29/02/2016 / Em: Clipping

 


Meritocracia ou ajuda exagerada?   (Correio Popular – Cidades – 28/02/16)

O Vestibular 2016 da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) já pode ser considerado um marco na história da universidade, por ao menos dois motivos: pela primeira vez, mais de 50% dos aprovados estudaram na rede pública, e talvez nenhum outro processo seletivo tenha sido tão polêmico. O alvo das discussões é a bonificação concedida pelo Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais) a estudantes da rede pública, que dobrou nesta edição, em relação ao ano anterior. Em alguns cursos, como medicina, 88%dos convocados em primeira chamada são da escola pública. Para muitos, a bonificação “desproporcional” prejudicou os alunos da rede particular, além de mascarar a baixa qualidade do ensino público e interferir na formação dos universitários, uma vez que aqueles  aprovados com o bônus não conseguiriam acompanhar o ritmo da aula e impediriam a universidade de avançar nos conteúdos. Do outro lado, há quem defenda o Paais como um programa que ajuda a corrigir uma grande injustiça histórica e social, dando a alunos da rede pública a chance de concorrer em pé de igualdade. Para o oftalmologista Marcelo Sobrinho, a pontuação “prejudicou muito” os estudantes da rede particular e a aprovação em massa dos candidatos da rede pública passa a impressão de que o ensino melhorou. “O ensino público não melhorou. O que melhorou foram os bônus dados pelo (des)governo para quem cursou escola pública”, diz. “Estamos nos esquecendo dos pais que se sacrificam pra pagar por uma educação melhor para que seus filhos tenham acesso a uma universidade pública, e na hora do vestibular, as regras são mudadas, e ninguém dá satisfação. Todos os alunos de escolas particulares são ricos?”, questiona o médico. Sobre medicina, que teve a maior aprovação de estudantes da rede pública, Sobrinho diz que não é um curso fácil e que muitos desses estudantes terão dificuldades. “Exige do aluno conhecimento em muitas outras áreas, inclusive de diferentes idiomas”, diz. “O governo deveria investir na melhora do ensino público de base, e não ficar enganando os brasileiros com esses subterfúgios. Mas isso demora e dá trabalho. E não dá voto”, afirmou. Em carta publicada na edição da última terça-feira do Correio Popular, o engenheiro Sergio Toshio também critica a bonificação. “Fica claro para nós, pais ,que devemos daqui para frente matricular nossos filhos em escolas públicas. Ao destinar 12% das vagas da Unicamp às escolas não públicas, a concorrência fica impossível.” Ele acrescenta que “todos fazem vistas grossas à Lei 12.711/2012,que não permite qualquer tipo de discriminação na admissão em escolas públicas ou privadas. ”Para a funcionária pública aposentada Maria Nazaré Borges, os alunos aprovados com bônus não conseguirão acompanhar os que entraram sem o Paais. Ela cita o exemplo da medicina, onde 88% foram aprovados pelo Paais. Segundo ela, “os 12% serão prejudicados pois terão que ter aulas a passos de tartaruga para esperar que os outros 88% aprendam o que lhes é transmitido”, afirma. Ex-coordenador da Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), Renato Pedrosa, considerou que a recente mudança no sistema de bonificação foi radical. Em entrevista ao Correio na semana passada ele falou em desequilíbrio nas aprovações em cursos como medicina e arquitetura, onde mais de 80% dos aprovados são de escola pública. O professor acredita que, especialmente as áreas de exatas, muitos desses alunos podem enfrentar dificuldades acadêmicas. “Imagino que vamos ter alguns problemas e pode haver uma reconsideração.

Defesa
A Comvest reforça que os candidatos aprovados pelo Paais tiveram um bom desempenho no Vestibular 2016 e que no caso de medicina, por exemplo, coma nota que tiraram no vestibular, os estudantes de escola pública passariam em qualquer outro curso da universidade, sem o bônus. Atual coordenador executivo da Comvest, Edmundo Capelas de Oliveira afirma que a Unicamp busca por meio do Paais a  bonificação com mérito e que “dentro da universidade todos serão iguais”. Ele acredita que, em casos pontuais, os alunos que não tiveram uma boa formação básica poderão enfrentar  dificuldades, independentemente de terem vindo da escola pública ou privada. Questionado se a Comvest pretende discutir internamente os resultados ou reavaliar o sistema de bonificação, Capelas afirmou que a Comvest apenas operacionaliza o sistema. Quem define a política do programa Paais é o Conselho Universitário (Consu). Durante a primeira coletiva de imprensa para anunciar os resultados do Vestibular 2016,entretanto, Capelas afirmou que novos estudos seriam feitos para possíveis ajustes no programa até o término de todas as chamadas, o que está previsto para o fim de março. A Unicamp também estuda uma forma de aumentar o interesse de alunos egressos de escolas públicas em alguns cursos, como engenharia de alimentos.

