10/08/2012 / Em: Clipping

 



Hélio Schwartsman

Populismo universitário  (Folha de S.Paulo – Opinião – 10/08/12)

O que eu receava e já denunciara no início de junho aconteceu: o Congresso aprovou um projeto de lei que reserva 50% das vagas em universidades federais para alunos do ensino público e ainda cria um subsistema de cotas raciais. A norma deve agora ser sancionada pela presidente Dilma Rousseff. A proposta é ruim e pode ter efeitos perversos. Deveria ser rejeitada até por quem apoia ações afirmativas. O primeiro problema é que ela ignora os mecanismos sociopsicológicos que fazem com que jovens de estratos sociais mais baixos se beneficiem de estudar com alunos ricos. É claro que a qualidade dos professores e a estrutura da instituição importam, mas as dinâmicas de grupo também parecem desempenhar um papel fundamental, como sustenta a psicóloga Judith Harris. A ideia central é que, se você lançar uns poucos estudantes cotistas num ambiente elitizado dizendo-lhes para nadar ou afogar-se, muitos deles conseguirão dar suas braçadas. Ou eles adotam os valores elitistas do grupo em que se encontram, ou ficam excluídos da vida social, algo a que humanos têm horror. Mas, se você atirar um número muito grande de cotistas, esse efeito da socialização pelos pares tende a dissipar-se. O risco é levar para a instituição de elite o mesmo conjunto de problemas que conspira contra a eficácia das escolas frequentadas pelas camadas menos privilegiadas. E, se isso ocorrer nas federais, ficamos com um tremendo problema adicional, já que a quase totalidade da ciência produzida no Brasil está concentrada nas universidades estaduais de São Paulo e em meia dúzia de instituições da União. O Brasil precisa ampliar com urgência o acesso ao ensino terciário (nossas taxas de escolarização no nível superior são ridículas na comparação com outros países), mas tem de fazê-lo sem sacrificar a qualidade de suas poucas escolas de elite. Nessas horas, o populismo não ajuda.



O preconceito dos bonzinhos   (Época – Vamos Combinar – 10/08/12)

A forma mais hipócrita de combater toda política pública de acesso dos brasileiros pobres às universidades consiste em dizer que os jovens de origem humilde não irão sentir-se bem em companhia de garotos de famílias abastadas, que puderam chegar lá sem auxílio de medidas do governo. Por esse motivo, segue o raciocínio, iniciativas como cotas, pró-Uni e outras medidas destinadas a alargar a presença das camadas pobres no ensino superior iriam prejudicar até psicologicamente aqueles alunos que pretende beneficiar, pois estes cidadãos se sentiriam diminuídos e inferiorizados ao lado de colegas cujas famílias frequentam universidades há várias gerações. Vamos combinar que estamos diante de um recorde em matéria de empulhação ideológica. É possível discutir as cotas a partir de argumentos políticos, pedagógicos e assim por diante. Mas o argumento do bonzinho é apenas arrogância fantasiada de caridade. Num país onde a desigualdade atingiu o patamar da insania e da patologia, este raciocínio se alimenta de um erro essencial. Consiste em considerar que um cidadão que não teve acesso a boas escolas desde o berço e encara o lado desagradável da pirâmide social logo depois de abrir os olhos é incapaz de raciocinar sobre sua condição e compreender que enfrenta dificuldades pelas quais não tem a menor responsabilidade como indivíduo mas como herdeiro de uma estrutura social desigual e injusta.



Alunos mais ricos tiveram maior êxito na Fuvest  (UOL – Vestibular – 09/08/12)

A exemplo do que ocorreu com a população negra, o aumento de quase 10% na matrícula de alunos oriundos de escola pública na Universidade de São Paulo (USP) em 2012 não provocou alteração na pirâmide social da instituição. Os dados socioeconômicos da Fuvest mostram que o vestibular 2012 aprovou mais alunos de classes mais abastadas que o de 2011. A participação de estudantes com renda familiar menor diminuiu. Neste ano, os inscritos que vêm de famílias com renda média superior a sete salários mínimos, o que significa ganhos acima de R$ 6.220 por mês, representaram 41% do total. Mas, na lista de aprovados, eles garantiram 51% das matrículas. No ano passado, esse grupo representava 48,8% de aprovados.



