22/12/2008 / Em: Clipping

 


Aprovados na 1ª fase decidem: estudo ou descanso?  (EPTV – Virando Bixo – 19/12/08)

Para coordenadora de cursinho, neste período até a 2ª fase, o ideal é continuar estudando, mas deixar espaço para o lazer; vestibulandos falam em focar nas matérias que têm mais dificuldade

Dois dos principais vestibulares do país anunciaram nesta semana a lista de candidatos aprovados para suas segundas fases. A Fuvest – que faz o processo seletivo para a USP (Universidade de São Paulo), Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo e Academia de Polícia Militar do Barro Branco – e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) – que seleciona para seus 66 cursos e outros dois da Famerp (Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto) – fizeram a alegria de milhares de vestibulandos que viram seus nomes nos listões de suas primeiras fases. Juntos, os dois vestibulares tiveram quase 190 mil inscritos, que disputam aproximadamente 14.500 vagas. Mas só continua na luta quem passou pelas provas da primeira etapa. Para esses alunos, a comemoração só será completa se obtiverem sucesso também na segunda fase. A Fuvest realiza a próxima etapa, com provas discursivas, entre os dias 4 e 8 de janeiro. A Unicamp fará sua segunda fase de 11 a 14 do mesmo mês.
Nesta época, uma dúvida muito freqüente entre os vestibulandos é: o que fazer entre uma fase e outra? Matar-se de estudar para chegar ainda mais bem preparado para as novas provas? Ou aproveitar este período para descansar e entrar nos exames com a cabeça fresca? Para a coordenadora pedagógica do curso pré-vestibular Oficina do Estudante, de Campinas, Daniela Migliorini, nem uma coisa nem outra. O ideal, ensina ela, é continuar estudando, mas reservando espaço para o descanso e o lazer. Nesta entrevista, Daniela dá importantes dicas para se planejar entre uma fase e outra dos vestibulares. Como os candidatos aprovados nas primeiras fases de Unicamp e Fuvest devem administrar o tempo agora?
Nenhum candidato deve se matar de estudar neste curto período que separa a primeira da segunda fase. Não adianta querer aprender conteúdos que não foram fixados ao longo do ano. Por outro lado, também não resolve estudar apenas o que gosta e aqueles tópicos que, tradicionalmente, os candidatos dominam bastante. O ideal é focar nos assuntos e exercícios em que há dificuldades, mas que possam ser superadas. Portanto, a primeira coisa a fazer é definir os conteúdos que o candidato ainda pode aprender e, assim, conseguir ganhar pontos importantes na segunda fase.

Há algum ponto que devem focar mais especificamente?

Isso depende da carreira pretendida e do desempenho geral do candidato. Como disse, o ideal é focar nos conteúdos em que haja dificuldades superáveis. Além disso, é importante treinar para responder questões dissertativas, sobretudo os candidatos interessados em uma das vagas da USP, afinal, a primeira fase da Fuvest é constituída apenas por questões de múltipla escolha.

O modo de estudar para as segundas fases deve ser diferente do das primeiras?

Em linhas gerais, não. Para este caso, vale o ditado popular: “Em time que está ganhando, não se mexe”. O fato de ter ido para a segunda fase demonstra que o candidato tinha um método de estudos satisfatório. Portanto, nada de tentar inovações agora, mesmo porque o tempo é curto e deve ser bem aproveitado.

Como conciliar estudo e descanso?

O importante é ter disciplina e cumprir as metas de estudo estabelecidas para o período. Definidos os conteúdos, tendo em vista os parâmetros que mencionei, o ideal é compatibilizar as horas de estudo com as horas de lazer e descanso, também necessárias, afinal ninguém consegue ter um bom desempenho cansado.

E como aproveitar as festas de final de ano sem se descuidar dos vestibulares?

Nenhum vestibulando deve se privar das comemorações típicas do final do ano, essas festas são importantes por garantir um descanso merecido e também por permitir uma saudável convivência com familiares e amigos. O importante é não abusar com bebida ou alimentação, evitando, portanto, qualquer tipo de mal-estar físico.

Quem não passar na segunda fase, o que deve fazer pra não desanimar?

A primeira coisa que todos os candidatos não aprovados devem ter em mente é que ninguém pode se considerar fracassado por não ter sido aprovado. Vestibulares são seletivos e vários fatores contam na aprovação ou não. Assim, o importante é aprender com a experiência e tirar proveito em outros processos seletivos.

Vestibulandos falam em manter pique de estudos

Depois da maratona de provas, um tempinho para “respirar” em razão das festas de final de ano? Não é bem assim. Nem todos os vestibulandos vão aproveitar estes dias para largar os livros e se dedicar ao lazer.

