11/09/2017 / Em: Clipping

 

Novo ensino médio não assegura educação melhor para todos (Folha de S. Paulo – Educação – 10/09/2017)

Um dos problemas centrais da educação brasileira reside nas fortes desigualdades escolares, que são reflexo das desigualdades sociais que caracterizam nosso país e um dos mecanismos por meio dos quais essas desigualdades sociais são reproduzidas. Uma reforma no ensino médio deveria ser uma oportunidade para avançarmos num modelo de educação que contribuísse para reduzir essas desigualdades. É que, entre todas as etapas da educação básica, é no ensino médio que mais decisivamente se faz uma articulação entre escola e posição social, pelo peso que assume na definição das trajetórias futuras dos jovens. A incoerência na forma como está sendo conduzida a atual reforma, porém, deixa dúvidas se essa mudança terá a capacidade de impactar positiva e equanimemente a trajetória escolar de todos os jovens brasileiros. Há um hiato entre a pretensão de alcançar determinados objetivos e as ações propostas, dado pela falta de planejamento. Questões estruturais que possibilitariam um avanço na equidade educacional ou só agora começam a ser endereçadas, ou seguem sem respostas. Até mesmo as boas propostas trazidas pela reforma do ensino médio estão sob ameaça de não se concretizar. A possibilidade de que o aluno escolha um percurso formativo, por exemplo, deveria garantir, ainda na educação básica, que os jovens pudessem se aprofundar em conhecimentos de seu interesse e desenvolver as suas potencialidades. Contudo, a falta de infraestrutura física e de recursos humanos das redes públicas de educação coloca em dúvida essa possibilidade. Preocupa também a forma como os percursos formativos e a ampliação da carga horária serão colocados em prática. Por si só, eles não garantem que avancemos numa educação voltada para o nosso tempo, que dialogue com as particularidades culturais e sociais dos sujeitos e dos territórios. Para isso, será preciso consultar as comunidades escolares e inovar nas temáticas e nas linguagens trabalhadas, em consonância com as demandas juvenis, além de garantir o financiamento adequado. Preocupado com a questão, ainda que tardiamente, o MEC (Ministério da Educação) recorreu a um empréstimo de R$ 789 milhões ao Banco Mundial para financiar parte da reforma e para finalmente realizar estudos sobre sua viabilidade. É um início, mas, para construir um ensino médio que garanta a todos os jovens -independentemente de seu pertencimento socioeconômico, racial, territorial e de gênero- as mesmas oportunidades, o MEC precisará enfrentar definitivamente desafios previstos no Plano Nacional de Educação, como a regulamentação do Sistema Nacional de Educação e a implementação da Base Nacional Curricular Comum e do Custo Aluno-Qualidade Inicial, de modo a garantir as condições adequadas.

 


A universidade brasileira andou para trás (Veja – Educação – 09/09/2017)

Além de ver reduzida sua presença no ranking global do ensino superior, registrou a primeira perda de alunos em mais de duas décadas 

As universidades brasileiras estão no pelotão de trás, revela um novo ranking mundial. Na tradicional lista da revista inglesa Times Higher Education, despontam no topo, como sempre, instituições britânicas, Oxford e Cambridge, e americanas, Stanford, MIT e Harvard. A Universidade de São Paulo (USP) situa-se numa faixa não numerada que abrange o grupo entre as posições 251 e 300. A Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que já chegou a superar a USP, está na turma que oscila entre a 401 e a 500. No geral, o Brasil, que havia emplacado 27 entre as 1.000 melhores do mundo, agora tem só 21. Sim, voltamos atrás, mas não só aí: o número de jovens matriculados no ensino superior também encolheu pela primeira vez em 25 anos. A constatação, extraída do mais recente Censo do Ensino Superior do Ministério da Educação, aponta uma queda, entre 2015 e 2016, de 16.500 matriculados nas salas de aula das faculdades privadas, que abrigam 75% dos universitários brasileiros. “Nesse ritmo, em dez anos o número estará no mesmo nível de duas décadas atrás”, diz o sociólogo Carlos Monteiro.

