13/10/2009 / Em: Clipping

 


Após dez anos, dobra percentual de jovens que frequenta universidades no Brasil  (Folha Online – Educação – 10/10/09)

Dobrou a proporção de jovens de 18 a 24 anos, de 1998 a 2008, cursando o ensino superior: de 6,9% para 13,9%, constatou a Síntese dos Indicadores Sociais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), divulgada nesta sexta-feira.  O levantamento mostra que, dez anos depois, houve aumento da frequência ao ensino superior em todas as regiões do país. Mesmo assim, o percentual é baixo quando comparado a países como França, Espanha e Reino Unido, onde essa proporção é superior a 50%, ou América Latina, onde o Chile se destaca com 52%. “Dos cerca de 7 milhões de estudantes de 18 a 24 anos, 45,5% cursavam o nível superior no país em 2008. A região com maior destaque foi o Sul, com 62,2% de pessoas nessa faixa etária concluindo essa modalidade de ensino”.  De todas as unidades da federação, Santa Catarina registrou o maior número de jovens nas universidades, 66,9%. Maranhão, no Nordeste, apontou a taxa mais baixa, 14,8%. Seguida do Sul, a região Sudeste apresentou o maior número de jovens universitários, 56,8%. O Estado que mais se destacou nessa área foi São Paulo, com 64,9% de jovens cursando universidades em 2008. O IBGE não informou os números absolutos sob justificativa que os dados referentes ao ano de 1998 não estão disponíveis.

USP quer compensar alunos de escola pública após perda do Enem  (Folha Online- Educação – 13/10/09)

A USP vai criar uma fórmula para que os alunos de escola pública não sejam prejudicados com a ausência do Enem no vestibular da Fuvest. O exame poderia acrescentar até 6% à nota final do candidato, dependendo de seu desempenho. Sem o Enem, ficaria mais complicado para o aluno da rede pública ser aprovado. Isso porque a universidade havia decidido manter o bônus, mas ele seria calculado com base em uma prova mais difícil que o Enem: a nota da primeira fase do vestibular. A ideia da fórmula é justamente corrigir essa distorção –e dar ao candidato a mesma chance de obter o bônus de 6% que ele teria se fizesse o Enem. “O vestibular da Fuvest é mais difícil que o Enem. Quem acerta a metade do Enem, por exemplo, não consegue acertar a metade da primeira fase da Fuvest. Então, haverá uma fórmula para corrigir essa diferença e fazer com que o bônus seja o mesmo que o Enem daria”, afirmou Mauro Bertotti, coordenador do grupo de trabalho que discute o vestibular. No vestibular do ano passado, o Enem ajudou em média 3% na nota. “Vamos fazer com que o bônus permaneça em 3%”, afirmou. Por trás da proposta, está a necessidade de manter o mesmo patamar de alunos de escola pública que conseguem entrar na USP –em 2008, foram 30%. O modo como essa compensação ocorrerá será discutida quinta-feira, em reunião do grupo coordenado por Bertotti, ligado à pró-reitoria de graduação. Foi essa mesma equipe que decidiu excluir o Enem do vestibular da USP, na última quarta-feira –a avaliação foi que não haveria tempo hábil para levar em conta a nota do exame, adiado para dezembro. O bônus de 6% do Enem faz parte do Inclusp, projeto de inclusão social da universidade que dá, ainda, 3% para os que fizeram todo o ensino médio em escolas públicas e mais 3% para quem aderiu ao Pasusp (avaliação seriada). No total, o acréscimo na nota pode chegar a 12%. Pelo Inclusp, 896 estudantes entraram na USP em 2009 –3.089 alunos da rede pública passaram no vestibular; não fosse o bônus, seriam 2.193. Até o ano passado, todos os candidatos, inclusive os da rede particular, também podiam usar o Enem –o exame era usado para compor até 20% da nota da primeira fase.

