19/07/2017 / Em: Clipping

 

Cotistas ainda enfrentam preconceito em instituições de ensino superior (Portal O Dia – Notícias – 19/07/2017)

Estudantes relatam ‘olhares tortos’ e comentários preconceituosos de professores e colegas

A inserção do sistema de cotas ou ação afirmativa para alunos negros, indígenas e de escolas públicas ingressarem em Instituições de Ensino Superior, durante muito tempo, sofreu severas críticas. Mesmo após cinco anos da criação da Lei de Cotas (Lei nº 12.711/2012), os intitulados “cotistas” continuam passando por diversas situações constrangedoras, racistas e preconceituosas. O cotista e estudante de direito, Lucas Viana, destaca que, em se falando de preconceito, não se deve personalizar desigualdades. Para ele, existe preconceito sim contra os cotistas, pois muitos ainda se baseiam na meritocracia (mé- rito acima de tudo) dentro da universidade. Por isso, ele defende e luta por mais debates voltados à temática, a fim de mostrar às pessoas a importância do sistema, o sucesso e a inclusão social com a qual trabalha, de forma a desmistificar muitos tabus que existem ao redor do assunto. “As pessoas acham que colocar uma reserva de vagas para alunos de escola pública, negros e indígenas, vai quebrar a meritocracia tão prezada na universidade. Só que a meritocracia não atende a necessidade de todos. Já soube de vários casos de professores dizendo que não deveria ter cota, que as pessoas negras cotistas não deveriam estar ali. Soube até de um caso cuja professora falou que, depois que adotaram o número de cotas, aumentou a quantidade de pessoas analfabetas. O que é totalmente errado porque eles se baseiam em achismo, não consideram a prática, os dados”, argumenta Lucas. A estudante de Comunicação Social, Milleny Medina, também é cotista de escola pública além de negra, e relata que somente ao entrar na universidade teve consciência sobre o que é ingressar no Ensino Superior através da ação afirmativa. “Quando pisei na sala e vi que a maioria eram pessoas brancas de escola particular, me senti à parte, mas, ao mesmo tempo, orgulhosa de estar representando o meu povo. Na minha sala não percebo, mas sei que o preconceito na universidade existe, principalmente nos cursos mais elitizados, como direito, medicina e engenharias. Meus amigos sofrem com os olhares dos colegas que têm mais condições financeiras”, comenta.

Adaptação é questão de tempo

A adaptação é outro ponto criticado por pessoas que são contra o sistema de ação afirmativa. Alguns alegam que o estudante de escola pública, por meio das cotas, não será capaz de acompanhar a turma. O advogado Francisco Bruno Alves, que se formou em uma faculdade de Teresina através do Prouni, outro tipo de cota só que para ingresso em faculdades particulares, explica que, embora haja uma dificuldade de adaptação no primeiro semestre, visto que se trata de uma realidade muito superior ao ensino das escolas públicas, o cotista interessado tem a mesma capacidade de acompanhamento. “A partir do momento que o aluno pega o ritmo, ele consegue se desenvolver tanto quanto os alunos de ampla concorrência. Com dificuldade menor ou maior, ele consegue. Até porque os cotistas são os melhores alunos de escolas públicas. Não é que eles sejam ruins, eles só não tiveram as estruturas adequadas para se desenvolverem no Ensino Médio. Mas quando eles são submetidos às mesmas condições que os de escolas particulares, eles vão sim conseguir acompanhar” fala. Além disso, em pesquisa realizada, pelo estudante Lucas Viana, com 90 alunos (40 não cotistas e 50 cotistas negros) dos seis cursos mais concorridos da Universidade Federal do Piauí, foi constatado que os alunos cotistas são perfeitamente qualificados para estarem nas universidades, visto que a diferença do rendimento de um em relação ao outro é bem pequena. Os dados indicam que 96,9% dos alunos não cotistas e 88,2% dos alunos cotistas negros preenchem a nota mínima prevista pela Ufpi para aprovação por média.

“Sistema de cotas traz igualdade”, diz diretora

A diretora de assuntos acadêmicos da Universidade Estadual do Piauí (Uespi), Francisca Ealdina, comenta que é através das cotas que os alunos com poucas oportunidades e de vulnerabilidade social têm acesso à educação superior. Segundo ela, o sistema de cotas traz igualdade de acesso aos alunos que não tiveram educação de qualidade. Enquanto alguns acreditam que a ação afirmativa é uma porta desigual para ingresso em universidades e faculdades, a diretora defende se tratar da mesma porta e das mesmas oportunidades.