 


Veja cinco temas de atualidades que podem cair nas questões do Enem (Último Segundo– Educação – 08/09/2017)

Acontecimentos atuais também são abordados em vestibulares; para ficar por dentro, confira as dicas de assuntos que podem ser cobrados nas provas

Com a aproximação das datas das provas que dão acesso ao ensino superior, quem quer garantir uma vaga na universidade, seja por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) ou outros vestibulares que dão acesso a instituições de ensino públicas e privadas, não pode deixar a ansiedade tomar conta e o foco nos estudos precisa continuar. Mas engana-se quem acha que a preocupação dos candidatos deve ficar apenas em torno dos livros de português, matemática, história, física, química e biologia. Estudar os principais acontecimentos da atualidade que envolvem o Brasil e o mundo é fundamental para conquistar uma boa nota no Enem e outros exames. O conteúdo pode ser cobrado em questões de filosofia, sociologia, história e geografia, além de poder ser o tema da redação, prova que geralmente tem um peso maior e pode garantir um desempenho melhor para quem conseguir atingir os objetivos pedidos pelo exame. Para conseguir adquirir informações sobre atualidades, uma dica importante é acompanhar o que acontece em diversos meios de comunicação, como televisão, internet, rádio, jornais e revistas. Segundo o professor de atualidades do Curso Poliedro Daniel Pereira Leite, os participantes devem ficar atentos, principalmente, em notícias que envolvem questões sociais. “A tendência das provas que cobram assuntos atuais é verificar o quanto o estudante está informado diante dos acontecimentos mais comentados na mídia”, indica ele. Pensando nisso, o professor elaborou uma lista que pode ajudar quem está um pouco perdido a prestar mais atenção em relação a informações sobre esses temas.

Intolerância

Presidente americano, Donald Trump, tem dado declarações mais do que infelizes sobre o tema

No ano passado, a prova de redação do Enem abordou a temática “Caminhos para combater a Intolerância Religiosa no Brasil”. Segundo Leite, intolerância é um dos problemas mais graves da humanidade e, por isso, pode ser abordado novamente no exame deste ano, porém, trazendo outros enfoques. Ele aposta em intolerância política, racial e de gênero, assuntos comentados amplamente pela imprensa durante a eleição presidencial dos Estados Unidos, que elegeu o polêmico Donald Trump e suas opiniões de extrema direita que renderam diversas discussões.

Crise dos refugiados e Direitos Humanos

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), atualmente o mundo está passando por uma das maiores crises humanitárias do século. A crise dos refugiados já provocou a migração de mais de 65,6 milhões de pessoas, que foram obrigadas a deixar suas casas, fugindo de conflitos e guerras. A maior parte dessa população é proveniente da África e do Oriente Médio. O candidato, neste sentido, deve estar atento as suas causas, como a Guerra na Síria, e aos principais impactos causados pelo deslocamento dessas populações ao redor do mundo.

Internet, conectividade e sociedade da informação

Esse tema pode ser solicitado no Enem de diversas maneiras. Desde como um canal para organizar movimentos sociais, seja movimentos contra o governo ou em defesa de alguma causa social, ambiental ou política, até como um meio de interação novo que torna “inexistentes” distâncias e barreiras políticas, sendo uma forma de contornar censura. Além disso, é possível que esse assunto também apareça como novos modelos de trabalho – home office, lançamento de um vídeo independente, entre outros -, uma maneira de monitorar as pessoas e, até mesmo, como um meio de propagar, ou combater, a intolerância.

Corrupção

A corrupção pode ser solicitada na prova do Enem como um fenômeno social, que impacta diretamente em toda a sociedade. Segundo Leite, a corrupção não está apenas relacionada aos recentes acontecimentos políticos que ganharam os holofotes da imprensa brasileira. Pode ser também visto como um problema da sociedade. A população brasileira cobra soluções para a corrupção que acontece em Brasília, enquanto pratica pequenas corrupções diariamente.

Machismo e questões de gênero

Em pleno século XXI o machismo continua um tema atual. Por isso, o candidato deve estar atento à cultura machista no Brasil e às consequências da desigualdade de gênero em todas as esferas da sociedade. Assuntos como a violência contra a mulher e a participação feminina no mercado de trabalho são apostas.

