05/07/2017 / Em: Clipping

 

‘A gente olha para a USP e não parece que está no Brasil’, diz aluna negra aprovada em 1º lugar (Estadão – Edu – 05/07/2017)

Estudante de Medicina, Bruna Sena comemorou aprovação de cotas raciais na universidade: ‘vai refletir a diversidade da sociedade’

A estudante Bruna Sena, aprovada neste ano em 1º lugar no curso de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) em Ribeirão Preto, comemorou a decisão da USP desta terça-feira, 4, de aprovar cotas raciais e sociais no vestibular. “A gente olha para a USP e não parece que está no Brasil”, diz a aluna de 17 anos, que é negra e estudou em escola pública. Pela primeira vez na história, a USP terá cotas no vestibular para alunos de escola pública e pretos, pardos e indígenas (PPI) em todos os cursos. A meta é ter 50% de calouros da rede pública até 2021 e, dentro desse grupo, ter 37% de estudantes PPI. A decisão já vale para o próximo processo seletivo. A medida foi aprovada nesta terça-feira, 4, pelo Conselho Universitário (CO), órgão máximo da instituição. A universidade vai manter a Fuvest, a prova de ingresso tradicional, e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como métodos de entrada. “Eu fiquei muito feliz. Foi uma coisa histórica. Já estava na hora. A Unesp (Universidade Estadual Paulista) e a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) já têm cotas e a USP estava na retaguarda”, destacou a aluna, em entrevista ao Estado. Após anos de pressão dentro e fora da comunidade universitária, a USP é a última a aderir às cotas entre as estaduais – a Unicamp aprovou reserva de vagas em maio deste ano e a Unesp, em 2013. Já o ensino superior federal usa cotas desde 2012. “Finalmente isso vai refletir a diversidade da sociedade, a diversidade étnica e social. A gente olha para a USP e não parece que está no Brasil. Não reflete o que a gente vê na rua”, critica a estudante, uma entre os poucos alunos negros em sua turma. “Na minha sala, não tem nem cinco. Não chega a 10%”. A aluna, que recebeu bônus em sua nota no vestibular pelo Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp), destaca o valor das cotas. “Os bônus são importantes, mas a reserva de vagas, o sistema de cotas, é muito mais efetivo.” O reitor da USP, Marco Antonio Zago, admite que a novidade vai demandar mais recursos para a permanência estudantil e a USP precisará de ajuda financeira do Estado para conceder bolsas aos alunos de baixa renda. A demora em aprovar a mudança, diz ele, se deve ao perfil divergente entre as unidades. “A USP é muito heterogênea na sua origem, na vida acadêmica das unidades.”

 

Somos livres? (Estadão – Cultura – 05/07/2017)