Aproveitamento melhor
A reitoria da Unicamp, por sua vez, afirmou em nota que o vestibular é fruto de avaliações constantes por parte da universidade e que todos os estudos realizados provam, com segurança estatística, que os alunos que ingressam pelo Paais apresentam aproveitamento acadêmico na Universidade igual ou, em vários cursos, até melhor do que aqueles que ingressam sem utilizar o programa. “Portanto”, diz em nota, “não há risco à qualidade dos profissionais que serão formados pela Unicamp. Cabe lembrar, ainda, que o Supremo Tribunal Federal já concluiu, há tempos, que o sistema decotas é constitucional.” A nota de corte do vestibular 2016 e o novo percentual de alunos de escolas públicas—eles vêm mudando de acordo com as chamadas—devem ser divulgados ao término das convocações no fim de março.

Bonificação corrige ‘injustiça histórica’   (Correio Popular – Cidades – 28/02/16)

Célio Tasinafo, diretor pedagógico da Oficina do Estudante, argumenta que todos os planos de bonificação e reserva de vagas têm por propósito corrigir uma grande injustiça histórica e social. Professor de história, ele afirma que o programa da Unicamp não chega a tirar a vaga de candidatos da rede particular, diferentemente das cotas que reservam uma porcentagem das vagas para determinado público, o que considera mais delicado. A bonificação da Unicamp, segundo ele, não tira a vaga, mas aumenta a concorrência. “Todos disputam todas as vagas. Dar uma pontuação a mais para quem estudou em escola pública é uma maneira de igualar a concorrência. Se eles ficam em pé de igualdade, os alunos de escola particular têm quefazer mais para conquistar a vaga. ”Segundo Célio, quem reclama está querendo uma desculpa para não se dedicar aos estudos. “Em vez de reclamar, o aluno de escola particular tem que aproveitar melhor o que a escola oferece. Terem mente que a batalha para ingresso é apenas uma das batalhas. ”Já os representantes do Cursinho alternativo Herbert de Souza acreditam que o sistema de bonificação da Unicamp é uma “ação progressiva”, e defendem o sistema de cotas como uma solução para o maior acesso de estudantes de escola pública e de periferia às universidades públicas, “já que, no geral, esses estudantes partem para faculdades privadas. ”Em relação ao dado inédito da Unicamp, demais de 50% dos aprovados virem da rede pública, o cursinho questiona a origem dessas escolas públicas. “Etecs, Cotuca, Escolas Militares e Institutos Federais, que possuem processo seletivo para admissão de alunos, no geral, trabalham com um público que estudou o ensino fundamental inteiro em escola particular”, diz a gestão do cursinho em nota. Para o cursinho Herbert, o rendimento acima da média dos estudantes da rede pública mostra que o vestibular atua como um filtro social e não como uma avaliação de capacidades.

Necessidade de melhoria no ensino básico é consenso   (Correio Popular – Cidades – 28/02/16)

Em todas as esferas existe o consenso de que o ensino básico público precisa melhorar. Célio Tasinafo afirmou que os programas de ações afirmativas são um paliativo circunstancial e reforçou a necessidade de melhoria na educação básica pública. “A ideia da bonificação é justa do ponto de vista de se corrigir a distorção, mas não resolve a longo prazo a origem da distorção. É preciso mirar na escola pública de qualidade, que permita ao aluno ser competitivos em esse empurrão das universidades.” Para o diretor pedagógico da Oficina do Estudante, melhorar a educação básica passa necessariamente por uma boa formação do professor. “Está cada vez mais difícil achar professor e não é por questão salarial. Os cursos de licenciatura são uma calamidade. Ensinam tudo, menos como dar aula. Falta conteúdo, estratégia pedagógica, falta a eles tudo. ”Edmundo Capelas, da Comvest, afirma que também vê como uma necessidade a melhoria da escola pública. “Se existir uma maneira direta e efetiva de melhorar a escola pública, que a universidade possa contribuir, eu seria primeiro a trabalhar para isso. Mas é um problema político que transcende”, afirma.

