22/08/2013 / Em: Clipping

 


Vestibular da Unesp terá 1.134 vagas reservadas a alunos da rede pública   (Globo.Com – G1 Vestibular – 22/08/13)

A Universidade Estadual Paulista (Unesp) vai reservar 1.134 das 7.259 vagas do vestibular 2014 para candidatos que tenham feito integralmente o ensino médio em escola pública. Entre as vagas reservadas, 391 são destinadas a candidatos que se autodeclararem pretos, pardos ou indígenas. A reserva corresponde a 15% das vagas oferecidas e serão aplicadas para cada curso e turno. A Unesp vai aumentar gradualmente a reserva de vagas para cotistas até 2018: 15% (2014), 25% (2015), 35% (2016), 45% (2017), 50% (2018). De acordo com a universidade, o preenchimento das vagas seguirá a ordem de classificação do vestibular e, a cada ano, o Conselho Universitário fará uma avaliação da metas e das estratégias estabelecidas.



Pasquale Cipro Neto
Cuca o explicou sobre reserva por.   (Folha de S.Paulo – Cotidiano – 22/08/13)

Entre os estudiosos da língua há quem defenda a tese de que a norma culta de hoje está no que publicam os principais jornais do país e os meios de comunicação em geral. Essa corrente, no entanto, não usa em seus trabalhos o que se lê nos principais jornais do país, ou seja, o que ela diz ser a norma culta de hoje.  Muitas questões dos mais importantes vestibulares se baseiam justamente em textos jornalísticos, ou melhor, nos problemas de certos textos jornalísticos. Sempre se pede que se faça alguma “correção” nos excertos destacados, seja no que diz respeito à mensagem em si, seja no que diz respeito a aspectos gramaticais. Posto isso, vamos a um belo exemplo do que não se deve imitar quando se quer trafegar pelo padrão culto da língua. De onde vou tirar o exemplo? De um título jornalístico, que ninguém é de ferro! Lá vai: “Júnior César diz que Cuca o explicou sobre reserva por mensagem”. O desconhecimento de itens gramaticais básicos, a falta de leitura dos clássicos e a confusão com a regência de verbos que pertencem ao mesmo campo semântico estão entre os fatores que produzem a inadequação linguística presente no título citado. A que variedade de língua pertence a sintaxe desse título? À culta? À popular? A nenhuma delas. O xis do problema está no uso indevido do pronome oblíquo “o”. Quando se diz que alguém “o explica”, diz-se que alguém explica algo, que pode ser um fenômeno, um texto etc.: “O professor explicou o problema” = “O professor o explicou”; “O poeta explicou o verso” = “O poeta o explicou”; “O astrônomo explicou o fenômeno” = “O astrônomo o explicou”. Como se sabe –ou como deveria saber-se–, no padrão formal da língua o pronome oblíquo “o” funciona como complemento verbal direto (aquele que não é regido por preposição), seja para substituir coisas ou animais, seja para substituir seres humanos. Vamos lá: “Não conheço você” = “Não o conheço”; “Encontrei o cão” = “Encontrei-o”; “Não admiro esse compositor” = “Não o admiro”; “Não li esse livro” = “Não o li”. Na frase em questão, certamente não se quis dizer que Cuca “explicou Júnior César sobre a reserva”, já que ninguém explica alguém sobre o que quer que seja. O que se quis dizer é que Cuca explicou A Júnior César sobre a reserva. Se alguém explicasse alguém sobre algo, seria possível dizer “Cuca o explicou sobre tal coisa”.  O caro leitor já sabe como ficaria o título citado se fosse redigido na norma culta? Bastaria trocar o pronome “o” pelo pronome “lhe”: “Júnior César diz que Cuca lhe explicou sobre a reserva por mensagem”. Sim, se Cuca explicou A Júnior César, ou seja, se Cuca explicou A alguém, Cuca lhe explicou. No padrão culto da língua, é o pronome “lhe” que funciona como complemento verbal indireto (aquele que é regido por preposição) da terceira pessoa. Vamos lá: “O livro pertence a você” = “O livro lhe pertence” ou “O livro pertence-lhe”; “Digam ao diretor que este livro pertence a ele” = “Digam-lhe/a ele que este livro lhe pertence” (ou “que este livro pertence a ele”).  O desconhecimento dessa particularidade da sintaxe culta tem produzido outras bobagens semelhantes, como “O médico não o permite ingerir gordura” (na língua culta, “O médico não lhe permite ingerir gordura”) ou “O juiz não o concedeu o benefício” (no lugar de “O juiz não lhe concedeu o benefício”).  E é bom não confundir alhos com bugalhos! Frases como “O juiz não o convenceu a depor” ou “O pai não o autorizou a viajar” são do registro culto, já que, nesse caso, “autorizar” e “convencer” não regem preposição (alguém convence alguém; alguém autoriza alguém). É isso.