Há 200 anos, nem casamento, nem profissão eram da alçada do indivíduo

Há poucas semanas, o Conselho Universitário da Unicamp (Consu) aprovou uma política de cotas para a universidade. Não, a crônica de hoje não é sobre cotas e seu debate, porém nasce da experiência que citei. Terminado o encontro do Consu, publiquei na minha fanpage o resultado. Tema polêmico, potencial explosivo, polarizadas as opiniões, era natural que houvesse detratores e defensores. Porém, como garanti, não focarei no tema cotas. O que me espantou foi ter constatado que muitas pessoas continuaram a debater como se a decisão estivesse no futuro ou dependesse dos internautas, especialmente entre aqueles que tinham posição contrária ao ocorrido. A maioria absoluta nem sequer era formada por funcionários, alunos ou docentes da Unicamp. Aprovar políticas para a universidade é da competência de alguns órgãos, entre eles, o Consu. Para chegar a ter assento lá, professores, funcionários e alunos precisam se candidatar. O organismo é, a rigor, o órgão máximo da universidade. O meu espanto era que muitas pessoas se pronunciaram na minha página dizendo que eram contrárias e que isso era ruim. Qual seria, penso eu, a utilidade de uma opinião a posteriori? Minha reflexão afastou-me do já decidido tema cotas na Unicamp e aproximou-me da ideia de participação e liberdade nas redes. Poucas pessoas têm poder real em uma sociedade. Quem decide o que é substancial, quase sempre, é um núcleo reduzido. Cada um de nós tem uma área de atuação limitada e um poder restrito. O grande poder foge à maioria. Diariamente somos invadidos por taxas de juros, decisões do Copom, regras do imposto de renda, políticas de cotas, prazos para emissão de passaporte, lançamentos de novidades tecnológicas e milhares de outras coisas, grandes e pequenas, que escapam ao cidadão comum tanto no plano decisório como na simples compreensão do mecanismo.  Paralelamente à impotência quase generalizada que sofremos com graus variados de paciência, temos o discurso da sociedade mais livre que jamais houve. Decido sobre minhas roupas, minhas refeições, meu voto, minha identidade partidária e meu casamento a partir de um mundo líquido no qual o desejo é imperador. Há 200 anos, nem casamento, nem profissão, nem o código de vestimenta (regras suntuárias) eram da alçada do indivíduo. Mais: minhas redes e a garantia da liberdade de expressão estão em um ponto forte. Damos opinião sobre o STF, sobre o papa, sobre artistas e livros. Podemos postar coisas do estilo “odeio Marx”! Ou “von Mises é uma fraude”! Eu destruo, na humildade do meu aparelhinho conectado, todo um sistema de pensamento. Se alguém questiona se eu sequer li a totalidade da obra dos autores, posso largar a pérola mais preciosa da ostra contemporânea: é a minha opinião! Isso vale para tudo e estamos embriagados com o gozo libertário do fluxo de consciência internético. Que delícia observar uma decisão de um juiz do STF que se dedica ao tema constitucional desde antes do meu natalício e lascar: ele é um babaca! Que Campos Elísios se abrem ao arcanjo da liberdade do Facebook! O mundo livre é o mundo como deveria ser. Vou trazer um pouquinho do mundo como ele é. Ainda que a opinião pública tenha certo peso, a diluição dela na massa pode ter tornado o grupo relevante no jogo político, mas não o indivíduo da massa. Em si, eu mudo tanto o mundo como um servo da gleba no apogeu do sistema senhorial. Tal como lá, a rebelião servil (a jacquerie) poderia provocar abalos. No entanto, nem nos movimentos massivos o indivíduo único e solitário exerce o protagonismo. Para ter poder como massa, a primeira condição é submeter-se a uma liderança das massas, a um calendário de atividades e a uma orientação superior. No mínimo, é preciso aceitar um sanduíche dos organizadores… A internet representa uma fantasia extraordinária. O Consu aprovou algo. Eu não concordo, por exemplo. Vou postar contra. Vou replicar um textão reprobatório, irei colocar uma faixa de luto no meu perfil e vou fundar um #abaixoascotas! Ótimo, exerci meu sagrado direito de liberdade de expressão, amparado no artigo quinto da nossa lei magna, inciso IV: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato. Bem, a internet permite passar por cima do tal do anonimato e manifestar uma clara opinião sem riscos. A internet aumenta o potencial da minha liberdade. Só… que não. Veremos. A partir do momento em que posto minha ideia, deixo de ser um inexpressivo cidadão para me tornar um internauta com opinião. O limite entre os dois campos pode ser debatido no grande plano coletivo, todavia faz diferença para o indivíduo. Exerci um direito sagrado e claro. Tornei-me alguém e teclo um enter com a mesma convicção da cabine de votação: aqui está a pedrinha com a qual completo o muro do todo. “Eu penso assim” e, pela graça das redes sociais, minha voz ecoa nas fossas abissais do mundo virtual. O objetivo não é discutir aqui se uma opinião de apoio ou de ódio é, de fato, relevante. Penso em como o indivíduo deixa de fazer outras coisas, deixa de organizar algo mais concreto (como ingressar em um partido político ou militar em algum sindicato) porque seu desejo de miniprotagonismo foi satisfeito. Seríamos livres de fato? Nossa liberdade teria sido conduzida ao papel de digitadores e postadores? Séculos de esforço pela sociedade de direito teriam encontrado este melancólico epílogo: gente olhando o mundo de longe, mas querendo indicar, pelas suas redes, que se sente alguém ou tem alguma importância? Seria nossa liberdade de postar uma cilada ardilosa que entorpece sentidos e, em troca da fantasia de participação, entrega em definitivo o mundo aos seus donos e agentes reais? Seria ampliar a percepção que tive há alguns anos: quem realmente tem poder não atende celular nem possui perfil no Facebook? Boa semana para todos.