Enem 2017

Além de ficar ligado nos temas que podem cair na prova, o candidato também precisa estar por dentro de todas as novidades do exame. O exame deste ano será realizado em dois domingos seguidos, diferente das edições anteriores. As datas escolhidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) foram os dias 5 e 12 de novembro. Um dos fatores que motivaram o instituto a modificar o exame para os domingos foi a facilitação para os candidatos sabatistas, que tradicionalmente precisavam esperar até às 19h do sábado para iniciar a prova. A ordem de aplicação dos conteúdos também foi alterada. Desta vez, no primeiro domingo, dia 5, serão aplicados os exames de Linguagens, Ciências Humanas e Redação, e os candidatos terão 5 horas e 30 minutos para a realização. Já no segundo dia, 12, os participantes do Enem terão que lidar com as questões das provas de Matemática e Ciências da Natureza, com 4 horas e 30 minutos de duração.

 


“Não tem sentido o estado ser dono de escola” ( Isto É – Revista – 08/09/2017)

Um dos economistas por trás do programa social mais conhecido do Brasil, o Bolsa Família, Ricardo Paes de Barros é um dos maiores especialistas do mundo em pobreza e desigualdade. Doutor em economia pela Universidade de Chicago, PB, como é conhecido, não é um convencional “Chicago Boy”, ou seja, um economista liberal. Nos mais de 30 anos em que esteve no Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA), ele foi responsável por estudos focados em miséria, desigualdade e educação. Já em meados de 2015, sua carreira tomou outro rumo: ele deixou o setor público, onde atuava como subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) desde 2011, para se dedicar exclusivamente à pesquisa sobre educação. Desde então, ele é o economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor do Insper. Defensor de um sistema educacional mais igualitário, ele afirma que o Brasil é capaz de erradicar a pobreza, mas não consegue diminuir a evasão e a desigualdade educacional. Além disso, explica como a defasagem escolar impacta o mercado de trabalho:

DINHEIRO – De que maneira a crise econômica afetou o sistema educacional brasileiro?

RICARDO PAES DE BARROS – O curioso é que quando se tem uma crise econômica, há um estranho impacto sobre a educação. Por um lado, existem menos recursos e menos dinheiro das famílias, ou do governo para investir na educação. Mas, por outro lado, os jovens ficam menos ansiosos para entrar no mercado de trabalho. Se a saída para o mercado de trabalho e a evasão da escola é causada, justamente, pela atração do mercado de trabalho, em tempos de crise ele fica menos atraente. Então, faz mais sentido terminar a graduação e entrar em um mestrado. Você acaba investindo mais na educação. Como o mercado está ruim, os professores não vão pedir aumento. Então, a educação fica mais barata.

DINHEIRO – Esse comportamento é o oposto quando a economia cresce?

PAES DE BARROS – Quando a economia está superaquecida é mais difícil manter o jovem no ensino médio. Quando há uma economia crescendo muito, ela começa a buscar mão de obra por todo lado. O salário sobe e a escola fica para depois. Na hora da recessão, a pessoa pensa “se eu conseguir emprego, ótimo; caso contrário, continuo na escola”. É o momento em que as pessoas têm mais tempo para estudar. Obviamente que o período é curto. Se a crise continua, as pessoas passam a aceitar qualquer emprego.

DINHEIRO – O Brasil quer entrar na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Os baixos índices educacionais podem ser um entrave?

PAES DE BARROS – A OCDE não requer que o Brasil atinja os níveis básicos educacionais. Acredito que a razão pela qual o Brasil não pertença à OCDE seja porque o País mantém certa distância e prefira se alinhar aos países de renda média. O que quero dizer é: o Brasil prefere liderar os países de renda média ao invés de ser o último da fila entre os países ricos. Mas, certamente, temos indicadores educacionais muito piores que todos que pertencem ao grupo. Até o México e a Turquia vão melhor do que nós. Entrar na OCDE não ajudará em nada o Brasil nesse quesito. Agora, o Brasil é um país muito curioso: temos um desempenho muito fraco em educação e não escondemos isso de ninguém. Participamos de todas as avaliações mundiais, temos todos os relatórios e sabemos em todas as casas decimais que estamos mal. É como se fizéssemos questão de ter certeza que a gente sabe.