Em torno do Enem   (Folha de S.Paulo – Opinião – 10/10/09)

FERNANDO DE BARROS E SILVA

Ainda que nada grave aconteça até a data da nova prova, o vazamento do Enem já deixou um saldo negativo pesado para o país -a começar pelo transtorno na vida de milhões de jovens, brutalmente frustrados na véspera de um momento para o qual devem ter dedicado boa parte de suas energias e expectativas nos últimos meses. O fato de instituições de ensino superior da relevância da USP e da Unicamp, entre outras, desistirem de usar o exame como parte de seu processo seletivo já neste ano obviamente esvazia seu alcance, à luz do que dele todos esperavam. Também está claro que o ministro Fernando Haddad, embora conduza bem a crise, pagará um preço político pela imprudência do MEC. Seria muito pior, porém, se a gatunagem tivesse como consequência o descrédito do exame a médio prazo. Não parece ainda ser o caso. O Enem representa um avanço. É recente no país o consenso de que o ensino deve ser submetido a critérios de avaliação universais e mensuráveis. Há mais ou menos dez anos, o PT, que hoje está no poder, investigando os ladrões da prova, queria eliminar do processo pedagógico exames como o Provão. Mudamos. Criado por FHC e ampliado por Lula, o Enem nos deu uma noção mais precisa do abismo entre as redes pública e privada de ensino. Para tentar sair do buraco, é preciso conhecer seu tamanho. É verdade que o ranking das escolas tem estimulado um certo darwinismo pedagógico entre instituições de ponta na esfera particular, mais voltadas para o exame do que para o próprio ensino. Mas, se este é um subproduto nocivo do Enem, ele não compromete os méritos maiores de um instrumento que responsabiliza as escolas pelo desempenho dos alunos e deve democratizar o acesso à universidade. A educação brasileira ainda está próxima da tragédia. Basta dizer, entre tantas vergonhas, que mais de 1 milhão de professores, da educação infantil ao ensino médio, não têm diploma universitário. O retrato permanece muito feio; o filme, no entanto, já foi bem pior.

Após escândalo, prova do Enem ganha nova data e perde USP e Unicamp  (Folha de S.Paulo – FolhaCorrida – 11/10/09)

O escândalo do vazamento do Enem teve dono de pizzaria telefonando para jornais para intermediar a venda da prova. Teve ladrão escondendo caderno de questões na cueca. Teve até o presidente da República sugerindo que tudo foi artimanha política para prejudicar o governo. Se não tivesse atrapalhado tanto as vidas de 4,1 milhões de estudantes, pareceria roteiro de novela ruim, dessas que usam o bate-boca da CPI da hora para apimentar a trama. Em seis dias, contados a partir da divulgação do vazamento do Enem (1º de outubro) pelo jornal “O Estado de S. Paulo”, a Polícia Federal decretou “concluída” a investigação. Indiciou cinco pessoas (três delas funcionários do consórcio que deveria garantir a confidencialidade da prova, o dono da pizzaria e um improvável DJ). Mas, no dia seguinte (7), um cursinho, o CPV de São Paulo, disse à Folha que também tinha sido procurado, cinco dias antes do início do exame, por um homem interessado em vender as questões. Até então, só se sabia da tentativa de repassar o exame a órgãos de imprensa. A PF resolveu, então, investigar um pouco mais.
Tolhido pelo imprevisto, o MEC acusou falhas na distribuição e segurança da prova e remarcou o Enem para 5 e 6 de dezembro. A organização terá a ajuda dos Correios e da PF. A mudança de data fez o exame trombar com as agendas de várias faculdades. E universidades como a USP e a Unicamp desistiram de usar a nota do exame nacional em seus vestibulares deste ano.

7 instituições desistem do Enem e 26 adiam prova   (Folha de S.Paulo – Fovest – 13/10/09)

O adiamento do Enem fez sete instituições de ensino superior desistirem de usar o exame no vestibular. Outras 26 mudaram as datas das provas para não coincidir com o Enem, que será em 5 e 6 de dezembro. USP e Unicamp estão entre as universidades que não levarão mais o exame em conta. Elas afirmaram não ter tempo hábil para calcular o peso da nota do Enem no vestibular. Para que a USP considerasse o exame, as notas deveriam estar disponíveis até 14 de dezembro. Mas o Ministério da Educação anunciou que as universidades receberão as notas do Enem 50 dias depois desse prazo, em 5 de fevereiro. Antes mesmo de o vazamento das provas ter feito o Enem ser adiado, a Unicamp já havia estipulado, em edital, a data-limite de 30 de novembro para receber as notas do exame. Também não usarão mais a prova o Mackenzie, a PUC de São Paulo e de Campinas, a Facamp e o Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica) de Minas Gerais.