Alunos dizem que, pela 1ª vez, foi feita justiça   (Correio Popular – Cidades – 28/02/16)

Entre as 110 vagas para medicina da Unicamp, Deborah Fabiana da Rocha, de 22 anos, ficou com a 59ªvaga. Aluna da rede pública de ensino, em Marília, ela fez três anos de cursinho. Deborah faz parte dos 88%dos convocados em primeira chamada no seu curso, que foi beneficiado com o Programa de Ação Afirmativa e Inclusão Social (Paais). Além da Unicamp, a jovem também passou na Universidade Federal de Viçosa (UFV—em primeiro lugar) e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG—está no 3º lugar da lista de espera). “Nós, que estudamos em escola pública, não entramos de graça. Tivemos que batalhar muito. A competição não foi fácil, inclusive até mesmo com colegas das escolas públicas, pois há muitas pessoas boas e bem preparadas. Aqui não se me de inteligência, mas dedicação”, frisou Deborah, que defende que o cursinho é essencial para igualar o aluno da rede pública com a particular. Deborah dedicava 14 horas por dia aos estudos. Apesar da polêmica em torno do bônus, ela acredita que não houve desequilíbrio quanto ao percentual de aprovados que estudaram em escolas públicas. Segundo ela, pela primeira vez na história houve sim, justiça. “O percentual está semelhante. Quanto ao fato de acompanhar ou não as aulas, vai de cada um. A partir do mento que entramos em uma faculdade, temos que ter consciência que estamos ali para aprender”, disse. Thays Lígia, de 18 anos, aprovada em biologia na Unicamp, fez o Ensino Fundamental em escola pública e cursou pré-vestibulinho no cursinho Herbert de Souza e foi aprovada no curso técnico em Meio Ambiente na Etecap. Ao término do curso, conseguiu trabalho na área e ano passado voltou para o cursinho, à noite. “Quando chegava em casa, revisava alguma coisa, mas conseguiam e aprofundar mesmo aos fins de semana.” Para Thays, os alunos de escola particular recebem sim um ensino melhor. “Isso é inegável, mas a questão do bônus ajuda na inclusão social. Não é para colocar aluno despreparado na universidade. E, independentemente de onde veio e do preparo, a partir do momento que o candidato ingressa na universidade, elevai ter que aprender o que ela ensina. Não é a universidade que se adequa ao aluno e sim o aluno que se adequa à universidade”, afirma.

Muita tinta e festa dos bixos na Unicamp   (Correio Popular – Cidades – 27/02/16)

A calourada da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)será só na segunda-feira, mas para os novos alunos dos cinco cursos do Instituto de Artes (IA), a festa começou ontem, durante a confirmação de matrícula dos aprovados nas primeira, segunda e terceira chamadas do Vestibular2016. Os bixos foram recebidos com música, brincadeiras e muita tinta. Até os pais que acompanharam os filhos na confirmação da matrícula participaram. A maioria dos universitários aderiu ao colorido dos rostos para demonstrar a alegria de ter ingressado na universidade. “É muito legal. Meu sonho era cursar dança e hoje estou aqui, confirmando minha entrada na Unicamp”, disse Ana Mindlin Xavier, de17 anos. Outra que também fez questão de entrar no clima foi Clarice Dellape, de 24 anos, que vai estudar artes visuais. “Estou ansiosa para começar o curso. A Unicamp é a universidade que sempre sonhei. Sei que aqui há muitas festas, mas sei também que temos que estudar muito para ter um bom resultado”, disse a jovem que é de Jacareí e veio com o pai, o advogado Reinaldo Dellape, de 57 anos. “A Unicamp é uma referência e espero que minha filha conclua o curso”. As amigas Maira Pereira Kanegea e Fátima Moreira Lopes, ambas de 17 anos e moradoras de Valinhos, curtiram juntas a pré-calourada do IA. Fátima vai cursar história enquanto Maira fará música. As duas saíram direto do Ensino Fundamental em escola particular para a universidade. Ambas passaram em mais duas instituições públicas, mas escolheram a Unicamp por ser próximo de casa. “Além da boa localização, a Unicamp é referência”,disseram. Enquanto no IA os novos alunos comemoraram a confirmação da matrícula de um jeito descontraído, nos demais institutos, apesar da felicidade, não teve festa. “Estou muito feliz. Quando minha filha tinha 6 aninhos, eu a levei para fazer a primeira provinha para entrar no educandário e ela “arrepiou” no teste. Agora estou aqui com ela, para confirmara matrícula na universidade .É muito orgulho”, disse o comerciante Márcio Labate, de 45 anos, ao lado de Giovanna Lima Labate, de 18 anos, a provada em medicina. A confirmação de matrícula ocorreu ontem, das 9h às 16h para o período diurno, e das18h às 21h, no período noturno, em todos os campi da Unicamp, de acordo com os cursos prestados. A medida é obrigatória também para os candidatos que aguardam remanejamento. Segundo a Comissão Permanente para os Vestibulares da Unicamp (Comvest), os candidatos que não fizeram a confirmação dentro do prazo tiveram a matrícula cancelada e perderam a vaga. A Comvest vai divulgar a quarta chamada no dia 2 de março, até a meia-noite. Estão previstas até dez chamadas.



