02/01/2013 / Em: Clipping

 


Tendências/Debates: Não há lei racial boa   (Folha de S.Paulo – Opinião – 28/12/12)

O governo de São Paulo lançou em 20 de dezembro um programa de cotas para ingresso nas três universidades estaduais paulistas que, se aprovado pelos órgãos competentes das respectivas instituições, entrará em vigor já em 2014. Não há dúvidas que o atual sistema de acesso às universidades é injusto na medida em que coloca lado a lado para concorrer estudantes preparados por excelentes escolas, quase todas privadas e caras, com outros matriculados em escolas da rede pública que são sabidamente deficientes. O resultado disso é um sistema perverso e ineficiente, que acaba excluindo do sistema estudantes talentosos que, se apoiados, dariam no futuro um retorno maior à sociedade. E pior: no final, são justamente esses mais carentes que acabam se desdobrando para pagar uma faculdade privada muitas vezes de péssima qualidade. Assim, eu sou o primeiro a brindar o fato do programa de cotas reservar certo número de vagas para estudantes da rede pública que, com isso, terão mais chances de chegarem à universidade por estarem diante de uma competição mais igual.

Hélio Schwartsman

Raça e genes   (Folha de S.Paulo – Educação – 26/12/12)

O caderno sobre cotas que a Folha publicou no domingo mostrou, com exemplos de carne e osso, que aquilo que vemos como características raciais não corresponde necessariamente à biologia. A análise de DNA encomendada pelo jornal revelou que a estudante que se declarou negra tinha menos genes de origem africana do que a que se definiu como “muito branca”. A razão para a confusão é que o Brasil é um país miscigenado e a cor da pele, que tomamos como principal indicador de raça, é definida por um conjunto de cinco a dez genes que operam pelo modelo de interação. Se um branco tem um filho com uma negra, é provável que a criança exiba um cor intermediária. Mas, quando os pais são ambos mestiços, o filho pode herdar múltiplas combinações desses genes, ampliando o leque de colorações possíveis. A questão central é se é lícito ou não falar em raças humanas. E aqui o debate é acirrado. De um lado, há cientistas, encabeçados pelo biólogo Richard Lewontin, que sustentam que raças são meras construções sociais, fruto da imaginação de nossas mentes essencialistas sem significado biológico ou taxonômico. Do outro lado, estão autores como Anthony Edwards e Richard Dawkins, para os quais as categorias raciais têm algum valor informativo, já que existe correlação entre a frequência dos diferentes alelos de um gene numa população e a sua distribuição geográfica. Em outras palavras, as pessoas se parecem com seus pais e tendem a herdar várias de suas características. É útil para um médico saber se o paciente é negro na hora de diagnosticar uma possível anemia falciforme ou outra doença de maior prevalência nesse grupo. A polêmica está longe de resolvida, mas, mesmo que a ciência venha a reconhecer a validade do conceito de raça, isso de modo algum legitimaria qualquer forma de discriminação. O argumento contra o racismo é moral, e não biológico.



Ações afirmativas e propósito  (O Estado de S.Paulo – Educação – Janeiro/2013)

A elite dos universitários   (O Estado de S.Paulo – Notas e Informações – 02/01/13)

