30/07/2012 / Em: Clipping

 


Projeto no Senado dobra cotas em federais (Folha de S.Paulo – Cotidiano – 30/07/12)

Com o apoio do governo, o Senado pode mudar no início de agosto a radiografia das vagas disponíveis nas universidades federais do país. Projeto que reserva 50% das vagas nessas instituições para alunos do ensino público vai aumentar em 134% a quantidade de vagas preenchidas por cotas se comparado ao cenário atual. Levantamento feito pela Folha nas 59 universidades federais do país mostra que hoje há 52.190 vagas reservadas a cotistas, de um total de 244.263. Caso o projeto seja aprovado, o número de vagas destinadas a cotas sociais e raciais vai subir para 122.132 -mais que o dobro disponível atualmente. Não existe hoje um levantamento oficial do governo federal nem de entidades da área de educação sobre o total de cotas no país. Os cálculos da Folha têm como base o número de vagas em cada universidade oferecidas em 2010, último censo da educação superior disponível pelo Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais).

INTEGRAL
O projeto determina que as universidades federais reservem metade de todas as suas vagas para alunos que cursaram integralmente o ensino médio em escola pública. Paralelamente, esses estudantes devem ser negros, pardos ou índios. A divisão entre as raças irá considerar o tamanho de cada uma dessas populações segundo o último censo do IBGE. Caso as cotas não sejam preenchidas por alunos com esse perfil, serão ocupadas por estudantes brancos e amarelos que cursaram o ensino médio nas escolas públicas. A proposta ainda estabelece outra reserva de cadeiras, guardando 25% das vagas destinadas às cotas para os alunos carentes, que tenham renda familiar de até R$ 933,00 por pessoa. A expectativa dos senadores é votar o projeto após o recesso parlamentar, que termina amanhã. Como já foi aprovado pela Câmara, se passar pelo Senado sem mudanças, ele segue para sanção da presidente Dilma Rousseff. “É mais do que justo aquele que não pode pagar uma particular estar na universidade federal”, disse o senador Paulo Paim (PT-RS).

APOIO E VETO

O ministro Aloizio Mercadante (Educação) já declarou que o governo apoia o texto. Para facilitar sua aprovação no Senado, a promessa do Palácio do Planalto é vetar o artigo que libera os cotistas de prestar vestibular. Segundo o projeto em tramitação no Senado, o ingresso nas universidades federais por meio de cotas ocorreria pela média das notas de cada aluno no ensino médio. Se o item for alterado pelos senadores, o projeto volta para nova votação na Câmara, onde tramitou desde 1999. “Querem dar o mesmo peso para alunos que estudam em escolas de melhor ou pior qualidade, é um absurdo completo. Quero legislar, não vou delegar isso a um veto do governo”, disse o senador Aloysio Nunes Ferreira (PSDB-SP), contrário à proposta.

CHANCE MAIOR
Alunos da rede pública reconhecem que as novas regras aumentam as chances de ingresso nas universidades federais. Danielly Barros, 17, Naniele Oliveira, 17, e Dexton Pereira, 19, estudam na escola pública do Distrito Federal com o melhor desempenho no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) do ano passado, mas afirmam que têm desvantagens em relação aos alunos do ensino privado. Os três alunos pretendem prestar vestibular para medicina, um dos cursos mais concorridos do país. “Não que seja impossível, mas é muito mais difícil concorrer com eles. A gente enfrenta greves, há muitos dias parados, os professores correm com o conteúdo”, afirmou Danielly.

Para reitores, proposta fere autonomia   (Folha Online – Educação – 30/07/12)

Os críticos ao projeto afirmam que o texto em tramitação no Senado fere a autonomia das universidades federais, prevista na Constituição. A Andifes (associação de reitores) e a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) dizem que, ao determinar um modelo fixo de reserva de vagas, a proposta retira o poder dos conselhos universitários de definir os critérios para ingresso dos alunos. “Faz parte da autonomia didático-científica a definição pela universidade da sistemática para a seleção dos estudantes ingressantes”, afirmou, em nota, a presidente da SBPC, Helena Bonciani Nader. Das 59 universidades federais existentes, 32 adotam modelos distintos de reserva de vagas. Mas apenas 11 destinam 50% das cadeiras para cotistas. Outras 14 nem sequer adotam cotas.

Salário nivelado pode engessar qualidade universitária no país   (Folha de S.Paulo – Poder – 30/07/12)

O Brasil precisa ter mais flexibilidade nas suas universidades de elite, como a USP, para conseguir ser competitivo internacionalmente. A opinião é de Phil Baty, editor do THE (Times Higher Education), considerado hoje o principal ranking universitário internacional. Para Baty, o sistema de contratação das universidades públicas brasileiras, que padroniza salários e impede o recrutamento de grandes nomes estrangeiros, engessa o ensino superior do país. “As universidades fazem parte de um processo de inovação que impulsiona o desenvolvimento econômico. O Brasil tem de entender isso.” O THE avalia anualmente dados de 700 universidades do mundo e classifica as 200 primeiras. Entre essas, a USP hoje figura como única representante da América Latina, em 178º lugar. Baty esteve no Brasil a convite do Ministério da Educação para falar sobre rankings universitários internacionais. Eles são usados para auxiliar a gestão da pós-graduação (por exemplo, na seleção de universidades de fora para as quais enviar alunos). Ele também passou pela Unicamp para participar de um evento sobre ensino superior. Lá, conversou com a Folha com exclusividade.

Folha – Você esteve no MEC e na Unicamp, a segunda maior universidade do país de acordo com o THE. Qual é a sua percepção sobre o Brasil?

