26/02/2015 / Em: Clipping

 

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O trote e o nosso incurável atraso(Folha de S.Paulo – Cotidiano – 26/02/15)

Dona Antônia certamente vai escrever para mim. Dona Antônia fica muito triste quando digo algo que desabone “o nosso maravilhoso Brasil, um país lindo, tropical, onde não há vulcões, tornados, tsunamis etc.”. Dona Antônia mora num condomínio duma cidade paulista, famosa justamente por seus condomínios (fechadíssimos). A existência de um sem-número desses condomínios país afora prova que “o nosso Brasil” é mesmo “maravilhoso”.  Sinto muito, Dona Antônia, mas a senhora vai ficar triste novamente. Re/começaram as aulas nas nossas universidades, e com elas veio outra prova inconteste do nosso secular e incurável atraso. Repito Paulo Freire: “A leitura do mundo precede a leitura da palavra”. A barbárie que se vê todos os anos na boçal prática do trote nas nossas “universidades” comprova o que Joaquim Nabuco escreveu há mais de cem anos: “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil”. O que é essa estupidez sem fim senão a perpetuação de uma prática que tem por trás a ideia de que calouros são escravos de veteranos, que, por sua vez, quando calouros, foram escravos de veteranos, que, por sua vez, quando calouros, foram escravos de veteranos, que… Há algum tempo, participei de um programa de TV no qual se discutiu o trote. Eu disse o que penso de QUALQUER trote (o assassino, o “solidário”, o “cidadão” etc.): é pura ditadura, já que não se concede à vítima a hipótese do não. É proibido recusar. Eu era um estranho no ninho… Fui até motivo de troça. Acabara de ocorrer um caso medonho numa faculdade de medicina, em que um calouro foi queimado. Eu disse que é inconcebível que numa escola de medicina se pratique tamanha barbárie. Recebi mensagens de médicos e futuros médicos que me perguntavam o que eu tinha contra eles… Talvez tivesse sido melhor não responder, mas eu disse que, a priori, contra médicos e futuros médicos não tenho nada, mas contra monstros burros tenho tudo.  Foi preciso que corajosas alunas da medicina da USP resolvessem denunciar o nojo que se dá nas “festinhas” para que a faculdade descobrisse a pólvora: nada de orgias, digo, nada de festas na faculdade (e nada de barbárie, também). A tragédia com o estudante chinês não bastara para pôr fim ao ritual macabro.  Quando olho para um médico, fico com vontade de perguntar-lhe se ele participou dessa estupidez quando aluno. Quando entrevistei o grande e querido escritor e médico Moacyr Scliar, meu companheiro de feiras do livro Brasil afora, disse-lhe que não confio em médicos que não leram Fernando Pessoa, Machado de Assis etc. Ele sorriu, como que concordando com o pensamento. O que se faz numa conceituada escola paulista de agronomia é o atraso do atraso do atraso. Calouros são levados de madrugada a um canavial, onde são abandonados. Detalhe: a única coisa que se lhes deixa é cachaça. Sem comentários. É dessa alta nobreza que sai a “elite” do Brasil. Gente insensível, bruta, burra e besta, com muitas e gloriosas exceções, é claro.  Dilma Rousseff, que foi torturada, não entende ou finge que não entende que trote é tortura. Nem ela nem todos os presidentes anteriores a ela. Nem eles nem todos os ministros da Justiça da história deste infame país, Dona Antônia. A leitura da realidade precede a leitura da palavra, caro leitor. É isso.

Pasquale Cipro Neto é professor de português desde 1975. Colaborador da Folha desde 1989, é o idealizador e apresentador do programa “Nossa Língua Portuguesa” e autor de várias obras didáticas e paradidáticas. Escreve às quintas na versão impressa de “Cotidiano”.


