21/03/2013 / Em: Clipping

 


Erros de redações do Enem poderiam não descontar nota em outros vestibulares

As contestações sobre a correção de redações do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), surgidas após a divulgação de textos com erros ortográficos como “trousse” e “rasoavel” avaliados com nota 1.000, poderiam se repetir em outros vestibulares se os espelhos de provas fossem divulgados. O iG consultou quatro universidades – USP, Unicamp, UnB e UFRGS –, que explicaram seus critérios de avaliação e, à exceção da UnB, admitiram que poucos erros gramaticais podem passar sem punição. A fuga do tema, como ocorreu nos textos do Enem que apresentavam uma receita de miojo e o hino do Palmeiras, poderia zerar a nota, mas também é um critério subjetivo. O maior vestibular do Brasil, a Fuvest, seleciona alunos para a Universidade de São Paulo (USP), mas não define previamente os pontos da redação que serão atribuídos ou descontados. Segundo a coordenação, no entanto, “evidentemente” gramática e ortografia são relevantes. Já casos de fuga do tema são analisados pela banca que pode anular ou descontar pontos. A redação na Fuvest é parte da prova dissertativa de Português e o candidato tem ciência apenas de sua pontuação total. Além disso, ele não pode pedir detalhes da correção ou para ver o “espelho” do texto, logo, não sabe se um erro foi ou não considerado na sua nota final. No caso da Comvest, que faz o vestibular da Unicamp, erros de gramática e concordância podem ser desconsiderados se o grupo de corretores julgar que foram irrelevantes diante do restante do texto. A quantidade de problemas que merecerá desconto na nota é combinada entre os professores que fazem parte da banca depois que começam a ler as redações. A universidade do interior de São Paulo aumentou a transparência da correção no último ano, mas o candidato continua sem ter acesso à correção. A universidade exige três textos e, até 2012, divulgava apenas a nota final pelo conjunto. No processo seletivo de 2013 separou a pontuação atribuída a cada uma das composições. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), os textos dos candidatos do vestibular são corrigidos duas vezes, uma para avaliar o conteúdo, a estrutura e a expressão linguística e outra para observar redação como um todo. Tanto a argumentação quanto o estilo são avaliados em itens específicos de uma planilha, mas erros de ortografia fazem com que os candidatos percam menos pontos que erros de pontuação, semântica e sintaxe e morfossintaxe. Segundo a assessoria de imprensa, o candidato pode ter até dois erros de ortografia e não sofrerá nenhum desconto. Nos demais itens, cada erro acarreta um desconto. Erros de sintaxe e morfossintaxe têm peso ainda maior. Podem anular uma redação os seguintes itens: fuga ao tema, texto que não seja uma dissertação e com menos de 30 linhas. Caberia aos corretores decidir se a receita de miojo, por exemplo, configura o desrespeito a esses itens.

Ministra diz que desigualdade racial permanece no Brasil e teme retrocessos   (IG – Política – 21/03/13)

Em dia de combate à discriminação racial, Luiza Bairros afirma, em entrevista exclusiva ao iG, que vê risco na escolha do pastor Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos, conta que há resistência na aplicação das leis e critica cotas ‘perversas’ do governo paulista

Propostas de leis que podem tirar direitos de índios e negros, resistências em aplicar as leis já em vigor, o modelo de cotas proposto pelo governo de São Paulo para as universidades paulistas e até a eleição de um representante conservador para dirigir a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados são fatores que levam o governo a temer retrocessos nas conquistas obtidas pela Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir).  “Vivemos num País em que as pessoas que estão em posições de mando nos vários lugares, inclusive nas universidades, fazem parte de uma geração que foi criada acreditando nessa democracia racial”, destacou a ministra da Seppir, Luiza Bairros, em entrevista exclusiva ao iG. Para ela, esse pensamento atrasou o desenvolvimento do Brasil. “O Brasil, ao longo dos anos, perdeu muito com essa crença”, enfatizou. Segundo ela, apesar dos avanços, as desigualdades raciais permanecem no País.



Entenda por que redação do Enem com hino e miojo não vale nota zero   (Globo.Com – G1 Vestibular – 21/03/13)

Os candidatos do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) que inseriram uma receita de miojo e trechos do hino do Palmeiras na redação disseram ao G1 que esperavam tirar nota zero na prova. Segundo eles, a intenção era testar o sistema de correção da prova de redação. No entanto, de acordo com Paulo Portela, diretor-geral do Centro de Seleção e de Promoção de Eventos (Cespe), órgão da Universidade Federal de Brasília (UnB) responsável pela aplicação do Enem, o edital do exame tem regras claras sobre as transgressões que anulam a prova. E trechos fora de propósito escondidos entre parágrafos pretensamente sérios não configura uma fuga completa ao tema. Esta falha só existe se o candidato não cita a proposta da prova em nenhuma parte de seu texto. Já Carlos Guilherme Custódio Ferreira, de Campo Belo (MG), decidiu ensinar uma receita de ‘miojo’ antes de concluir seu texto intitulado “Imigração ilegal”, que acabou avaliado com a nota 560. O objetivo dos dois era provar que os corretores não liam as redações com atenção e, por isso, a nota dos candidatos era aleatória. Fernando e Guilherme afirmaram que a nota mais justa para seus textos seria zero. Porém, para Portela, do Cespe, as notas 500 e 560 para as redações dos dois estudantes é prova de que os corretores não só leram os textos, mas também os corrigiram seguindo os critérios previstos no edital. “Não é aleatória, se você verificar onde eles levaram a menor nota, vai ver que foi nessas competências específicas. A nota baixa reflete exatamente que, quando ele utilizou argumentos completamente fora de propósito, ele foi apenado justamente por isso”, explicou Portela ao G1. “Se quisesse testar o sistema, poderia fazer um texto sobre a imigração no século 21 no Brasil e apresentar uma proposta de intervenção que ferisse os direitos humanos. Se fizesse isso, ele teria a nota zero”, afirmou. Ele afirmou ainda que a pontuação dos dois candidatos é considerada “o limite da reprovação”, já que, por exemplo, um participante que queira usar o Enem para conseguir a certificação do ensino médio deverá tirar no mínimo 500 na redação para obter a qualificação em linguagens e códigos.