Unicamp tem opção de letras e libras (Folha de S.Paulo – Fovest – 13/10/09)

O balé das mãos de quem se comunica na linguagem dos sinais também pode ser aprendido e aperfeiçoado numa faculdade de letras. A Unicamp, em parceria com a UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), oferece os cursos semi-presenciais de bacharelado em tradução e interpretação e de licenciatura em letras e libras. Para poder ter acesso aos cursos, os candidatos são submetidos a um vestibular diferente: não há papel, caneta ou cartão-resposta. É pré-requisito que o estudante seja fluente em libras porque as provas são realizadas na Língua Brasileira de Sinais. O bacharelado e a licenciatura aceitam tanto alunos ouvintes -de audição normal- quanto surdos. “Os cursos proporcionam a alunos surdos uma oportunidade de inserção na universidade”, diz Regina Maria de Souza, coordenadora do polo de Campinas de letras e libras. No bacharelado, diz a professora Regina, a predominância é de alunos ouvintes. Já na licenciatura, voltada a formar professores para o ensino fundamental, os ouvintes são exceção. O mercado de trabalho para os futuros professores, intérpretes ou tradutores é promissor. Desde 2005, um decreto do governo federal passou a obrigar que todas as escolas disponibilizassem um intérprete de libras ao aluno surdo e tradutores em eventos. “As empresas estão contratando cada vez mais”, diz Regina.



Aprender com a resposta errada (O Estado de S. Paulo – Aliás – 11/10/2009)

O sigilo quebrado não deve nos desesperar – se os exames são imprescindíveis na organização social, as falhas também são

Jorge Forbes* – O Estado de S.Paulo

 – O descontrole ocupou as primeiras páginas dos jornais essa semana. Para começar, milhões de estudantes brasileiros e seus pais sofreram, e continuam a sofrer, um verdadeiro inferno, em decorrência do roubo da prova do Enem.

Nos Estados Unidos, David Letterman, o homem das cartas, famoso apresentador de televisão, foi mais um que expôs a variedade de suas carícias ao olhar público, constrangido por um chantagista – repugnante como todos o são – que o ameaçava com publicar suas incursões secretas se não lhe fosse paga uma alta quantia em dinheiro.

O Hotmail, por sua vez, sugeriu que as senhas de seus usuários fossem trocadas devido a inúmeras terem sido descobertas e publicadas.

A conclusão é fácil: não há segurança possível se, por segurança, for entendido o direito de cada um manter indevassados todos os aspectos de sua vida. Não há barreira ao conhecimento, atualmente, que não possa ser quebrada. Estamos em uma loteria: quem for sorteado, poderá ter fatos da sua vida expostos. O progresso dos sistemas de controle parece andar sempre um passo atrás dos sistemas opostos, os de sua quebra. Às vezes, como no caso do Enem, nem se tratou de vazamento sofisticado: a cena (repetida à exaustão nos telejornais) do funcionário escondendo o exame dentro da cueca mostra a força devastadora e humilhante do prosaico, apesar dos múltiplos olhares eletrônicos.

Além disso, como não pensar que em todos os Enems deve ter havido alguma escapada de informação, da mesma forma que na maioria das provas vestibulares? Quem pode se apresentar como arauto do controle total? Sabemos o que esperar dos burocratas de plantão, nesses casos. Após uma série de mútuas acusações chatíssimas e ad nauseam, que ocupam tempo precioso dos debates televisivos, aparece alguém com a solução esperada e óbvia: um sistema mais aperfeiçoado de controle – nesse caso, um cofre mais bem fechado.