Mesmo com essa possível igualdade que o sistema de cotas propõe a alunos de escolas públicas e privadas, é possível comprovar, em números, que ainda está muito longe para a quantidade de alunos cotistas ser igual a de alunos da ampla concorrência. Na Uespi, dos 12.039 alunos em regime regular devidamente matriculados, somente 2.019 são cotistas, o que corresponde a aproximadamente 17% do total de alunos. Desde a adesão ao Sistema de Seleção Unificada (Sisu), em 2012, a Universidade reserva 30% das vagas de ingresso na instituição para estudantes cotistas, sendo 15% para alunos oriundos de escolas públicas e 15% para alunos autodeclarados negros, oriundos de escolas públicas. Na instituição, os estudantes cotistas têm prioridade em seleções internas de programas assistenciais (Bolsa Trabalho, Auxílio Moradia e Auxílio Alimentação) oferecidos.

 


Com o novo ensino médio, o aluno deverá optar por áreas de interesse (Correio – Enem – 19/07/2017)

O Enem antecede a escolha profissional. Com a reforma do ensino médio aprovada em fevereiro, o aluno terá parte da carga horária preenchida com um currículo específico

O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é uma etapa decisiva para a escolha profissional dos jovens. Após a implantação da reforma do ensino médio, aprovada em fevereiro deste ano, esse passo tão importante poderá ser antecipado, uma vez que os alunos, ao ingressarem no antigo segundo grau, já deverão ter em mente a área de atuação que pretendem seguir. Segundo o MEC, parte do conteúdo do novo ensino médio será dividido em linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias e ciências humanas e sociais aplicadas. Aos 17 anos, o estudante Vinícius Leal Borges da Cruz, que cursa o 3º ano no Colégio Villa Campus, em Salvador, é daqueles que desde muito novos já sabem o que querem ser quando crescer. Às vésperas de prestar o Enem pela terceira vez, o jovem está focado na sua rotina de estudos e espera, em breve, ingressar no curso de Biologia. “Desde pequeno, gosto de estudar os animais. Na época, eu dizia que queria ser cientista. Quando cresci um pouco, descobri que a ciência que estava buscando era a Biologia”, relembra ele. A consultora profissional Denise Pereira, presidente do Conselho Deliberativo da Associação Brasileira de Recursos Humanos seção Bahia (ABRH-BA), acredita que, com as mudanças no ensino médio – como a escolha da área de atuação -, as novas gerações poderão se reconhecer como personagens principais das suas vidas. “Vai ser preciso que o aluno assuma o lugar de protagonista”, frisou Denise. De acordo com ela, essa postura substituirá o modo passivo com que muitos adolescentes encaram a vida. “Eles estão acostumados a esperar que alguém os ensine tudo e mostre o que fazer. Agora, o estudante está sendo colocado numa situação em que precisa fazer suas próprias escolhas”, diz a especialista.

Preparação

Para garantir uma boa nota na prova, Vinícius dedica cerca de quatro horas do dia aos estudos, além do tempo que passa em sala de aula. O adolescente conta as estratégias que adota para se sair bem no exame, que será realizado em novembro: “Além de resolver questões antigas, procuro focar naqueles assuntos que tenho mais dificuldade, sem esquecer de revisar aquilo que eu sei mais”, detalha ele. Apesar da rotina puxada dedicada aos livros, Vinícius evita os excessos. “Tenho colegas que não fazem outra coisa a não ser estudar. Eu acho que é necessário a gente focar nos nossos objetivos, mas também é importante se divertir, fazer alguma coisa para relaxar, até para evitar o estresse”. Diferentemente de Vinícius, a estudante Brenda Borges, 16, do Colégio Acesso, em Feira de Santana, mudou de ideia ao longo do ensino médio e hoje conta que tem planos bem diferentes. Ela terminou o ensino fundamental pensando em cursar Engenharia Aeronáutica, mas acabou trocando as ciências exatas por humanas. Brenda, hoje no 3º ano, prestará vestibular para Ciências Sociais. Ela conta que muitos adolescentes costumam decidir a profissão que querem seguir baseados nas disciplinas que mais gostam. No entanto, ela diz que isso não é suficiente para definir uma carreira. “Somos muito jovens e geralmente temos uma ideia muito superficial das profissões”, afirma a estudante.

Autoconhecimento

Para minimizar as dúvidas, a consultora Denise Pereira ressalta a necessidade de os jovens se questionarem a respeito dos seus interesses pessoais e profissionais. Denise destaca a importância de buscar informações sobre as profissões, desmitificar algumas carreiras e saber se a personalidade de cada jovem dialoga com o trabalho que ele pretende fazer. “É um trabalho de autoconhecimento que deve começar cedo”, diz a especialista. Essa missão, por sua vez, não deve ficar a cargo somente dos estudantes. A consultora de carreiras Margarida Silva explica que o processo de descoberta das profissões é também de responsabilidade das escolas e dos pais. “A família não deve estimular a criança ou o adolescente a seguir essa ou aquela carreira, mas deve dar um jeito de colocá-los em contato com diferentes áreas do conhecimento para que eles se descubram”, orienta Margarida. Denise Pereira destaca ainda que as escolas devem promover debates com especialistas, pais e alunos, além de disponibilizar mentores que auxiliem os estudantes a descobrirem seus interesses profissionais. Além disso, a especialista recomenda às escolas a desenvolverem ações que extrapolem os limites da sala de aula e estimulem as diferentes capacidades dos jovens. “A escola pode criar projetos de pesquisa que envolvam a comunidade, buscar envolver os alunos em trabalhos voluntários e estimulá-los organizar eventos pautados em valores éticos. Isso os ajudará a refletir antes de tomar qualquer decisão”, finaliza.