Escolas particulares vão à Justiça contra lei de cotas  (IG – Educação – 09/08/12)

A Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep) afirmou nesta quinta-feira (9) que pretende entrar com uma ação na Justiça para questionar o ajuste social que a nova Lei das Cotas para faculdades federais pretende realizar. O Senado aprovou na quarta-feira a Lei das Cotas, que prevê que 50% das vagas de todos os cursos oferecidos pelas entidades federais sejam reservadas para estudantes que cursaram todo o ensino médio em escolas públicas. Parte dessas vagas devem ser dedicadas à negros, pardos e índios e outra parcela para alunos de famílias com renda abaixo de 1,5 salário mínimo.



Unicamp cria três cursos de Engenharia  (O Estado de S.Paulo – Educação – 09/08/12)

O Conselho Universitário (Consu) da Unicamp, órgão máximo deliberativo da instituição, aprovou por unanimidade na manhã de terça-feira, 7, a criação de quatro novos cursos de graduação: Engenharia de Telecomunicações (50 vagas, período integral), Sistemas de Informação (45 vagas, integral), Engenharia Ambiental (60 vagas, período noturno), oferecidos na Faculdade de Tecnologia (FT) de Limeira; e Engenharia Física (15 vagas, período integral), no câmpus de Campinas.  Na mesma sessão, o Consu também decidiu pela extinção dos cursos de Tecnologia em Sistemas de Telecomunicações e Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas (integral). Os conselheiros deliberaram, ainda, pela criação da Faculdade de Enfermagem, que atualmente funciona como departamento da Faculdade de Ciências Médicas (FCM). A criação e a extinção dos cursos não vão alterar o número de vagas oferecidas atualmente no vestibular da Unicamp. Os cursos de Engenharia de Telecomunicações e de Sistemas de Informação absorverão, respectivamente, as vagas oferecidas pelos de Tecnologia em Sistemas de Telecomunicações e Tecnologia em Análise e Desenvolvimento de Sistemas, que serão extintos. Já as vagas a serem oferecidas pelo curso de Engenharia Ambiental serão provenientes dos cursos de Tecnologia em Construção de Edifícios (30 vagas) e Tecnologia em Controle Ambiental (30 vagas). Estes dois últimos serão mantidos, agora com 50 vagas cada um.

Critérios raciais da Lei de Cotas nas universidades podem causar distorções  (O Estado de S.Paulo – Brasil – 10/08/12)

Fixar o porcentual de cotas para negros, pardos e indígenas de acordo com a proporção dessas populações nos Estados pode criar distorções na aprovação das universidades federais. Isso porque o volume de inscritos no vestibulares nem sempre tem correlação com esse porcentual. Além disso, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) possibilita que candidatos de outros Estados concorram em qualquer universidade federal do País.  Essa reserva de vagas por cor de pele está na Lei de Cotas aprovada no Senado anteontem. O projeto, que precisa ser sancionado pela presidente Dilma Rousseff, prevê que 50% das vagas das universidade federais sejam reservadas para alunos da escola pública – respeitando as reservas por cor de pele e renda (mais informações nesta página). Pelo Enem, por exemplo, um aluno de Santa Catarina – cuja população negra e parda não chega a 16% – pode concorrer pela cota com mais chances de sucesso em uma instituição do Pará, Maranhão e Bahia. Nesses Estados, o porcentual total da população negra e parda é superior a 76%, segundo o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).  Quando se olha as proporções de inscritos em todo o Brasil no Enem, divididos por cor de pele, os números seguem a realidade nacional apurada pelo IBGE.