Pensa-se que foram hackers especializados os que quebraram as senhas do Hotmail. Não necessariamente. Para a alegria da moçada, o mercado oferece uma série de gadgets tecnológicos capazes de realizar pequenos roubos internéticos, a começar, é claro, pelos arquivos do seu colégio, com o objetivo de melhorar suas notas e as de seus amigos, no clique do ratinho, digo, do mouse. Se antigamente as crianças ficavam contentes em descobrir alguns segredos de seus pais, por ser uma forma de escapar ao jugo da autoridade vivida como aplastrante, imaginem o que sentem ao invadir uma escola, ou, em sonhos, um banco.

Do ponto de vista psicanalítico, temos três tipos de intimidade: imaginária, simbólica e real. A imaginária e a simbólica têm em comum o fato de poderem ser representadas: uma, na imagem e outra, na palavra. O mais interessante para os dias de hoje é a terceira, a intimidade real, por exatamente não poder ser representada. Ela diz respeito a um sentimento silencioso que habita cada pessoa, que, embora não possa ser expresso de nenhuma maneira, nem por palavras nem por imagens, só podendo ser aludido poeticamente, orienta os atos fundamentais da vida de cada um. Imagens podem ser roubadas, palavras podem ser copiadas, mas a intimidade real, não, ela é indevassável exatamente por não ser passível de representação. Um exemplo sensível seria imaginar que você pode ter a fotografia do Roberto Carlos, pode saber muita coisa da vida dele; no entanto, se encontrá-lo, você vai ver que não o conhece. O mesmo se pode dizer da atriz que tem seu corpo nu estampado em uma revista masculina: isso não a faz mais conhecida sua, e ao encontrá-la, nada lhe permitirá uma conversa de alcova.

Temos, em decorrência, duas políticas possíveis para tratar o descontrole: imaginar que ele é fruto de imperícia, ou que é estrutural da espécie humana. Ser adepto do primeiro caso é incorrer nas tendências paranoicas atuais de controlar sempre mais e melhor. Não é impossível que cuecas venham a ser proibidas em certas repartições. Concordar com a segunda hipótese, a da falha estrutural na constituição humana, nos conduz a buscar uma nova política que inclua o erro, sem por isso diminuir o acerto.

Isso não quer dizer que deveríamos defender uma liberalidade desregrada, claro que não. O que quer dizer é que não devemos nos desesperar frente a exemplos como o da quebra do sigilo do exame do Enem, e muito menos nos confortar com o lamurioso e obsoleto “só no Brasil, mesmo…”. Exames são imprescindíveis na organização social; suas falhas, paradoxalmente, também. O governo pode criar o exame para controlar os exames dos colégios. Duro será criar agora o exame do próprio exame que controla os outros exames. Os adeptos da lógica aí reconhecerão um exemplo do famoso paradoxo de Russell. De saber se equilibrar na difícil gangorra do conflito perene do homem com a civilização depende a boa política.

Vazamento revelador

No roubo do Enem, pouco ou nada foi dito sobre o mais importante: o conteúdo das provas

Sírio Possenti* – O Estado de S.Paulo

– É difícil não ser favorável a avaliações nacionais do estilo Enem, desde que não se multipliquem excessivamente e valham para diversas finalidades, sobretudo para avaliação do funcionamento dos sistemas escolares e, pelo menos parcialmente, para acesso às universidades e talvez a outros espaços. Se bem feitas, essas avaliações poderiam substituir aspectos ou etapas de outros concursos ou, pelo menos, ser uma das medidas até para certas carreiras.

Sua múltipla função teria como efeito também o de reduzir a um tamanho adequado as indústrias da avaliação – cujos produtos mais óbvios são as provas e as complicadas logísticas – e aumentar sua qualidade e confiabilidade.

Quando ocorre um problema como o vazamento da prova do Enem, também fica claro que se debate pouco o próprio exame (sobre isso, só cursinhos opinam, nunca se saberá por quê). Pouco ou nada foi declarado sobre a questão, que deveria ser central, de o que perguntar aos estudantes e como fazê-lo, para verificar se, afinal, eles têm ou não, ou em que medida, o conjunto de competências e habilidades (expressões das quais desconfio muito) requeridas para avançar na escola ou para a vida profissional e social.