A medida que aprofunda e diversifica suas coletas de dados,o IBGE faz constatações surpreendentes.Com base no último Censo Demográfico,por exemplo, o órgão apurou que, em 2010, quase 11% dos estudantes universitários do País já eram formados ou estavam fazendo um segundo curso de graduação. A maior parte desse grupo de estudantes está no Sudeste. Por ser a região mais desenvolvida do Brasil, é nela que é oferecida a maior quantidade de empregos na economia formal. O levantamento do IBGE também revela que 30,1% dos universitários que fazem uma segunda graduação estão na faixa etária de 40 anos – ou seja, são bem mais velhos do que a média de estudantes do ensino superior e a maioria já tem uma colocação no mercado de trabalho. O levantamento do IBGE mostra ainda que 13,2%dos estudantes que estão na segunda graduação fizeram – ou fazem – a primeira graduação numa instituição pública federal ou estadual. Portanto, esse é um contingente de estudantes qualificados, uma vez que as universidades públicas estão entre as melhores do País. O IBGE não indagou os motivos que levaram 11% dos universitários brasileiros a fazer um segundo curso de graduação.Os especialistas em pedagogia e em recursos humanos aventam três hipóteses para explicar essa decisão. A primeira seria o descontentamento com sua carreira profissional. Insatisfeitos com os baixos salários ou com a área do conhecimento de sua graduação, eles voltaram à faculdade buscando se reposicionar no mercado de trabalho. “A pessoa escolheu uma carreira e não se identificou com ela”, diz Jacqueline Resch, especialista em recursos humanos. “Isso mostra a inadequação do sistema universitário brasileiro, em que o aluno tem de fazer escolhas prematuras sobre profissões eventualmente dissociadas do mercado de trabalho”, afirma Antonio Freitas, professor da Fundação Getúlio Vargas, criticando o que chama de “profissionalização precoce”. A segunda hipótese explica a decisão como decorrente do avanço da tecnologia e seu impacto na divisão do trabalho intelectual, rompendo a tradicional classificação dos currículos do ensino superior em três áreas básicas – ciências humanas, exatas e biomédicas. Como desenvolvimento da ciência e da tecnologia, essas áreas se entre cruzaram. Com isso, a economia formal passou a exigir profissionais com formação interdisciplinar.“Muitos estudantes se conscientizaram da necessidade de complementar sua formação com disciplinas que não dominam. As empresas exigem cada vez mais dos funcionários e as pessoas cada vez mais trabalham em equipes interdisciplinares”, afirma Jacqueline Resch. A terceira hipótese está associada à velocidade das mudanças científicas e tecnológicas –fenômeno que os economistas chamam de “processo de destruição criadora”. Na dinâmica desse processo, o que hoje é novidade científica envelhece em
curto período de tempo. Desse modo, o conhecimento tende a evoluir em ritmo cada vez mais rápido – e quem se formou num curso superior há cinco ou dez anos é obrigado a voltara estudar, para se reciclar academicamente. Caso contrário,corre o risco de ser expulso do mercado de trabalho, por não dominar as novas técnicas de gestão e produção. Em outras palavras, voltar a estudar, como descobriram os estudantes que estão fazendo uma segunda graduação, é questão de sobrevivência profissional. O aumento da escolaridade de 11% da população de universitários é uma informação importante, que mostra a necessidade de reestruturar o ensino superior do País. A divisão dos cursos em três áreas básicas já está superada e os currículos universitários orientam-se por matrizes profissionais desconectadas com a realidade social e econômica do País. E como o mercado de trabalho exige dos profissionais uma formação cada vez mais abrangente, um diploma superior já não é mais uma garantia de ascensão profissional.A Universidade precisa ser repensada,para dar às novas gerações uma formação mais sólida e um conhecimento técnico mais próximo da realidade do mercado de trabalho.



Entrevista – Kabengele Munanga

 “A educação colabora para a perpetuação do racismo”  (Carta Capital – Política – 30/12/12)

Nascido no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo, em 1942, o professor de Antropologia da Universidade de São Paulo Kabengele Munanga aposentou-se em julho deste ano, após 32 anos dedicados à vida acadêmica. Defensor do sistema de cotas para negros nas universidades, Munanga é frequentemente convidado a debater o tema e a assessorar as instituições que planejam adotar o sistema. Nesta entrevista, o acadêmico aponta os avanços e erros cometidos pelo Brasil na tentativa de se tornar um país mais igualitário e democrático do ponto de vista racial. CartaCapital: O senhor afirma que é difícil definir quem é negro no Brasil. Por quê?