‘Estar na universidade tem a ver com se ver de outra maneira’, diz Lenine   (Globo.Com – G1 Vestibular – 28/02/16)

Com a crença de que cada ser humano traça seu próprio caminho, o cantor Lenine ministra  palestra sobre engajamento e causas ambientais no Trote da Cidadania da Unicamp, que acontece nesta segunda-feira (29), às 18h, no Centro de Convenções da universidade, em Campinas (SP). O cantor, que participa de projetos ambientais e  sustentabilidade, fará a palestra de abertura da 14ª edição do evento, que é gratuito e tem vagas limitadas. No dia, serão arrecadados alimentos não perecíveis e livros para doação. Lenine confessou ter ficado surpreso com a mobilização dos jovens nas redes sociais, que usaram a hashtag #LenineVem para trazer o cantor para o evento.

Novo ‘manual do bixo’ gera polêmica na Unicamp por suposto preconceito   (Globo.Com – G1 Vestibular – 28/02/16)

Desta vez, o material foi feito por alunos do Instituto de Biologia da universidade e traz orientações aos novos alunos. No entanto, o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da Unicamp entende que o conteúdo tem expressões inadequadas. Em um dos trechos, o guia feito pela Comissão da Calourada da Biologia dá a entender que nordestino tem preguiça. A frase diz que “Bixo baiano (Oxê meu rei, cê num t preguiça de ler esse manual até aqui não, foi?)”. A “brincadeira” vai além e trata de forma preconceituosa também pessoas vindas de outras regiões do Brasil e ironiza ainda postura e condição sexual dos novos estudantes. [Veja frases do manual no vídeo acima]. “Tem algumas coisas que são bastante pesadas, trata de forma estereotipada algumas regiões do país”, diz Cecília Rodrigues, do DCE da Unicamp.

Grupo feminista da Unicamp divulga carta em repúdio ao ‘manual do bixo’   (Globo.Com – G1 Vestibular – 26/02/16)

Campinas (SP), um grupo de feministas deste curso se manifestou por carta no Facebook às proposições, que propagavam desrespeito aos calouros e, principalmente, às mulheres. A resposta gerou repercussão na rede social, inclusive de alunos que não veem nenhum problema no manual. Confira um trecho da carta abaixo: “Sofremos diariamente opressões nos diversos setores da faculdade em forma de comentários, piadas, olhares e atitudes que nos atingem pessoalmente e como um grupo. Deparamo-nos constantemente com um cenário em que precisamos provar que somos tão capazes quanto nossos colegas do sexo masculino e qualquer fracasso individual é visto como a prova de que nosso gênero “não leva jeito para exatas”; e qualquer sucesso vem acompanhado de “piadas” envolvendo favores sexuais”.



No Brasil, apenas 8% têm plenas condições de compreender e se expressar   (UOL – Notícias – 29/02/16)

Foi isso mesmo que você leu no título: apenas 8% (ou oito a cada grupo de cem pessoas) da população em idade de trabalhar são consideradas plenamente capazes de entender e se expressar por meio de letras e números. Eles estão no nível “proficiente”, o mais avançado de alfabetismo funcional em um índice chamado Inaf (Indicador de Alfabetismo Funcional). Um indivíduo “proficiente” é capaz de compreender e elaborar textos de diferentes tipos, como mensagem (um e-mail), descrição (como um verbete da Wikipedia) ou argumentação (como os editoriais de jornal ou artigos de opinião), além de conseguir opinar sobre o posicionamento ou estilo do autor do texto. Também é apto a interpretar tabelas e gráficos como a evolução da taxa de desocupação (veja que tipo de gráfico é nesta notícia) e compreende, por exemplo, que tendências aponta ou que projeções podem ser feitas a partir desses dados. Outra competência que o “proficiente” tem é resolver situações (de diferentes tipos) sendo capaz de desenvolver planejamento, controle e elaboração.

