27/08/2010 / Em: Clipping

 


Má qualidade do ensino desestimula jovens para a engenharia (iG – Educação – 26/08/10)

A má qualidade do ensino básico, principalmente na área de matemática e física, é uma das possíveis causas para o desinteresse dos alunos pelas carreiras da engenharia, área em que, segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), apresenta déficit anual de 30 mil profissionais. Segundo o professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) Vanderli Fava e o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Carlos Henrique Cruz, a falta de domínio dos fundamentos das duas disciplinas não só atrapalham o desempenho dos estudantes que cursam engenharia, como afasta muitos outros. “Por uma série de problemas estruturais, os alunos dos ensino fundamental e médio não aprendem adequadamente os conceitos [da matemática e da física]. Daí resta uma mística de que estas matérias são muito difíceis e alguns estudantes acabam optando por cursos da área de humanas”, disse Fava durante um evento realizado pela CNI em parceria com o Instituto Euvaldo Lodi (IEL) e com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) para debater a formação dos engenheiros brasileiros. “O ensino básico tem que formar melhor os alunos para que eles percam o medo das ciências exatas.



Cotas nas universidades: uma polêmica ainda longe do fim  (Folha Dirigida – Primeira Página – 12/08/10)

No ano de 2000, quando atuava no Rio de Janeiro, Frei Davi dos Santos, principal representante da ONG Educação e Cidadania de Afro-descendentes e Carentes (Educafro), se reuniu com a comunidade negra para discutir a política de cotas nas universidades do país. Da reunião, observou-se que 8 em cada 10 participantes foram contra a proposta. Na ocasião, o educador estimou que, no ano de 2015, cerca de 25 universidades e instituições públicas de ensino superior teriam adotado a política para ingresso de alunos. Cinco anos antes, porém, o que se percebe é que a meta foi ultrapassada em tempo bem menor do que o estimado. De acordo com uma pesquisa realizada pela Educafro, batizada de “Placar da Inclusão”, em 2010, quase 150 universidades e demais instituições superiores de ensino já adotam ações afirmativas em todo o Brasil. Hoje, 148 universidades do país possuem algum tipo de ação afirmativa na seleção dos alunos. No Rio, são 16 instituições. Nas instituições estaduais, há cotas para alunos da rede pública, descendentes de indígenas, portadores de deficiência e filhos de profissionais da área de segurança. Nas federais (com exceção da UFRJ), foram criadas reserva de vagas para professores bônus para grupos específicos. A pesquisa da ONG mostrou ainda que Instituições de Ensino Superior (IES) importantes como a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), entre outras, ainda não são adeptos do sistema de cotas.

Dez anos depois, cotas ainda dividem opiniões entre jovens

O crescimento da adoção de medidas afirmativas, ao longo destes dez anos, impactou na vida de milhares de jovens pelo país à fora. Para muitos, a adoção do sistema pelas universidades foi uma barreira para a conquista da vaga. As ações na Justiça, impetradas por vestibulandos que conseguiram pontuação suficiente para a conquista da vaga, caso não existissem as cotas, são prova disto. Porém, as reservas parecem também ter um efeito psicológico, aumenta a tensão que envolve o vestibular. Lívia Guimarães Fernandes Peres, aluna da Rede MV1 de Ensino, tenta passar para Comunicação Social. A estudante enfrenta a disputa pela primeira vez e não esconde a angústia por saber que, com as cotas, são menores as chances de conquista da vaga. “Acho um pouco injusto. Se, por um lado, os alunos mais carentes sofrem por não terem tido tão boas oportunidades, nós, que tivemos condições de estudar em bons colégios, podemos deixar de entrar na universidade pública por estar, teoricamente, melhor preparados”, afirmou Lívia. “É importante dar oportunidades àqueles que não tiveram um bom ensino. Mas, como as cotas não mudam as bases da educação, prejudicam outros estudantes”, completa Lívia. Mas, para um outro contingente de candidatos, as reservas de vagas tiveram uma influência mais do que positiva. Possivelmente, para muitos dos beneficiados pelas medidas afirmativas, elas representarão a diferença entre um melhor padrão de vida e uma inserção pouco qualificada no mercado de trabalho. Negro e ex-aluno da rede pública, Rodrigo Souza, que estuda Engenharia Mecânica na Uerj, vê as cotas como uma das mais importantes ações na área educacional, já adotadas. “Nos parece que o ensino no Brasil não tem uma solução imediata. Portanto as cotas aparecem como uma solução para diminuir as diferenças entre negros, pobres, indígenas e são uma possibilidade para que estes possam ter uma educação de qualidade”, disse o estudante, para quem a reserva de vagas proporciona uma mudança fundamental na sua vida dos beneficiados. “É a possibilidade de uma integração social. Significa poder pensar em um futuro melhor, poder pensar em novas perspectivas de vida, que não eram possíveis antes de entrar em uma universidade”.