 


 

‘Vitória histórica’ dos movimentos, USP aprova cotas sociais e raciais no vestibular (RBA – Educação – 05/07/2017)

Maior universidade do país é a última do sistema público a aderir a sistema de inclusão. Medida passa a ser adotada a partir de 2018

Em decisão inédita e considerada histórica, o Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP) aprovou, nesta terça-feira (4), a adoção de cotas sociais – para alunos de escolas públicas – e raciais em seus vestibulares. A medida entra em vigor a partir dos exames de 2018 para os cursos de graduação. Em seu primeiro ano, serão reservadas 37% das vagas, por curso, para estudantes oriundos da escola pública; já em 2019, a porcentagem deverá ser de 40%, subindo para 45% em 2020; a partir de 2021 e nos anos subsequentes, 50% das vagas de cada curso e turno serão preenchidas por cotistas. Dentro destes percentuais reservados para alunos da rede pública serão determinadas as vagas para pretos, pardos e indígenas (PPI). A proporção será definida pela base de dados do IBGE no estado de São Paulo, que aponta o total da PPI em relação a toda a população do estado – hoje, esse índice é de 37%. A reserva considerará também, os resultados nos dois processos de seleção da USP: a Fuvest e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A decisão é vista como uma vitória dos movimentos negro e indígena. Laura Daltro, integrante do Núcleo de Consciência Negra e formada em Pedagogia na USP, conta que já tinha deixado de acreditar na aprovação da pauta. “A gente colocou a reitoria da principal universidade do país contra a parede. É a última universidade a aprovar cotas raciais e sem perspectiva de aprova-las. A gente até achou que não ia rolar. É motivo de muita comemoração”, conta. Para a conquista das cotas étnicas, Laura conta que o apoio dos professores da USP foi crucial. Na tarde de ontem, cerca de 300 professores apresentaram um manifesto que exigia a aprovação da pauta, pois as cotas sobre as condições sócio-econômica eram insuficientes – ideia inicialmente apresentada pelo reitor da universidade, Marco Antonio Zago. Daltro afirma que, agora, o cenário dos jovens negros irá mudar. “É menos um jovem negro sem perspectiva de futuro. As cotas não vão acabar com o racismo ou com o genocídio da juventude negra, mas sabemos que as cotas são um passo para uma juventude que não tinha perspectiva.”

Novas lutas

Mesmo com a pauta principal aprovada, a militância não descansará. Segundo a aluna formada na USP, o objetivo é lutar pela permanência dos alunos da universidade. “Muita gente nova vai ter de enfrentar esse problema”, lamenta. A USP possui um programa de auxílio para os alunos de baixa renda se manterem na instituição, que inclui uma verba para moradia, transporte, alimentação e compra de livros. Entretanto, a militante conta que, recentemente, 150 bolsas foram cortada e há atraso no pagamentos desses auxílios.”A USP passa por uma crise há anos, quando eu estudava lá cortaram minha bolsa de iniciação científica. O bandejão também enfrenta o mesmo problema”, afirma Laura. Ela defende que, mesmo com a falta de repasses feito pelo governo Alckmin à universidade, dinheiro não falta nos cofres da instituição. “Não é verdade que a USP não tem dinheiro, pois gasta com reformas inúteis. Eles reformaram a Praça do Relógio, custou muito caro e não havia necessidade. No mesmo período a universidade fez corte de bolsas. Eles dizem que não tem dinheiro, mas parece não ter só para a permanência estudantil.” Outra resistência prevista será contra o racismo por parte de alunos e professores, conta Laura. “Tem um grupo de direita da universidade que declarou que (as cotas) são ‘um grande retrocesso’. Vai ser difícil fazer esse enfrentamento, porque sempre existe um aluno racista, um professor racista. Mas, agora, o movimento intensifica-se mais ainda. É um fortalecimento da gente.”