Carta Aberta ao Ministério da Educação do Brasil   (UOL – Educação – 26/02/16)

No seu Discurso do Método, o filósofo francês René Descartes defendeu, de forma irónica, que “o bom senso é o que há de melhor repartido entre os humanos”, mas nós, cidadãos lusófonos, sabemos bem que assim não é: somos mesmo uma das maiores contra-provas vivas dessa tese. E por isso nos entretemos a procurar reinventar a roda todas as semanas e a discutir questões absolutamente absurdas mês após mês, sem atender, ano após ano, ao que mais nos deveria importar. Um exemplo eloquente dessa nossa vocação: segundo o entretanto noticiado em Portugal, “o Ministério da Educação do Brasil (MEC) eliminou a obrigatoriedade do estudo da literatura portuguesa na nova Base Nacional Curricular Comum (BNCC) que está até março em discussão e deve ser posta em prática em junho. A decisão é considerada por grupos de educadores brasileiros como ‘política’ e ‘populista’, faz parte de uma série de propostas, que inclui mudanças nos currículos de Língua Portuguesa e de História e está a ser alvo de intenso debate no país”.



O assassinato da história    (Folha de S.Paulo – Opinião – 29/02/16)

Quando governos propõem reformular o ensino de história, abre-se uma brecha para questionar didáticas e conteúdos tradicionais e sugerir mudanças. Pode ser uma oportunidade ou um desastre. Desde o ano passado, o MEC está elaborando um novo currículo de história. As reações têm sido duras, a começar pelo próprio ministro à época da divulgação da primeira proposta.  Demitido do MEC, Renato Janine Ribeiro explicitou suas críticas: falhas de conteúdo; exclusão de horizontes essenciais da trajetória humana; ênfase exagerada em uma perspectiva endógena de história do Brasil, preocupada sobretudo com a atualidade; abandono da cronologia, comprometendo o entendimento temporal dos processos sociais.  O que está em jogo é crucial: o que ensinar sobre o passado e como fazê-lo. O conhecimento histórico, sabemos, tem impacto decisivo nas concepções de mundo de grupos e sociedades, na formação de seus interesses morais e materiais e na fabricação de seus projetos de futuro. A proposta original da comissão sepultou quase tudo o que concebíamos como história, rejeitando o que julgava demasiado eurocêntrico. A Antiguidade e a Idade Média praticamente desapareceram. Os processos centrais da Modernidade e da Época Contemporânea (como a colonização, o desenvolvimento do capitalismo ou o imperialismo) foram reenquadrados a serviço do novo foco: uma história do Brasil vista como desdobramento da história africana e indígena. Essa visão germinou por décadas nas faculdades de pedagogia e de humanidades. Propõe reler a história pelo viés dos dominados e busca versão historiográfica da pedagogia do oprimido de Paulo Freire. Com uma atualização: à cartilha tradicional da esquerda (na qual o oprimido era, por excelência, a classe trabalhadora) juntou-se a leitura multiculturalista e pós-moderna, que valoriza opressões a grupos específicos (negros, indígenas, mulheres). Em tempos de petismo, tornou-se projeto de reforma do ensino. Há muito, historiadores e professores afirmam ser inadmissível a marginalização ou ausência das histórias africana e indígena nos currículos. É uma lacuna grave, que deve ser corrigida. Entretanto, a maior vítima da proposta atual é a própria história. Vítima como realidade, pois o projeto desconsidera a matriz ocidental, europeia, capitalista e judaico-cristã da formação histórica brasileira. Parece temer que isso soasse como compactuar com os horrores do processo: do genocídio indígena à inquisição católica, da escravidão africana ao espólio da natureza. Nada mais enganoso, já que apenas o mapeamento objetivo dessas realidades infames permitiria ao aluno a sua devida crítica. Vítima como conhecimento, pois, sob argumento de valorizar histórias africana e indígena, propõe-se substituir conhecimento rotulado de conservador pelo admirável mundo novo dos saberes identitários. Reconhecer-se no passado seria mais importante do que conhecê-lo. É outra falácia, pois os múltiplos saberes –que existem e são legítimos – só podem ser analisados historicamente no bojo de um sistema de pensamento de linhagem europeia. Chama-se isso de historiografia. Ela deve ser criticada e incessantemente reformulada, mas é o melhor instrumental que temos para produzir conhecimento histórico. Ninguém pensaria em substituir biologia ou física porque são eurocêntricas. As ciências humanas, porém, tornaram-se laboratório das experiências temerosas dos que pregam a reengenharia social. Se quisermos continuar a ensinar história nas escolas, o MEC precisa refazer a lição de casa.