DINHEIRO – Quais políticas públicas deveriam ser feitas para reduzir esse problema?

PAES DE BARROS – Por que vários países conseguem alcançar a meta e o Brasil não? É preciso separar, talvez, em três questões fundamentais: não há recursos para poder fazer; não sabe fazer; ou não sabe gerenciar os recursos para que seja feito. A questão que se coloca no Brasil é: será que a gente não sabe fazer educação ou não colocamos o esforço para fazer educação? O sistema todo não tem governança? Se olharmos essas questões básicas, o Brasil está se esforçando para gerar educação. Gastamos grandes recursos em educação. O Brasil investe de 5% a 5,5% do PIB em educação. Isso é muito mais quando comparado com outros países. A gente gasta igual ou mais que o Chile em porcentagem do PIB. Então, temos um problema de alocar os recursos, de gerenciar.

DINHEIRO – Se o problema não é dinheiro, significa que não sabemos educar?

PAES DE BARROS – Aí o nosso sistema de monitoramente deixa muito claro. Temos lugares no Brasil que se fizessem parte da OCDE estariam muito acima da média. No Estado do Ceará, a cidade de Sobral, por exemplo, está acima da média dos padrões da OCDE. Temos vários lugares pobres no Brasil, como o Ceará, mas os indicadores no ensino fundamental são melhores que os do Rio de Janeiro. O que se percebe é que existem vários sistemas educacionais no Brasil que mostram que sabemos educar. A evidência é que não falta esforço, não falta gente que saiba fazer educação. O que está faltando, em uma visão macro, é governança. Já decidimos a educação que queremos. Temos pessoas que sabem fazer. Já mobilizamos os recursos para fazer. Por que não estamos fazendo? É porque não temos os incentivos corretos para as pessoas corretas, nas horas corretas. Os bons exemplos de escola, de rede municipal e estadual, estão aí para serem copiados.

DINHEIRO – A privatização e o modelo de PPP em escolas ajudariam a melhorar o ensino?

PAES DE BARROS – Vários países, como a Holanda e a República Tcheca, caminham cada vez mais para não ter escolas públicas. No fundo, o que queremos é uma escola que seja de boa qualidade e que se uma pessoa quiser colocar o filho dele lá, ele será aceito. O SUS é um exemplo. Se quiser acessar esse sistema, não importa muito se o hospital é público ou privado. Quem vai pagar a conta é o governo. É inevitável que a mesma coisa aconteça na educação. Não tem nenhum sentido o estado ser dono de um bando de escola. Ele tem que estar preocupado em regulamentar a qualidade, garantindo que qualquer criança seja aceita. O papel dele é de regular o preço e o custo que vai pagar, para que não seja alto. No fundo, o Pro-Uni é um pouco isso. A universidade oferece o serviço, o aluno se beneficia, a escola é privada e quem acaba pagando é o governo, na medida em que se tem uma redução dos impostos ou das contribuições sociais que a instituição irá pagar. Então, no futuro, não tem razão nenhuma o estado gerenciar individualmente professores e escolas. A função dele será mais regulamentar a qualidade e garantir o acesso de todos e pagar pelo serviço.

DINHEIRO – A crise educacional do País é mais complexa do que erradicar a pobreza?

PAES DE BARROS – Se olharmos no passado, há 15 anos, o Brasil tinha um índice de pobreza muito alto e um índice educacional fraco. Tudo apontava na direção que íamos ser capazes de resolver o problema educacional e que a pobreza era algo mais complicado, multidimensional, portanto, mais difícil de resolver. O que acabamos mostrando é que fomos inacreditavelmente bem-sucedidos e cumprimos todas as metas de redução da pobreza em uma margem gigantesca e não fomos capazes de cumprir metas básicas do Plano Nacional de Educação, que não parecem ser metas tão ousadas assim. Então, o Brasil demonstrou uma enorme capacidade de combater a pobreza e a desigualdade, que parecem ser problemas mais complexos que o problema da educação. Enquanto isso, caminhamos de uma maneira muito lenta para resolver o problema educacional. É um pouco surpreendente essa característica do Brasil. Como um País que conseguiu enfrentar tão bem a pobreza, a subnutrição, a mortalidade infantil, tem tanta dificuldade de resolver o problema de alfabetização?