Na verdade, esse tem sido o viés dominante nas discussões sobre a escola: há muitas estatísticas e notícias mais ou menos interessantes ou escandalosas a respeito da merenda escolar; projetos tentam incluir novos temas nos currículos (espanhol, sociologia, filosofia, sem contar a educação sexual e de trânsito…); compras equivocadas ou nem tanto de livros; mas poucas vezes se vê competentemente analisado o que se ensina ou aprende (ou não) nas escolas. Discute-se o entorno da escola ou da sala de aula, mas quase nunca se entra nelas (o que, às vezes, convenhamos, tem um lado bom, porque se afastam os palpiteiros que supostamente entendem de tudo).

É hora de olhar de perto para as provas, a formulação das questões e o gabarito. E debater. Por exemplo, o primeiro contato com a prova sobre linguagens e suas tecnologias, etc., produz efeito bastante negativo. Há problemas na primeira questão, que ficam mais graves na segunda, e a terceira não é muito feliz. A leitura de toda a prova mostra que há questões interessantes e bem formuladas. Mas que há ainda outras cuja presença não convence, e mais outras com problemas de formulação (salvo melhor juízo, sempre).

Não há espaço para comentar todas as questões. O fato de comentar algumas problemáticas não quer dizer que essa seja necessariamente a marca do exame. Mas significa que a prova que vazou tinha outros problemas, além do vazamento, e seria bom que não se repetissem. Vejamos.

A primeira questão trata da escrita típica das “conversações” pelo MSN. Começa com uma apresentação bastante razoável do fato. Mas a introdução às alternativas é um pouco problemática: diz que, para que uma comunicação desse tipo se dê em tempo real, “é necessário que a escrita das informações seja rápida”. Não acho que esta seja a melhor maneira de encarar a questão: a escrita típica do MSN é um efeito tanto da situação quanto do fato de que se está “teclando” e de outras questões menos utilitárias, como a de sentir-se parte de um grupo. Além disso, nem sempre se trata de informações. Aliás, na “conversa” apresentada, há mais saudações e perguntas do que informações. Mas o mais grave, a meu ver, é a ocorrência de uma alternativa, a primeira, absolutamente sem sentido. A sensação é de descuido pelo menos na criação das alternativas erradas. A questão diz que, para que a comunicação se dê em tempo real, é necessário que a escrita seja rápida, o que é feito por meio de… A) frases completas, escritas cuidadosamente com acentos e letras maiúsculas (como “oq vc tá fazendo?”). Ora, o exemplo entre parênteses é o contrário do que está descrito. Pegadinha?

A questão dois versa sobre uma tira de Quino. Resumindo: Mafalda e seu pai estão no escritório. Ele vai até a estante, pega um dicionário, faz uma consulta e o devolve ao mesmo lugar. Mafalda, que viu a cena, grita (sua boca indica isso): “Desse jeito você nunca vai terminar de ler um livro tão grosso.” A consigna é, pasmem: “O efeito de humor foi o recurso utilizado pelo autor da tirinha para mostrar que o pai de Mafalda…” E a resposta certa é, segundo o gabarito: “queria consultar o dicionário para tirar uma dúvida, e não ler o livro, como sua filha pensava.” Ora, essa leitura é absolutamente equivocada. O que a tira significa é que Mafalda não sabe que não se leem dicionários como se faz com outros livros, e por isso diz o que diz a seu pai. E o efeito de humor não é algo que o autor use para uma finalidade qualquer, mas é o efeito que o texto produz, com base na ignorância de Mafalda sobre a utilidade dos dicionários, um ingrediente, aliás, que não está explícito e o leitor deve descobrir. Ou seja, a questão deveria ser sobre isso.

A terceira questão informa que a maioria das declarações de Imposto de Renda é realizada pela internet, etc., e a pergunta é se com isso se visa: (A) gerar mais despesas aos cofres públicos; (B) criar mais burocracia no relacionamento com o cidadão; (C) facilitar e agilizar os serviços disponíveis; (D) vigiar e controlar os atos dos cidadãos; (E) definir uma política que privilegia a alta sociedade.

