29/03/2017 / Em: Clipping

 


Os pais não precisam ser protegidos da nota do Enem (Folha de S. Paulo – Colunistas – 29/03/2017)

O governo anunciou há algumas semanas que, a partir deste ano, não divulgará mais as notas médias dos alunos no Enem por escola. As preocupações que embasam a decisão são bastante pertinentes, mas a forma radical como a medida será colocada em prática é desnecessária e talvez equivocada. Os resultados do Enem serviram de insumo, nos últimos anos, para a elaboração de rankings que, segundo Maria Inês Fini, presidente do Inep (instituto de pesquisa ligado ao Ministério da Educação), geraram uma distorção sobre o conceito de qualidade da educação no país. O Enem —que tem sido usado por várias faculdades como critério de seleção— é um exame que busca aferir o desempenho individual dos alunos. Mas a qualidade do ensino, afirma Maria Inês, deveria considerar diversos outros fatores, como a taxa de aprovação escolar e a competência dos professores. As notas individuais no Enem não cumpririam esse papel porque, em muitas escolas, o percentual dos estudantes que faz o exame é baixo. Além disso, nas palavras de Maria Inês, há escolas que “viraram um grande cursinho preparatório para o vestibular”, distorção que teria sido alimentada pela publicidade criada com a divulgação dos rankings. Todos esses argumentos têm sido usados em defesa do fim da divulgação dos resultados das escolas no exame.



Reforma do ensino médio: o risco de ampliar as desigualdades educacionais (Nexo – Ensaio – 28/03/2017)

Não se deve apenas dizer que tudo foi em vão, de que nada foi feito, que tudo é falência, ou – por outro lado – que qualquer resposta seja por si só positiva. Tal acento na falência do ensino médio pode ser o caminho para investir em novas fórmulas que podem ser também precipitadas ou falsas soluções que atendem aos interesses de apenas alguns A reforma do ensino médio estabelecida por meio da Medida Provisória 746/2016 e convertida em Lei 13.415/2017 após aprovação na Câmara dos Deputados e Senado e sanção presidencial, nasceu com uma limitação intrínseca: ter sido proposta por meio de uma medida provisória sem abrir amplo processo de discussão com a sociedade acerca de um tema que é, antes de tudo, interesse de todos os brasileiros. Especialistas, representantes de associações profissionais, professores, estudantes e famílias tinham de ser amplamente ouvidos para que se pudesse, republicanamente, definir os rumos da educação de jovens no país levando em conta o conjunto de aspectos que envolvem a formação escolar e cidadã dos brasileiros. Esta deformidade explica em parte a surpresa e estranhamento de alguns pontos de uma reforma tão apressada, uma vez que não houve a necessária maturação concebida em meio a conflitos e acordos possíveis que são parte constitutiva do jogo democrático. A urgência da reforma foi justificada por representantes do governo, incluindo o próprio Ministro, pelos baixos resultados dos estudantes do ensino médio nas avaliações nacionais realizadas pelo MEC (Ministério da Educação) e também pela insatisfação dos jovens em relação ao atual ensino médio. Causa estranheza, contudo, que os jovens tenham servido de argumento para a mudança, mas não tenham sido consultados sobre o novo modelo que seria adotado. Não se pode deixar de mencionar, entretanto, que vivemos um período de grande expansão do acesso ao ensino médio, o que por si não é pouco em termos de ampliação do direito à educação. Em 1992, conforme a PNAD, 19,8% dos jovens de 15 a 17 anos frequentavam o ensino médio, em 2012, 20 anos depois, eram 53,8%. Em 1992, 18,7% dos jovens de 18 a 24 anos tinham completado o ensino médio e em 2012, 57,3%. A mudança não foi pequena em 20 anos, atravessando os governos de Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff. Houve um grande processo de inclusão de adolescentes na escola, o que foi, por si só, um saldo positivo. Entretanto, dificilmente se faz isso sem que se corra o risco da perda de qualidade. Por isso, o debate acerca da qualidade se sucede ao da expansão. Nesse sentido, não se deve apenas dizer que tudo foi em vão, de que nada foi feito, que tudo é falência, ou – por outro lado – que qualquer resposta seja por si só positiva. Tal acento na falência do ensino médio pode ser o caminho para investir em novas fórmulas que podem ser também precipitadas ou falsas soluções que atendem aos interesses de apenas alguns. Examinemos então as mudanças propostas.



“Se fosse brasileiro, estaria indignado com a situação da educação” (Carta Educação – Reportagens – 28/03/2017)

António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa, comenta a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro e aponta novos modelos de formação docente

Os percursos formativos, na prática, mantêm a tradição de que os pobres servem para ser operários e os ricos, doutores
Muito discurso e pouco compromisso concreto com a melhoria da educação pública. É com essa crítica que o português António Nóvoa, reitor honorário da Universidade de Lisboa e candidato às últimas eleições presidenciais de Portugal, resume sua visão sobre o cenário educacional no Brasil. Professor convidado em Colúmbia (Estados Unidos), Oxford (Inglaterra) e Paris 5 (França), Nóvoa é hoje uma das principais vozes na área pedagógica e tornou-se uma referência em formação docente ao propor modelos inovadores como uma espécie de residência médica para os professores. Em São Paulo, onde palestrou no 12ª Prêmio Itaú-Unicef, Nóvoa conversou com Carta Educação sobre esse modelo, a necessidade de compreender a educação pública como compromisso social e criticou os equívocos que sustentam a reforma curricular do Ensino Médio brasileiro. “O melhor da escola pública está em contrariar destinos. Podemos ser amanhã uma coisa diferente de que somos hoje. Uma escola que confirma destinos, que transforma em operário o filho do operário é a pior escola do mundo”, resume.