Após aprovação de cotas, reitor da USP defende política nacional de apoio estudantil (G1 – Educação – 05/07/2017)

Problema da permanência estudantil ‘ainda não é muito grande, mas está crescendo’, afirmou Marco Antonio Zago.

O professor Marco Antonio Zago, reitor da Universidade de São Paulo (USP), afirmou na noite desta terça-feira (4) que é a favor da inclusão das instituições públicas de ensino superior estaduais em uma política do governo federal de apoio à permanência de estudantes de baixa renda na universidade. Entre as outras mudanças aprovadas no Conselho Universitário está permitir que as unidades possam oferecer contas no Sisu atreladas à renda dos candidatos. Nas edições de 2016 e 2017 do Sisu, das quais a USP participou, as únicas modalidades de adesão permitidas eram ampla concorrência, cota para escola pública e cota para estudantes PPI de escola pública. “Em um determinado momento, os governos, e incluo o governo estadual e o governo federal, terão que entender que este não é um problema próprio da universidade, para ela resolver. É necessário um apoio especial para isso”, afirmou Zago a jornalistas após o fim da reunião do Conselho Universitário, onde a USP decidiu instituir cotas raciais atreladas a cotas para a escola pública tanto no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) quanto na Fuvest. Segundo o reitor, que está no último ano de seu mandato de quatro anos, o problema da permanência estudantil “ainda não é muito grande, mas está crescendo”. O objetivo por trás das políticas de permanência é oferecer auxílio financeiro a estudantes de baixa renda para que eles possam pagar aluguel, se locomover até as aulas, comprar livros e pagar por refeições enquanto cursam a graduação.

Problema crescente

“Neste ano, com o aumento da inclusão social, já ficou evidente que é um problema que vai tender a crescer, e eu tenho que garantir que vai ser muito difícil, a universidade vai ter que dar muita atenção para isso”, afirmou Zago. Em 2017, 36,9% dos calouros da USP fizeram pelo menos o ensino médio em uma escola pública. De acordo com a Pró-Reitoria de Graduação, 19,3% de todos os calouros se identificam como pretos, pardos e indígenas. Segundo ele, em 2017, a USP “transferiu” cerca de mil bolsas de pesquisa para o programa de assistência estudantil. De acordo com o reitor, o valor dessas bolsas foi usado como auxílio-moradia para estudantes de baixa renda. “Neste ano, por exemplo, nós já tivemos que fazer uma manobra, que foi transferir algumas bolsas que nós tínhamos, que eram bolsas de natureza acadêmica, para cobrir a necessidade de auxílio-moradia.”

Política nacional de apoio

Zago afirma que são os próximos reitores da USP que terão que lidar com a crescente ameaça de evasão de estudantes que não têm renda suficiente para se manter na universidade. “Eu não estarei mais aqui. Mas eu entendo que, pode não ser imediatamente, mas em um determinado momento, os governos, e incluo o governo estadual e o governo federal, terão que entender que este não é um problema próprio da universidade, para ela resolver. É necessário um apoio especial para isso, como já o governo federal faz com relação às universidades federais.” De acordo com o reitor, “não há por que as universidades estaduais serem excluídas deste apoio que o governo federal dá, e dá para todo cidadão”. Ele afirma, porém, que atualmente a situação ainda não exige ações imediatas. “É algo ainda a ser estudado. Eu acho que nós não devemos colocar o carro na frente dos bois, dizer: ‘olha, vai ser um problema tão grande que não vai ter solução’. Eu acho que vai ter solução.”

 


USP aprova cota para negros e alunos de escola pública em todas as faculdades (R7 – Educação – 05/07/2017)

Decisão já vale para vestibular deste ano e mira ter 50% de calouros da rede pública até 2021

Pela primeira vez na história, a USP (Universidade de São Paulo) terá cotas no vestibular para alunos de escola pública e pretos, pardos e indígenas (PPI) em todos os cursos. A meta é ter 50% de calouros da rede pública até 2021 e, dentro desse grupo, ter 37% de estudantes PPI. A decisão já vale para o próximo processo seletivo. A medida foi aprovada nesta terça-feira (4), pelo Conselho Universitário (CO), órgão máximo da instituição. A universidade vai manter a Fuvest, a prova de ingresso tradicional e o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) como métodos de entrada. Cada curso poderá reservar, no máximo, 30% de suas vagas para entrada via Enem. A inclusão de alunos de escola pública será feita de modo escalonado. Em 2018, a meta é ter 37% de ingressantes de escola pública em cada faculdade. No ano seguinte, 40% em cada um dos cursos. Já em 2020 serão 45% em todos os cursos e todas as turmas da USP. E, em 2021, 50% em todas as graduações e turmas. O porcentual de 37% de PPI é definido segundo a distribuição populacional por raça no Estado de São Paulo, medida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A distribuição de cotas será feita entre Fuvest e o Enem – as metas consideram as reservas de vagas dadas na soma dos dois métodos de ingresso. Com a nota do Enem, o candidato usa o Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma do Ministério da Educação que reúne vagas destinadas ao ensino superior público. A proposta original da reitoria da universidade não fixava reserva de vagas específica para PPI. Isso foi alvo de críticas de professores e alunos durante a reunião do CO. Após anos de pressão dentro e fora da comunidade universitária, a USP é a última a aderir às cotas entre as estaduais – a Unicamp aprovou reserva de vagas em maio deste ano e a Unesp, em 2013. Já o ensino superior federal usa cotas desde 2012. Em 2013, a reitoria havia assumido o compromisso de ter metade dos alunos da rede pública entre seus ingressantes até o ano que vem. Com o plano aprovado ontem, essa meta é adiada em três anos. Das 11.147 vagas que a USP vai oferecer no próximo processo seletivo, 8.402 serão pela Fuvest. As 2.745 restantes serão pelo Sisu. “É emblemático, porque representa a universidade – que tem liderança no País e muita visibilidade – assumir que esse é um problema importante do ponto de vista de integração de nossa população”, declarou ontem o reitor da USP, Marco Antonio Zago, após o conselho. O reitor admite que a novidade vai demandar mais recursos para a permanência estudantil e a USP precisará de ajuda financeira do Estado para conceder bolsas aos alunos de baixa renda. A demora em aprovar a mudança, diz ele, ocorre pelo perfil divergente entre as unidades. “A USP é muito heterogênea na sua origem, na vida acadêmica das unidades.”

Esperança

A mudança renovou a esperança de vestibulandos que antes viam a USP como um sonho distante. Ewelyn Jacinto de Souza, de 17 anos, sempre estudou em escola pública e desde pequena deseja cursar Medicina na instituição. “Em alguns momentos, cheguei a pensar que não conseguiria passar em Medicina”, afirma ela, filha de um porteiro e uma diarista. “Agora, com as cotas, sinto que está mais acessível porque vou competir com pessoas que tiveram oportunidades parecidas com as minhas. O que estou aprendendo no cursinho é diferente do que vi na escola. É muito mais difícil”, diz a jovem, que, além de frequentar a escola e o cursinho, ainda estuda duas horas por dia em casa. Filha de um motorista de ônibus e uma pedagoga, Letícia Lopes Rosa, de 16 anos, também conta que seus colegas de escola – uma Etec – não vão prestar a Fuvest por acreditarem que não têm chance de entrar. “Quero cursar Medicina e estou me esforçando muito para isso. Meus amigos acham que é impossível para alunos de escola pública entrar na USP, mas eu acredito que com as cotas eles vão ficar mais confiantes.”


Até 2021, USP afirma atingir 50% de vagas para estudantes de escolas públicas (Universia – Notícias – 05/07/2017)

A USP aprova essa semana as cotas de 50% para estudantes de escolas públicas. Medida deverá estar completa até 2021

O Conselho Universitário da USP aprovou nessa terça-feira (4) a adoção de cotas para estudantes da rede pública de educação. A mudança será gradual, com o número de vagas reservadas crescendo a cada ano, com previsão de chegar a 50% das vagas da universidade até 2021. A medida vale para todos os cursos, inclusive medicina. A aprovação vem logo em seguida à adoção do sistema de cotas raciais no curso de medicina. Por meio de nota, o reitor da USP, Marco Antonio Zago, afirmou que essa foi uma decisão histórica: “É emblemático, porque representa uma universidade que tem liderança e muita visibilidade no país”.

 



Ensino Médio brasileiro mais atraente para os jovens (JC Online – Educação – 05/07/2017)

Para atrair os estudantes, a ideia do MEC é dar mais autonomia para que eles possam escolher o caminho escolar que querem seguir

Sancionada em fevereiro deste ano pelo presidente Michel Temer, a Lei do Novo Ensino Médio vai flexibilizar e modernizar o currículo dos estudantes nos três últimos anos escolares. Um dos principais objetivos dessa lei é atrair e manter os jovens na escola, já que os dados não mostram um bom cenário: o Brasil tem 1,7 milhão de pessoas entre 15 a 17 anos fora do ensino médio e, dos cerca de 8 milhões de alunos que se matriculam todos os anos, apenas 1,9 milhão conseguem concluir os estudos. “Uma coisa é certa: de fato, precisava ocorrer uma mudança”, explica o presidente do Conselho Nacional de Educação, Eduardo Deschamps. “O grande objetivo é integrar os diversos conhecimentos de cada área para soluções. Se eu trabalho com disciplinas compartimentalizadas, o conhecimento fica individualizado”, continua Deschamps. Para atrair os estudantes, a ideia é dar mais autonomia para que eles possam escolher o caminho escolar que querem seguir, baseados em seus interesses e planos profissionais. São cinco itinerários formativos: linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências humanas e formação técnica. Mesmo com a separação das disciplinas de acordo com essas cinco áreas do conhecimento, todos deverão cumprir a Base Nacional Curricular Comum, a BNCC. Ela vai estabelecer as competências que os estudantes deverão desenvolver ao longo do ensino médio. De obrigatório mesmo nos três anos do ensino médio somente português e matemática. Todas as outras matérias serão incluídas na BNCC, não como disciplinas isoladas, mas como competências a serem desenvolvidas. Além disso, a Lei prevê que, em até cinco anos, as escolas devem ampliar a carga horária anual para 1.000 horas. Entre as questões que precisam ser trabalhadas ainda está a formação de professores para o novo modelo de ensino e a produção do material didático. “A preparação da gestão das escolas vai ser um desafio para o Novo Ensino Médio. A complexidade de você gerir essa flexibilidade no currículo vai exigir muito trabalho”, afirma o diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos. O estudante que escolher seguir o caminho da formação técnica terá a vantagem de receber formação técnica profissional dentro da carga horária do ensino médio regular, e deixar o colégio com os dois diplomas em mãos. Hoje em dia, sem a Lei do Ensino Médio em vigor, o estudante que deseja ter uma formação técnica precisa cursar 1,2 mil horas do ensino técnico, além do ensino médio. Todas as mudanças vão valer tanto para a rede pública como para a particular. A implementação oficial, que será comandada por cada estado da federação, ainda depende da aprovação do Conselho Nacional de Educação depois que a BNCC for definida. Tudo isso pode levar tempo. Mas Deschamps acredita que a implementação pode começar em 2019. Ou seja – os estudantes que atualmente estão no 8º ano do Ensino Fundamental já podem pegar o Novo Ensino Médio. “Entre 2019 e 2020 certamente começa, mas temos que ter o cuidado de não fazer de forma apressada. Tem várias questões que precisam ser trabalhadas para dar certo”, afirmou. A estudante Maria Julia Braz está no 3º ano do Ensino Médio na escola estadual Sizenando Silveira. Ela não vai pegar o Novo Ensino Médio, mas acha que os novos estudantes poderão se beneficiar e muito. “Acho que a proposta é uma boa alternativa. Você vai ter o direito de escolher, se formar na área que você quer. A gente não pode perder tempo, vai ser bom poder se preparar para o ensino superior desde o primeiro ano”, diz ela, aos 16 anos. Mozart Neves também vê a reforma como uma saída feliz para os déficits educacionais. “A gente não podia mais continuar com 13 disciplinas para todos os alunos, ao longo dos três anos do Ensino Médio. Os dados educacionais do Ensino Médio no Brasil estão muito ruins. Não tem país nenhum no mundo em que os alunos têm que estudar 13 disciplinas”, prossegue Mozart Neves Ramos. Para ilustrar seu ponto de vista, ele pontua que mais de 1 milhão de jovens de 17 anos que deveriam estar no terceiro ano do ensino médio estão fora da escola. Além disso, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) está estagnado entre 3,5 e 3,7 desde 2007, segundo dados do próprio Ministério da Educação. “E por que essas pessoas não estão na escola? A grande maioria dos que abandonam a escola no ensino médio o fizeram por desinteresse. Os jovens não veem sentido na escola que está aí. Não podemos negar que continuar como estamos é levar a exclusão cada vez maior do jovem com relação ao ensino médio”, continua o especialista. “Do jeito que eu entendi, o aluno vai passar a ser protagonista do seu próprio currículo – e isso, teoricamente, tornará a escola e a sala de aula mais convidativas a ele. O modelo atual é falido, arcaico, modelo em que os professores são muito presos à burocracia escolar”, conclui o professor de história, sociologia e filosofia Reginaldo Cabral.

 


USP aprova cotas sociais e raciais para o vestibular (O Globo – Sociedade – 04/07/2017)

Metade das vagas será reservada para alunos de escola pública

Em uma sessão de mais de seis horas, o Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP) determinou, nesta terça-feira, a reserva de metade de suas vagas para alunos de escola pública. A proposta foi aprovada com 89 votos favoráveis, um contrário e quatro abstenções. Dentre essas vagas, 37,2% irão para alunos autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Aumentando ano a ano, até 2021, segundo a determinação, 50% das vagas da universidade devem estar reservadas para estudantes que cursaram o ensino médio em escolas públicas. Já no próximo vestibular, 37% das oportunidades serão destinadas a esses alunos. A decisão também foi recebida como vitória pelos que propunham adoção de cotas raciais, como o movimento estudantil. Durante a discussão, o sociólogo André Singer propôs que, das vagas reservadas para alunos de escolas pública, 37,2% sejam de cotas raciais, destinadas a alunos que se autodeclaram pretos, pardos ou indígenas. Essa proposta foi aprovada com 75 votos favoráveis, oito contrários e nove abstenções. O percentual de 37,2% é a proporção da população de São Paulo que se identifica como preta, parda ou indígena. Mais cedo, um grupo de cerca de 300 professores havia divulgado uma carta cobrando a adoção, também, das cotas étnico-raciais. Para eles, a proposta inicial que reservava cotas apenas para alunos de escola pública era insuficiente. A carta foi assinada por pesquisadores como Raquel Rolnik, Jorge Luiz Souto Maior, Lilia Schwarcz, Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, entre outros, como o ex-vereador Nabil Bonduki. “As primeiras medidas de cotas em universidades no Brasil já têm mais de 15 anos. Pensamos que essa decisão cabe à sociedade que financia a USP e mesmo assim é excluída dela”, defenderam os professores na carta.