DINHEIRO – Então o programa Bolsa Família contribuiu mais para a redução da pobreza do que para combater a evasão escolar?

PAES DE BARROS – Dentro da solução da pobreza do Brasil, o programa Bolsa Família é uma parte pequena do todo. O País fez muito mais em termos de inclusão econômica do pobre. Houve uma inclusão produtiva do pobre, que se engajou nas questões produtivas formais da economia, gerando aumentos salariais fantásticos para os mais pobres. Houve um aumento grande nos pequenos negócios, a renda do trabalhador melhorou. A agricultura familiar e programas apoiaram isso. A política brasileira de combate à pobreza é abrangente e complexa. O Bolsa Família, por conta das funcionalidades, manteve mais a criança na escola. Porém, em termos de aprendizado e até de redução da evasão, teve uma participação pequena.

DINHEIRO – Uma vez o sr. comentou que as escolas no Brasil não oferecem aos alunos de baixa renda oportunidades de ascensão social. Elas, de fato, reforçam as diferenças?

PAES DE BARROS – Esse é um problema bem específico da educação. Todos gostariam de viver em um mundo onde existisse menos desigualdade, mas ninguém pode ser contra a meritocracia. Então, ao final do dia, aquelas pessoas que acabam tendo um desempenho melhor, produzem mais e têm uma vida melhor, financeiramente falando. Temos de ser bastante cuidadosos como toda essa desigualdade aparece. Talvez, ela vá acompanhar essas pessoas a vida inteira. E um dos lugares onde essa desigualdade pode aparecer é na escola. A gente pode argumentar que grande parte da desigualdade que aparece na escola vem do fato de que um aluno estuda mais ou, que talvez, seja mais talentoso que o outro.

DINHEIRO – Não é isso que acontece?

PAES DE BARROS – Grande parte da desigualdade que aparece na educação, na verdade, foi criada na educação mesmo à revelia do esforço ou do talento do aluno. Por quê? Porque a família exerce um papel importante nisso. Toda família está preocupada com a educação do filho. Portanto, ela tenta ao máximo que o filho tenha um bom desempenho. Existem pais que têm mais tempo, uma formação melhor, são mais ricos, podem ajudar mais seus filhos que os outros. Então, surge a desigualdade de oportunidade, onde crianças igualmente talentosas, prontas para colocar o mesmo esforço, acabam tendo resultados diferentes, porque vêm de famílias diferentes. Um dos desafios da educação é evitar que isso aconteça. A educação quer, por um lado, que a família ajude o máximo possível as crianças a se engajar. Por outro lado, quer evitar dramaticamente que a desigualdade de uma geração seja transmitida a outra geração através da escola. A solução é relativamente simples, mas nem tão compreendida assim pela escola, que deve aproveitar toda a atenção e dedicação dos pais para, depois, condensar isso de tal maneira que, ao final do dia, todos saiam do outro lado com igualdade de oportunidades.

DINHEIRO – Para que isso aconteça, será preciso reformular o sistema educacional?

PAES DE BARROS – É preciso ser sensível à desigualdade e também ser sensível à diversidade. Tem que perceber que uma escola em um bairro pobre vai precisar de mais recursos que uma escola em um bairro não tão pobre, pois lá ele terá todo o apoio da família. Toda criança em um momento ou outro vai ter uma dificuldade de aprendizado. O que isso requer é uma escola sensível, customizada e que entenda que cada criança aprende de um jeito. Não adianta tentar tratar a educação de forma massificada, porque aí gera desigualdade. Em princípio, não é preciso grandes revoluções.

DINHEIRO – Como essa desigualdade na educação impacta no mercado de trabalho e na economia?

PAES DE BARROS – Isso vai impactar muito mais na desigualdade. Pode ter um sistema educacional que é até conectado ao mercado de trabalho, mas que não presta atenção na individualidade. Ele pode gerar, em média, ótimos trabalhadores produtivos, mas vai gerar uma enorme desigualdade. Uns ficam para trás, outros avançam mais. O que estamos discutindo é muito mais a sensibilidade da escola em não deixar ninguém para trás. Tem mais a ver com gerar desigualdades do que propriamente gerar uma massa de pessoas com alta produtividade. Então, uma coisa é a questão da igualdade, outra questão é qual é a melhor educação que é preciso dar para as pessoas.

