29/06/2015 / Em: Clipping

 


Segredos da redação: conheça técnicas para ir bem no Enem e no vestibular  (Folha Online – Educação – 29/06/15)

Cem redações para corrigir num único dia, durante algumas semanas. Essa é a realidade dos professores que dão notas ao que os alunos escreveram durante o vestibular. E, para eles, estilo, coerência e capacidade de reflexão são os principais pontos que fazem um texto nota 10. A Folha conversou com um corretor da Unicamp e uma do Enem e da Unesp, que pedem anonimato por terem contratos de sigilo. Segundo a corretora do Enem, cada professor segue uma grade fixa, dando notas entre zero e cinco para cinco competências diferentes. As maiores notas ficam com o quesito adequação à norma culta, enquanto o tópico que avalia as sugestões que cada candidato oferece para os problemas propostos é o que tem a média mais baixa. As redações passam por dois corretores, e cada um é treinado para não levar mais de cinco minutos na avaliação de um texto. “A ideia é que a correção não seja subjetiva. Somos monitorados, temos que dar as mesmas notas nas planilhas.” Para ela, o texto que chama a atenção no Enem e pode chegar a uma nota máxima (mil) une argumentação coesa e proposta de intervenção detalhada. “Um texto bom é aquele que convence, com boa argumentação.”

Cursos de medicina terão novo sistema de avaliação  (Folha Online – Educação – 28/06/15)

O CFM (Conselho Federal de Medicina) e a Abem (Associação Brasileira de Escolas Médicas) criaram um novo sistema de avaliação e certificação de escolas médicas independente do já adotado pelo governo federal. O projeto-piloto começa a ser testado em julho em 20 cursos de medicina. A meta é que, em 2017, todo o sistema esteja implantado. Para as entidades, houve uma expansão desenfreada de vagas de medicina –um dos pilares do programa Mais Médicos–, e o sistema de avaliação do Ministério da Educação tem “baixa eficiência”. O MEC nega e diz que o modelo paralelo terá limitações. Dados do próprio ministério mostram uma piora dos cursos de medicina. Em 2010, de 177 avaliados, 13% tiveram nota 2 (insatisfatória), em escala de 1 a 5. Em 2013, de 154, 17,5% tiveram essa nota. Para Milton Arruda Martins, professor da USP e coordenador do novo sistema de avaliação, o acompanhamento do governo é falho. “Há pouca continuidade. Muda ministro, acaba verba. Em 20 anos, só em um momento ocorreu corte de vagas em escolas com problemas”, diz Martins. Isso aconteceu entre 2008 e 2011, mas muitas faculdades reverteram a decisão na Justiça. Para Segisfredo Brenelli, da Abem, o sistema do MEC melhorou, mas ainda tem falhas. “Falta dinheiro, capacitação. O pessoal tenta, mas não dá conta com a abertura indiscriminada de cursos”.

Universidade pública não é gratuita; quem não cursa também paga por ela  (Folha Online – Educação – 27/06/15)

Serviços públicos nunca são gratuitos, mas, sim, financiados por impostos pagos por toda a sociedade. Ou seja, tanto pelos que que usufruem desses serviços quanto pelas que não usufruem.  Em períodos de ajuste fiscal, a discussão sobre modelos alternativos de financiamento torna-se mais urgente. No Brasil, o debate sobre a cobrança de taxas aos usuários de serviços públicos é confundido muitas vezes com a discussão sobre privatização. Mas não há nada que impeça que sejam cobradas taxas aos usuários por serviços prestados pelo setor público, a exemplo do que ocorre em outros países do mundo. A educação pública constitui um exemplo interessante. A educação básica é gratuita para os alunos na maioria dos países. No ensino superior, diversos modelos de financiamento são adotados em economias desenvolvidas. As mensalidades de universidades públicas cobrem 45% dos custos por aluno nos EUA e cerca de 15% na Holanda e no Canadá. Já na Alemanha e nos países nórdicos, os alunos não pagam mensalidades. Esses últimos sistemas são financiados por impostos sobre a renda muito progressivos. Esse contrato social só é aceito porque a grande maioria dos indivíduos afetados pelas alíquotas de imposto mais altas, que chegam a ser superiores a 50%, se formou em universidades públicas gratuitas.

