22/06/2009 / Em: Clipping

 

A Univesp é um bom caminho para ampliar o acesso ao ensino superior no país?  (Folha de S.Paulo – Opinião – 20/06/09)

SIM

O papel da universidade

A UNIVERSIDADE tem duas funções primordiais. A primeira é expandir as fronteiras do conhecimento e, assim, enriquecer a cultura científica e tecnológica do país. A mais importante, no entanto, é promover a formação de recursos humanos qualificados, os quais são elementos-chave no fomento do desenvolvimento econômico e social. Para melhor cumprir sua função social, as universidades públicas devem buscar alternativas, além do ensino presencial, visando à ampliação da oferta de cursos novos. Isso levaria à formação de mais indivíduos qualificados para alavancar o desenvolvimento da sociedade que as sustenta. Por isso, vemos como positivas as iniciativas das universidades estaduais paulistas de investir no ensino à distância. A universidade é o espaço da criatividade, da pesquisa e da inovação. Espera-se dela que investigue e analise novas ideias e experiências de natureza educacional. Assim, urge encontrar mecanismos institucionais visando à incorporação das novas tecnologias tanto no apoio ao ensino presencial quanto na ampliação de cursos de extensão e de graduação. Há uma demanda crescente pelo ensino de qualidade. Há, por outro lado, no modelo atual de ensino, uma limitação de recursos materiais e humanos que impede o atendimento cabal dessas demandas. Com a evolução das ferramentas voltadas para o ensino, a modalidade à distância se torna uma alternativa viável para atender boa parte da demanda reprimida. Portanto, a questão do uso das novas tecnologias não é se devemos utilizá-las para ampliar a oferta de cursos, mas como fazê-lo e em que ritmo.
O uso das novas tecnologias no ensino pode representar uma mudança de paradigma. Trata-se de uma forma de democratização do ensino e uma alternativa de inclusão social para aqueles que, por conta da sua condição social ou localização geográfica, não têm acesso ao ensino presencial. Pode a universidade pública furtar-se à pesquisa, à disseminação e ao uso de um instrumento tão promissor? Podemos oferecer cursos à distância sem que se perca a comprovada qualidade do ensino presencial? Temos pouca experiência nessa modalidade, mas chamamos a atenção para um caso concreto. Tendo em vista a necessidade de formação de professores, a UFRJ oferece cursos à distância. O relatório de avaliação do curso de física indica que o desempenho dos alunos e a taxa de evasão são os mesmos dos cursos presenciais. A experiência da UFRJ demonstra que uma universidade de prestígio pode praticar ensino à distância mantendo o mesmo nível do ensino presencial. O senso de responsabilidade exigido de USP, Unesp e Unicamp impõe, por outro lado, muita cautela para que não se comprometa a qualidade do ensino. Ademais, ninguém, ao que se saiba, defende a substituição ou a redução do ensino presencial. As duas propostas em discussão na USP, por exemplo, visam tão-só à ampliação da oferta de cursos. Elas foram formuladas por 32 docentes de vasta experiência e devem ser (ou foram) analisadas em seis instâncias diferentes na universidade. Uma vez que temos um longo percurso pela frente e estamos apenas aprendendo a ensinar utilizando essas novas tecnologias, essa cautela é justificável. Novos cursos e modelos educacionais, além dos já sugeridos, devem ser analisados no futuro. Por que deveríamos, nesse momento, ampliar a oferta de cursos? Uma nova perspectiva se abre quando analisamos o problema do ensino de ciências e matemática no Brasil. É sabido que avaliações recentes colocam o ensino dessas matérias no país entre os piores do mundo. Um dos entraves ao ensino de ciências é a qualificação dos docentes. Assim, acreditamos que a USP deve oferecer, num primeiro momento, cursos de extensão e cursos de licenciatura à distância nos diversos ramos das ciências e pedagogia. Com isso, estaria atendendo a uma demanda de claro interesse social. A questão central é se essas universidades querem lançar mão do ensino à distância para resgatar uma enorme dívida social. Estão sendo instadas a resolver um problema cuja solução está a seu alcance. Cabe a elas contribuir, de forma significativa, para a melhoria do ensino no Brasil.

