04/08/2018 / Em: Clipping

 

Como irá funcionar o vestibular indígena da Unicamp (NEXO – Expresso – 4/8/2018)

Universidade estadual paulista aplica pela primeira vez em dezembro de 2018 prova única para candidatos

 

Classificada como uma das melhores universidades do país, a Unicamp irá aplicar, em dezembro de 2018, seu primeiro vestibular específico para populações indígenas. O edital com as regras do Vestibular Indígena da Unicamp já está disponível e as inscrições podem ser feitas pela internet de 15 de agosto a 14 de setembro. A prova, que é única, será aplicada no dia 2 de dezembro, em cinco cidades do país: Campinas (SP), Recife (PE), Manaus (AM), São Gabriel da Cachoeira (AM) e Dourados (MS). Pela via do Vestibular Indígena, serão oferecidas 72 vagas no total, distribuídas em dezenas de cursos, havendo pelo menos duas vagas para indígenas por curso. A instituição pretende, até 2021, ampliar o número para mais de 140 vagas. A criação do Vestibular Indígena foi determinada por uma deliberação de novembro de 2017 do Consu, o Conselho Universitário da Unicamp. Faz parte de uma série recente de medidas inclusivas e de ampliação das formas de ingresso, como a aprovação, em maio de 2017, do sistema de cotas étnico-raciais e sociais para os cursos de graduação da universidade, a partir do vestibular de 2019. A Unicamp não é a primeira universidade brasileira a adotar um vestibular específico para as populações indígenas. A Universidade Federal de São Carlos implementou seu Vestibular Indígena em 2008. Outras instituições públicas do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, além da Universidade de Brasília, também aplicam uma prova específica para candidatos indígenas.

 

Como funciona

 Para ter o pedido de inscrição aceito, o candidato terá que comprovar o pertencimento a uma das etnias indígenas do território brasileiro, por meio da documentação especificada no edital. Para concorrer é preciso, além disso, ter cursado o ensino médio integralmente na rede pública ou em escolas indígenas reconhecidas, cadastradas no Ministério da Educação, ou ter obtido a certificação do ensino médio pelo Enem ou exames oficiais como o Encceja. Em uma única etapa, os candidatos resolverão, em português, 14 questões de múltipla escolha de Linguagens e Códigos, 12 testes de Ciências da Natureza, 12 de Matemática, 12 de Ciências Humanas e uma redação.

 

Por que um vestibular específico

A pertinência de se criar um vestibular específico para estudantes indígenas reside na recomendação, tanto pela Constituição quando pela Lei de Diretrizes e Bases, de que os estudantes sejam avaliados no vestibular levando em conta especificidades de suas experiências e percursos escolares. É o que defende José Alves de Freitas, professor do Departamento de História da Unicamp e coordenador da Comvest.  “Fazer com que um estudante indígena concorra a uma vaga de cota junto com estudantes pretos e pardos, por exemplo, o coloca em uma condição de inferioridade, não apenas numericamente, mas porque a população negra vivencia a mesma realidade escolar de todos os demais estudantes”, disse Freitas ao Nexo. De acordo com o professor, é preciso considerar que boa parte dos grupos indígenas frequentam escolas onde há um único professor e que, para eles, o português é a segunda língua. Por conta disso, ainda que o Vestibular Indígena da Unicamp seja em português e cobre conteúdos básicos da escola tradicional, traz particularidades como a ausência de prova de inglês e de uma lista de livros obrigatórios. Na redação, segundo o professor, geralmente é pedido que os candidatos desenvolvam temas relacionados à cultura indígena ou ao protagonismo dos movimentos indígenas no atual contexto da sociedade brasileira. “Nós queremos que esses estudantes se sintam acolhidos e possam realizar uma prova com características mais próprias à sua realidade, à sua cultura e à sua experiência”, declarou o coordenador da Comvest.

 

Permanência

 Na contramão de incentivos de instituições públicas como a Unicamp ao ingresso de alunos indígenas, o governo federal interrompeu, no primeiro semestre de 2018, a concessão de novas bolsas do Programa Bolsa Permanência, sem a qual calouros universitários indígenas e quilombolas de todo o país correm o risco de abandonar os estudos. A bolsa consiste em uma ajuda mensal de R$ 900 para moradia, alimentação e material escolar, destinada a estudantes indígenas e quilombolas e/ou em situação de vulnerabilidade socioeconômica, que estejam matriculados em instituições federais de ensino superior.  Desde o início do ano letivo de 2018, em março, novos universitários não receberam nenhuma parcela da bolsa, nem conseguiram inserir seus nomes no sistema do PBP como candidatos à ajuda, segundo uma reportagem de junho da Folha de S.Paulo. Na Unicamp, uma universidade estadual paulista, em paralelo ao Vestibular Indígena foi assinada em 2018 a portaria que cria o Grupo de Trabalho “Inclusão Indígena na Unicamp”. Com representação de alunos, professores e pesquisadores da Unicamp, o GT deverá propor estratégias de acolhimento e acompanhamento dos ingressantes indígenas. “Não adianta promover um sistema que democratize o ingresso e não ter condições de oferecer a permanência”, disse José Alves de Freitas em entrevista. “É conhecida de todos a crise de financiamento das universidades públicas no atual contexto, com a queda de arrecadação, corte de bolsas e recursos. De qualquer maneira, a Unicamp tem um grupo de trabalho fazendo estudos a respeito do acolhimento de todos os estudantes indígenas, sobretudo daqueles que virão de regiões muito distantes, que demandarão moradia e alimentação.” Segundo Freitas, as bolsas serão concedidas aos estudantes indígenas de acordo com critérios socioeconômicos, utilizados para bolsas já concedidas a alunos da Unicamp. “Pela experiência de outras universidades, sabemos que esses critérios, que beneficiam nossos atuais estudantes, se aplicarão provavelmente a todo o grupo de estudantes indígenas”, disse Freitas, acrescentando que parte do orçamento da Unicamp para 2019 está reservado para contemplar os ingressantes indígenas com bolsas e programas de apoio à moradia. Além do suporte material, o grupo de trabalho também estuda maneiras de fornecer a esses alunos suporte acadêmico. “Não vamos tratar os alunos indígenas como um outro grupo de estudantes, que seja visto como inferiorizado. Ao mesmo tempo, temos que reconhecer sua peculiaridade e adaptação. É importante que se diga que há uma defasagem em relação a que as universidades cobram não apenas dos estudantes que entram pelo sistema de cotas, mas para a quase totalidade dos estudantes”, disse o coordenador da Comvest. Freitas lamenta os cortes feitos pelo governo federal de verbas que “impulsionam a ciência, tecnologia e o acesso de populações tradicionalmente marginalizadas ao ensino superior”. Estudantes da Unicamp que atendam aos requisitos da bolsa não têm direito automático, como os das universidades federais, ao PBP, por ser a Unicamp uma universidade estadual. Entretanto, segundo Freitas, a instituição solicitou a reconsideração desse corte e pediu a inclusão de seus estudantes indígenas no programa federal.