09/05/2011 / Em: Clipping

 


Médicos da Uerj põem à prova sistema de cotas  (O Estado de S.Paulo – Educação – 08/05/11)

Os defensores falam em justiça social. Os críticos invocam a meritocracia. No acalorado debate sobre a política de cotas sociais e raciais nas universidades públicas sobram argumentos por todos os lados. Dois pontos permeiam inevitavelmente a discussão: a capacidade dos cotistas em acompanhar o ritmo das aulas e a possibilidade de queda na qualidade do ensino das universidades. O Estado fez um levantamento no curso mais disputado (Medicina) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a primeira a adotar as cotas no País. No vestibular de 2004, foram aprovados 94 jovens (43 cotistas). Apenas oito alunos – quatro cotistas – não se formaram em dezembro do ano passado, como previsto. O Estado localizou 90% dos jovens que chegaram à festança black-tie de formatura: 35 eram cotistas; 44, não. O caminho natural, após seis anos de faculdade, é fazer residência, o estágio de dois ou três anos em que os médicos se especializam em hospitais universitários ou da rede pública. O desafio é grande. As provas são mais disputadas que o vestibular. Nelas não há sistema de cotas. Passa quem sabe mais. É a meritocracia em estado puro. Fazer residência garante não só mais conhecimento da medicina como salários melhores no futuro.

A reforma do ensino médio  (O Estado de S.Paulo – Notas e Informações – 09/05/11)

Com o objetivo de adequar as três séries finais do ensino básico às demandas do mercado de trabalho, onde há uma grande carência de mão de obra qualificada, o Conselho Nacional de Educação (CNE) aprovou novas diretrizes para o ensino médio, incentivando as escolas públicas e particulares a elaborar currículos mais flexíveis e permitindo que os alunos dos cursos noturnos tenham mais tempo para concluir os estudos. Com 10 milhões de alunos matriculados, o nível médio de ensino é o principal gargalo do sistema educacional. Ele não prepara os alunos nem para o mercado de trabalho nem para os exames vestibulares. Tem um currículo generalista, pouco atraente e distante do ambiente social, econômico e cultural em que os estudantes vivem. Por isso, o ensino médiotem alta taxa de evasão – segundo o IBGE, 40% dos alunos abandonam o curso por desinteresse e 27% por razões de trabalho e renda.De todos os ciclos educacionais, o ensino médio é o que mais carece de qualidade. Os dados do Índice da Educação Básica, de 2009, mostram que os estudantes do ensino médio têm graves dificuldades em português e matemática. A maioria não consegue fazer uma redação com um mínimo de rigor lógico, identificar a idéia central de um texto ou fazer contas mais complexas, que exigem conhecimento de álgebra. Pelas novas diretrizes do CNE, as escolas poderão organizar o ensino médio em torno de quatro grandes áreas – trabalho, tecnologia, ciência e cultura– e terão autonomia para distribuir a carga horária de cada uma delas conforme as especificidades regionais. Assim, embora continuem obrigadas a ensinar matemática, português, ciência, filosofia e sociologia, as escolas localizadas em cidades industriais poderão dar prioridade a tecnologia e trabalho, ampliando o peso de disciplinas como física e química no currículo. Já as escolas situadas em regiões turísticas poderão escolher a área de cultura como eixo de atuação, dando mais espaço para matérias como história e geografia. As diretrizes do CNE também autorizam as escolas a manter o currículo atual, que combina as quatro áreas sem,contudo, dar ênfase a qualquer uma delas. No caso dos cursos noturnos, onde estudam 40% dos alunos do ensino médio, o CNE permite que até 20% das aulas sejam oferecidas com base no ensino a distância e autoriza as escolas a distribuir a carga horária mínima do ciclo – de 2,4 mil horas – em mais de três anos. Como a maioria dos alunos dos cursos noturnos trabalha, e grande o número dos que chegam atrasados e cansados às salas, o que compromete a aprendizagem. Por isso, o CNE quer diminuir o número de aulas por dia e ampliar o prazo de duração do curso para mais de três anos. Os especialistas em educação receberam as mudanças no ensino médio com reservas. Segundo eles, por mais que as novas diretrizes do CNE possam abrir caminho para um ensino motivador, criativo e interdisciplinar, elas deveriam ter sido objeto de experiências prévias,para evitar problemas de implementação. “O ideal seria aplicara flexibilização do currículo em alguns Estados, primeiramente”,diz o professor Marcelo Néri, da FGV. Os especialistas também temem que os currículos sejam reformulados apressadamente, com improvisações e concessões a modismos pedagógicos e mercadológicos. Além disso, as novas diretrizes exigem um projeto de requalificação dos professores, laboratórios equipados e bibliotecas atualizadas – e os municípios de pequeno porte e os Estados mais pobres não dispõem de recursos financeiros suficientes para ampliar os gastos com educação. As novas regras – que agora só dependem de homologação pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, para entrar em vigor – eram aguardadas há muito tempo. A flexibilização do currículo do ensino médioestá prevista pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que entrou em vigor em dezembro de 1996. O CNE deu um passo importante para tentar melhorara qualidade do ensino médio, mas só o tempo dirá se o caminho escolhido é o melhor.



Autonomia sem foco  (Folha de S.Paulo – Editorial – 08/05/11)

Com o objetivo declarado de aproximar o ensino médio dos interesses dos alunos e das necessidades do mercado de trabalho, o Conselho Nacional de Educação aprovou diretrizes para ampliar a autonomia das escolas na definição de seus currículos. O documento aprovado por esse órgão consultivo do Ministério da Educação ainda precisa ser homologado pelo titular da pasta, Fernando Haddad. Uma vez em vigor, colégios de todo o país estarão autorizados a dar ênfase, na grade horária, a áreas específicas, como ciências naturais, de um lado, ou humanas, de outro. São bem-vindas as tentativas de superar os entraves de uma etapa da formação escolar que, nos moldes atuais, já não atende às necessidades dos estudantes. As diretrizes partem de uma avaliação correta da realidade, mas ainda representam um esforço titubeante do Estado para enfrentar os dilemas da escola secundária. O ensino médio apresenta a seus alunos uma gama enciclopédica de disciplinas, da física à sociologia, que deveria servir de base para os estudos superiores. Na prática, é inútil para quem não pretende ou não consegue fazer um curso universitário. Nas redes públicas, ainda prepara mal o aluno para enfrentar vestibulares. O resultado é um persistente desinteresse dos adolescentes. Estudantes abandonam a escola e ingressam de maneira prematura no mercado de trabalho, em troca de baixos salários. Cerca de 15% dos jovens entre 15 e 17 anos deixam de frequentar as salas de aula. As diretrizes do CNE representam uma carta de intenções para mudar essa realidade. O simples rearranjo da grade horária das disciplinas não será suficiente, no entanto, para alterar a percepção de muitos estudantes sobre a falta de relevância do ensino médio. Falta treinar melhor os professores e aumentar sua eficiência na transmissão do conhecimento. Sem prejuízo da maior flexibilidade no currículo, é preciso impor padrões mínimos de conteúdo e métodos de ensino a todas as escolas, em todas as disciplinas. Só uma escola que aumente a possibilidade de acesso à universidade ou ao mercado de trabalho será capaz de atrair e manter adolescentes nas salas de aula.