GIL DA COSTA MARQUES, 63, é professor titular do Instituto de Física da USP, coordenador de Tecnologia da Informação da USP e membro do conselho da Univesp.


A Univesp é um bom caminho para ampliar o acesso ao ensino superior no país?  (Folha de S.Paulo – Opinião – 20/06/09)

NÃO

Univesp é arremedo de ensino superior

NO BRASIL , é comum atribuir relação intrínseca e biunívoca entre ensino à distância (EàD) e tecnologias de informação e comunicação (TIC), modernas ou não. Ledo engano, pois tais tecnologias não caracterizam nem sequer são exclusivas do EàD. A incorporação das TIC no ensino presencial, por sinal, é modesta, entre outros motivos, porque faltam às instituições de ensino recursos para prover a infraestrutura necessária. Por outro lado, a prática do EàD no país apresenta características negativas: 1) cursos modulares, aligeirados; 2) reduzida carga de ensino presencial, nem sempre conduzida por professores (substituídos por monitores e tutores); 3) fragmentação do processo de ensino: planejamento, elaboração, acompanhamento e avaliação realizados por pessoas distintas; e 4) precarização do trabalho dos docentes, monitores e tutores, todos submetidos a contratos temporários. Educadores e pesquisadores têm estudado o tema. Experiências que também se valeram em parte do EàD (como as licenciaturas parceladas no MT e o projeto Gavião no PA) auguram alguns indicadores positivos. Mas ainda não dispomos de um conjunto fundamentado de saberes sobre o assunto que justifique a adoção plena do EàD. Contudo, instituições e pessoas distorcem os esforços citados para defender o seu uso indiscriminado, a começar pela formação de professores e em larga escala. Os defensores incondicionais do EàD têm agido rapidamente, tanto no plano nacional (criação da Universidade Aberta do Brasil) como em SP, onde criaram o programa Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp). Discutiremos aqui duas de suas alegações: 1) EàD e Univesp democratizam o acesso ao ensino superior (ES) e 2) suprem a falta de professores de algumas disciplinas.
Grande contingente de pessoas não tem acesso ao ES presencial, supostamente por questões sociais ou geográficas; assim, a adoção do EàD seria uma iniciativa democratizadora. Porém, muitos desses excluídos residem em municípios onde há ES público, presencial e de qualidade, mas sem vagas em número suficiente. Ora, se há jovens alijados do ensino superior por razões sociais ou econômicas, os instrumentos a usar são outros: cursos noturnos, bolsas de estudo, moradia estudantil etc. Quanto às regiões desprovidas de ES, o Plano Estadual de Educação-Proposta da Sociedade Paulista (parado na Assembleia Legislativa) resolveria tal problema por meio da expansão das instituições públicas presenciais.
Do ponto de vista educacional, o EàD poderá trazer inúmeras limitações para os estudantes, desde ausência de programas de iniciação científica a dificuldades de acesso a boas bibliotecas e a laboratórios bem equipados. E serão privados da indispensável interação entre os estudantes, destes com os professores e de uns e outros com os objetos de conhecimento, em prejuízo da aprendizagem. Vários países adotam EàD para contemplar pessoas que não podem ser atendidas presencialmente: impossibilitados de locomoção, prisioneiros, militares engajados em regiões de fronteira etc. Por que não se faz isso no Brasil? Por que se busca impor o EàD em substituição ao ensino presencial regular?
Todas as redes públicas de ensino, incluindo a paulista, sofrem com a falta de docentes, em especial de física, matemática, química e biologia. Mais do que a insuficiência de professores formados, porém, prevalece a precariedade das condições de trabalho e salário nessas redes, ignorada por sucessivos governos. Há um contingente subutilizado de docentes que estão atuando em outras áreas por ausência de condições na rede pública paulista. Curiosamente, um dos cursos que darão início à Univesp, com 5.000 vagas, é o de pedagogia, área na qual não faltam profissionais! Por que comprometer perigosamente a formação de professores nas próximas gerações? Por que oferecer apenas e tão-somente o EàD àqueles que, por razões socioeconômicas e, sobretudo, pelo sucateamento da rede pública, não estão tendo a oportunidade de frequentar o ensino superior público presencial?