Puxaram a nota para cima para não ser um desastre”, diz ex-corretor  Comentários   (UOL – Vestibular – 20/03/13)

Para o coordenador do Banco de Redações do UOL, Antonio Carlos Olivieri, os corretores do Enem 2012 (Exame Nacional do Ensino Médio) foram pouco rigorosos. Olivieri reavaliou cinco redações divulgadas na internet e, sem saber o resultado oficial, atribuiu notas inferiores a todos os textos. “Acho que eles puxaram as notas para cima para o resultado não ser um desastre total”, comentou o ex-corretor do Enem e da Fuvest, vestibular que seleciona alunos para a USP (Universidade de São Paulo). A redação que explica como é feito um macarrão instantâneo deveria receber nota 200, segundo o ex-corretor –foi avaliada em 560. Já o texto com o hino do Palmeiras recebeu 100 pontos de 1.000 possíveis na nova correção –a nota oficial foi 500. “Achei que deram notas acima daquelas merecidas”, disse.



Pasquale Cipro Neto
‘Rastreamento de ligações…’   (Folha de S.Paulo – Cotidiano – 21/03/13)

NA SEMANA passada, durante o julgamento de Mizael Bispo de Souza, um site de notícias publicou o seguinte título: “Rastreamento de ligações de Mizael contrariam suas falas”. Se o caro leitor vasculhar questões elaboradas pelas bancas de importantes vestibulares e concursos públicos do país (a começar pelo da Unicamp, por exemplo), verá que volta e meia se pede a análise de fatos linguísticos como o que se vê no título citado. Os itens da questão seriam mais ou menos estes: 1) Há uma forma inadequada no trecho transcrito. Identifique-a. 2) Qual é a forma que deveria ter sido empregada? 3) Há um motivo para esse tipo de desvio. Comente. É bem provável que o caro leitor e boa parte dos alunos que respondem a esse tipo de questão acertem de bate-pronto os dois primeiros itens da questão; o terceiro item talvez cause alguma dificuldade. Pois bem. A forma inadequada é “contrariam”, que deveria ser substituída por “contraria”, já que o núcleo de “rastreamento de ligações” (sujeito da oração) é “rastreamento”, e não “ligações”. Como se sabe, grosso modo o verbo concorda com o núcleo do sujeito, e não com os seus “penduricalhos”. E o terceiro item, de longe o mais importante da questão? Qual será o motivo do “desvio”? O motivo é simples: temos aí o fenômeno da contaminação ou o efeito da proximidade etc., que explicam muitos dos fatos da língua. Quando diz ou escreve “Rastreamento de ligações de Mizael contrariam suas falas”, o falante se deixa levar pela proximidade de “ligações” com o verbo, ou seja, leva em conta o elemento mais próximo do verbo para estabelecer a concordância. Isso explica o desvio, mas não o legitima, como se depreende do próprio enunciado proposto pelas bancas (“Há uma forma inadequada…”). De fato, no padrão formal da língua, construções como a que analisamos não ocorrem ou, se/quando ocorrem, decorrem de cochilos, aos quais todos estamos mais do que sujeitos. Esse desvio torna-se mais comum à medida que aumenta o número de “penduricalhos” do núcleo do sujeito flexionados no plural. Se a pressa é o motor da redação, então, a coisa se agrava. De fato, nos textos publicados pelos mais diversos meios de comunicação, não faltam exemplos de construções como “O custo dos alimentos industrializados produzidos com grãos subiram 10% no mês passado” ou “O valor dos aluguéis de apartamentos pequenos situados nos bairros centrais das grandes cidades brasileiras aumentaram muito no semestre passado”. O caro leitor percebeu onde está o nó em cada uma das frases? Na primeira, o redator se deixou levar pela interminável lista de “penduricalhos” do núcleo do sujeito, todos no plural. É como se houvesse um diabinho na orelha do redator repetindo sem parar algo como “Ponha o verbo no plural!”. E o diabinho ganha a parada. A forma inadequada é “subiram”, que deve ser trocada por “subiu”, em concordância com “custo”, núcleo do sujeito: “O custo dos alimentos industrializados (…) subiu…”. No segundo caso, o cochilo é semelhante, já que o verbo (“aumentaram”) foi indevidamente posto no plural, por influência da também enorme lista de “penduricalhos” do núcleo do sujeito. A forma adequada é “aumentou”, em sintonia com o núcleo do sujeito (“valor”): “O valor dos aluguéis (…) aumentou…”. A esta altura, talvez alguém esteja dizendo que esse tipo de desvio não muda o preço do feijão, ou seja, não prejudica ou impede a compreensão do texto. Sim, isso é fato, mas o emprego da forma adequada não revela apenas um mero acerto “gramatical”; revela uma das faces do domínio da estrutura da frase. Não me parece necessário explicar os benefícios decorrentes desse domínio, certo? É isso.