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Entenda o método TRI de avaliação do conhecimento (adotado no Enem)   (O Estado de S.Paulo – Educação/Blog Roberto Lobo – 25/02/15)

Avaliar o conhecimento dos estudantes de forma objetiva e segura sempre foi um grande desafio para os professores mais comprometidos. Nenhum método respondia exatamente ao que esses professores desejavam. A primeira decisão para assegurar maior objetividade foi a introdução dos testes de múltipla escolha em substituição aos discursivos, por dependerem menos da análise subjetiva e da individualidade dos corretores e transformava claramente acertos e erros em uma escala crescente de mensuração das competências avaliadas. No entanto, havia sérios problemas nesse método. Somente para citar dois, um prova mais difícil reduzia globalmente o índice de acertos, fazendo com que fosse difícil avaliar a evolução de uma turma ao longo do tempo ou da eficácia de políticas educacionais, uma vez que não havia como comparar provas diferentes de diferentes épocas. Como exemplo podemos citar os exames de suficiência para exercício profissional cuja dificuldade ao variar de ano para ano pode gerar injustiças em razão de diferentes graus de dificuldade das provas aplicadas.



Importância dos cursos técnicos  (Correio Popular – Cursos Técnicos e de Especialização Profissional – 26/02/15)

Nos últimos anos, a oferta de cursos profissionalizantes no Brasil tem aumentado num claro sinal de que essa modalidade de ensino já foi percebida pela sociedade como um atalho para a entrada no mercado de trabalho. Diferenciados em técnicos, livres, profissionalizantes e tecnólogos, esses cursos têm como finalidade promover ou melhorar a empregabilidade dos alunos. Pesquisa do Ibope divulgada em agosto de 2014, por encomenda da Confederação Nacional da Indústria (CNI),aponta que 90% da sociedade brasileira tem a opinião de que o ensino profissionalizante facilita o acesso ao mercado de trabalho e resulta numa excelente opção para os mais jovens, principalmente para aqueles que não dispõem de recursos para bancar de cara uma formação de nível superior com duração de quatro a seis anos. Outra percepção, detectada no levantamento que ouviu 2.002 pessoas acima de 16 anos em 143 municípios, diz respeito aos salários. No universo dos pesquisados, 82% afirmam que os profissionais com certificado de qualificação profissional têm salários maiores do que aqueles que não possuem capacitação. No entanto, atrair mais jovens para a educação profissionalizante ainda é um desafio uma vez que a taxa de desemprego na faixa etária dos18 aos 24 anos é mais alta que a média do mercado. Outro fator apontado por especialistas é a necessidade de quebrar o paradigma do modelo educacional brasileiro ainda muito focado em levar os alunos às universidades. Dos 24 milhões de jovens brasileiros dessa mesma faixa etária, menos de 15% chegam ao Ensino Superior, segundo o Censo de Educação Superior do Instituto Nacional de Pesquisas Educacionais (Inep). Esse índice mostra que apenas 3,4 milhões partem para a graduação e 20 milhões precisam buscar outros caminhos para conseguir uma profissão. Além de acelerar a entrada no mercado de trabalho e proporcionar uma oportunidade para a tal “experiência” exigida por muitas empresas aos iniciantes, os cursos técnicos possibilitam aos alunos conquistar uma profissão e renda para poder custear mais facilmente uma faculdade ou universidade na mesma área em que se especializou no nível técnico, ou em outra, caso deseje. A maior parte das instituições de ensino técnico exigem estágio por parte dos alunos para a emissão da certificação, facilitado pelo contato próximo dessas escolas com empresas que buscam trabalhadores. Embora a adesão dos jovens aos cursos técnicos venha crescendo, o Brasil ainda está distante dos países desenvolvidos. Dados do Censo da Educação 2013, mostram que apenas 7,8% dos brasileiros optam pela educação profissionalizante contra 76,8% dos australianos, 69,7% dos finlandeses e 51,5% dos alemães conforme dados do European Centre for the Development of Vocational Training (Cedefop).Esta edição traz as áreas de atuação em que a mão de obra é mais deficitária e os cursos oferecidos por instituições especializadas em capacitação de profissionais para o mercado regional, seja no nível técnico ou em alguma especialização de curta duração.