30/03/2015 / Em: Clipping

 


Câmara quer coibir trotes violentos  (Correio Popular – Cidades – 28/03/15)

Foram protocolados ontem na Câmara Municipal de Campinas três projetos de lei que visam coibir os trotes violentos na cidade. As medidas preveem o fim dos trotes em ruas, avenidas e praças públicas e o fim do patrocínio de eventos estudantis por empresas que fabriquem, comercializem ou distribuam bebidas alcoólicas. Também será cobrada maior responsabilidade das instituições de Ensino Superior, que ficarão obrigadas a instaurar processo disciplinar contra o aluno que praticar trote. A iniciativa do Legislativo campineiro foi motivada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) instalada pela Assembleia Legislativa que investigou uma série de denúncias de violação de direitos humanos nas universidades paulistas, entre elas a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas).A expectativa é de que as leis coloquem um ponto final na prática de ações violentas contra ingressantes das universidades públicas e privadas. A primeira norma determina a proibição de realização de trotes em espaços públicos. Outro projeto determina que, mesmo que o trote ocorra fora das dependências da universidade, a instituição instaure processo disciplinar contra o aluno que praticar violência física, psíquica e verbal contra os calouros. Empresas que fabricam, comercializam ou distribuam bebidas alcoólicas ficam impedidas de patrocinar qualquer evento estudantil, sob pena de multa para aquelas que descumprirem. Os projetos, feitos em coautoria pelos vereadores Thiago Ferrari (PTB) e Pedro Tourinho (PT) também preveem pagamento de multa por quem promove trote nos espaços públicos. “Não são os estudantes que vão por conta própria. Eles vão como parte do trote, com meta de dinheiro que tem que coletar no sinal. Sempre tem uma entidade ou alguém que está promovendo por trás”, explicou Tourinno. Os valores das multas ainda não foram definidos. Sobre a fiscalização, os vereadores esperam definir em um debate. “A gente não pode criar uma atribuição, mas através de provocação popular, poderá ficar a cargo da Guarda Municipal”, afirmou Ferrari. Os vereadores também irão buscar a realização de um convênio entre a Prefeitura e o Disque-Denúncia para que as informações sobre trotes possam ser feitas de forma anônima através do serviço. A medida também deve facilitar a fiscalização. Tourinho ressaltou que o trote acontece em muitas instituições de ensino e que algumas contam com o próprio serviço de disque trote, outras não. “Um serviço municipal irá centralizar as denúncias”, explicou. “É um canal para receber as denúncias sem expor o denunciante”, acrescentou Thiago Ferrari. O petebista ressaltou que, em decorrência da CPI do Trote da Assembleia Legislativa, ficou claro que Campinas é uma das cidades com maior incidência de trote violento. “As medidas que estamos propondo visam deixar claro que Campinas abomina o trote violento, a nossa preocupação está em proteger os alunos que tiveram e que têm os direitos individuais transgredidos e criar instrumentos para que as próprias instituições e o poder público possam agir”, completou Ferrari. As propostas irão passar pelas comissões de legalidade, mérito, educação, políticas públicas e em seguida vai para votação. Atualmente, está em tramitação na Câmara um projeto de autoria de Pedro Tourinho,  que institui a semana de combate ao trote violento e prevê ações solidárias. “A ideia é que o poder público trabalhe junto com as universidades, acompanhando e estimulando a realização de eventos que promovam a recepção solidária, produtiva e positiva aos ingressantes”, afirmou. “A gente entende que o poder público pode contribuir no combate às violações de direitos humanos e trote violento”, completou Tourinho.



A USP é tudo isso?   (Folha de S.Paulo – Opinião – 29/03/15)

Pela quarta vez consecutiva, a Universidade de São Paulo foi reconhecida no ranking de reputação da organização britânica Times Higher Education –principal avaliação internacional de instituições de ensino superior– como uma das cem melhores universidades do mundo. Precisamente, a USP está entre as 60 primeiras.  Nessas classificações internacionais, concorremos com instituições que foram criadas há mais de 300 anos e que estão situadas em países com muito mais bagagem histórica em matéria de cultura e de geração de conhecimento.  Sem essa tradição é, no mínimo, bastante improvável que uma universidade alcance a excelência. Ninguém faz uma instituição desse porte e com esse nível de reputação da noite para o dia. Causa surpresa, portanto, que uma universidade localizada abaixo da linha do Equador, como é o caso da USP, alcance uma posição de tanto destaque.  Para que o leitor tenha uma ideia aproximada do que representa essa conquista, vale registrar que Itália, Espanha e Portugal possuem muito mais tradição em pesquisa, cultura e inovação e, não obstante, nenhum desses países tem uma representante na lista das cem melhores do mundo. Não é só isso. Nenhuma universidade do mundo de cultura e língua latinas –abrangendo cerca de um bilhão de pessoas da Europa Ocidental, América Latina e Caribe “” está em melhor posição que a USP. Há, porém, duas francesas na mesma posição (51ª a 60ª).  Somos a única universidade da América do Sul a registrar o nome no ranking da Times Higher Education por quatro anos seguidos. É claro que isso alegra a todos. Uma instituição que tem 90 mil alunos, oferece 11 mil vagas no vestibular e forma 2.000 doutores a cada ano, situada a milhares de quilômetros dos grandes centros americanos e europeus, certamente precisa contar com muitas virtudes para chegar aonde chegou. Mas, além do júbilo, que lição devemos tirar desse feito? Neste momento, devemos ter a maturidade de constatar que essa lição é a do trabalho, da autonomia universitária e do espírito público. A USP se tornou o que é graças ao trabalho dedicado, qualificado e persistente de milhares de docentes, servidores e estudantes que procuram trilhar os caminhos do conhecimento em benefício da nossa gente e da humanidade. O método com que trabalhamos não é menos determinante. Esse método ensina que o arrojo administrativo e a grandeza de propósitos não devem ser postos, jamais, como princípios opostos aos da transparência, da impessoalidade e da economicidade. A autonomia é indispensável ao desenvolvimento da ciência e à natureza diversa de uma universidade pujante e livre. Ao mesmo tempo, a responsabilidade no trato dos recursos públicos, que são recursos de todos os cidadãos, deve ser um imperativo prioritário.  São valores como esses que nos trouxeram até aqui. Deles, não podemos nos desviar. A USP é um patrimônio de São Paulo, instalada atualmente na capital paulista e em outras sete regiões do Estado: Piracicaba, Ribeirão Preto, São Carlos, Bauru, Pirassununga, Lorena e Santos. Acima disso, ela é um patrimônio do Brasil e, cada vez mais, vem sendo valorizada pelo mundo acadêmico em todos os continentes, acima das fronteiras nacionais. Buscando o melhor do ensino, da pesquisa e da extensão de suas atividades, a comunidade da USP tem todos os motivos para se sentir gratificada, mas deve estar consciente de que quer mais –e será mais. Podemos nos orgulhar do que já alcançamos, sem fugir ao dever de saber que temos tudo para ser ainda melhores.

MARCO ANTONIO ZAGO, 68, é reitor da USP. Professor titular da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, foi pró-reitor de pesquisa e presidente do CNPq – Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico