08/04/2009 / Em: Clipping

 

 

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Comvest esclarece citações em matéria do Correio Popular  (Comissão de Vestibulares – 08/04/09)

Ao contrário do que foi publicado ontem no Correio Popular, na matéria “Unicamp discute vestibular a partir da próxima 2ª feira”, o Coordenador Executivo do Vestibular da Unicamp, professor Leandro Tessler, esclarece que as informações e opiniões a ele atribuídas não correspondem aos fatos nem à sua opinião. Nenhum assunto de Vestibular será deliberado na Unicamp na próxima segunda-feira, até porque nessa data não ocorrerá reunião da Câmara Deliberativa da Comvest. Ao contrário do que é afirmado, Tessler desconhece a posição do Conselho Estadual de Educação a respeito das mudanças propostas pelo MEC. Provavelmente o próprio Conselho Estadual não tenha se posicionado em relação a essas mudanças, não cabendo ao Coordenador do Vestibular da Unicamp afirmar se o CEE vai ou não discutir “reformas para os vestibulares das universidades estaduais”, conforme citado na matéria. O que de fato ocorreu foi uma reunião na qual o CEE ouviu as três universidades estaduais. Para concluir, Tessler não manifesta opinião sobre o “modelo americano de vestibular” atribuindo ao fato de não existir tal modelo, haja vista que não há vestibular nos Estados Unidos.


TV Brasil
Programa 3 a 1 (08/04/2009)

Programa 3 a 1 discute a polêmica sobre projeto de cotas nas universidades  (TV Brasil – 08/04/09)

Participam do debate: o Coordenador Executivo do Vestibular da Unicamp, professor Leandro Tessler, o Senador Cristovam Buarque e a Pesquisadora da USP, Mafoane Odara

O 3 a 1 discute a polêmica sobre o projeto de lei que institui o sistema de cotas para ingresso nas universidades públicas e que está dividindo o senado. De acordo com o texto em análise, já aprovado na Câmara dos Deputados, 50% das vagas já oferecidas em cada vestibular devem ser destinadas aos estudantes das escolas públicas. E a metade dessa reserva, 25% do total, seriam ocupadas por estudantes de famílias de renda até um salário mínimo e meio por pessoa. A outra metade seria reservada a alunos negros, pardos e indígenas.



Entre Aspas – Globo News (07/04/2009)

O fim do vestibular

O tradicional rito de passagem para universidade brasileira pode ser aposentado. O ministro da Educação quer o fim do vestibular. A ideia é substitui-lo por um novo Enem. Com a mudança, os alunos disputariam vagas para instituições federais de ensino superior em todo país. De acordo com as notas, poderiam escolher entre cinco cursos diferentes. Mas a mobilidade proposta pelo MEC pode sair pela culatra: em vez dos estudantes do norte e nordeste conquistarem vagas no sul e sudeste, seriam os alunos mais bem preparados de regiões ricas que ficariam com as vagas em outros estados. E você, o que acha? A idéia premia o mérito ou amplia o acesso?

Participam deste debate o Coordenador Executivo do Vestibular da Unicamp, professor Leandro Tessler, a secretária de Educação Superior do MEC, Maria Paula Dallari Bucci e o professor da Faculdade de Educação da USP, Nélio Bizzo.



COTAS PARA QUÊ?  (Época  Nº 568 – 06 de Abril de 2009)

Reservar vagas para negros e índios ou estudantes pobres nas universidades públicas não resolve uma injustiça histórica – e cria ainda mais problemas.

Funcionário da Petrobras, o carioca Thiago Lugão, de 24 anos, é formado em engenharia de produção no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet). Em 2002, ele foi classificado em 14º lugar no vestibular da Universidade do Norte Fluminense (Uenf), que tinha 20 vagas para o curso de engenharia de exploração e prospecção de petróleo. Lugão tirou 14,20 na prova de física, que valia 20. Ainda assim, viu concorrentes que tiraram 0,25 conseguir a vaga na sua frente, porque se declararam negros. Lugão foi um dos primeiros estudantes que fizeram vestibular na Uenf sob o regime das cotas raciais. “O sistema de cotas raciais é injusto. A cor da pele não quer dizer nada”, afirma. “Você não pode dar privilégio a alguém por causa da cor da pele. Meu avô era negro, e eu poderia me declarar pardo, até porque é difícil um brasileiro não ser pardo.” Lugão estudou no Colégio Santo Agostinho, um dos mais tradicionais do Rio de Janeiro. Convencido de que sofrera uma injustiça, recorreu aos tribunais. No ano passado, cinco anos depois, a Justiça decidiu que ele tinha razão. Mas Lugão já estava formado em outra universidade e pós-graduado. Hoje, ganha menos da metade que colegas formados no curso que ele queria.

Lugão é um personagem típico da história recente do sistema de cotas raciais, implantado nas universidades estaduais do Rio de Janeiro e da Bahia. Em tese, elas surgiram como uma tentativa de corrigir uma injustiça histórica – o desfavorecimento a negros e índios –, em meio a um sistema de educação pública de má qualidade. A Comissão de Constituição e Justiça do Senado deve votar, ainda neste mês, um projeto que propõe expandir esse sistema e criar reservas de vagas com critérios raciais e socioeconômicos nas universidades federais. Discutida como uma questão educacional, a instituição das cotas esconde seu real alcance para o país. Não se trata apenas de reparar injustiças contra estudantes negros ou índios. Se for aprovado na comissão e no plenário do Senado, o projeto criará a primeira lei racial do Brasil em 120 anos de história republicana. “A criação de cotas raciais não vai gerar problema para a universidade, mas para o país”, afirma o geógrafo Demétrio Magnoli – ele participa das discussões no Senado e escreve um livro sobre a questão racial. “A partir do momento em que o Estado cria a raça, passa a existir também o racismo.”

O projeto do Senado é confuso, resultado de dez anos de alterações e da inclusão de outras propostas, fundidas com a original. O texto prevê a reserva de 50% das vagas nas universidades e escolas militares e técnicas federais para alunos vindos de escolas públicas. Diz, então, que metade dessas vagas – ou seja, 25% do total – deve ser destinada a estudantes com renda familiar equivalente a até um salário mí­nimo e meio. Mas diz também que a porção de vagas reservadas para estudantes de escolas públicas deve ser destinada a negros e indígenas. A distribuição seria feita mediante a proporção dessas etnias em cada Estado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O ministro da Educação, Fernando Haddad, afirma que é impos­sível aprovar o projeto como ele está redigido.

É fato que o Brasil conhece algumas formas de racismo. Negros costumam ser vítimas de discri­minação, de preconceito velado, têm menos acesso a universidades e ao mercado de trabalho. São dis- torções graves, que merecem atenção. Mas a implan­tação das cotas é uma intervenção desajeitada num assunto delicado. O Brasil não conhece as formas mais radicais e violentas de racismo. Somos essen­cialmente um país de mestiços, fruto da combinação entre europeus, índios e negros. De acordo com o IBGE, 49,7% dos brasileiros se declaram brancos, 42,6% se consideram pardos, mestiços, e 6,9% se dizem negros. A raiz da questão é que, como os Es­tados Unidos, o Brasil foi um país escravagista. Entre o início da colonização, em 1530, e a abolição, em 1888, milhões de negros escravos foram comprados na África por traficantes e vendidos no Brasil para trabalhar em fazendas e serviços domésticos. O principal argumento dos militantes que fazem lobby pela aprovação das cotas raciais é que a herança da escravidão precisa ser reparada. Os negros brasilei­ros de hoje seriam descendentes dos escravos e, por isso, estariam muito atrás na corrida pelas oportunidades do mercado de trabalho. “As cotas têm de ser criadas porque os negros foram injustiçados”, diz Frei David Raimundo dos Santos, da ONG Educafro, um dos mais ativos militantes pró-cotas. “Por causa dessa herança, até hoje quem vai à universidade é a classe média branca, não a população negra.”

Os militantes afirmam que, ao adotar as cotas, o Brasil estaria fazendo o mesmo que fizeram os Estados Unidos. Após o fim da escravidão, em 1865, os americanos adotaram leis segregacionistas. En­tre 1876 e 1956, vigoraram as leis conhecidas como “Jim Crow”. Elas impediam os negros de frequentar as mesmas escolas públicas que os brancos, obriga­vam-nos até a frequentar banheiros separados e a sentar em bancos diferentes nos ônibus. Passou a valer também o conceito da “gota Cínica de sangue”. Pela lei, bastava que alguém tivesse apenas um an­cestral negro para ser considerado negro em seus documentos — independentemente da cor da pele. As leis segregacionistas caíram quando a Suprema Corte pôs fim à separação nos ônibus, em 1956.

As cotas raciais foram implantadas oficialmente pelo presidente Richard Nixon. Três anos antes de deixar o poder por causa do escândalo de Watergate, em 1974, Nixon firmou uma ordem executiva para fa­vorecer empresários negros em licitações do governo. As cotas para alunos negros nas universidades vieram em seguida. No final dos anos 1970, a Suprema Cor­te americana derrubou o sistema de cotas. Estudos recentes, como os do economista Thomas Sowell, da Universidade Stanford, acumulam fortes indícios de que o sistema de cotas não mudou, na prática, a vida dos negros americanos.

Fora o passado escravagista, o racismo no Brasil e nos Estados Unidos nada têm em comum. O Brasil nunca teve leis segregacionistas. Nem teve conflitos raciais, como os ataques da Ku Klux Klan contra ne­gros no sul dos Estados Unidos. “A cota racial é uma divisão artificial de uma sociedade miscigenada, baseada num problema (a escravidão) que ficou lá para trás”, diz o sociólogo Simon Schwartzman, pesquisa­dor do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade. “Não é a forma adequada de inclusão”

O conceito de raça foi moda entre os cientistas no século XX. As teorias eugênicas pontificavam a existência de raças superiores. Na Alemanha nazista, a eugenia foi usada para justificar a perseguição aos judeus, que resultou no extermínio de 6 milhões de pessoas. Nos últimos anos, o desenvolvimento da genética demonstrou que esse conceito de raça está ultrapassado. Num trabalho publicado em 2000, o geneticista Sérgio Danilo Pena, da Universidade Fe­deral de Minas Gerais, mostrou que os brasileiros são miscigenados. Quase não há branco que não tenha traços negros em seus genes nem negro que não tenha traços brancos. Portanto, brancos e negros brasileiros de hoje não são os herdeiros lineares dos senhores e dos escravos da colonização, respectivamente.

Ruanda, na África, é um exemplo radical de como o favorecimento racial pode gerar desastres. Quando tomaram o país, os colonizadores belgas encontraram dois grupos sociais, tútsis e hútus, que viviam em paz. Os belgas criaram cotas para favorecer os tútsis no serviço público. Após a independência, nos anos 1960, os hútus tomaram o poder e inverteram o favorecimento. Surgiu um conflito, que culminou no genocí­dio de 1994, quando os hútus exterminaram 1 milhão de tútsis. Os especialistas e os envolvidos no assunto afirmam que existe o risco de que conflitos raciais desse tipo, que nunca existiram no Brasil, aflorem.

“O que o Estado vai fazer é dizer às pessoas que elas não são iguais, mas que são desiguais, e dar direitos diferentes a elas”, diz Demétrio Magnoli. “As pessoas passarão a identificar interesses de raça.”

A experiência mostra que as cotas realmente se transformam em território de interesses e manipu­lação política. A índia criou um sistema de cotas há mais de 50 anos para favorecer os dalits, a casta mais miserável e desprezada do país. Ele deveria durar 12 anos, mas persiste até hoje. Não melhorou tanto a vida dos dalits, várias outras castas foram incluídas e, hoje, são comuns conflitos violentos entre castas que querem entrar para o sistema. Os conflitos raciais pioraram na índia, graças ao sistema de cotas.

No Brasil, a reivindicação das cotas não é feita por multidões injustiçadas, mas por grupos organi­zados. O movimento é liderado por ONGs ligadas a movimentos negros, cujos integrantes têm o apoio da Secretaria Especial de Políticas de Promoçãoda Igualdade Racial. A discussão se transformo§ numa disputa politica por um benefício jurídica Na semana passada, o senador Marconi Perfilo (PSDB-GO) apresentou no Senado uma propostt alternativa ao projeto em discussão na Comissão de Constituição e Justiça. Perillo propõe criar apenas as cotas sociais, que favoreceriam alunos pobres egressos de escolas públicas, no acesso às universidades públicas. Como a proporção de negros entre os pobres é grande, eles também seriam indireta. mente beneficiados. A proposta foi bombardeada pelas ONGs do movimento negro. “Não concordamos com essa opção de dar só as cotas sociais, gue favorecem os que não estão lutando, e não dar a raciais, que favoreceriam os negros, que lutam ha anos”, diz Frei David, da Educafro.

As ONGs envolvidas no movimento pelas cotas são bastante articuladas. Recebem apoio financeiro de fundações americanas que defendem políticas de ações afirmativas, como a Fundação Ford, a Rockefeller e a MacArthur. São instituições que acreditam em políticas de ações afirmativas como uma forma de compensar desigualdades. “O problema é que es­sas fundações vêm dos Estados Unidos, um país que acredita na ideia de raças”, afirma o advogado José Roberto Militão, militante há 30 anos do movimento negro, contrário à instituição das cotas. O financia­mento americano é usado para bancar, principal­mente, estudos de acadêmicos que defendem as ações afirmativas. De acordo com Militão, a Fundação Ford destinou neste ano cerca de US$ 10 milhões para financiar projetos no Brasil.

Militão faz parte da parcela cada vez mais relevante de ativistas do movimento negro que não quer a insti­tuição das cotas raciais. “O Brasil nunca teve orgulho racial, nunca foi dividido. Os Estados Unidos sem­pre foram assim. O movimento negro vê isso como um dado negativo, mas é positivo”, afirma. Entre os Censos de 1940 e 2000, o número de brasileiros que se declaram pardos cresceu de cerca de 20% para os 42% atuais. Isso mostra que os brasileiros não têm o sentimento de identidade racial. Ele teme que a cria­ção das cotas coloque esse sentimento de mestiçagem a perder e gere conflitos raciais. “Aprovar um projeto de cotas raciais é ir na contramão”, afirma Militão. “O excluído pela cota vai debitar isso na conta do negro.” Esses excluídos formariam, portanto, uni caldo de cultura para o racismo.

O raciocínio de Militão é parecido com o do es­tudante Ruan Neves da Silva. Aluno de um curso pré-vestibular que prioriza egressos do ensino pú­blico, em São Paulo, ele poderia usar o direito da cota. Mas prefere abrir mão. “Acredito que benefi­ciar o negro agora só gera mais preconceito. Tenho a mesma capacidade de passar no vestibular que um branco”, diz. “Acreditar que preciso da cota é ruim para a autoestima. Se eu entrasse pela cota, não faria o curso.” Na sala de Ruan, as opiniões de seus colegas são divergentes.

A postura de Ruan não é incomum. Há dois anos, é obrigatório especificar a raça da criança na ficha de matrícula em todo o Brasil. Mas 67% dos papéis não trazem a resposta. “As pessoas no Brasil não se sentem brancas ou negras”, afirma o geógrafo Magnoli. Esse fato e a atitude de estudantes como Ruan ajudam a entender um fato curioso que acontece no Rio de Janeiro. Em 2002, o então governador Anthony Ga­rotinho criou o sistema de cotas raciais nas univer­sidades estaduais. Metade das vagas seria destinada a estudantes incluídos nas cotas. No início, houve corrida pelas vagas. Mas isso acabou. De acordo com o senador Demóstenes Torres (DEM-GO), presiden­te da Comissão de Constituição e Justiça, os dados mostram que, hoje, metade das vagas fica ociosa. “Os estudantes perderam o interesse, não querem ser fa­vorecidos pela cor da pele”, diz Torres.

Uma alternativa examinada no momento é adotar cotas sociais, sistema que cria mecanismos para favorecer a entrada na universidade dos alunos mais pobres, vindos de escolas públicas. As cotas sociais têm mais apoio no Congresso, entre especialistas e na popu­lação. A reserva de vagas para estudantes egressos das es­colas públicas seria uma forma de aumentar as chances de ascensão social. A ideia é ajudar jovens talentosos que não tiveram oportunidade de pagar escolas particulares ou cursinhos preparatórios e acabaram competindo em condições desiguais para as universidades federais. O resultado é que, embora 85% dos estudantes de ensino médio estejam em escolas públicas, na hora de entrar para a universidade pública a proporção se inverte. Em 2006, só 24,7% dos calouros na Universidade de São Paulo (USP) eram oriundos de colégios públicos.

A USP adotou um sistema semelhante à cota so­cial em 2006. Por meio dele, alunos de escolas pú­blicas recebem como bônus pontos extras no ves­tibular. Atualmente, quem cursou o ensino médio em escolas públicas recebe até 12% de acréscimo sobre a sua nota no vestibular. “Não há reserva de vagas na universidade. Existe o desempenho do sobre esse desempenho uma pontuação acrescida”, diz Maria Amélia de Campos Oliveira, assessora da pró-reitoria de graduação da universidade. “Para alunos sem mérito, não há bônus que resolva.”

Edelvan Gabana conhece essas dificuldades. Ele cursou todo o ensino básico em escolas estaduais de Mato Grosso do Sul, enquanto ajudava os pais na roça. Mudou-se para São Paulo para estudar num curso pré-vestibular, onde trabalhava como moni­tor para pagar a mensalidade. “No começo, eu saía chorando dos simulados. Vi que não sabia nada”, afirma. Maykon Pereira, amigo de Edelvan, passou por uni problema parecido. “Na escola pública, eu era sempre o melhor da sala.Vi depois que isso não significava nada.” Após anos de estudo, os dois en­traram na Faculdade de Medicina da USP. A boni­ficação que receberam os jogou para as primeiras colocações do curso, um dos mais concorridos do país. “A cota é boa para representar a diversidade da sociedade brasileira. Mas tem de ser para os me­lhores”, diz Ilona Becskeház diretora-executiva da Fundação Lemann.

Mas o sistema da USP, embora tenha um fun­damento mais meritocrático, não resolve as falhas inerentes a toda política de cotas. Com elas, muitos jovens que estudam em escolas particulares de pouco prestígio serão prejudicados. A cabeleireira Sílvia dos Santos Moura se esforça para manter o filho caçu­la em escola particular. Quando se divorciou, teve de matriculá-lo no ensino público. “Meu filho mais velho nunca se adaptou ao ensino público. Repetiu de ano e perdeu o interesse pelos estudos”, afirma. Depois de dois anos, Sílvia recolocou o filho mais novo, Guilherme de 9 anos, na escola particular. Os R$ 240 mensais pesam no orçamento. A cota social a assusta.”Entendo que muitos necessitados se benefi­ciarão com os bônus, mas outros serão prejudicados. A escola que posso pagar para meu filho não é muito forte. Quando Guilherme se formar, ele também terá defasagens e precisará de ajuda. E não sei se terei dinheiro para pagar um cursinho.”

Criar atalhos para alunos entrarem no ensino superior é uma medida paliativa. A origem do pro­blema da educação brasileira é a péssima qualidade do ensino público e a distância entre seus alunos e os que frequentam a rede privada. De acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação (Ideb), que avalia o desempenho dos alunos em língua portuguesa e matemática e sua aprovação, as esco­las particulares estão em média 2 pontos na frente das públicas, numa escala de O a 10. A distância só aumenta com o avançar das séries. Em 2007, 90% dos alunos do 32 ano do ensino médio da rede pú­blica não haviam aprendido o conteúdo esperado. A doença da educação ruim não será resolvida com mudanças no vestibular, menos ainda com a adoção das cotas. Mas há um grande risco de a adoção das cotas trazer uma doença capaz de rachar a sociedade brasileira — o racismo explícito na lei.

O QUE MUDA NO VESTIBULAR         

Como será o novo processo seletivo para as universidades federais

Nesta semana, as universidades federais come­çam a discutir a unificação de seus vestibula­res. Uma nova versão do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) – mais extensa e mais difícil – substituiria o processo seletivo. O ministro da Educa­ção, Fernando Haddad, autor da proposta, quer que a mudança comece a valer neste ano. O que pode mudar?

O vestibular vai acabar?

Não. A proposta do Ministério da Educação é que uma nova versão do Enem vire a principal etapa do processo seletivo das universidades federais. E de ou­tras que aderirem. O exame pode virar a primeira fase ou substituir o processo todo – isso será defi­nido por cada universidade. De qualquer maneira, os alunos que quiserem os cursos mais procurados vão continuar precisando estudar muito. A principal diferença é que, com o novo Enem, eles poderão se concentrar em um exame só. E usar a nota para pleitear vaga em diversas universidades.

Como vai ser o novo Enem?

A proposta inicial é que, além da redação, a prova passe das atuais 63 questões de múltipla escolha para 200. Serão quatro provas de 50 questões, aplicadas em dois dias, uma de manhã e outra à tarde. A maior mudança será no formato das perguntas. Até hoje, o

Enem centrou-se na verificação de habilidades dos candidatos, como o raciocínio lógico e a interpreta­ção de texto. Mesmo quem não lembra as fórmulas matemáticas ou as características de certo escritor pode ir bem apenas raciocinando com as informações do enunciado.

O modelo novo seria um meio-termo entre o formato atual do Enem e o vestibular tradicional: aquele que exige conteúdo extenso e memorização de regras que o aluno raramente vai usar ao longo da vida. Ainda muito adotado em universidades públicas e privadas, esse formato é tido como an­tiquado pelos especialistas em avaliação. “Eu tra­balho com línguas e vejo perguntas de português em alguns vestibulares que não saberia responder sem consultar uma gramática”, diz Gisele Gama, especialista em avaliação educacional. Um exemplo de prova assim é o vestibular da Universidade Fede­ral do Ceará. Em 2008, algumas questões de língua portuguesa apenas verificavam se o candidato lera os livros pedidos. Para isso, uma delas pedia que ele ligasse o nome do personagem a sua descrição.

A principal mudança será inserir a cobrança de conteúdo, sem abandonar a exigência pelas habili­dades. “Não somos contra a memorização”, diz Rey­naldo Fernandes, presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão responsável pela reformulação do exame. “O problema é decorar um monte de informa­ções e não saber aprofundar nada.” No novo Enem, o aluno vai ter de aplicar o conteúdo para resolver problemas em situações novas. São caminhos que não podem ser decorados por meio da prática re­petitiva na escola ou no cursinho. O candidato de­verá saber as características gerais dos personagens dos livros que vão cair na prova. Mas, além disso, pode ser chamado a encontrar a semelhança entre

o comportamento de um personagem e dos jovens brasileiros – relacionando a interpretação do livro com uma tabela estatística do Censo.

A prova vai ficar mais difícil?

No formato do Enem atual, é comum que os alu­nos mais preparados cheguem perto de gabaritar a prova. O empate de notas é frequente. Isso acontece porque a prova foi elaborada para avaliar os alunos individualmente, e não classificá-los. Para que as univer­sidades possam usá-lo para selecionar, o grau de dificul­dade vai aumentar na profundidade das questões.

Quais disciplinas vão cair na prova?

As provas serão divididas em quatro grandes áreas: linguagens e códigos (língua portuguesa, inglês e redação), ciências humanas (geografia e história), ciências da natureza (biologia, física e química) e matemática. Os alunos deverão relacionar os conhe­cimentos entre as disciplinas. Em uma questão sobre a guerra na Bósnia, por exemplo, ele precisará usar conhecimento de história e geografia para acertar.

Como os candidatos podem se preparar?

O programa da nova prova ainda não tem pre­visão para ser divulgado. Por enquanto, o jeito é estudar para o vestibular e o Enem atuais. “O exame proposto é mais eficiente para selecionar os melhores”, diz Nicolau Marmo, coordenador-geral do Anglo. “Já tranquilizamos os alunos. Quem estuda passa em qual­quer urna dessas provas.”

Como muda a disputa por vagas?

A vida vai mudar, para me­lhor, para os candidatos que querem prestar vestibular em outras cidades. Os candidatos poderão fazer o Enem em seu Estado e, com a nota, pleitear vagas a distância. Isso dá mais chance a quem não tem renda para viajar. Ainda assim, é pos­sível que as universidades ela­borem uma segunda fase para os cursos que exigem habilida­des especificas, como arquitetura. E para os mais disputados, como medicina. Nesse caso, é possível que os candidatos precisem se deslocar para fazer a segunda fase.

Por que o governo vai mexer no vestibular?

A preparação para o vestibular é uma das maiores preocupações dos alunos do ensino médio, pais e professores. Mesmo colégios com propostas peda­gógicas alternativas sofrem essa pressão. É natural que as escolas orientem seus currículos de acordo com o que vai ser cobrado. Mas as universidades estão preocupadas em selecionar alunos, não em orientar o currículo do ensino médio. E aqui está o principal argumento do ministério: as escolas aca­bam se distanciando de atividades mais reflexivas, que também são importantes para a formação. Com a mudança, os professores ganhariam tempo para atividades de fixação e elaboração do conhecimento — como redações e pesquisas em grupo.

Para elaborar a proposta, o governo se inspirou no sistema americano de avaliação do ensino médio, o SAT, que também funciona como porta de entrada para as universidades. Além da nota, cada universida­de tem outros critérios para selecionar alunos.

No Brasil, o vestibular da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em São Paulo, é um dos mais próximos do formato proposto para o Enem. A mudança começou em 1987, quando a universi­dade deixou de usar a Fuvest (o vestibular da Uni­versidade de São Paulo) como prova de seleção. “A Fuvest mudou de lá para cá, mas, na época, houve um diagnóstico de que tinha pegadinhas e decoreba, o que dava vantagem a alunos treinados para a prova e com conhecimento enciclopédico”, afirma Leandro Tessler, coordenador do processo seletivo da Unicamp.

No novo vestibular da Unicamp, as perguntas pas­saram a valorizar a leitura, a interpretação e o racio­cínio. As fórmulas de física e a tabela periódica estão

todas lá, no enunciado. A sur­presa é que o perfil dos alunos aprovados quase não mudou, O impacto maior foi sobre as escolas da cidade. “O vestibular era uma referência e, com a mu­dança, elas mudaram também, Passaram a trabalhar o conteú­do de maneira mais contextualizada e a procurar desenvolver o raciocínio dos alunos.”

Quais universidades vão adotar o novo Enem?

A proposta foi apresentada na semana passada às universi­dades federais. Elas ainda não tomaram posição. Embora re­cebam verbas federais, não são obrigadas a seguir determina­ções do ministério. “A ideia é interessante. Todos os reitores se mostraram aber­tos”, diz Amaro Lins, presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior. As universidades podem ela­borar, em conjunto, o conteúdo da prova.

Se o modelo for aceito na rede federal, há a possi­bilidade de se expandir às redes estadual e privada. Algumas instituições que já usam o exame como um dos critérios podem aumentar o peso do Enem na classificação. É o caso da Pontifícia Universida­de Católica de São Paulo (PUC-SP). Seu vestibu­lar é composto de prova objetiva, discursiva e re­dação. Se for superior à nota da objetiva, o Enem prevalece. Mas o peso maior ainda é para o exame discursivo. Segundo Ana Maria Zillocchi, coorde­nadora do vestibular da PUC-SP, a instituição vai observar o processo nas federais para repensar, no futuro, o peso do Enem em sua classificação: “Ainda é muito cedo para falar, mas a ideia é boa”.

A experiência em outros países

As cotas existem há décadas na Índia, mas foram banidas nos Estados Unidos

Estados Unidos

A luta dos negros con­tra a segre­gação racial começou com o Movimento pelos Direitos Civis, liderado por Martin Luther King. As cotas raciais só foram estabelecidas no governo Nixon, 20 anos depois. As cotas foram banidas pela Suprema Corte no final dos anos 1970.

Malásia

Há mais de 30 anos uma lei prevê cotas raciais em universidades para favorecer os malaios, em detrimento dos cidadãos de origem chinesa ou indiana. Em 2004, o governo começou a retomar o sistema de mérito na seleção de estudantes para as universidades.

Índia

Leis raciais foram cria­das há meio século para favorecer a casta dos dalits, uma das mais miseráveis e segregadas do pais. De lá para cá, várias outras castas foram incluídas. São comuns protestos violentos de castas que pressionam para ser beneficiadas pelo sistema.

Nigéria

Formado pelos colonizadores ingleses, o pais africano é habitado por dezenas de etnias diferentes. Pela lei, em cada um dos Es­tados que formam a federação nigeriana, a etnia majoritária entre a população es­tabelece cotas para favorecer a si mesma em todos os níveis.

Ruanda

Durante a colonização belga, o grupo dos tútsis era privi­legiado por cotas em detrimento dos hútus. Após a independén­cia, nos anos 1960, os hútus tomaram o poder e inverteram as cotas. O conflito entre os dois grupos culminou no mas­sacre de 1 milhão de tútsis em 1994.

África do Sul

Negros e os “mestiços do Cabo” são favorecidos por cotas desde o fim do regime do apartheid, em 1990. Recentemente. imigrantes chineses (cerca de 200 mil) conseguiram na Justiça o direito de também ser incluídos no sistema de cotas.



Reitores fazem objeções ao plano do ”super-Enem”  (O Estado de S.Paulo – Vida& – 08/04/09)

Após dois dias de reuniões em Brasília, os reitores das universidades federais estão praticamente convencidos da necessidade de alterar o vestibular, unificando seus processos seletivos em um Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ampliado e aprimorado. Mas ainda levantam objeções à proposta do Ministério da Educação (MEC), como o receio de que vagas do interior do País sejam ocupadas por alunos “de fora” e a preocupação com o cumprimento do cronograma de implantação das mudanças. As diferenças regionais são apontadas por alguns reitores como o maior entrave à proposta do MEC e estão na base da resistência de algumas universidades, como as federais Fluminense, do Rio Grande do Sul e de Goiás. “Há uma preocupação de que vagas de universidades do interior terminem sendo todas ocupadas por alunos de fora, mais bem preparados, especialmente nos cursos mais concorridos. Se pudéssemos oferecer 4 milhões de vagas, isso não seria problema. Mas a universidade federal é pequena”, alertou Aloísio Teixeira, reitor da Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) – ele, pessoalmente, um entusiasta da ideia de vestibular unificado. Já Jesualdo Farias, da Federal do Ceará, diz não temer essa invasão de estudantes de fora. “Isso não me assusta. Na hora de fazer a primeira opção, o aluno vai fazer pelo lugar onde vive”, acredita. “Minha maior preocupação nesse momento é o cronograma. Teremos dificuldades para trabalhar esse ano, especialmente se decidirmos manter uma segunda etapa.”  Algumas instituições, como a UFRJ, já planejam usar o Enem como uma primeira etapa e fazer uma segunda prova de seleção. Por isso, querem que o teste unificado seja realizado em setembro, um pedido que o ministério ficou de analisar, já que a prova, com 200 questões, tem um processo de correção demorado.



Reitores temem prazo curto para novo Enem  (Globo On Line – Vestibular – 08/04/09)

Reitores dispostos a aderir ao vestibular nacional proposto pelo Ministério da Educação temem que não dê tempo de fazer a mudança em 2009. Eles querem que o ministério antecipe a realização do novo Enem, previsto para outubro. O objetivo seria garantir a divulgação dos resultados em novembro, permitindo a realização da segunda fase do vestibular nas instituições que não se limitarem a selecionar estudantes com base apenas no Enem.  Na terça-feira, os reitores participaram do segundo dia de reunião da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). Boa parte saiu do encontro falando bem da proposta, mas enfatizando que a decisão caberá aos conselhos universitários. Por isso, qualquer previsão sobre o número de adesões corre o risco de cair por terra. Segundo o MEC, há pelo menos 38 instituições dispostas a aderir. No embalo da boa receptividade de reitores, o ministro Fernando Haddad quer convencer o setor privado. Na terça à noite, ele se reuniria com representantes da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) e demais entidades. Nesta quarta-feira o ministério deverá enviar à Andifes as explicações operacionais. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), encarregado da nova avaliação, informou que é possível antecipar para novembro os resultados das provas de múltipla escolha – com 200 questões -, mas não a redação.



Proposta do MEC divide reitores  (A Tarde/Salvador – Vestibular – 07/04/09)

O reitor da Universidade Federal da Bahia (Ufba), Naomar Almeida Filho, disse ontem que, apesar do “sim” dos reitores, a proposta do MEC precisa ser aprovada

no âmbito interno de cada universidade federal. “Nós entramos em acordo também que técnicos das universidades junto com os do Inep formem uma comissão para estabelecer as mudanças do Enem”, declarou Naomar em entrevista a A TARDE por telefone. Os reitores das universidades federais terão nova reunião fechada hoje para tratar do assunto. A fórmula deixou os reitores com dúvidas. Eles pediram que o MEC apresente até amanhã, por escrito, o detalhamento técnico do sistema. Será criada uma comissão formada por reitores e secretários estaduais de educação para estabelecer as diretrizes da nova avaliação, que tem como objetivo também orientar os currículos do ensino médio. 

O presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais (Andifes), Amaro Lins, achou curto o prazo para que as universidades deem uma resposta: “Não adianta atropelar”. O coordenador do vestibular da Universidade Federal Fluminense (UFF), Nelliton Ventura, é um crítico do projeto do MEC no ponto em que trata do ingresso de estudantes de outros estados. “A mobilidade pretendida pelo MEC vai ocorrer na mão inversa. Não vai ser o estudante do Norte e Nordeste que se mudará para o Sul. As classes mais abastadas têm maior rendimento no Enem e vão roubar as vagas nos outros estados. Em vez de democratizar o acesso, vai elitizá-lo”, avaliou.