 


O Censo do Ensino Superior (Estadão – Opinião – 07/09/2017)

De todas as novidades trazidas pelo Censo de 2016 a mais importante é a queda do número de alunos das faculdades e universidades particulares

De todas as novidades trazidas pelo Censo da Educação Superior de 2016, que acaba de ser divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), a mais importante é a queda do número de alunos das faculdades e universidades particulares. Segundo o Censo, há no Brasil 34.266 cursos de graduação ofertados por 2.407 instituições de ensino superior, das quais 87,7% são privadas. Entre 2015 e 2016, elas perderam cerca de 16,5 mil alunos. A última vez em que isso ocorreu foi há 25 anos. Já as universidades públicas se mantiveram praticamente estáveis. Elas tiveram 1,99 milhão de alunos, no ano passado – cerca de 2% a mais do que em 2015. O número de estudantes aprovados em seus vestibulares, no entanto, caiu de 534,5 mil em 2015 para 529,5 mil em 2016. Esses números deixam claro que o País está cada vez mais distante de atingir a meta do Plano Nacional de Educação, que prevê aumentar a taxa de ingressantes para 33% da população na faixa etária de 18 a 24 anos. Outra informação relevante do Censo aponta uma redução do número de estudantes matriculados em cursos presenciais – a taxa de inscritos caiu de 82,6% de todas as matrículas do ensino superior em 2015 para 81,4% no ano passado. Já o ensino a distância – que envolve a internet e canais fechados de televisão – cresceu cerca de 20% no período. Como o ensino a distância tem mensalidades muito mais baratas do que as do ensino presencial, não exige deslocamento diário e conta com um corpo discente numa faixa etária mais velha, o governo agilizou o credenciamento de novos cursos, com o objetivo de beneficiar os estudantes de baixa renda, que precisam se qualificar para aumentar a possibilidade de obter alguma colocação profissional. Com isso, a modalidade acabou atingindo um público maior, o que acabou evitando uma queda mais acentuada do número de novos alunos no ensino superior privado. Ao anunciar o Censo, tanto as autoridades educacionais como as entidades do setor reconheceram que a queda no número de matrículas – especialmente no ensino superior privado – pode ser ainda maior no próximo ano. Essa queda decorre de pelo menos dois fatores. Um deles é a crise econômica. Por causa dela, muitos jovens abandonaram a ideia de ingressar numa faculdade e passaram a buscar algum tipo de emprego, para ajudar na renda familiar. Entre 2010 e 2014, as taxas de desistência e evasão ficaram próximas a 50%. “A percepção clara é de que a recessão afeta o ânimo e a disposição dos jovens em ingressar no ensino superior. As famílias os empurram para o mercado de trabalho”, afirma o ministro da Educação, Mendonça Filho. Outro fator responsável pela queda no número de matrículas no ensino superior são as reformas do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) promovidas pelo governo Temer que, em contraposição à maneira perdulária com que o ensino superior foi conduzido pelo lulopetismo, acabou com a farra de concessões indiscriminadas de empréstimos com juros favorecidos a estudantes, impondo um teto de renda e exigência de nota mínima no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Em 2014, ano em que a educação foi convertida pelo então governo em bandeira para sua reeleição, o Fies firmou 732.682 contratos. No ano seguinte, o número despencou para 287.455. Em 2016, foram 203,5 mil contratos. E, como decorrência das medidas moralizadoras adotadas pelo atual governo, no primeiro semestre deste ano foram firmados 111.445 contratos. As mantenedoras de faculdades e universidades privadas – que obtiveram lucros vultosos na época em que os recursos do Fies eram distribuídos a rodo, sem qualquer planejamento e sem exigência de desempenho escolar mínimo – reclamaram. As autoridades educacionais, contudo, resistiram às pressões e lembraram que o número de matrículas no ensino superior voltará a subir quando a reforma do ensino médio, que foi aprovada no início do ano, começar a dar resultados.