O gabarito informa que a resposta é (C). Pode-se concordar. Mas de onde vem a resposta? E por que não é (D)? O que essa questão mede? Informação? Cidadania? Crença na boa vontade do Estado?

A questão 7 espera que, na situação hipotética em que ter á de escrever uma carta pedindo emprego, o aluno escolha a opção “evidenciará (sic!) a norma padrão”. O sentido é de “escolher”, “utilizar” etc. Por que “evidenciar”?

Mas há também boas questões. Talvez até constituam a maior parte da prova. Um exemplo é (11): fornece uma narrativa literária e pergunta qual das alternativas propostas em seguida tem o mesmo fato em linguagem jornalística. É bem sacada e bem elaborada, sendo que as alternativas a serem excluídas não são jornalísticas, mas não são qualquer coisa, são gêneros reais e identificáveis com relativa facilidade.

Está na hora de analisar e discutir as questões, de verificar a confiabilidade do instrumento de avaliação tanto quanto a da logística de impressão e de distribuição das provas. Não se pode achar que as falhas da prova sejam menos graves do que um vazamento. Não basta que o exame tenha muitas virtudes. Dado seu alcance, ele não pode ter nenhum defeito.

*Professor do Departamento de Linguística da Unicamp e autor de Os Humores da Língua – Análise Linguística de Piadas (Mercado de Letras, Campinas)

Um funil de incertezas

Para estudiosa da avaliação, Enem patina no ideário de democratizar o acesso à universidade pública

Mônica Manir – O Estado de S.Paulo

– Uma bomba explodiu no pátio do Enem depois que o Estado revelou, na semana passada, o vazamento das provas que seriam aplicadas nos dias 3 e 4 de outubro. Nesta semana, o Ministério da Educação juntou os cacos e mais duas levas de provas – uma delas a tradicional reserva – para definir os dias 5 e 6 de dezembro como as novas datas para o Exame Nacional do Ensino Médio. Enquanto isso, no paralelo, a Polícia Federal indiciava os autores do furto, entre eles dois rapazes de 20 e 21 anos, decididos como os demais a ganhar dinheiro fácil escondendo a prova 1 na cueca e a 2, numa blusa e depois oferecendo-as à imprensa atrás de R$ 500 mil. Perpendicularmente, o Tribunal de Contas da União decidia investigar o contrato do MEC com o consórcio Connasel para saber se o ministério cometeu falhas na supervisão da segurança do exame, falhas que causaram um prejuízo de R$ 35 milhões, por baixo. Ao pé da escada, 4 milhões de alunos fazem suas contas para ver se vale prestar o exame, já que algumas universidades públicas e privadas não mais aceitarão o Enem para compor a nota de seus vestibulares e outras fazem malabarismos para driblar o encavalamento de datas.

Em solenidade de entrega de armas não letais em frente do Congresso, na quarta-feira, o ministro da Justiça, Tarso Genro, teve da fraude uma visão Poliana: “Foi bom o que aconteceu porque toda a sociedade brasileira se tornou consciente da grande importância que tem o Enem para a educação no Brasil”. Ao sul de Brasília, na estância mineira de Caxambu, a professora Sandra Zákia Sousa era uma das organizadoras da 32ª reunião da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, na qual havia, inclusive, uma mesa de debates sobre o Enem. Ela não compartilha o mesmo ímpeto positivo de Tarso Genro: “Tenho dificuldade em aceitar a existência do exame desde que ele foi criado”. Sandra, que trabalha com avaliação educacional desde o fim dos anos 70, questiona, por exemplo, o caráter democrático da prova nacional. Para ela, o Enem, apesar de gratuito para os alunos da escola pública, dificilmente terá potencial de alterar as chances de ingresso dos menos favorecidos no ensino superior. “Não é por meio dele que se produzirá maior justiça”, martela, com voz grave.

O Enem é, no momento, a fórmula ideal para medir a qualidade da educação no nível médio?