É o caso de Olívia Soares de Camargo, de 18 anos. Ela foi convocada para as segundas fases da Fuvest e da Unicamp. Na primeira, ela disputa uma vaga no curso de Engenharia Agronômica. Na segunda, vai tentar ser aprovada em Engenharia Agrícola. Como a prioridade da estudante é o curso da Esalq, os dias em que as aulas do cursinho estão suspensas serão dedicados aos estudos das matérias específicas da Fuvest. “Vou estudar direto até o dia 24. Paro no dia 25 e retomo em 26 de dezembro. Farei isso até a tarde do último dia do ano. Em 1º de janeiro, começo de novo”, afirma.

Eduardo Augusto Moreira, de 18 anos, também vai usar os dias sem aula para se dedicar às segundas etapas dos dois vestibulares – assim como Olívia, ele tenta uma vaga no curso de Engenharia Agrícola na Unicamp. No entanto, vai dedicar o período entre o Natal e o Ano Novo para as matérias em que tem mais dificuldade. “Vou revisar todo o conteúdo de história e química”, conta. Em janeiro, promete se concentrar nas demais disciplinas, até a véspera da segunda fase.



Cotas, uma complicação (Valor Econômico – 19/12/08)

Por Cláudia Izique

Apesar de carregado de boas intenções, o projeto de lei que reserva 50% das vagas nas instituições federais de ensino superior para estudantes que cursaram o ensino médio em escolas públicas, aprovado em novembro pela Câmara dos Deputados, é alvo de duras críticas. “O projeto confunde inclusão social e ação afirmativa com política de cotas”, diz Leandro Tessler, coordenador executivo da Comissão de Vestibulares da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A proposta, que já está sendo avaliada pelo Senado, combina uma política universalista, ao propor cotas sociais, com um viés étnico-racial, na tentativa de democratizar o acesso às instituições públicas. Prevê que metade dessas vagas deverá ser ocupada por estudantes autodeclarados negros, pardos e indígenas, e a outra metade, por aqueles oriundos de famílias com renda de até um salário mínimo e meio por pessoa. “Em educação, os indicadores mostram que o corte é social”, argumenta o deputado e ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza (PSDB-SP), autor da emenda que contemplou grupos sócio-econômicos menos favorecidos e que foi acatada às vésperas da votação, por acordo entre parlamentares. “No Brasil, há uma sobredeterminação da questão racial pela questão social.” A cota de 50% das vagas, na avaliação de Tessler, é arbitrária e parece até cabalística. No Estado de São Paulo, por exemplo, 89% dos alunos concluem o ensino médio em escolas públicas. A proporção sugerida, assim, está longe do que poderia ser considerado um estado de equilíbrio – no caso, impensável. Pior que isso: a cota de vagas reservadas para esses estudantes nas universidades públicas pode ser superior à demanda. No vestibular da Unicamp, por exemplo, o percentual médio de alunos egressos de escolas públicas que disputam vagas é, historicamente, de 30%. “Em cursos como o de medicina, a taxa média é de 20%”, sublinha. Há, portanto, o risco de que uma proporção desequilibrada viole o princípio do mérito, que pauta as relações acadêmicas, comprometendo a excelência do ensino e da pesquisa. “Uma política de inclusão tem que levar em conta a demanda. É complicado tentar criar competência pela força da lei”, diz. O percentual de demanda, abaixo da cota fixada pela Câmara dos Deputados, tem, é claro, um componente de auto-exclusão, já que muitos não se sentem preparados para a disputa de vagas em universidades consideradas de acesso mais difícil, não têm tempo para se dedicar aos estudos, nem interesse em pesquisa. Mas há que se levar em conta também o efeito do Programa Universidade para Todos (ProUni), que oferece bolsas de estudos integrais e parciais a estudantes em instituições privadas. Criado em 2004 pelo governo federal, o ProUni já atendeu 385 mil alunos, a grande maioria deles matriculados em cursos profissionalizantes reduzir seu esforço de capacitação, já que. “Os cursos da Unicamp são de formação e nem todos estão dispostos a enfrentar esse desafio”, observa o coordenador da Comvest. Tessler teme ainda que, se o projeto de lei for aprovado, a política de cotas sociais e étnico-raciais contamine de forma negativa a própria escola pública, induzindo-a a os seus alunos poderão entrar na disputa por vagas concorrendo em “faixa própria”. “Há o risco de as escolas públicas nivelarem seus alunos por baixo”, adverte. Pesquisa realizada por Nelson Cardoso Amaral, do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG), a pedido da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), colocou em