Mercado

Os especialistas em carreira destacam ainda que é importante a vocação estar alinhadas com as demandas de mercado. Segundo Margarida Silva, é possível conciliar as aptidões com o que está sendo requisitado. “Isso tudo passa pela autogestão e está relacionado com a forma como a educação nos é passada”, disse. De acordo com a especialista, as escolas têm papel  fundamental nesse processo. “Devem abrir oficinas para que os alunos reflitam sobre as carências do mercado e, com isso, estimulá-los a ajustar as suas habilidades a essas carências. É uma maneira de despertar competências, habilidades e, ao mesmo tempo, atender as demandas”, afirmou. Nessa edição do Enem, as provas serão realizadas em dois finais de semana.

Enem pode ser usado para…

Universidade

O Enem é parte do processo seletivo de mais de mil faculdades públicas e privadas do país

Prouni

A nota do exame é critério na seleção para as bolsas do ProUni, programa do Ministério da Educação (MEC) que oferece a estudantes brasileiros sem diploma de nível superior bolsas de estudo integrais e parciais (50%), em instituições privadas de educação superior, para cursos de graduação e sequenciais de formação específica

Sisu

O Enem é a única forma de se candidatar a 51 instituições de ensino superior públicas pelo Sisu – sistema informatizado do MEC por meio do qual instituições públicas de ensino superior oferecem vagas aos participantes do Enem

FIES

A nota do Enem é obrigatória para a solicitação do Fies (financiamento estudantil), por meio do qual o estudante consegue financiar seu curso de graduação, com taxas variáveis

Desempenho

Avaliar o desempenho escolar e acadêmico ao final do ensino médio

Indicador

Desenvolver estudos e indicadores sobre a educação brasileira

Referência

Criar uma referência nacional para o aperfeiçoamento dos currículos do ensino médio

MEC é autorizado a captar verba

O Ministério da Educação foi autorizado pela pasta do Planejamento a pedir um empréstimo de até 250 milhões de dólares (cerca de R$ 800 milhões) para financiar a reforma do ensino médio. O empréstimo, que teve a autorização publicada na edição de anteontem do Diário Oficial da União, será feito junto ao Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (Bird). Em nota, o MEC afirmou que as tratativas do empréstimo começaram em março, quando o ministro da Educação, Mendonça Filho, esteve nos Estados Unidos. Os cerca de R$ 800 milhões poderão ser financiados em até cinco anos, e quase 90% do valor deverá ser usado pelo MEC para apoiar as secretarias estaduais de Educação na implantação do novo ensino médio. O restante do financiamento, segundo a pasta, será usado em “serviços de consultoria especializados, de alto nível, para apoiar o MEC e as secretarias estaduais e distrital”. A reforma, apresentada pelo MEC em setembro do ano passado por meio de uma medida provisória e transformada em lei em fevereiro deste ano, prevê o aumento da carga horária do ensino médio e a mudança da grade curricular, com a instituição de um mínimo de currículo obrigatório a todos os estudantes e os chamados itinerários formativos, onde as escolas poderão oferecer currículos específicos de cinco áreas diferentes. Essas áreas são: linguagens e suas tecnologias, matemática e suas tecnologias, ciências da natureza e suas tecnologias, ciências humanas e sociais aplicadas, além da formação técnica e profissional. Ainda de acordo com o MEC, o montante principal do empréstimo que deve ser feito com o Bird, também conhecido como Banco Mundial, estará atrelado ao Programa para Resultados, que usa indicadores para medir a eficácia das ações financiadas pelo dinheiro. O MEC afirma ainda que vai usar o dinheiro na “formação de técnicos educacionais para a adaptação dos currículos e elaboração dos itinerários formativos”, na “reprodução de materiais de apoio”, em ações para “incentivar a implementação dos novos currículos, por meio do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE)”, além de transferir “recurso às escolas para a implementação do tempo integral” e dar “suporte à capacitação de gestores e técnicos para o planejamento dessa mudança, para que se obtenha eficiência e eficácia”. Para a implementação do ensino médio, é necessário que seja publicada a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ela é que definirá as competências e objetivos de aprendizagem nas quatro das cinco áreas do conhecimento que estarão presentes no novo ensino médio. A primeira audiência pública para discutir o texto da Base Nacional Comum Curricular foi realizada no último dia 7, em Manaus. O MEC fará também audiências semelhantes em outras quatro capitais brasileiras: Recife, Florianópolis, São Paulo e Brasília.