14/11/2017 / Em: Clipping

 

Enem mostra evolução na cobrança de conteúdo, dizem educadores (O Globo – Sociedade – 14/11/2017)

Provas complexas explicam sensação de vestibular; professores avaliam que exame evolui gradualmente

A primeira reação da maioria dos estudantes após o último dia de provas da edição deste ano do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), no último domingo, foi reclamar de uma prova mais cansativa, que se aproximou de um vestibular tradicional. Educadores apontam que parte dessas queixas está correta, tanto para as provas de Humanidades e Linguagens quanto para as de Matemática e Ciências da Natureza, mas observam que isso não significa uma ruptura com as últimas edições. A avaliação é de que o exame passa por um processo gradativo de evolução na direção de questões mais complexas, que demandam mais conteúdo específico dos interessados em conquistar uma vaga na universidade. — Não vi uma prova tradicional de Geografia. É uma prova moderna com conteúdo. Isto é bom. Não foi exigida geografia descritiva, mas um conhecimento para além da leitura de jornais e revistas — analisa Márcio Viveiros, professor de Geografia dos colégios Andrews, Cruzeiro e Instituto Federal do Rio de Janeiro — O Enem não rompeu com o passado. Isso já vinha acontecendo. Felipe Robledo, professor de História dos colégios Dínamis, Faria Brito e Sion, acredita que esta tendência continuará: — Não foi uma prova conteudista clássica, mas exigia conteúdo para resolver as questões. Não era como nos outros anos, que poderia ser feita somente pela leitura dos textos da prova. O perfil do Enem mudou desde a sua reformulação em 2009. Há oito anos, na prova de Ciências Humanas, quinze questões não traziam textos de referência. Na edição aplicada no último dia 5, todos os itens tinham pelo menos um. — Isso é uma evolução da prova. Uma vez que você coloca o enunciado, se defende em dúvidas sobre o gabarito. A função do texto também mudou. Antes, era mais ilustrativo. Hoje, ele é referência. A pergunta se relaciona com ele — observa Robledo.

LEITURA OBRIGATÓRIA

Uma crítica dos estudantes em relação ao exame de Humanidades foi a citação de autores acadêmicos, que não são apresentados no ensino médio, como a historiadora Angela de Castro Gomes e o geógrafo Rogério Haesbaert. Para Viveiros, este erro não é da prova. — Os autores são os que o ensino médio precisa usar. Não foi um academicismo exagerado. É um conhecimento necessário. O professor ainda aponta que um dos principais desafios dos candidatos está em adquirir uma habilidade fundamental para a prova e que não é conquistada repentinamente. — O Enem é uma prova cansativa. A leitura rápida é obrigatória, e só conseguem aqueles que já cultivam esta habilidade. Para Robledo, faltou pluralidade de tipos de fontes para análise: — Não tivemos análise de charges ou músicas. Iconografia também foi pouco usada. Só usar o academicismo, que é importante, pode limitar a avaliação do aluno.

 

Forma do Enem está esgotada (O Globo – Opinião – 14/11/2017)

A aplicação de um teste como este, uma ou duas vezes por ano, em curto espaço de tempo, como acaba de acontecer, termina sendo pouco eficaz como método de avaliação

Acaba de ser vencida mais uma etapa anual do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), com cenas que se repetem. A correria dos atrasados, a mobilização policial para prevenir fraudes, a ansiedade de milhões de jovens à espera das primeiras divulgações de gabaritos antecipados pela imprensa na internet etc. Tudo justificado, porque se trata da única oportunidade no ano que a geração que conclui o ensino médio tem para entrar no mundo universitário. O Enem, criado em 1998, no final do primeiro governo FH, com Paulo Renato Souza no Ministério da Educação (MEC), surgiu para testar a qualidade do ensino médio. E terminou se convertendo, em 2009, com Lula no Planalto e Fernando Haddad no MEC, em um supervestibular. Com as desvantagens desse tipo de avaliações de massa. Uma delas, as fraudes. Por ser uma espécie de “bala de prata”, um tudo ou nada para, só este ano, 6,7 milhões de aspirantes a faculdades, compensa para grupos de criminosos investir em esquemas de quebra de sigilo. Há sempre alguém disposto a pagar por gabaritos furtados. Este é um dos motivos pelos quais o Enem deveria prever mais que um teste por ano, e de forma regionalmente descentralizada, no modelo do Scholastic Assessment Test (SAT), americano. Desta vez, o Enem foi aplicado em duas etapas. Melhorou para os estudantes, mas os problemas de fundo continuam. A possibilidade de fraudes, no modelo de vários testes diferentes distribuídos no ano, praticamente desaparece. Reduz-se, ainda, a tensão dos jovens, hoje forçados a jogar um ano de estudo em provas feitas em um fim de semana ou dois. Nos Estados Unidos, quem não for bem em um exame pode se inscrever no seguinte. Instituído em 2010, com Lula e Haddad, o Sistema de Seleção Unificada (Sisu) tem a vantagem de permitir que a nota do Enem sirva de passaporte para estudantes entrarem em faculdades públicas em todo o Brasil. O problema está no Enem. No governo de Dilma Rousseff, com Aloizio Mercadante no MEC, justificou-se a manutenção do Enem na sua forma atual pela falta de recursos públicos para se adotar o bom modelo americano ou algo semelhante. Afinal, é necessário estruturar-se um gigantesco banco de questões pré-avaliadas, para que, independentemente do número de testes aplicados, eles sejam equivalentes entre si, em termos de grau de dificuldade e eficácia na avaliação. Assim, é possível distribuir “Enems” pelos meses, sem que uma prova seja mais fácil ou difícil que outra. Sobre o problema do custo, devem-se considerar as economias em logística e na prevenção a fraudes. Além disso, o benefício a milhões de estudantes e para a própria qualidade da seleção justificam este avanço.