COMO É O INGRESSO HOJE NA USP

Atualmente, 70% das vagas na USP são provenientes do vestibular realizado pela própria universidade. Desde 2016, as vagas restantes são reservadas para ingressantes que participam do Enem. Para elas, a universidade deu a liberdade para cada unidade de ensino definir divisões entre cotas para alunos de escola pública e autodeclarados pretos, pardos ou indígenas. Ao todo, 25 unidades da USP já instituíram cotas sociais e étnico-raciais nas vagas provenientes do Enem. No entanto, o ingresso pela Fuvest não possui nenhuma reserva de vagas. A única ação afirmativa realizada pela USP é um sistema de bonificação para alunos de escolas públicas ou que se identificam como pretos, pardos ou indígenas. O sistema permite que um estudante tenha até 25% de bônus no vestibular, mas não reserva nenhuma vaga. O programa levou a um aumento no número de estudantes oriundos da escola pública — foram 36% em 2016 —, mas abaixo da meta de 50% definida pelas universidades do estado de São Paulo até 2018. Com a nova meta, 50% estarão reservadas aos alunos da rede pública em 2021, que continuarão com o bônus, ou seja, o percentual de alunos da rede pública pode aumentar ainda mais.

 


USP aprova cotas raciais e de escola pública pela primeira vez em sua história (Agência Brasil – Educação – 04/07/2017)

O Conselho Universitário da Universidade de São Paulo (USP) aprovou na noite de hoje (4) a reserva de vagas para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI) nos cursos de graduação da instituição a partir do próximo ano. Esta é a primeira vez que a USP vai adotar um sistema de cotas sociais e raciais. De acordo com a USP, a reserva será feita de forma escalonada a partir do próximo ano: no ingresso de 2018, serão reservadas 37% das vagas de cada unidade de ensino e pesquisa; em 2019, a porcentagem deverá ser de 40% de vagas reservadas de cada curso de graduação; para 2020, a reserva das vagas em cada curso e turno deverá ser de 45%; e no ingresso de 2021 e nos anos subsequentes, a reserva de vagas deverá atingir os 50% por curso e turno. Dentro do percentual de vagas reservados para os estudantes de escolas públicas, incidirá ainda o porcentual de 37% de cotas para estudantes autodeclarados PPI. Este índice equivale à proporção desses grupos no estado de São Paulo, de acordo com o IBGE. As reservas de vagas vão considerar conjuntamente os dois processos de seleção da universidade: a Fuvest e o Sistema de Seleção Unificada (Sisu). O reitor da USP, Marco Antonio Zago, classificou a decisão do Conselho Universitário como histórica. “É emblemático, porque representa uma universidade que tem liderança e muita visibilidade no país. A inclusão social é um problema importante do ponto de vista de integração de nossa população”, disse. Em 2017, a USP registrou recorde no número de ingressantes oriundos de escolas públicas em seus cursos de graduação, que passou de 3.763 (34,6%), no ano passado, para 4.036 estudantes (36,9%) neste ano, conforme dados divulgados pela universidade.

Sisu

O Conselho Universitário também aprovou a ampliação do número de vagas do próximo concurso vestibular que serão destinadas ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu). “Ao todo, em 2018, serão oferecidas 11.147 vagas. Desse total, 8.402 serão reservadas para candidatos aprovados pela seleção da Fuvest e 2.745 para o Sisu”, divulgou a USP. Em relação ao vestibular de 2017, houve aumento de 407 vagas destinadas ao Sisu. As 2.745 vagas reservadas para o Sisu serão distribuídas em três modalidades: 423 serão para ampla concorrência; 1.312 para estudantes que tenham cursado o ensino médio integralmente em escolas públicas; e 1.010 para alunos de escolas públicas e autodeclarados pretos, pardos e indígenas (PPI).

Medicina

O Conselho Universitário decidiu, na reunião de hoje, pela criação do curso de medicina no campus da USP em Bauru. O curso, que será oferecido pela Faculdade de Odontologia de Bauru (FOB) a partir do próximo vestibular, terá duração de seis anos e oferecerá 60 vagas em período integral, das quais 42 serão reservadas para a Fuvest e 12 para a seleção via Sisu. Este será o terceiro curso de medicina da USP, que já é ministrado nos campi de São Paulo e de Ribeirão Preto e, tradicionalmente, se configura como uma das carreiras mais concorridas no vestibular. Também foi aprovada a criação do curso de bacharelado em biotecnologia, na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each), conhecida como USP Leste. O novo curso substituirá a licenciatura de ciências da natureza e terá 60 vagas.