Até o surgimento deste novo Enem, a referência que se tinha para avaliação do ensino médio com abrangência nacional era o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb), que traz evidências do desempenho dos alunos em português e matemática. Acho que eventualmente um investimento no próprio Saeb, aprimorando ou ampliando seu desenho, poderia responder a esse propósito. Tenho dificuldade em aceitar a existência do Enem desde que ele foi criado.

Por quê?

Se considerarmos sua origem, o Enem pretendia se legitimar como mecanismo de referência de processos seletivos, seja para cursos profissionalizantes, para cursos superiores, para a inserção no mercado de trabalho e, mais recentemente, como meio de acesso a programas governamentais. No entanto, por não ser obrigatório, o aluno decidia sobre a conveniência de participar ou não. Portanto, o exame não avaliava o ensino médio. Seus resultados não serviam ao propósito de medir o desempenho de escolas, redes ou políticas educacionais. O foco era avaliar o aluno individualmente, sendo a ele atribuída a responsabilidade pelas eventuais competências ou incompetências que viesse a demonstrar no exame. A não ser como medida de resultado final de alguns alunos – possivelmente a maioria com perspectiva de ingresso no ensino superior -, o Enem não servia à formulação e à implementação de políticas para essa fase.

Desde 2006, a nota do Enem obtida pelas escolas particulares passou a ser o único critério objetivo para avaliá-las e se tornou um referencial importante de qualidade para os pais matricularem seus filhos numa ou noutra instituição. Já na escola pública, ele é visto como passaporte democrático para o ensino superior. Corre-se o risco de o ensino médio se transformar num extenso cursinho?

Isso é o que tendencialmente acontece: os vestibulares influenciam o currículo das escolas cujos estudantes têm como alvo o prosseguimento dos estudos. Além disso, proliferam os cursos preparatórios para o Enem, com divulgação, inclusive pela internet, de propagandas que exibem chamadas como: “Não se desespere! Agora é fácil. Empresa Especializada em Cursinho…”. Mas não nos iludamos. A substituição dos tradicionais vestibulares pelo Enem não significa democratizar o acesso ao ensino superior.

Considerando a enormidade do nosso território e de nossas defasagens socioeconômicas, uma prova nacional favorece os mais desfavorecidos, não?

Veja, as pesquisas que analisam o perfil de ingressantes no ensino superior evidenciam que o nível socioeconômico é fator determinante nas possibilidades de ingresso. A existência de um exame nacional não tem potencial para alterar as desigualdades sociais, que se traduzem em desigualdades educacionais. O Enem, apesar de gratuito para os alunos da escola pública, dificilmente terá potencial de alterar as chances de ingresso dos menos favorecidos no ensino superior. Portanto, não é por meio dele que se produzirá maior justiça.

Mas e a possibilidade de algumas universidades públicas de difícil acesso, como USP e Unicamp, usarem o Enem para compor a nota dos seus vestibulares? Não é um bônus a se levar em conta?

Não consigo afirmar isso porque precisaríamos ter estudos que acompanhassem algumas gerações de vestibulandos. As pesquisas que temos não estão relacionadas a esse formato do Enem, essa abrangência em diferentes instituições nas quais ele pode pesar de diversas maneiras. Mas do que estamos falando no momento? Estamos falando de cursos para os quais o Enem pode servir, cursos em que há um padrão de concorrência. Se eu considerar que, normalmente, o fator preponderante para entrar nesses cursos é o nível socioeconômico do aluno, nível que de alguma forma expressa seu arcabouço cultural, tanto faz a prova que vou utilizar: tendo a selecionar os mesmos estudantes. Aliás, as instituições que já usavam o resultado do Enem no formato anterior não viram alterações significativas na posição de ingresso dos candidatos.

Isso justificaria o fato de a USP e a Unicamp, por exemplo, não acatarem um novo calendário em função da fraude no exame?