Phil Baty
– O Brasil está crescendo, já é a sexta maior economia do mundo. Por isso, está cada vez mais interessado nos rankings universitários internacionais. O país quer ter certeza de que tem universidades competitivas internacionalmente. Entender a elaboração dos rankings faz parte desse processo.

Há países que concorrem com o Brasil que estão se dando muito bem nos rankings. É o caso da China, que já tem uma universidade entre as 50 melhores do mundo na lista do THE [Universidade de Hong Kong, em 34º lugar]. O que acontece no ensino superior da China? É uma questão apenas de injetar muito dinheiro nas universidades?

O governo chinês está com uma posição muito clara e agressiva de investimento no ensino superior. A China tem cerca de dez universidades que quer transformar em “world class” [competitivas mundialmente]. Além disso, o governo chinês entendeu que as universidades fazem parte de um processo de inovação que impulsiona o desenvolvimento econômico. É isso que deve ser feito pelo Brasil. O país tem de escolher um pequeno número de universidades para serem competitivas em todo o mundo e deve investir nessas instituições. Essas universidades devem ter os melhores professores, talvez até professores com premiações como o Prêmio Nobel. Além disso, a China também tem investido em publicar artigos científicos em inglês, o que aumenta o impacto desses trabalhos, e até em ter aulas em inglês. Essa talvez seja uma área na qual o Brasil deveria investir mais: publicar e dar aulas em inglês.

Estamos longe disso.

Sim, e isso é muito ruim. A língua inglesa é uma espécie de língua franca da educação. O Brasil tem pesquisas fantásticas em ciências agrícolas e doenças tropicais, por exemplo. Faz sentido que as universidades publiquem e que tenham aulas em inglês. As universidades brasileiras têm condições de competir. Elas são muito novas -a Unicamp, por exemplo, tem menos de 50 anos e já está competindo com universidades europeias que são medievais, centenárias. O Brasil tem investido em ensino superior recentemente. O país expandiu fortemente a quantidade de universidades federais. Agora é preciso desburocratizar o sistema. As universidades precisam de mais liberdade, autonomia e flexibilidade. A USP é a universidade mais autônoma do país e é a instituição brasileira melhor posicionada no ranking THE. Mas ainda assim a universidade precisa de muito mais autonomia para gerir seu dinheiro, fazer negócios, contratar professores com salários competitivos internacionalmente. É preciso criar um mecanismo para atrair os melhores professores do mundo. Se você quer ter os melhores, precisa pagá-los de acordo. Já podemos ver algumas iniciativas nesse sentido. O programa “Ciência sem Fronteiras”, por exemplo, mostra um comprometimento do governo brasileiro para enviar estudantes para países como EUA, Reino Unido, Alemanha e França. Mas existem alguns problemas. O formato de contratação dos professores, por meio de concursos, por exemplo, é muito bom para o professor; já do ponto de vista da competitividade é péssimo.

Isso é um problema comum no países economicamente parecidos com o Brasil?

Há algumas diferenças. A Rússia, por exemplo, também sofre com falta de flexibilidade. O país tem instituições de ensino superior fantásticas, como a Universidade do Estado de Moscou. Mas parte dos talentos foram perdidos com a queda do regime soviético. As universidades da China também têm pouca liberdade, mas devido às características do governo chinês.

Imagino que algumas universidades não gostem dos resultados do THE. Na última listagem, por exemplo, o Caltech passou Harvard e ficou em primeiro lugar. Como essas coisas  repercutem

Bom, o ranking THE é feito pela nossa revista, que tem 14 anos e uma certa credibilidade no mercado. Nós temos um grupo de cerca de 50 consultores ao redor do mundo. Além disso, nós trabalhamos com um processo muito aberto, publicamos vários artigos sobre metodologia de rankings, o problema dessas listagens etc. Mas claro que nunca vamos agradar a todas as universidades. Tem gente que diz que nossa metodologia só beneficia os países ricos. Justamente por isso, a partir de 2010 nós decidimos mandar nosso questionário em várias línguas, como português, chinês e árabe [um dos critérios de avaliação do THE é o indicador de reputação da universidades, que vale 30% da “nota” final]. Mas não existe um ranking perfeito, não existe uma metodologia perfeita. As universidades do topo, como Caltech, Harvard e Stanford, têm notas muito parecidas e estão próximas. O Caltech teve vantagens porque é uma universidade muito focada em algumas áreas, como a física. Já Harvard é uma universidade imensa, forte em diversas áreas. A maioria das listagens, como o THE e o ranking de Xangai [feito desde 2003 pela China] tende a valorizar indicadores de produção científica de alto impacto. O ranking de Xangai, por exemplo, dá mais pontos para as universidades que têm mais artigos científicos publicados especificamente nas revistas “Nature” e “Science”. Nesse caso, universidades como Harvard, que são muito fortes em humanidades, tendem a perder pontos.

Qual é a sua opinião sobre rankings nacionais?

As listagens nacionais são mais difíceis. Se você fizer um ranking do Brasil, por exemplo, vai comparar universidades de elite, como a USP, com universidades pequenas e novas. Já o ranking internacional compara universidades de elite que são mais parecidas. No entanto, os rankings nacionais funcionam muito bem para fazer um retrato do ensino superior nacional e para orientar políticas públicas locais.

O sr. pode apontar alguns destaques da próxima listagem do THE que sairá em outubro?

Estamos terminando de processar as informações. Mas posso dizer que haverá mudanças nas universidades do topo. Haverá instituições novas entre as melhores do mundo porque as americanas perderam muito dinheiro com a crise. Também acredito que a Unicamp fique mais perto da USP na próxima listagem. Mas não haverá grandes mudanças de posições das universidades.