 


Enem 2017 valorizou bom aluno e diminuiu chance de paraquedistas (Veja – Educação – 13/11/2017)

Professores avaliam positivamente o novo formato da prova: “fluida, com conteúdos contextualizados e sem grandes rupturas”

Na avaliação de professores ouvidos por VEJA, o Enem 2017 foi uma pedra no sapato dos “paraquedistas”, apelido dado àqueles estudantes que não se prepararam tanto para a prova. “Neste ano, quantidade de questões difíceis foi bem maior que nas provas anteriores. Só um aluno com muita bagagem teórica vai conseguir tirar uma nota alta”, avalia Ronaldo Carrilho, professor de física do Anglo, destacando a originalidade das questões. “Pelo menos um quarto da prova tem questões de altíssimo nível, que não dá pra resolver só na interpretação de textos e gráficos. Não foi uma prova para paraquedistas.” “A prova cobrou os mesmos conteúdos, mas de uma maneira mais refinada. Conhecimento mesmo”, comentou Robby Cardoso, supervisor de matemática do Anglo. Já para Nelson Castro, que leciona biologia no mesmo cursinho, o teste deste domingo exigiu conteúdos que vão além do básico do ensino médio. “Algumas questões cobraram conhecimentos complexos que, no ensino médio, são vistos bem ‘por cima’”. Após muitos anos sem mudanças significativas, o Enem deste ano foi marcado pela diferença em relação às provas anteriores. Pela primeira vez, as provas foram aplicadas em dois domingos e com as matérias de exatas e humanas agrupadas em dias diferentes. Diretor de ensino do Anglo, o professor Paulo Moraes acredita que, apesar de assustar um pouco os alunos, as mudanças do Enem 2017 foram positivas. “A divisão dos dias e a unificação de humanas e exatas foram os maiores ganhos da prova neste ano. Além disso, as questões ficaram mais densas e condensadas, o que deixa mais tempo para que o aluno as resolvam”, avalia ele. “A prova foi pensada como um todo. Ficou mais parecida com um vestibular tradicional: fluida, com conteúdos contextualizados e sem grandes rupturas. Isso valoriza o bom aluno.”

 


Enem representa superação e oportunidade de crescimento, relatam candidatos (Agência Nacional – Educação – 13/11/2017)

É a segunda vez que a massoterapeuta Renata Soares da rocha, de 30 anos, participa de um processo seletivo para entrar na universidade. Mas é o primeiro Enem. A outra vez foi há 12 anos, quando ela terminou o ensino médio. Como não passou, foi trabalhar e construiu outro caminho. Depois de 12 anos fora da sala de aula, resolveu tentar de novo. Segundo Renata, foi um desafio. A empresária Rosane Capelez, de 49 anos, também quer cursar faculdade pela primeira vez. Ela deu o recado para quem ainda pensa em recomeçar. E não é só quem saiu da escola há anos que dribla as dificuldades para chegar ao ensino superior. Para estudantes do ensino médio em idade regular, existem realidades muito diferentes. Larissa Franciely, de 16 anos, enfrenta o Enem pela primeira vez, mas com uma responsabilidade a mais na barriga. Está grávida de 9 meses.

O nascimento do filho está previsto para a próxima sexta-feira. Por isso, ela não levou só o RG. A caderneta da gestante e todos os exames estavam junto. O Ministério da Educação divulgou o perfil dos participantes do Enem deste ano. 58% são mulheres. Cerca de 47% são pardas é 13%, negra. Mais de 60% já concluiu o Ensino Médio, e 9% são de treineiros, que ainda vão concluir o ensino médio depois de 2017. Com relação á faixa etária, a faixa mais numerosa é a que vai de 21 a 30 anos, com mais de dois milhões de pessoas.