MARCELO REDE, 50, doutor em história pela Universidade de Paris 1 (Panthéon-Sorbonne), é professor de história antiga da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Universidade cidadã   (Folha de S.Paulo –  Opinião – 27/02/16)

Ocorre hoje nas universidades brasileiras um inexplicável retrocesso democrático. Antes palco de debates brilhantes e efervescentes e berço de ideias transformadoras e libertárias, a academia tranca-se em um círculo vicioso e perigoso, dando às costas aos cidadãos.  Nos campi das universidades, a democracia deve pulsar na criação intelectual e no debate político, científico. São direitos que devemos defender sempre, pois trata-se de garantir liberdades individuais e coletivas. Entretanto, jamais podemos perder de vista que uma universidade é uma célula da sociedade. A ela deve retorno e respostas.

A comunidade universitária, formada de alunos, professores, funcionários e técnicos administrativos em educação, necessita ter participação na escolha de dirigentes comprometidos com a educação, a pesquisa, o ensino e a extensão em toda plenitude. Não significa, contudo, que tenhamos de nos dobrar a uma espécie de ditadura interna.  Uma universidade deve atender aos interesses do coletivo, do Estado, dos cidadãos, todos eles, sem qualquer ideologia ou tendência partidária. Dentro dela, todas as ideologias e tendências partidárias precisam e têm que se manifestar livremente. Daí a aparelhá-la a uma distância abismal. Hoje, algumas importantes universidades do Brasil trilham retrocesso. Alunos sofrem as consequências de gestões incompetentes, sem transparência e cravadas em interesses partidários. Um mau reitor imposto pela comunidade universitária, sem debate e participação de outras forças sociais, impõe suas vontades e convicções por meio de apadrinhamentos e favores políticos. Exigimos respeito à liberdade, tolerância, exercício da solidariedade humana, pleno desenvolvimento do educando, preparo ao exercício da cidadania, qualificação para o trabalho e formação. Queremos uma universidade formadora e transformadora; viva, pulsante, inquieta, crítica. Para tanto, temos que rever imediatamente os processos de eleição de reitores. Tal cargo exige liderança, conquistada ao longo de sua vida, pelo testemunho do trabalho. A meritocracia deve ser contemplada, assim como a produção científica. Porém, não é isso que acontece habitualmente.  Não dá para continuar querendo gerir a formação e a educação da Nação em moldes forjados nos anos 60, quase seis décadas atrás. O ideal é que o reitor seja indicado por uma comissão externa, escolhida por instituições sólidas da sociedade civil. Seria apresentada uma lista tríplice e a comunidade universitária definiria por votação. Prevalece dessa maneira o interesse da comunidade, dos cidadãos, não os de pequenos grupos, sem ferir a autonomia universitária. Quando no exercício do cargo, é essencial contínua fiscalização, visando coibir distúrbios de gestão, de modo que a universidade não vire instrumento a serviço de grupelhos. Não podemos perder, por irresponsabilidade política e omissão, mentes brilhantes. Uma vez que em algumas universidades, também pululam mentes medíocres, precisamos de ferramentas sérias para separar o joio do trigo. É preciso comprometimento; não apenas bater o ponto, como acontece em muitas universidades hoje. O esvaziamento dessas instituições de ensino é uma triste realidade e conta com dois motivos: falta de recursos e absoluta carência de gestão competente, agregadora, motivadora.  Criar órgãos fiscalizadores, estabelecer meios de fato democráticos de eleição, entre outras medidas são ações urgentes. Até porque a universidade é da comunidade, é do país. E são esses interesses maiores que devem ser preservados e garantidos até o fim.

ANTONIO CARLOS LOPES é presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médica