Eu acho que, em primeiro lugar, justifica-se uma insegurança. O princípio básico é o de que você tenha um teste em cujo resultado se possa confiar. Quando se gera qualquer tipo de desconfiança quanto a ele medir o que diz medir, realmente vale um alerta: “Espera aí, vamos considerar melhor isso, precisamos de uma base firme para levar em conta esses resultados”. Ao mesmo tempo, algumas universidades não estão conseguindo compatibilizar as datas dos próprios vestibulares com as do Enem. Não dá para a universidade, seja ela qual for, desmontar toda a sistemática de sua própria aplicação de testes em função de uma alteração de datas. Acho que esse é um fator bem compreensível. Outras poderão, eventualmente, aguardar para ver se o Ministério da Educação vai conseguir implantar um exame com esse desenho. É uma prova única para o Brasil inteiro, são 4 milhões de alunos. Nessa proporção, fica muito mais complexo controlar o sigilo.

A fraude pode abalar a legitimidade do Enem ou mesmo o processo de desenvolvimento de outros sistemas de avaliação?

A fraude é lamentável. Se não por outras razões, pelo que isso representou para os estudantes inscritos. Além da insegurança pelo fato de alterações no significado e na finalidade do Enem terem sido feitas em curto espaço de tempo, sem que tivesse havido o preparo de escolas, cursos e alunos, certamente não foi pouca a decepção causada com o adiamento. Também foi divulgado que isso representará um acréscimo de 30% ao custo de exame, que era de R$ 148 milhões, uma consequência nada desprezível. Você pergunta se a fraude ajudou a questionar esse critério de avaliação. Penso que ela levanta a necessidade de repensar a pertinência e o realismo da realização de um exame único para tantos alunos. A logística que supõe essa operação é absurda. Isso talvez tenha contribuído para que instituições que tradicionalmente realizam processos seletivos no Brasil não tenham respondido ao edital. Agora, ao mesmo tempo, os sistemas de avaliação vieram para ficar. Inclusive, depois da criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que estabelece expectativas de desempenho para as escolas, acho que as mesmas e os gestores municipais e estaduais têm tentado compreender os resultados dos exames e buscado alternativas que visem a aprimorar esses mesmos resultados. A fraude ou críticas ao Enem não comprometem o arcabouço da avaliação tal como ele está delineado no Brasil.

O Enem pode ajudar a orientar políticas públicas?

Embora reconheça que resultados de avaliação de desempenho de alunos possam subsidiar políticas públicas, que visem à melhoria da qualidade da educação, penso que eles ainda vêm sendo subutilizados, quando não servem apenas para responsabilizar as escolas ou os alunos pelo fracasso escolar. Sem dúvida, os resultados podem indicar avanços e deficiências nas redes de ensino e trazer evidências de resultados das políticas implementadas. Permitem subsidiar o planejamento. No entanto, parece-me que as informações colhidas nos exames não se revertem em redirecionamento ou criação de políticas educacionais.

A senhora mencionou, no início da entrevista, que o exame também foi pensado como critério para ingressar no mercado de trabalho. Acha essa proposta interessante?

Lembro que, quando ele foi lançado, ainda na gestão do Paulo Renato (Paulo Renato Souza, ex-ministro do governo FHC e atual secretário da Educação do governo paulista), uma das expectativas anunciadas era de que viesse a ser usado até em processos seletivos pelas empresas. Não vi isso se concretizar, mas acho que intensificaria os processos excludentes. Poderia contribuir para alguns candidatos, mas ser desfavorável para grande parte dos alunos, aqueles que não tiveram uma escola básica de qualidade.

A partir da fraude, alunos de colégios particulares da zona sul do Rio de Janeiro fundaram, usando o Orkut e o MSN, um novo movimento estudantil: o Nove (Nova Organização Voluntária Estudantil). Dizem ser apartidários porque a maioria dos movimentos estudantis deve satisfação a algum governo ou partido e deixa de pensar nos alunos. Os estudantes estão sem representantes?

Acho que, em geral, eles são muito pouco ouvidos nas propostas, e ouvir esses alunos do ensino médio significa trabalhar com uma diversidade gigantesca. Tem aquele que fez o ensino fundamental e cursa o médio regularmente, sem problemas, tem o aluno que abandonou várias vezes a escola e está com idade avançada, tem aquele que, antes de ser aluno, é trabalhador. Acho que todos os canais que os alunos criarem para se fazer entender vão ser muito importantes – para além do Enem.