xeque o mito de que a maioria dos alunos das universidades públicas estudava em escolas privadas. E isso em 1997, quando ninguém pensava em política de inclusão social, antes mesmo de o projeto de lei de cotas, da deputada Nice Lobão (DEM-MA), o PL 73/99, começar a tramitar na Câmara dos Deputados. Na época, Amaral constatou que as proporções para os dois grupos eram muito semelhantes. Nos cursos de matemática e letras, por exemplo, a maioria – 67% e 62%, respectivamente – tinha freqüentado escola pública. Nos cursos de medicina, odontologia e engenharia civil, a relação era inversa. “Só não encontramos proporcionalidade nos cursos mais concorridos.” Em 2004, quando a UFG começou a arquitetar seu sistema de cotas, Amaral reproduziu a pesquisa com os alunos da universidade, e os resultados foram idênticos. A Federal de Goiás destina 20% das vagas a alunos de escolas públicas e a negros. “Esses alunos agarram-se aos cursos e conseguem ter um desempenho parecido com os que estudaram em escola privada. Mas o grande desafio é fazer com que, por razão de trabalho, não abandonem a escola.” Amaral endossa o projeto aprovado pela Câmara dos Deputados, mas lembra que o sucesso dessa política depende também de recursos federais para a manutenção de programas como bolsapermanência, monitorias remuneradas, além de subsídio à refeição, à moradia e aos transportes. “Na UFG, que tem um campus longe da cidade, estamos construindo uma casa para abrigar 150 alunos.” A expectativa é oferecer também vale-refeição, que será utilizado no restaurante do campus, e uma bolsa de meio salário mínimo. “Aí sim, o problema estará resolvido.” Antes mesmo da aprovação da lei, algumas universidades públicas iniciaram experiências bem sucedidas de democratização do acesso, sem lançar mão do sistema de cotas. A própria Unicamp, por exemplo, instituiu em 2004 um Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais), uma espécie de bônus no vestibular, que beneficia com 30 pontos os egressos de escolas públicas e com mais 10 pontos os candidatos negros e índios. Esse bônus é aplicado sobre um referencial de 500 pontos, atribuído à media do desempenho de todos os alunos em cada prova. O Paais foi elaborado com base num estudo revelador feito por pesquisadores da universidade: os estudantes provenientes de escolas públicas tinham maior potencial acadêmico do que os das escolas privadas. A mesma metodologia tem sido adotada no acompanhamento semestral dos alunos – condição exigida pela universidade para a implantação do programa – e os resultados são semelhantes. Já no primeiro ano de implantação do Paais, o percentual de alunos de escolas públicas cresceu de 29% para 34%, sobretudo nos cursos de maior demanda, e a admissão de negros, pardos e índios aumentou 44%. “Tem gente que acha que é papel da universidade promover a inclusão social. Nós achamos que o objetivo é atrair jovens talentosos, tanto que realizamos o vestibular em 20 cidades em nove estados, e garantir sua diversidade”, diz Tessler. Apostando no sucesso do programa, a universidade adotou uma série de iniciativas para aproximar-se desses potenciais candidatos e reduzir risco da auto-exclusão. Em janeiro, por exemplo, 100 alunos de escolas públicas farão estágios nos laboratórios da Unicamp. “A intenção é que eles percebam que são capazes de fazer ciência e tecnologia”, explica Tessler. A grande maioria termina o período de estágio “extremamente motivada”. A Universidade de São Paulo (USP) adotou, em 2006, um programa semelhante ao da Unicamp, o Inclusp, por meio do qual confere um bônus de 3% nas notas das duas fases do vestibular para alunos de escolas públicas. Um ano depois, a participação desses alunos no conjunto das matrículas cresceu de 24,7%, em 2006, para 26,7%. No desempenho geral dos alunos da USP, a nota média da turma do Inclusp, de 6,3, foi superior à de 6,2 dos demais estudantes. O primeiro projeto de lei sobre sistemas de cotas começou a tramitar na Câmara em 1999, e tinha como base coeficientes de renda. Em 2004, foram apensados à proposta da deputada Nice Lobão outros sete projetos, entre eles o da senadora Ideli Salvati (PT-SC) que propunha sistema de cotas para negros e índios – e que, tendo sido aprovado na Constituição de Comissão e Justiça do Senado, foi remetido para a Câmara – e até o que instituía cotas para idosos. “A proposta aprovada em novembro foi um substitutivo que resultou de um acordo e estava para ser votada desde 2006”, lembra a deputada. No Senado, o projeto terá como relatora a senadora Serys Slhessarenko (PT-MT) e tramitará como projeto de lei iniciado na Câmara (PLC) nº 180.