovadas deficiências na formação são autorizados a atuar na área da saúde. Desnecessário lembrar que os prejuízos causados por equívocos nesse campo podem ser irreparáveis. A questão, todavia, só pode ser resolvida por meio de legislação federal. Está além, portanto, da competência do conselho estadual paulista –que, além de ser favorável à obrigatoriedade de aprovação no teste como precondição para o ingresso na carreira médica, é o único que avalia os formandos. Eis por que esta Folha defende a aprovação, pelo Congresso, de verdadeiro exame nacional de habilitação para a medicina. Por razões óbvias, os reprovados não deveriam ser admitidos na profissão. A segurança e a saúde da população, é isso o que está em jogo.