Adotar ou não a política de cotas?

De um lado, o argumento de oferecer iguais possibilidades a todos os alunos, sejam eles oriundos de escolas públicas, famílias de baixa renda ou minorias étnicas. De outro, o questionamento se esta seria a melhor solução para o problema. Em entrevista à FOLHA DIRIGIDA, Frei Davi, representante da Educafro e o professor Marcelo Corrêa e Castro, decano do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da UFRJ, expuseram suas opiniões a respeito do assunto. O frei, que já encaminhou propostas à universidade, estará presente, assim como Marcelo, na quinta-feira, dia 12 de agosto, para um encontro que definirá os rumos do concurso de acesso a UFRJ.

Favorável às cotas

Frei Davi: “Nossa luta é apenas por igualdade de direitos”

Qual é a sua posição a respeito das cotas?

O Brasil, para ser um país verdadeiramente justo, igualitário e diversificado, precisa estar preocupado em saber por onde anda cada segmento étnico do seu povo. Os brancos estavam dentro das universidades públicas e os negros e indígenas, de fora. E ninguém fazia nada para mudar. Até que resolvemos gritar por inclusão nas
universidades. Nossa luta é apenas por igualdade de direitos.

O argumento usado com frequência é o de que é preciso haver igualdade na disputa pelas vagas. Este argumento é válido?

Os moldes do vestibular das universidades públicas se baseiam em livros que apenas os alunos que estudaram em escolas particulares ou fizeram cursinhos caros tiveram acesso, o representa 90% da prova. Os outros 10% são de um conteúdo comum a todas as classes. O vestibular no Brasil é o que há de mais injusto, desonesto e corrupto e as cotas vêm para desmascarar o vestibular como um instrumento democrático.

Acredita que a adoção de cotas tira o foco da melhora da educação como um todo?

Pelo contrário. Está provado que em todas as universidades que adotaram cotas ou que houve naquela cidade ou região um despertar dos pobres, houve uma melhoria na educação. O jovem branco pobre, o jovem negro e o indígena, ao prestar vestibular com cotas, tem nota 30% mais baixa do que os outros. No entanto, um ano depois, tendo em sala de aula o mesmo professor, mesma biblioteca e os mesmo direitos, obtém média superior aos demais. As cotas são uma forma de questionar e dizer que dá para fazer justiça.

Que tipo de impacto teria, para o Brasil, a adoção generalizada, por parte das universidades, da política de cotas?

Transformar o Brasil em um país mais igual para todos. Quando tiramos uma parte das vagas que só a burguesia ocupava e as entregamos a jovens que não tiveram oportunidades, estamos dando a eles uma possibilidade de um futuro melhor.

Contrário às cotas

Marcelo Corrêa e Castro: “Com as cotas, a universidade não vai mudar estruturalmente” Qual é a sua posição a respeito das cotas?

Sou contra. Eu consigo pensar em ações afirmativas que passem por um investimento grande para dar à escola pública seu caráter público. Nenhum tipo de cota me parece viável. Com as cotas, a universidade não vai mudar estruturalmente, mas individualmente, já que apenas alguns indivíduos serão contemplados.

O argumento usado com frequência é o de que é preciso haver igualdade na disputa pelas vagas. Este argumento é válido?

A universidade sabe, com algum critério, algum acúmulo, definir academicamente o que quer. Agora, ela estabelecer o que pode compensar supostas desigualdades sociais passa a ser uma posição político-ideológica. E aí, caímos em um território perigoso. Se hoje o político-ideológico está de acordo com o meu ideário, amanhã pode estar de acordo com um ideário totalmente oposto ao meu. A universidade deve produzir e difundir conhecimentos. Qual a forma de torná-la mais justa? Conceder bônus? Reservar vagas? Não sei.

Acredita que a adoção de cotas tira o foco da melhora da educação como um todo?

É preciso ter coragem de estabelecer um contraditório. É claro que todos somos a favor da igualdade, da justiça e da democracia e que todos reconhecemos que o Brasil tem um histórico de construção absolutamente desigual. Mas será que desta forma não iremos criar mais um artifício que nos coloque numa situação igualmente desigual?

Que tipo de impacto teria, para o Brasil, a adoção generalizada, por parte das universidades, da política de cotas?

Eu prevejo duas possibilidades. Uma delas é a de que iremos promover uma distribuição mais igualitária das vagas, do acesso ao ensino superior de qualidade. Em outro cenário, ocorreria algo semelhante ao que acontece com o ensino básico e com o sistema de saúde pública. Ou seja, as classes hegemônicas investirem na constituição desse sistema privado de qualidade, o que acaba fazendo com o que o ensino do sistema público de alguma maneira perca a sua qualidade.