A universidade “série B”   (Folha de S.Paulo – Opinião – 27/06/15)

A USP vive uma contradição atroz. Sofre pressões para se manter como a melhor universidade brasileira, liderar a produção acadêmica e brilhar nas classificações internacionais. Com seus 90 mil alunos e apenas 80 anos, precisa destacar-se em uma corrida liderada por instituições bem menores, mais estruturadas e ricas, com séculos de história, como Harvard, nos Estados Unidos, ou Oxford, no Reino Unido.  Por outro lado, ela é cobrada a cumprir o seu papel social, dando oportunidades a todos e formando cada vez mais profissionais.  O cálculo eleitoral dos políticos e os movimentos sociais pressionam para que ela se “democratize” e inclua mais estudantes das escolas públicas e de camadas mais desfavorecidas da população. Alguns sugerem mecanismos moderados e lentos de inclusão. Outros clamam por uma “universidade popular” e até pelo fim do vestibular. A USP tem administrado essa pressão de modo fragmentado, sem uniformidade institucional. Prefere agir no varejo, agravando as diferenças entre suas faculdades. A USP sempre foi um mosaico desigual, mas decisões equivocadas podem estar criando dois mundos em uma só universidade. No passado, a USP comprometeu-se a ampliar a oferta de cursos noturnos. Ideia louvável, mas, na prática, apenas algumas das faculdades deram sua contribuição, duplicando turnos e aumentando significativamente o número de estudantes.  O impacto desigual ocorre também no atual sistema de bônus da Fuvest, o Inclusp. A intenção seria permitir maior ingresso de alunos de escolas públicas e dos chamados PPIs –pretos, pardos e indígenas.  Entretanto, o mecanismos é desequilibrado: suficiente para fazer alguns alunos desfavorecidos passarem nas carreiras menos concorridas, mas inútil para alavancar os candidatos às carreiras com notas de corte elevadas. É bom para apresentar estatísticas gerais otimistas, mas apenas mascara a distorção.  Agora, a USP decidiu por um uso parcial e fragmentado do Enem. E optou pelo pior caminho: permitiu que cada unidade decidisse pela adesão, ou não, e indicasse o número de vagas a serem preenchidas. Algumas faculdades optaram por destinar até 30% de suas vagas ao Enem; outras nem sequer cogitaram adotar essa modalidade, e continuarão com 100% de suas vagas preenchidas pela Fuvest. Sob o argumento de respeitar a autonomia das unidades, a reitoria promoveu um salve-se quem puder e embarcou no Enem depois que as inscrições ao exame já se encerraram.  O próximo passo desse processo poderá ser o debate sobre as cotas raciais. Se essa temerária pulverização prevalecer, a presente gestão terá contribuído para criar uma USP de duas cores, separadas pela fronteira que divide cursos de primeira e de segunda linhas. Assim como para o Enem, qualquer decisão sobre as cotas deveria ser válida para o conjunto da universidade. Caso contrário, o risco é termos uma USP “série A”, com cursos diurnos e integrais, unidades irrigadas por recursos de fundações privadas e estudantes selecionados por um vestibular mais rigoroso e, de outro lado, uma “USP do B”, com cursos noturnos, faculdades dependentes só do Orçamento público e alunos recrutados por filtros menos exigentes, agravados por bônus ou cotas. Para enfrentar essas disparidades internas e evitar o “cada um por si”, a USP necessita de uma política coerente, que valorize igualmente todas as áreas, adote sistemas de seleção homogêneos e assegure a todas as faculdades os meios para uma formação de alta qualidade. Só assim será justa com todos os candidatos, não importa se prestam medicina ou pedagogia.

MARCELO REDE, 48, doutor em história pela Universidade de Paris 1 (Panthéon-Sorbonne), é professor de história antiga na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP

Fernando Conceição
É correta a decisão da USP de adotar sistema de reserva de vagas pelo Enem?
SIM

Plutocracia e concessão  (Folha de S.Paulo – Opinião – 27/06/15)

Em 13 de maio de 1996, o Comitê Pró-Cotas na Universidade de São Paulo, que havia sido criado meses antes por um pequeno grupo de estudantes e candidatos ao ingresso na USP, realizou o seu primeiro ato público visando persuadir o Conselho Universitário da instituição a abrir o debate sobre o tema. Passaram-se 19 anos. Depois de se tornar majoritário o apoio da sociedade e da opinião pública nacionais às políticas compensatórias de ação afirmativa –entre as quais a de cotas para acesso às universidades públicas–, eis que o egrégio Conselho Universitário dá o primeiro passo, ainda que amedrontado e tímido, no sentido de romper o anacronismo de sua postura ultraconservadora nesse tema. A proposta agora adotada, a partir da necessidade de integrar-se ao Sisu (Sistema de Seleção Unificada, do governo federal), aceita o resultado do Enem, não somente a prova da Fuvest, como instrumento válido de disputa às 11.057 vagas nos cursos de graduação que a USP oferece a cada ano.  Assim, 10,5% delas ficam reservadas a alunos do ensino médio público aprovados no Enem. Não universalmente. Congregações de alguns dos cursos –como medicina e engenharias da Escola Politécnica– ainda resistem à medida. Daquele total, apenas o percentual de 2% ficará reservado à concorrência pelos três grupos de raça/cor categorizados pelo IBGE como pardos, pretos e índios.  Sabe-se que no conjunto da população brasileira pardos somam 43,1%, pretos 7,6% e índios 0,5%. No censo de 2010, 29,1% dos residentes em São Paulo se declaram pardos, 5,5% pretos e 0,1% índios.  Os 2% reservados para essas populações pode ser considerado um cala-boca. O apartheid já acabou na África do Sul, o Muro de Berlim já foi abaixo, mas a USP ainda hoje, em pleno século 21, continua uma universidade em que há segregação, que é frequentada quase que exclusivamente por brancos. O argumento comum –comum no sentido de banal– contra as cotas é o da meritocracia. Por ele, só merece entrar, passar e fazer carreira na universidade pública aquele que teve o mérito de ingressar via concurso vestibular. Fossem “neutros” –aqui no sentido matemático puro– os sistemas que selecionam quem manda e quem obedece no Brasil, quem pode estar nesse ou naquele lugar, aí, de fato, o mérito poderia ser a única medida de valor a ser aplicada. Ocorre que a USP, mantida por recursos públicos –sendo São Paulo a unidade mais rica e produtiva da federação– similar a instituições congêneres, é o reino não apenas do mérito, mas de uma plutocracia que se quer exclusiva e perpétua. Essa plutocracia funda-se em princípios etnocêntricos de superioridade sobre as demais gentes. Que na democracia tem o direito à equidade, não por meio de favores, mas por concorrência. Toda uma teleologia é encetada para manter os privilégios de cor e de raça, que no Brasil é o mesmo que dizer de classe. De 1995 para cá, as cotas vieram sendo adotadas paulatina e autonomamente por universidades em todo o país. Questionada, a sua constitucionalidade foi amplamente reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal em 2012 e se tornou a lei federal nº 12.711/12. Os estudos científicos publicados comprovam o acerto dessa importante política de democratização do acesso a uma instituição tão cara, que não pode permanecer como exclusivo feudo de uma casta. É o começo, não o fim.

FERNANDO CONCEIÇÃO, 55, doutor pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, foi um dos fundadores do Comitê Pró-Cotas da USP. É professor na Faculdade de Comunicação da UFBA – Universidade Federal da Bahia