CÉSAR AUGUSTO MINTO, 59, é professor na Faculdade de Educação da USP e vice-presidente da Adusp (Associação dos Docentes da USP).


Ação afirmativa, cotas e autonomia universitária  (JB Online – Sociedade Aberta – 21/06/09)

Leandro Tessler

FÍSICO

Tramita já há 10 anos entre a Câmara dos Deputados e o Senado um projeto de lei que, se aprovado, instituirá cotas para o ingresso em todas as instituições públicas federais de ensino superior. Há alguma confusão em relação a quantos e quais serão os beneficiados pelas cotas. A versão atual fala em 50% das vagas para egressos de escolas públicas, limitar a renda familiar per capita a 1,5 salário mínimo; fala-se na proporção de pretos, pardos e indígenas correspondente ao último censo do IBGE em cada estado, fala-se em 10% para portadores de deficiência. É difícil entender por que a cota proposta para a escola pública é de 50% em lugar da proporção de estudantes de escolas públicas em cada estado, como é feito para o critério racial. Os defensores do projeto esperam, com ele, contribuir para uma sociedade mais justa e eliminar o racismo. Não hesitam em qualificar como racistas e conservadores os que não o apoiam. No entanto, mesmo pessoas que não são racistas nem conservadoras podem não concordar com a face impositiva do projeto de lei: usar a mesma fórmula de ação afirmativa em todas as instituições federais de ensino superior. Como está, o projeto é uma afronta ao preceito constitucional da autonomia universitária. É importante mencionar que cotas são, sem dúvida, uma forma de ação afirmativa. Mas existem muitas outras mais adequadas a algumas instituições. Por exemplo: a Unicamp, a USP e, pelo menos, mais seis instituições federais (incluídas aí a UFF e a UFMG) adotaram programas de ação afirmativa baseados na adição de pontos/ bônus em seus processos seletivos a egressos de escolas públicas e de negros e indígenas. Na Unicamp, um estudo mostrou que ter estudado em escola pública é um fator que influencia positivamente o desempenho acadêmico dos estudantes da universidade. Além disso, sabemos que um campus com mais diversidade é um ambiente mais propício à formação de todos nossos estudantes. Fica claro que, com um processo de ação afirmativa bem pensado, não só contribuímos para a inclusão social, mas também para termos uma universidade melhor e que responda aos anseios da sociedade. Combinamos inclusão social com mérito acadêmico e com a autonomia universitária: toda a discussão do programa ocorreu no seio da própria comunidade universitária, ouvidos os movimentos sociais. O resultado não poderia ser melhor: o desempenho acadêmico dos beneficiados pelo programa em muitos cursos supera o dos demais estudantes. Isso ocorreria se impuséssemos cotas de 50% para escola pública? Provavelmente não, dado que a demanda de escola pública pela Unicamp não chega a 30% dos inscritos. Impor uma cota que não dependa da demanda poderia levar a resultados inadequados para uma instituição com o perfil da Unicamp. O projeto de lei, por confuso que seja, tem sem dúvida a melhor das intenções. Há uma crença generalizada de que com boas intenções resolveremos problemas estruturais. Quem ainda lembra da chamada Lei Seca de um ano atrás? O maior problema do projeto de lei de cotas é confundir fins com meios. Seria absolutamente louvável uma lei que expressasse que objetivos de inclusão a sociedade espera. Que tipo de universidade a sociedade espera. Já uma lei que determina como cada universidade deve estabelecer sua política de admissão e inclusão, ao atropelar a autonomia universitária, tira das universidades o direito de fazer o que elas fazem melhor: criar conhecimento e encontrar soluções para problemas, sejam eles quais forem. É importante termos políticas públicas que apontem para uma sociedade mais justa e harmônica. Só não devemos confundir objetivos com formas de atingi-los. Algumas universidades decidiram que cotas são a melhor forma de atingi-los. Outras optaram por caminhos diferentes, mais adequados ao seu perfil. Em lugar de impor caminhos, deixemos que as universidades continuem pensando e contribuindo para um país melhor.